Reter a Remissão dos Pecados
James E. Talmage
Como acontece com todas as reuniões gerais ligadas às nossas grandes conferências, esta reunião está aberta ao público, tanto aos não membros quanto aos membros da Igreja; e damos as boas-vindas ao visitante, ao interessado, particularmente ao pesquisador, e àqueles que são chamados, convencionalmente, os estranhos dentro de nossos portões. Mas considero ser um fato evi- ¶
QUEM COMPÕE ESTA VASTA ASSEMBLEIA. ¶
dente que a grande maioria desta vasta assembleia é composta de Santos dos Últimos Dias, aqueles que entraram pela porta, que receberam de bom grado a mensagem da salvação e dela se valeram, que cumpriram os requisitos estabelecidos por aquele a quem pertence esta Igreja e cujo nome ela leva, como condições para nela se tornarem membros. ¶
Estes são os que tiveram e têm fé viva em Deus, o Pai Eterno, e em seu Filho literal Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor, e no Espírito Santo, a terceira Pessoa na Trindade. ¶
Estes são os que se tornaram profundamente conscientes da necessidade do arrependimento e que de fato se arrependeram e ofereceram ao Senhor a mais aceitável das ofertas, superior a todos os novilhos e carneiros imolados e a todas as outras vítimas sangrentas nos altares de Israel, sob a lei de Moisés, a saber, um coração quebrantado e um espírito contrito. ¶
Estes são os que se humilharam, submeten- ¶
do-se às mãos de homens que detêm a autoridade de Deus, comissionados por Jesus Cristo, e que foram, cada um deles, por tal homem, submersos nas águas, e que saíram das águas como que ressuscitados dentre os mortos, sendo assim batizados para a remissão de seus pecados. ¶
Estes são os que tiveram as mãos impostas sobre eles pela autoridade do Santo Sacerdócio, para a concessão do direito e título ao dom da companhia do Espírito Santo. ¶
REGOZIJAMO-NOS NO PERDÃO DOS PECADOS. ¶
Temos boas razões para nos regozijar. Que dádiva de maior valor poderia ser oferecida ao homem do que o perdão de seus pecados, com as inúmeras bênçãos que o acompanham; tornar-se elegível para o perdão, para a aceitação por e perante o Senhor? A esses não preciso pregar o evangelho do batismo, pois vós já fostes batizados. Não preciso deter-me nos requisitos relativos à fé e ao arrependimento, pois vós já manifestastes tanto um quanto o outro; mas dirijo-me, contudo, mais particularmente aos Santos dos Últimos Dias presentes, e o que lhes direi, tenho certeza, não ofenderá a nenhum outro que esteja entre nós, nossos bem-vindos visitantes que ainda não ingressaram na Igreja, que ainda não cumpriram os requisitos estabelecidos pelo Senhor, nosso Mestre, como condições para a cidadania no reino de Deus. ¶
Sim, fomos batizados para a remissão de nossos pecados. Remitir, no sentido em que falamos de pecados sendo ou tendo sido remitidos, é conceder perdão pela ofensa, e anular, suspender ou tornar inoperante a penalidade que, de outra forma, teria sido inevitável. Surge em minha mente uma pergunta. Estamos nós, vós e eu, Santos dos Últimos Dias, retendo a remissão de nossos pecados que recebemos por meio da obediência à lei de Deus? ¶
ESTAMOS RETENDO O PERDÃO DOS PECADOS? ¶
A remissão, a pérola de grande valor, era nossa. É um assunto próprio para investigação individual — É ela agora vossa e minha? É ela ainda nossa? ¶
O justo nefita, rei Benjamim, perto do fim de um discurso vigoroso, que proferiu por ocasião de transferir a autoridade da realeza a seu filho, exortou o povo com grande fervor a reter a remissão de pecados que havia recebido por meio de seu batismo, tornando-a perpétua. E Alma, profeta, sumo sacerdote e juiz principal, regozijou-se quando constatou que grande parte de seu povo havia verdadeiramente retido a remissão de seus pecados. Refiro-vos ao Livro de Mórmon, Mosias, capítulo quatro, versículo vinte e seis, para o primeiro caso, e a Alma, capítulo quatro, versículo catorze, para o segundo. Nem vós nem eu perderemos tempo lendo-os novamente, nem ponderando sobre o princípio neles contido — a retenção da bênção da remissão dos pecados. ¶
