A Páscoa Universal
Orson F. Whitney
Durante os últimos quinze anos tenho pregado o Evangelho nas Estacas de Sião, e, depois de viver de "estacas" todo esse tempo, preciso, e parece que vou ter, uma mudança de dieta. Se desejais saber como me sinto quanto ao chamado que me veio, eu vos digo: regozijo-me nele. Vou com o coração alegre e o semblante animado cumprir meu dever — como o tenho feito aqui — do outro lado do mundo. ¶
PRIMEIRAS MISSÕES E DESIGNAÇÕES. ¶
Esta não será minha primeira missão como élder da Igreja. Minha primeiríssima missão foi para os Estados Unidos, de 1876 a 1878; trabalhei cinco ou seis meses na Pensilvânia, e depois fui para Ohio, o estado natal de meu pai, onde a família Whitney abraçou o Evangelho nos primeiros dias. Enquanto eu estava em Ohio, minha mãe me escreveu perguntando por que eu não voltava. Disse ela: "Todos os missionários que foram convosco, ou que foram na mesma época que vós, já voltaram para casa. Por que não vindes?" Respondi: "Porque ainda não fui de- ¶
sobrigado; e permanecerei aqui até receber, sem nenhuma solicitação de minha parte, uma desobrigação honrosa da Presidência da Igreja." Tendo sido honrosamente desobrigado, voltei, e fui feito Bispo de Ala. Servi no Bispado por quase vinte e oito anos, e, em abril de 1906, fui chamado para o cargo que agora ocupo. Enquanto isso, do outono de 1881 até o verão de 1883, cumpri uma missão na Grã-Bretanha, trabalhando a maior parte do tempo como editor assistente do Millennial Star. ¶
SEM LIMITE DE TEMPO. ¶
Nenhum limite de tempo foi estabelecido para minhas missões. Nunca senti que devia pedir desobrigação, ou voltar para casa, até que os servos do Senhor que presidiam sobre mim dissessem: "Basta; estais livre para voltar." ¶
Prevalece agora, nos campos missionários, entre alguns de nossos jovens élderes, a impressão de que foram chamados para trabalhar por um período determinado; e, depois que esse período expira — digamos, dezoito ou vinte meses — parecem pensar que têm direito à desobrigação, e alguns até a solicitam. Isso é contrário às minhas tradições e à minha formação. Nunca me chamei para uma missão; nunca me designei a nenhum cargo; e nunca pensei que fosse meu privilégio renunciar, ou pedir para ser dispensado de qualquer responsabilidade relacionada com a obra do Senhor. Tenho respondido a todo chamado que me foi feito até agora, e espero continuar a fazê-lo enquanto eu viver. ¶
OS TRABALHOS DOS DOZE. ¶
No passado, alguns de nossos irmãos e irmãs têm se preocupado com a questão dos trabalhos dos doze apóstolos. Deram a entender que deveríamos estar por aí pregando o evangelho no mundo — evidentemente ignorando o fato de que os Doze viajam sob a direção da Primeira Presidência; que eles não se chamam a si mesmos para missões, mas têm de esperar até serem enviados. Nunca conheci um dos apóstolos que recusasse, ou sequer hesitasse, em responder a qualquer chamado que lhe viesse da autoridade legítima. Anos atrás, eu disse, deste púlpito, citando um versinho que às vezes cantamos: ¶
"Irei aonde quiseres que eu vá, querido Senhor, ¶
Em monte, em terra ou no mar; direi o que quiseres que eu diga, querido Senhor, ¶
Serei o que quiseres que eu seja." ¶
E eu o parafraseei assim: ¶
Irei aonde quiseres que eu vá, querido Senhor, ¶
Irei quando quer que o digas; mas, até ser enviado, não hei de ir — ¶
Ficarei onde quiseres que eu fique. ¶
Agora que fui designado para ir, vou; e prometo ao Presidente Grant e a seus conselheiros, e a vós, meus irmãos e minhas irmãs, que irei de livre vontade e com alegria no coração, sem nenhum desejo de ser desobrigado ao término de qualquer prazo determinado. Deixo isso com o Senhor. Vou para onde ele quiser que eu vá, e ali permanecerei enquanto ele quiser que eu fique. Esta é a obra de Deus, e eu o sei, e me orgulho e me alegro de estar empenhado nela. ¶
o desejo de alma. ¶
Gostaria de ler-vos alguns parágrafos do Livro de Mórmon. Um profeta chamado Alma, de pé no Continente Americano, setenta e seis anos antes do nascimento do Salvador, proferiu estas maravilhosas palavras: ¶
"Oh! eu quisera ser um anjo e poder realizar o desejo de meu coração de ir e falar com a trombeta de Deus, com uma voz que estremecesse a terra, e proclamar arrependimento a todos os povos; ¶
"Sim, declararia a todas as almas, com voz como a do trovão, o arrependimento e o plano de redenção, para que se arrependessem e viessem ao nosso Deus, a fim de não haver mais tristeza em toda a face da Terra. ¶
"Mas eis que sou um homem e peco em meu desejo; porque deveria contentar-me com as coisas que o Senhor me concedeu. ¶
