Discurso de B. H. Roberts
B. H. Roberts
(Do Primeiro Conselho dos Setenta e presidente da Missão dos Estados do Leste) ¶
Durante as sessões desta conferência, ouvistes vozes de muitas terras e de muitas partes do nosso próprio país. Pergunto-me que mensagem poderei trazer-vos do Leste. A propósito, posso dizer àqueles de vós que, pelos laços de parentesco, se interessam pelos rapazes e moças que compõem a Missão dos Estados do Leste, que reina entre eles, de modo geral, um período de boa saúde, e que prevalece um espírito muito bom entre eles; mas essa, é claro, não é a mensagem que eu tinha em mente quando me perguntava que mensagem poderia trazer a esta conferência, vinda do Leste. No momento, parece-me um bom ponto de partida para uma mensagem repetir uma passagem das escrituras com a qual todos vós estais bem familiarizados, a saber: ¶
"Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, sem repreensão, e ser-lhe-á dada." ¶
"Porém peça-a com fé, não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa." ¶
Alguns de vós, talvez, reconheçam isso como a pedra angular da história desta última e nova dispensação do evangelho. Foi a passagem das escrituras que se dirigiu ao Profeta Joseph Smith com grande poder, transmitindo à sua alma uma mensagem muito solene. Pois, na época em que ele veio a contemplá-la, na primavera de 1820, ele estava muito perplexo por causa da confusão que existia em toda parte a respeito da religião. ¶
Na cidade de Palmyra, perto do seu centro, há quatro esquinas, voltadas umas para as outras. Em cada uma delas erguia-se uma igreja, e essas igrejas já existiam ali há cem anos. Os ministros dessas quatro igrejas uniram-se no que se chamou um "Culto de União"; e, por semanas, foi promovida uma propaganda cristã muito fervorosa, um culto de avivamento, e um grande interesse foi despertado ali e por toda a região circunvizinha em relação à religião. Tudo corria bem, muitas pessoas foram levadas a contemplar a vida religiosa, e muito bem parecia ter sido realizado, até que chegou o momento em que os novos convertidos deveriam desfilar rumo às respectivas igrejas de sua escolha, e então a contenda, a divisão e a confusão pareceram prevalecer, confundindo tudo. Isso perturbou grandemente a mente do nosso Profeta. As questões então em discussão eram estas: algo a respeito dos decretos de Deus: seriam as pessoas salvas pela graça livre de Deus e pela livre vontade dos homens combinadas, e assim seriam atraídas aos pés do Cristo? Ou teria Deus predeterminado, antes da fundação da terra, o número exato daqueles que deveriam ser salvos, e teria fixado esse número de modo tão definitivo que não poderia ser aumentado nem diminuído por nenhum esforço humano, por nenhum desejo pessoal, ou busca ou procura da retidão? Aqueles que haviam de ser salvos seriam salvos pela vontade predeterminada de Deus, sem nenhum ato próprio. Por outro lado, era igualmente sabido, com a mesma clareza, quem seria réprobo, e estes não poderiam escapar por nenhum meio de arrependimento ou qualquer outro artifício. Discutia-se se essa predestinação dos homens, para a salvação ou para a destruição, afetava tanto as crianças quanto os adultos. Havia uma divisão: alguns afirmavam que todas as crianças que morressem na infância seriam salvas, e outros afirmavam que somente aquelas a quem o decreto de Deus houvesse destinado para a salvação seriam salvas. Seriam os pagãos salvos? Essa era uma questão debatida. Era o batismo essencial para a salvação? Seriam salvas as crianças não batizadas, ou estariam entre aquelas que seria impossível salvar, batizadas ou não? E assim a controvérsia prosseguia. O tempo não permitirá entrar em todos os detalhes, mas isto talvez indique a natureza de algumas das discussões. Nenhuma dessas questões foi resolvida pelos debates que ocorreram, mas há muito tempo pouco se ouve falar delas. As pessoas não têm mais discutido a respeito. Mas o ponto que desejo trazer à vossa atenção é este: que, apesar de ter cessado o debate sobre essas questões específicas, a cristandade ainda não está unida. A confusão e as divisões irromperam em novos lugares. ¶