Mas talvez alguém pergunte: Tendo recebido uma remissão, não temos direito a ela para sempre? É possível que Deus dê e depois tome de volta? Digamos antes que é possível, e uma realidade demasiado comum, que os homens recebam e depois percam o direito a ela. Notai que o batismo para a remissão dos pecados é a primeira ordenança especificada e o terceiro princípio mencionado em nosso resumo e arranjo habituais dos princípios e ordenanças do evangelho. Foi belamente chamado de porta do reino, cujo guardião é o Santo de Israel. Bendito é aquele cujos pecados são perdoados, remitidos; mas essa remissão não vem como um ato caprichoso, nem como um favor no sentido de um dom discriminatório, mesmo vindo de Deus; pois ele é um Deus justo e remite os pecados de acordo com a lei de Deus, que combina tanto a justiça quanto a misericórdia. ¶
A misericórdia de Deus é estendida àqueles que se tornam elegíveis para receber esse dom. Deus deseja ser misericordioso conosco, e muitas vezes lhe bloqueamos o caminho. Ele deseja e anseia por nos abençoar em algum particular, e muitas vezes tornamos isso impossível para ele, porque não cumprimos as condições que nos tornam elegíveis para esse exercício do poder divino. ¶
O SENHOR PODE DAR E RETIRAR, PRONUNCIAR E MUDAR. ¶
Que o Senhor pode pronunciar e mudar, que pode dar e retirar, é atestado por passagem após passagem das escrituras. Vem-me à mente a parábola proferida pelo Filho de Deus enquanto ele estava na carne, conhecida por nós como a parábola do servo impiedoso, na qual constatamos que, embora um homem tenha sido perdoado, esse perdão foi revogado, porque ele perdeu o direito a ele. Ele não o reteve, não o guardou. Sem me deter aqui para lê-la por inteiro, recomendo a parábola ¶
UMA ILUSTRAÇÃO DA ESCRITURA ANTIGA. ¶
à vossa leitura. Encontrareis isso registrado no décimo oitavo capítulo de Mateus, a partir do vigésimo terceiro versículo. Conta a história de um homem que estava profundamente endividado. Devia a seu credor a enorme soma de dez mil talentos e, sendo incapaz de pagar, ficou grandemente perturbado quando seu senhor exigiu o pagamento, e ele suplicou por tempo, dizendo: "Senhor, sê paciente comigo, e tudo te pagarei." Ora, o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e, em vez de lhe dar tempo para pagar, perdoou-lhe a dívida, tão misericordioso era ele, tão cheio de bondade e benignidade, quase acima da dos homens. Mas aquele mesmo servo saiu e, encontrando pelo caminho um de seus conservos que lhe devia uns poucos cem denários, agarrou-o pela garganta e disse: "Paga-me o que me deves", e o conservo prostrou-se a seus pés e lhe rogou, dizendo: "Sê paciente comigo, e tudo te pagarei." Poder-se-ia pensar que a própria semelhança do apelo do pequeno devedor, em palavras tão parecidas com as do apelo que ele, o maior devedor, fizera pouco antes, o teria movido à lem- ¶
brança, mas ele não quis, e lançou seu conservo na prisão, conforme a lei daquele tempo, seja lá o que tenhamos a dizer quanto à justiça disso. Vendo os outros servos o que se passava, entristeceram-se muito e foram relatar o caso a seu senhor. Então o senhor daqueles servos, depois de ter chamado o impiedoso, disse-lhe: "Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste: não devias tu igualmente ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim vos fará também meu Pai Celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas." ¶
O pecado da falta de perdão, da dureza de coração, da crueldade, aqui exemplificado, é apenas um tipo do pecado em geral. Notemos o fato de que, embora o senhor daquele servo lhe tivesse perdoado a dívida, cancelando-a de fato, quando soube que aquele servo não era mais humilde, que não vivia de modo a ser digno da misericórdia que lhe fora estendida, reverteu seu ato de remissão, revogou seu perdão e exigiu do malvado o pagamento integral. As bênçãos do Senhor são sempre condicionais, sendo a condição vivermos à altura do requisito que nos torna dignos recipientes da bênção. ¶
O ato do batismo não apenas apaga os pecados do passado e nos permite começar de novo, mas estabelece que, se nos submetemos ao batismo dignamente, temos direito à remissão do pecado, isto é, se nos esforçarmos ao máximo, de modo a sermos dignos dessa dádiva. ¶
