Todas as Coisas em Cristo
Orson F. Whitney
Em Harmonia com a Nota Fundamental
Meu espírito está em perfeita harmonia com a nota fundamental dada nesta conferência. Creio na caridade e no perdão. Concordo plenamente com aquele que disse: "Aquele que julga uma causa antes de a ouvir não é sábio." E não ouvimos uma causa ouvindo apenas um dos lados. É errado julgar antes de haver prova de culpa. O Profeta Joseph Smith foi assassinado enquanto aguardava julgamento sob uma acusação forjada da qual não fora provado culpado, nem poderia sê-lo. Ele se entregara para ser julgado, mas seus assassinos conspiradores declararam: "A lei não pode alcançá-lo, mas a pólvora e o chumbo hão de alcançar." E logo cumpriram sua ameaça perversa. Este, porém, não é o tema que pesava em minha mente. ¶
Duas Fases da Obra de Deus
Tenho pensado em duas grandes fases da obra dos Últimos Dias do Senhor, uma delas atraindo mais fortemente, talvez, o ministério itinerante que prega o evangelho no mundo; a outra, os que trabalham em casa nas estacas de Sião e particularmente nos templos de Deus. ¶
Templos Nesta Dispensação
Templos e a obra do templo são um assunto muito caro e muito próximo do coração de todo Santo dos Últimos Dias fiel e reflexivo. Esta Igreja, desde sua organização, construiu oito templos -- o primeiro em Kirtland, Ohio, no ano de 1836; o seguinte em Nauvoo, Illinois, no início da década de quarenta; e projetou outros em Independence, Missouri, e em Far West e Adam-ondi-Ahman, naquele estado. Depois veio a partida dos Santos para o deserto. O primeiro templo em Utah, o de St. George, foi dedicado em 1877, ano em que o Presidente Brigham Young faleceu. Em seguida veio o Templo de Logan, concluído em 1884; depois o Templo de Manti, em 1888. O grande Templo de Salt Lake, que levou quarenta anos para ser construído e custou mais de três milhões de dólares, foi dedicado em abril de 1893. Desde então, construímos um templo nas Ilhas Havaianas, e outro em Cardston, na província de Alberta, no Canadá. E agora a Igreja contempla um templo em Mesa, Arizona, que será o nono, até o momento, nesta dispensação. ¶
O Templo de Kirtland
Entre todas essas estruturas sagradas, há uma que se destaca de modo singular, com um caráter e uma história todos seus. Não é o maior de nossos templos, nem o mais caro; mas dentro de suas paredes ocorreram coisas que não têm paralelo na história de nenhuma outra casa de Deus. Refiro-me ao templo de Kirtland, que tive o privilégio de visitar, primeiro em 1877, e depois em 1914. Uma peculiaridade daquele templo -- que ainda permanece de pé -- é a ausência de uma fonte batismal, pois o princípio do batismo pelos mortos ainda não havia sido revelado à Igreja naquela época. Mas há algo ligado ao Templo de Kirtland de consequência muito maior do que uma fonte batismal, e sem o qual não teria havido fonte batismal em nenhum dos templos erguidos desde então; e sem o qual, além disso, toda a obra de Deus nesta dispensação teria parado. ¶
Joseph e Oliver
Compreendereis melhor depois que eu vos ler uma passagem do livro de Doutrina e Convênios -- uma parte da Seção 110, cujo título assim reza: "Visões manifestadas a Joseph, o Vidente, e a Oliver Cowdery, no Templo de Kirtland, em 3 de abril de 1836." Foi apenas uma semana depois de aquela casa ter sido dedicada. Joseph e Oliver foram o primeiro e o segundo élderes da Igreja. Haviam trabalhado juntos na tradução do Livro de Mórmon. Estavam juntos quando João Batista restaurou o Sacerdócio Aarônico, e quando o Sacerdócio de Melquisedeque foi trazido de volta à terra por Pedro, Tiago e João. Estavam juntos ao organizar a Igreja; e agora, seis anos depois desse acontecimento, estão juntos no primeiro templo erguido pelos Santos dos Últimos Dias, recebendo de Deus uma das mais maravilhosas manifestações jamais concedidas a mortais. Ela veio para que tudo o que havia ocorrido antes, na abertura desta dispensação do evangelho, não fosse em vão. O aparecimento glorioso do Pai e do Filho; as visitações do anjo Morôni; a descoberta das placas nefitas; a restauração do Sacerdócio e a organização da Igreja -- todos esses acontecimentos foram preliminares ao que estava para vir. Eis o registro das visões vistas por Joseph e Oliver naquela ocasião: ¶
Jeová Aparece