Há uma profecia notável nos escritos de São Pedro, a este respeito: ¶
"A profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo." ¶
"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos mestres, que introduzirão encobertamente heresias destruidoras, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade." ¶
Desde os primeiros dias do cristianismo até hoje, tem havido aqueles que negam a Divindade de Cristo; mas parece-me que estes nossos dias foram especialmente reservados para que esta heresia em particular alcançasse seu pleno desenvolvimento; a saber, a "negação do Senhor que os resgatou", "os resgatou" pelo preço de seu próprio sofrimento e de seu precioso sangue; pois nunca, na história do cristianismo, houve tal negação do Senhor como há no tempo presente. ¶
Essa controvérsia recente surgiu primeiramente há cerca de dois anos, na Inglaterra, quando o Reverendo Hastings Rashdall, distinto decano de Carlisle, no Congresso dos Clérigos Modernos, realizado em Cambridge, declarou que "Jesus Cristo nunca reivindicou para si a divindade, e foi, no sentido mais pleno, um homem, não apenas com um corpo humano, mas com alma, intelecto e vontade humanos." "Além disso," disse ele, "é possível que Jesus se tenha permitido ser chamado o Messias, mas nunca, em nenhuma de suas" — notai bem a linguagem — "declarações criticamente bem atestadas, houve algo que sugerisse que a sua relação consciente com Deus fosse diferente da de qualquer homem para com Deus." Então, quanto ao quarto evangelho, por estar fora das "declarações criticamente bem atestadas" de Cristo, o decano observou: "Os discursos atribuídos a Cristo no Quarto Evangelho", o Evangelho de São João, "onde ultrapassam o caráter de Jesus tal como retratado nos evangelhos sinóticos, a saber, Mateus, Marcos e Lucas, não podem ser considerados história autêntica." Esse foi o relato de seu discurso na época em que esta agitação começou. Depois, cerca de um ano mais tarde, ou seja, em janeiro de 1923, em nosso próprio país, os Estados Unidos, o Reverendo Percy S. Grant, reitor da Church of the Ascension, na cidade de Nova Iorque, pregando em defesa da declaração que fizera no domingo anterior — a saber, "quando Cristo esteve na terra, ele não possuía o poder de Deus" — observou: "Este é certamente o ensinamento dos três primeiros evangelhos." Assim, o Dr. Grant, como o Decano de Carlisle, deixa de lado o testemunho de São João. De fato, não seria difícil sustentar a Divindade do Cristo a partir dos três primeiros Evangelhos, geralmente chamados os evangelhos sinóticos; e podeis deixar de lado o Evangelho de São João, e nesses três evangelhos essa grande verdade a respeito do Cristo é enfatizada, a saber, que ele é o Filho de Deus, e segue-se que, sendo o Filho de Deus, então Deus — Deus de Deus; Luz de Luz, da mesma substância ou essência do Pai; dos mesmos atributos. Basta estabelecer a verdade de que Jesus Cristo é o Filho de Deus para torná-lo Divindade; da mesma essência que o Pai, bem como "o resplendor da sua glória" e a imagem expressa da sua pessoa. E isso está tudo claramente exposto nos evangelhos sinóticos. ¶
E agora, por um motivo peculiar, quero chamar a vossa atenção para este pensamento. Essa controvérsia vai além dos testemunhos das testemunhas do Novo Testamento, e traz à tona um aspecto peculiar em nossa própria mensagem especial ao mundo. Se vos lembrardes das palavras muito cuidadosas desses dois críticos, os Srs. Rashdall e Grant, sobre a Divindade do Cristo, tereis notado, talvez, que eles sustentam que: "Nenhuma declaração crítica e bem atestada do Cristo tende a estabelecer sua Divindade." Ora, isso simplesmente significa que a chamada "crítica moderna" elimina e lança ao vento o testemunho dos apóstolos de Cristo na Judeia — o testemunho de que Jesus é de fato o Cristo, o Filho de Deus, nascido de uma virgem, e o Filho Unigênito de Deus na carne. ¶