Não é exigido nem é permitido que sejamos batizados repetidas vezes com a ideia de apagar nossos pecados até a data presente; mas é ordenado por Deus que, tendo sido batizados, depois de manifestarmos verdadeira fé e sincero arrependimento, se vivermos de modo a sermos dignos da remissão dos pecados, por meio do arrependimento contínuo, por meio de nossos esforços incessantes para vencer, por meio de nosso proceder em boas obras, fazendo a nosso próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse, e, em suma, por meio de nossa contínua obediência aos mandamentos de Deus, teremos nossos pecados remidos, se não forem tão hediondos a ponto de serem imperdoáveis. ¶
UMA ILUSTRAÇÃO DA ESCRITURA MODERNA. ¶
A escritura que citei é antiga; a parábola, embora seja verdadeiramente tão aplicável hoje quanto sempre foi, é, não obstante, muitos séculos antiga, no que diz respeito ao seu registro. Neste mesmo dia em que vivemos, o Senhor falou, e de modo bem definido, a respeito deste assunto. Encontramos registrado na Seção 56 de Doutrina e Convênios: "Eis que eu, o Senhor, ordeno; e aquele que não obedecer será cortado em meu próprio e devido tempo, depois que eu tiver ordenado e o mandamento for quebrado." É necessário ter em mente, como indica o primeiro versículo, que esta revelação é dirigida ao povo da Igreja: ¶
"Escutai, ó povo, vós que professais meu nome, diz o Senhor vosso Deus." A eles ele declara que o Senhor ordena, e que aquele que não obedecer será cortado no próprio tempo do Senhor. Notai agora o versículo seguinte. ¶
"Portanto, eu, o Senhor, ordeno e revogo, como me parece bem; e tudo isso recairá sobre a cabeça dos rebeldes, diz o Senhor." ¶
Somente os rebeldes, aqueles que não quiserem obedecer aos mandamentos de Deus, serão assim tratados, terão suas bênçãos revogadas; somente estes perderão o direito às bênçãos a que tinham direito. Em outra revelação dada pouco depois dessa, a Seção 58, o Senhor repreende o povo por ter o costume de dizer — e ele bem poderia repreender alguns de nós, pois ainda o dizemos — que o Senhor não cumpre sua palavra, que faz promessas e deixa de cumpri-las. O Senhor dá a explicação; permiti-me ler alguns versículos que antecedem essa declaração em particular: ¶
"Em verdade eu digo: Os homens devem ocupar-se zelosamente numa boa causa e fazer muitas coisas de sua livre e espontânea vontade e realizar muita retidão; ¶
"Pois neles está o poder e nisso são seus próprios árbitros. E se os homens fizerem o bem, de modo algum perderão sua recompensa. ¶
"Mas o que nada faz até que seja mandado e recebe um mandamento com o coração duvidoso e guarda-o com indolência, é condenado. ¶
"Quem sou eu que fiz o homem, diz o Senhor, para considerar inocente o que não obedece aos meus mandamentos? ¶
"Quem sou eu, diz o Senhor, para prometer e não cumprir? ¶
"Eu mando, e os homens não obedecem; revogo, e eles não recebem a bênção; ¶
"Depois dizem em seu coração: Esta não é a obra do Senhor, porque suas promessas não se cumprem. Mas ai deles, porque sua recompensa os espreita de baixo e não de cima." ¶
O SENHOR DÁ E TIRA EM RETIDÃO. ¶
O Senhor é guiado pela retidão. Em retidão ele dá, e em retidão ele tira, e bendito seja o seu nome. ¶
O sacramento da ceia do Senhor foi estabelecido como uma ordenança pela qual, em intervalos frequentes, podemos testificar ao Senhor que ainda estamos sob o convênio que fizemos com ele por meio do batismo, testemunhando mesmo a Deus, o Pai Eterno, que sempre nos lembramos de seu Filho, nosso Redentor; que ainda levamos seu nome; que desejamos e pretendemos guardar os mandamentos que ele nos deu — e tudo isso para este grande propósito, que possamos sempre ter seu Espírito conosco. Assim, podemos reter as bênçãos que já recebemos, tornando-as nossas por todo o tempo e por toda a eternidade. E cito-vos mais uma passagem das escrituras que, consistindo ¶
A MAIOR DECLARAÇÃO SOBRE O ASSUNTO. ¶
de apenas poucas linhas, é talvez a maior declaração de seu tipo já registrada, e o melhor resumo que eu poderia possivelmente vos dar em ¶
conexão com este pensamento, conforme registrado na Seção 82 de Doutrina e Convênios, versículo 10: ¶
"Eu, o Senhor, estou obrigado quando fazeis o que eu digo; mas quando não o fazeis, não tendes promessa alguma." ¶
Guardemos os mandamentos do Senhor. Então, por sua própria palavra, ele estará obrigado a nos dar as bênçãos que foram prometidas; mas quando não fazemos o que ele diz, quando voltamos atrás em nosso convênio, perdemos o direito a elas. Que possamos reter a remissão de nossos pecados, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