"Não deveria perturbar com os meus desejos o firme decreto de um Deus justo, porque sei que ele concede aos homens segundo os seus desejos, sejam estes para a morte ou para a vida; sim, sei que ele concede aos homens, sim, dá-lhes decretos inalteráveis segundo seus desejos, sejam eles para salvação ou para destruição. ¶
"Sim, e que o bem e o mal se apresentam a todos os homens; e aquele que não distingue o bem do mal não é culpado, mas aquele que distingue o bem do mal, a ele será dado segundo seus desejos, deseje ele o bem ou o mal, a vida ou a morte, a alegria ou o remorso de consciência. ¶
"Ora, uma vez que sei estas coisas, por que desejaria executar mais do que o trabalho para o qual fui chamado? ¶
"Por que desejaria eu ser um anjo, poder falar a todos os confins da Terra? ¶
"Porque eis que o Senhor concede a todas as nações que ensinem a sua palavra em sua própria nação e língua, sim, em sabedoria, tudo o que ele acha que devem receber; vemos, portanto, que o Senhor aconselha com sabedoria, segundo o que é justo e verdadeiro. ¶
"Sei o que o Senhor me ordenou e nisso me glorio. Não me glorio de mim mesmo, mas glorio-me naquilo que o Senhor me ordenou; sim, e esta é a minha glória, que talvez possa ser um instrumento nas mãos de Deus para trazer alguma alma ao arrependimento; e esta é a minha alegria." ¶
A PROVIDÊNCIA ESTÁ SOBRE TUDO. ¶
Muitas belas lições poderiam ser extraídas desta passagem de escritura, mas só tenho tempo para me deter numa delas. Ela me diz que a Providência está sobre tudo, e que ele sustenta as nações na palma de sua mão; que ele está usando não apenas seu povo do convênio, mas também outros povos, para consumar uma obra estupenda, magnífica, e árdua demais para que este pequeno punhado de Santos a realizasse por si só. Alma parece ter pensado, por um momento, ¶
que o homem estava fazendo a obra de Deus por ele, quando, na verdade, é Deus quem faz sua própria obra, usando os homens como seus instrumentos. Tampouco ele está limitado, na escolha de instrumentos, a seu próprio povo. Ele empunha o cetro sobre todas as nações, e todas elas fazem seu jogo, consciente ou inconscientemente. Alma sabia disso, mas o havia perdido momentaneamente de vista. ¶
"em sua própria nação e língua." ¶
Ao longo de todas as eras, homens que portavam a autoridade do Santo Sacerdócio — patriarcas, profetas, apóstolos e outros — oficiaram em nome do Senhor, fazendo as coisas que ele lhes exigia; e, fora do âmbito de suas atividades, outros homens bons e grandes, que não portavam o Sacerdócio, mas possuíam profundidade de pensamento, grande sabedoria e o desejo de elevar seus semelhantes, foram enviados pelo Todo-Poderoso a muitas nações, para lhes dar, não a plenitude do Evangelho, mas aquela porção de verdade que fossem capazes de receber e usar sabiamente. Homens como Confúcio, o filósofo chinês; Zoroastro, o sábio persa; Gautama, ou Buda, dos hindus; Sócrates e Platão, dos gregos; todos estes tinham parte da luz que é universalmente difundida, e da qual hoje ouvimos falar. Eram servos do Senhor num sentido menor, e foram enviados àquelas nações pagãs ou gentílicas para lhes dar a medida de verdade que uma sábia Providência lhes havia designado. ¶
OUTROS AUXILIARES ¶
E não apenas mestres — não somente poetas e filósofos; mas também inventores, descobridores, guerreiros, estadistas, governantes, e outros. Estes também têm sido usados, desde o princípio, para ajudar a levar adiante a obra do Senhor — poderosos auxiliares nas mãos de um Deus Todo-Poderoso, realizando seus propósitos, consciente ou inconscientemente. ¶
"Há uma divindade que molda nossos fins, por mais que os desbastemos à nossa maneira." ¶
O Deus de Israel usou Nabucodonosor, rei da Babilônia, para punir seu povo escolhido por seus pecados. O profeta Jeremias foi enviado com a palavra do Senhor a Zedequias, rei de Judá, ordenando-lhe que se submetesse ao "servo" do Senhor — este mesmo Nabucodonosor. E, porque Zedequias se recusou a obedecer, um destino terrível o alcançou; seu reino foi derrubado, seus olhos foram vazados, e ele e seu povo foram levados cativos para a Babilônia. Nabucodonosor foi um grande rei; construiu os "Jardins Suspensos", uma das sete maravilhas do mundo; mas arrogou para si a glória do que Deus havia feito, e teve de ser humilhado até o pó, e enviado a comer erva como o boi, até que "sete tempos" tivessem passado sobre ele, e ele tivesse aprendido a lição de "que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer." ¶