Retirou-se o véu de nossa mente e abriram-se os olhos de nosso entendimento. ¶
Vimos o Senhor de pé no parapeito do púlpito, diante de nós; e sob seus pés havia um calçamento de ouro puro, da cor de âmbar. ¶
Os seus olhos eram como uma labareda de fogo; os cabelos de sua cabeça eram brancos como a pura neve; o seu semblante resplandecia mais do que o brilho do sol; e a sua voz era como o ruído de muitas águas, sim, a voz de Jeová, que dizia -- ¶
Eu sou o primeiro e o último; sou o que vive, sou o que foi morto; eu sou o vosso advogado junto ao Pai. ¶
Uma maravilhosa revelação em si mesma, esta proclamação da boca de Jeová, o Deus de Israel, de que ele não é outro senão Jesus ¶
Cristo, o Salvador da humanidade. Ele aceita a casa -- o Templo edificado ao seu nome -- e o registro assim continua: ¶
Moisés e Elias
Depois de encerrar-se esta visão, os céus tornaram-se a abrir e Moisés apareceu diante de nós e conferiu-nos as chaves para coligar Israel das quatro partes da Terra e trazer as dez tribos da terra do norte.... ¶
Concluída essa visão, outra grande e gloriosa visão abriu-se para nós, pois Elias, o profeta, que fora levado ao céu sem experimentar a morte, apareceu diante de nós e disse -- ¶
Eis que é chegado plenamente o tempo proferido pela boca de Malaquias -- testificando que ele (Elias) seria enviado antes que viesse o grande e terrível dia do Senhor -- ¶
Para voltar o coração dos pais para os filhos e os filhos para os pais, a fim de que a Terra toda não seja ferida com uma maldição -- ¶
Portanto, as chaves desta dispensação são confiadas às vossas mãos; e assim sabereis que o grande e terrível dia do Senhor está perto, sim, às portas. ¶
O Evangelho às Nações
Até esse momento, as atividades dos élderes que pregavam o evangelho haviam se limitado a vários estados da União e ao Domínio do Canadá; mas agora o Estandarte, já erguido, foi levado mais adiante. Restauradas as chaves da coligação, fizeram-se preparativos para enviar o evangelho da Terra de Sião a terras estrangeiras, chamando de volta, de sua longa dispersão, os filhos de Israel, espalhados por gerações entre as várias nações do mundo. Mas, se as chaves confiadas por Moisés, que as possuía na época do êxodo de Israel do Egito, não tivessem sido conferidas ao Profeta que preside esta dispensação, a obra de Deus teria parado ali mesmo. Não teria havido coligação de Israel se as chaves para a coligação não tivessem sido restauradas. ¶
Primeira Missão Estrangeira
No verão de 1837, pouco mais de um ano depois de essas chaves terem sido dadas a Joseph e Oliver, o Profeta, atormentado e afligido pelas condições então predominantes em Kirtland, onde tudo parecia prestes a ruir -- metade do Quórum dos Doze e muitos dos setentas e élderes se colocando contra o ungido do Senhor --, proferiu a palavra de Deus no sentido de que "algo novo precisa ser feito para salvar a Igreja". Sim, Satanás viu o que estava por vir; conhecia o significado da restauração daquelas chaves sagradas, e fez tudo o que pôde para destruir a obra do Senhor em sua infância. Foi um período de apostasia; as coisas do mundo dominavam a mente do povo, e muitos negligenciavam seus deveres espirituais, buscando enriquecer à custa do princípio. Tal era a situação quando, segundo Heber C. Kimball, um dos Apóstolos, ¶
o Profeta, sentado ao seu lado no Templo de Kirtland, no domingo, 4 de junho de 1837, disse: "Irmão Heber, o Espírito do Senhor sussurrou-me: 'Que meu servo Heber vá para a Inglaterra e proclame meu evangelho e abra a porta da salvação para aquela nação.'" Heber C. Kimball e Orson Hyde, juntamente com Willard Richards, Joseph Fielding, Isaac Russell, John Goodson e John Snyder, atravessaram o Atlântico, desembarcaram em Liverpool sem recursos, seguiram até Preston, em Lancashire, e ali pregaram os primeiros sermões "mórmons" já ouvidos em solo europeu. Seu êxito foi extraordinário. Vilarejos inteiros foram trazidos para a Igreja por esses apóstolos incultos, mas divinamente investidos, da nova dispensação. Em oito meses, batizaram duas mil almas, e Heber escreveu de volta a Kirtland: "Glória a Deus, Joseph, o Senhor está conosco entre as nações!" ¶
Os Primeiros Imigrantes