A observação surge de tempos em tempos nos comentários feitos sobre esta grande controvérsia, de que: "Ainda tendes de considerar a autenticidade e a credibilidade dos documentos do Novo Testamento." Essa é a questão para a qual desejo chamar a vossa atenção. A Néfi, o primeiro Néfi, foram dadas grandes visões a respeito da vida e da missão do Cristo, antes de ele vir na carne; e, entre outras coisas, ele viu que as raças gentias neste continente norte-americano teriam o testemunho dos profetas hebreus entre elas (o Antigo Testamento); e também o testemunho dos "Doze Apóstolos do Cordeiro" (o Novo Testamento). Ele viu que esses livros seriam mutilados e corrompidos; que os gentios cairiam em grande escuridão e incredulidade por causa dessa mutilação da palavra de Deus. Então ele viu, em visão, circulando entre o povo, outros registros, um dos quais seria a palavra do Senhor à semente deste homem, Néfi. Que outros livros sagrados seriam divulgados na terra, e esses segundos livros, referindo-se ao Livro de Mórmon, o registro do povo nefita, e as revelações de Deus nesta nova dispensação, claramente reconhecidas na Doutrina e Convênios, e também na Pérola de Grande Valor — esses registros estabeleceriam a verdade do registro dos Doze Apóstolos do Cordeiro de Deus. Assim, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem em suas mãos, e está incumbida de usar, essas outras santas escrituras trazidas à luz nesta terra escolhida, falando desde o pó da "solitária colina de Cumorá", para as nações adormecidas do continente americano; e a palavra viva de Deus nesta era, contida nas revelações encontradas na Doutrina e Convênios e na Pérola de Grande Valor, trazidas à luz pelo Profeta Joseph Smith, estão aqui para corrigir os erros daqueles que quereriam excluir do cômputo a palavra de Deus tal como se encontra no registro dos "Doze Apóstolos do Cordeiro", o Novo Testamento; estão aqui para afirmar, com toda a força que provém desses volumes de testemunhas — esta nuvem de testemunhas — que Jesus é de fato o Cristo; que ele é o Criador, não somente do nosso mundo, mas de muitos mundos (Heb. 1:1-2; São João 1:1-4). Também que ele é o poder que sustenta e mantém todas as coisas; que, como tão lindamente assinalado nas palavras do Élder Rulon S. Wells, ele é a Força Vital, que "vivifica todas as coisas"; também que ele é o Poder inspirador de Inteligência do universo de Deus; também que ele é o Poder Manifestado do Amor do universo de Deus: pois a grande coisa acima de todas as outras, na missão do Cristo, era dar segurança e demonstração do Amor de Deus para com os habitantes da terra. Ao contemplar Jesus mesmo esta sua missão entre os homens, ele expressou a certeza de que — ¶
"Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim." ¶
Irmãos e irmãs, é nossa missão deter a maré da incredulidade que existe no mundo, para responder à pergunta do Cristo, feita em certa ocasião — quando o Filho do Homem vier, porventura achará fé na terra? Em nome de Deus, sim! Pois ele proveu os meios para manter a fé nele como Criador, como Poder Sustentador do universo; como Força Vital, como Poder inspirador de Inteligência, como Poder Manifestado do Amor, e organizou a sua Igreja na terra, para nunca mais ser destruída, a fim de manter essa fé na terra. E, quando o Cristo vier nas nuvens do céu, com poder e grande glória, acompanhado da hoste de Santos vindos do céu e da hoste de Santos aqui na terra, possuidores de verdadeira fé de que Jesus é o Cristo, o Soberano, Senhor e Rei, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas que neles há; o Salvador dos homens, o Redentor do mundo, o próprio Filho de Deus, "o Deus Eterno", para usar a expressão do Livro de Mórmon, "manifestando-se a todas as nações" — estes, os Santos que possuem esta fé na terra, darão as boas-vindas ao Cristo e às hostes de Santos vindas do céu, com gritos de grande alegria e fé. ¶
O pensamento que desejo deixar convosco, e o meu propósito ao citar o texto — "Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não repreende, e ser-lhe-á dada" — foi enfatizar o fato de que ainda há grande necessidade, à luz da controvérsia atual sobre a Divindade de Cristo, de fazer uso desta oração; pois as controvérsias de hoje, e a confusão que delas resulta, são tão perturbadoras quanto a confusão de há cem anos. Deus abençoe os Santos, e todos os que desejam conhecer a verdade, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