A Babilônia foi derrubada por Ciro, o persa, um grande e bom monarca, chamado pelo Senhor de "seu ungido", e mencionado por nome em profecia mais de cem anos antes de nascer. Ciro foi instrumental em restaurar os judeus cativos à sua própria terra, para que pudessem reconstruir Jerusalém a tempo do advento do Salvador. ¶
Quando o império Medo-Persa se corrompeu, foi derrubado por Alexandre, o Grande. Alexandre conquistou o mundo e "chorou", diz-se, "porque não havia mais mundos a conquistar". Morreu como um bêbado, ou de uma febre causada pelo excesso de bebida. Mas foi isso tudo o que ele fez? O Deão Farrar diz a respeito dele, e do grande serviço que involuntariamente prestou à causa de Cristo: "O imenso território abrangido pelas conquistas de Alexandre deu ao mundo civilizado uma unidade de idioma, sem a qual teria sido, humanamente falando, impossível aos primeiros pregadores dar a conhecer as boas novas em cada terra que percorreram." "Onde quer que fosse," diz o historiador McCabe, "deixava a língua grega... todo-poderosa em aproximar as nações do velho mundo num contato mais estreito e mais íntimo umas com as outras... Mais tarde, as Escrituras Hebraicas, traduzidas para o grego, tornaram-se acessíveis a todo o mundo, e assim se abriu caminho para a missão daquele de quem essas Escrituras testificam." ¶
Ainda de Farrar: "A ascensão do Império Romano criou uma unidade política que refletia, em todas as direções, as doutrinas da nova fé. O Evangelho emanou da capital da Judeia; foi pregado na língua de Atenas; foi difundido por todo o Império Romano; os pés de seus primeiros missionários percorreram a sólida estrutura das estradas retas pelas quais os legionários romanos — 'aqueles maciços martelos de toda a terra' — haviam endireitado no deserto um caminho para o nosso Deus. Semitas e arianos foram instrumentos inconscientes nas mãos de Deus para a difusão de uma religião que, em seus primeiros começos, ambos igualmente detestavam e desprezavam." ¶
A AMÉRICA, UMA MÃE NUTRIZ. ¶
Descendo a tempos mais recentes, basta abrirmos o Livro de Mórmon para ver como o Espírito do Senhor repousou sobre um homem entre os gentios, impelindo-o através das grandes águas até a Terra de Sião, uma terra reservada pela Providência para o triunfo da verdade e da liberdade nos últimos dias — o lugar para a edificação da Nova Jerusalém e o início da obra de preparação que terá de ser feita antes que o Senhor venha em sua glória. Colombo foi inspirado a descobrir a América para esse propósito, embora não o soubesse. Depois dele vieram os Pais Peregrinos; e depois Washington, Jefferson, Franklin, Hamilton, e outros Patriotas da Revolução, todos movidos pelo mesmo Espírito, para criar a poderosa estrutura desta grande República, uma nação livre, garantindo liberdade a seus cidadãos de todo credo e de credo nenhum, e levantada pelo Todo-Poderoso para desempenhar o papel de mãe nutriz da Igreja restaurada de Cristo. ¶
É verdade que os Santos dos Últimos Dias foram perseguidos sob as Barras e Estrelas em vários estados da União; mas não devemos cometer o erro de supor que foi por causa da Bandeira, ou da Constituição, ou do gênio do governo americano, que esses lamentáveis acontecimentos ocorreram. Não; não foi por causa deles, mas apesar deles. Aquelas perseguições foram infligidas pela força ilegal, pela violência das turbas, sempre a ser execrada e condenada por todo verdadeiro patriota. Reconheçamos ao nosso nobre país o mérito do que tem feito na direção de cumprir sua missão dada por Deus. Em nenhuma outra terra — em nenhuma outra nação desta terra — o povo do Senhor teria sido tratado com o mesmo grau de consideração. Em nenhum outro país da terra esta obra teria tido permissão de vir à luz. Esta nação foi fundada propositalmente, para que a Igreja e o Reino de Deus pudessem ser estabelecidos, e todas as nações pudessem desfrutar de sua luz e partilhar de suas bênçãos. ¶
o triunfo da verdade é inevitável. ¶
Jamais devemos permitir que nos tornemos misantropos ou temerosos quanto ao resultado. O sucesso desta obra está assegurado. O triunfo da Verdade é inevitável. As nuvens podem se acumular, as ondas podem se enfurecer, as tempestades podem irromper com fúria; mas o Piloto infalível está ao leme, e o Navio por ele conduzido há de superar toda tormenta. ¶
"A Verdade, para sempre no cadafalso, ¶
O Erro, para sempre no trono. E, no entanto, aquele cadafalso governa o futuro, ¶
E, por trás do incerto desconhecido, Deus permanece de pé, na sombra, ¶
Vigiando os que são seus." ¶