Posteriormente, outra missão apostólica, chefiada por Brigham Young e incluindo a maioria dos Doze, atravessou o oceano e levou o evangelho a todas as partes das Ilhas Britânicas. Cinco mil conversos foram acrescentados à Igreja; uma nova edição do Livro de Mórmon foi publicada; muitos milhares de folhetos foram distribuídos; o Millennial Star foi fundado; estabeleceu-se uma agência permanente de emigração; e, no mês de junho de 1840, a primeira companhia de Santos dos Últimos Dias de uma terra estrangeira zarpou de Liverpool para Nova York, rumo a Nauvoo, Illinois, que se tornara o local de coligação. Desde então, Israel tem afluído das nações, para encontrar o Deus de Israel quando ele vier, e para fazer os preparativos necessários para a sua vinda. Tudo isso em virtude das chaves restauradas por Moisés e conferidas a Joseph Smith e Oliver Cowdery no Templo de Kirtland. ¶
Judá Há de Retornar
Cerca de dois meses antes de aquela pequena companhia de quarenta e um Santos atravessar o Atlântico no navio Britannia, realizou-se uma notável conferência em Nauvoo, e dois dos Apóstolos, Orson Hyde e John E. Page, foram chamados para ir à Palestina e abençoar aquela terra, para que sua esterilidade se afastasse e se abrisse caminho para a restauração dos judeus. Pois lembrai-vos de que a coligação de Israel inclui o ajuntamento dos "dispersos de Judá" -- seu retorno à sua terra natal ancestral. A América é a Terra de Sião, e aqui há de estar a Nova Jerusalém. Mas o reino de Cristo terá duas capitais, uma no Velho Mundo, outra no Novo; "porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor." ¶
Orson Hyde na Palestina
John E. Page vacilou e caiu pelo caminho; mas Orson Hyde cumpriu sua missão, embora cercado e impedido por muitas dificuldades e provações. Levou-lhe um ano e meio para alcançar o objetivo a que se propusera. Finalmente, no dia 24 de outubro de 1841, do alto do Monte das Oliveiras, com vista para Jerusalém, ele ofereceu a Jeová, o Deus de Israel, uma oração fervorosa e eloquente em favor de seu povo do convênio. Abençoou a terra estéril pelo poder do santo apostolado, para que voltasse a ser fértil, e para que Judá pudesse retomar sua herança ancestral. Depois, predisse que a nação britânica tomaria parte ativa na redenção da Palestina; profecia cumprida ao final da recente Grande Guerra, quando o General Allenby, à frente de um exército britânico, fez sua entrada triunfal em Jerusalém. ¶
Missões Posteriores à Terra Santa
No ano de 1872, uma missão partiu de Salt Lake City para a Terra Santa. O Presidente George A. Smith chefiou o grupo, que incluía também Lorenzo Snow, um dos Doze Apóstolos, e sua talentosa irmã, a poetisa Eliza R. Snow. Ao chegar à Palestina, o Presidente Smith repetiu a obra realizada por Orson Hyde em 1841, dedicando a terra para o retorno dos judeus e a reconstrução de Jerusalém. Outros élderes da Igreja visitaram desde então aquela região outrora favorecida e ainda por ser glorificada. O Presidente Anthon H. Lund esteve lá em 1898, e igualmente ofereceu uma oração fervorosa por essa grande consumação. Tudo isso porque Moisés restaurou as chaves para a coligação de Israel nesta dispensação. ¶
As Chaves de Elias
Mas e quanto às chaves de Elias? Qual é o seu significado? Se lerdes as Seções 127 e 128 da Doutrina e Convênios, e percorrerdes as páginas 27 a 35 de "Joseph Smith's Teachings", aprendereis o que o fundador desta Igreja tinha em mente a respeito desse importante assunto. Em relação à construção de templos e à obra ali realizada pelos vivos em favor dos mortos, temos de sua pena esta gloriosa declaração: "É necessário, no despontar da dispensação da plenitude dos tempos... que uma união plena, completa e perfeita, e uma soldadura de dispensações, chaves, poderes e glórias se realizem e sejam reveladas desde os dias de Adão até o presente; e não somente isto, mas as coisas que jamais foram reveladas desde a fundação do mundo, mas que têm sido ocultas dos sábios e prudentes, serão reveladas aos pequeninos e aos que mamam, nesta dispensação da plenitude dos tempos." ¶
Uma Coligação Maior
Em outras palavras, há de haver ainda outra coligação, uma ainda maior do que a coligação da dispersa casa de Israel. É a coligação, ou a reunião, das dispensações do evangelho, e a soldadura de todas em uma só. Isto se chama a dispensação da plenitude dos tempos, e sua característica peculiar e distintiva é que ela recolhe ao seu poderoso seio todas as dispensações que a precederam; os anjos que detêm as chaves do passado conferindo-as ao Profeta que preside este período ou divisão da obra de Deus, a fim de que a unicidade e a unidade se estabeleçam como condição prévia ao reinado milenar do Salvador. Por isso vieram Moisés e Elias, João Batista, Pedro, Tiago e João e outros, trazendo e outorgando suas chaves, para que sua obra pudesse ser mesclada com a obra realizada nesta dispensação, destinada a reunir todas as coisas que são de Cristo, tanto no céu quanto na terra. Foi especialmente necessário que Elias restaurasse as chaves de seu chamado e ministério -- chaves que compreendem a revelação da "plenitude do Sacerdócio de Melquisedeque", com todas as suas "ordenanças, oráculos, poderes e dotações", cujos selos devem ser postos sobre a Casa de Israel, para que todos estejam prontos para a vinda do Messias. ¶
O Elo de Soldadura
Diz o Profeta que deve haver "um elo de soldadura entre os pais e os filhos" -- os pais nos céus anelando por seus filhos na terra; e por isso Elias foi enviado. Suas chaves capacitam os vivos a realizar a obra salvadora em favor dos mortos e a selá-los para que saiam na primeira ressurreição; "para selar os que habitam na terra àqueles que habitam nos céus". "Pois nós, sem eles, não podemos ser aperfeiçoados; nem eles, sem nós, podem ser aperfeiçoados." "Este é o poder de Elias e as chaves do reino de Jeová." O elo de soldadura é o batismo pelos mortos, juntamente com a demais obra vicária que hoje se realiza nos templos que o povo de Deus tem erguido. Vós, irmãos e irmãs, que trabalhais nestes templos, podeis guardar em vossas almas a doce convicção de que estais ajudando a unir as dispensações do evangelho e a fazer avançar os poderosos propósitos de Deus. ¶
O Evangelho Eterno
O "mormonismo", como é chamado, não se originou no século dezenove. Não pertence a uma única época, nem a um único lugar. É o evangelho eterno, o mesmo ontem, hoje e para sempre. Nunca houve, nem jamais haverá, outro evangelho; mas este, formado no céu, tem estado sobre a terra repetidas vezes, numa série de dispensações que se estendem como uma poderosa corrente desde a manhã da criação até o fim dos tempos. E todas essas dispensações devem ser ligadas e unidas antes que o Deus de Israel apareça; pois, a menos que uma condição de unidade e poder, resultante da fé e das obras justas, exista naquele momento, toda a terra será ferida com uma maldição. Não que o Senhor deseje amaldiçoar, mas antes abençoar a humanidade. Mas a bênção que ele deseja conceder em sua vinda transformar-se-ia em maldição devoradora, se os preparativos necessários não tivessem sido feitos. ¶
A Perfeição, o Objetivo
O evangelho é o plano de progresso eterno, e a perfeição é seu objetivo. Sem nossos antepassados que figuraram nas dispensações anteriores, nem nós nem eles podemos alcançar a perfeição. Mas, pela unidade, que traz poder, e pela fé, que torna todas as coisas possíveis, o fim glorioso pode ser alcançado. As sagradas ordenanças da Casa de Deus -- batismos, dotações, selamentos, adoções, etc. -- todas apontam para um estado perfeito de amor justo e unidade. Por que, por exemplo, nos casamos para a eternidade, e não apenas para o tempo? Porque somos filhos da eternidade, edificando para a eternidade, e "o homem não é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor". Juntos, representam a completude, a perfeição; separados, simbolizam a incompletude, a imperfeição; e nada de imperfeito pode entrar na Presença Divina. Que um homem e uma mulher, solteiros ou casados apenas para o tempo, se apresentem diante dos portais celestiais, e dir-se-lhes-á, ou a respeito deles se dirá, como se disse nos portões de Verdun: "Eles não passarão." Mas aqueles que são casados para a eternidade, casados segundo a lei de Deus e por seu poder e autoridade seladores, hão de passar pelos anjos e pelos deuses e herdar a plenitude do gozo. O elo de soldadura deve unir marido e mulher, pais e filhos, presente e passado, vivos e mortos -- "todas as coisas em Cristo" -- a fim de que haja completude, perfeição, e que prevaleça aquela condição de unidade e amor que é o preparo exigido para a vinda do Senhor em sua glória. Amém. ¶