Pulpit

Cem Anos da Última Dispensação do Evangelho

Anthony W. Ivins

Conferência Geral de Abril de 1920·Sessão da Manhã do Segundo Dia·1920-04-05

Meus irmãos e minhas irmãs, desejo sinceramente ter parte em vossa fé e orações durante os poucos momentos em que estarei diante de vós nesta manhã, pois sinto que preciso disso.

Cem Anos da Última Dispensação do Evangelho

Durante todos os trabalhos desta conferência, ao ouvir os comentários dos irmãos que me precederam, tenho pensado no notável acontecimento de interesse para a Igreja ao qual tantas vezes se tem feito referência: que aproximadamente cem anos se passaram desde a inauguração desta, a maior e mais importante dispensação do evangelho que o mundo já conheceu. Profetas antigos aguardavam-na, oravam para poder vê-la e participar de suas atividades. O apóstolo Paulo disse: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais, * * * dando-nos a conhecer o mistério de sua vontade * * * para, na dispensação da plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; nele mesmo."

Houve outras dispensações em que o evangelho foi trazido à terra, todas elas de grande importância para o povo: a do meridiano do tempo, quando o Redentor ministrou pessoalmente, sendo, sem dúvida, de maior valor fundamental do que qualquer outra que a precedeu ou que se seguirá, pois a redenção da família humana dependia da expiação que ele realizou, pela qual somos redimidos da Queda e feitos herdeiros com ele do reino de seu Pai. Mas a grande obra que ele começou, o glorioso triunfo do certo sobre o errado, da luz sobre as trevas, o cumprimento das palavras de todos os antigos profetas, a consumação dos propósitos do Senhor e a redenção de seu povo do convênio, ficam reservados para a dispensação em que vivemos. Conclusões corretas só se podem tirar por comparação. Se não houvesse pessoas altas, não haveria baixas. Se não houvesse pessoas baixas, não haveria altas. Se não houvesse nuvens, como as há hoje, não apreciaríamos o brilho do sol; e se não houvesse sol, suponho que seríamos felizes com as nuvens.

A Dispensação do Meridiano do Tempo e a Plenitude do Tempo Comparadas

Assim, ao contemplarmos os acontecimentos do século passado, naturalmente comparamos nossas experiências, nossas realizações, nossas alegrias e tristezas, nossos êxitos e fracassos, com os que outros tiveram antes de nós. Embora

o ministério de Cristo não tenha começado senão consideravelmente depois de seu nascimento, pode-se dizer que a inauguração da dispensação do meridiano do tempo data daquela noite memorável em que pastores que vigiavam seus rebanhos nas colinas da Judeia foram envolvidos pela glória do Senhor, e uma multidão dos exércitos celestiais cantou: "Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens", quando Cristo nasceu no mundo.

Assim, no dia em que vivemos, embora a Igreja ainda não tivesse sido organizada, a inauguração desta dispensação do evangelho data da ocasião a que o irmão Talmage e outros já se referiram, quando o Pai e o Filho apareceram a Joseph Smith no início da primavera de 1820. Embora tenha havido algum desenvolvimento na igreja primitiva depois da crucificação do Redentor, antes que se passasse um século, Jerusalém foi sitiada e tomada pelos exércitos romanos, sob Vespasiano e seu filho Tito; o grande templo, em cuja construção Herodes empregara dezoito mil homens durante um período de nove anos, foi destruído; os judeus foram feitos cativos e espalhados aos quatro ventos do céu. Até que ponto sofreram os membros da Igreja que se achavam em Jerusalém nessa época, não sabemos, mas nos é dito que, lembrando-se da admoestação do Redentor, e aproveitando-se da retirada temporária dos exércitos romanos, foram levados por Simeão, bispo de Jerusalém, à pequena cidade montanhosa de Pela, onde por algum tempo estiveram em segurança.

Nesse ínterim, o evangelho fora levado pelos apóstolos a outras nações além dos judeus, e em Corinto, Éfeso, Roma e outros lugares encontraram-se campos mais férteis do que em Jerusalém. Em Roma, muitos se converteram à fé cristã, e, como de costume, com a difusão da verdade, os poderes das trevas alinharam suas hostes contra a Igreja, e seus membros sofreram uma perseguição como a presente dispensação jamais conheceu.

Sob Nero, que parece ter sido um verdadeiro demônio encarnado, que assassinara a própria mãe; que incendiara Roma para testemunhar uma grande conflagração, e depois acusara os cristãos desse crime, os emissários de Lúcifer, o inimigo de tudo o que é bom, e particularmente o inimigo do Redentor, receberam plena licença para desforrar sua vingança sobre esse povo infeliz e inocente, cujas doutrinas de paz, boa vontade e retidão punham em perigo o domínio de seu senhor sobre a terra. Os cristãos eram acusados de serem rebeldes, de realizarem reuniões desordeiras, de assassinarem os próprios filhos, de serem canibais. Se vinha terremoto, fome ou peste, os cristãos eram responsabilizados. Era comum denunciar e levantar falso testemunho contra qualquer um suspeito de afiliação com a Igreja, e, quando levados a julgamento perante tribunais, se negassem ser cristãos, eram condenados por sua obstinação. Se admitissem ser membros da Igreja, eram enviados à execução. Sua condição, lembro-me, não era diferente da de alguém suspeito de bruxaria entre os primeiros puritanos da Nova Inglaterra. Diz-se que os suspeitos eram lançados à água. Se não afundassem e se afogassem, isso

Ill

era prova de culpa, e eram queimados. Se afundassem e se afogassem, isso era prova de que eram culpados.

Para satisfazer sua própria natureza mórbida e selvagem, e agradar à populaça, Nero ordenou que cristãos fossem lançados no grande anfiteatro do Coliseu de Roma para serem dilacerados por cães ferozes, mortos e devorados por leões famintos, ou lançados sobre os chifres de touros bravios. Fez com que cristãos fossem untados com piche e alcatrão e queimados como tochas para iluminar a cidade à noite. Não obstante essas atrocidades, meus irmãos e minhas irmãs, a verdade se espalhou rapidamente. A criada sussurrava-a à sua senhora. O trabalhador, ao labutar no campo, contava a maravilhosa história de Cristo a seus companheiros de trabalho, e testemunhava de sua verdade. O soldado a sussurrava a seu companheiro de armas. Os pastores, ao cuidarem de seus rebanhos, contavam daqueles outros pastores nas colinas da Judeia, e assim, sendo cada convertido um missionário em sua obra, muitíssimas pessoas foram acrescentadas à Igreja. Havia em Roma, na época a que me refiro, uma grande série de passagens ou câmaras subterrâneas, pedreiras abandonadas de onde se havia extraído pedra para a construção da cidade. Se ali estivésseis na época a que me refiro, e desejásseis adorar como cristão, teríeis ido a uma hora avançada da noite, depois de a cidade ter cessado sua devassidão e libertinagem, talvez com algum amigo, mais provavelmente sozinhos, cautelosamente rumo a essas pedreiras abandonadas. Silenciosamente teríeis vos esgueirado por uma das passagens escuras, e tateado o caminho adiante até que um lampejo de luz aparecesse ao longe. Um homem vos saudaria como "Irmão", e exigiria o sinal de identificação pelo qual pudesse determinar vosso direito de estar ali. Ouviríeis o som de vozes distantes entoando cânticos ou orações, e logo emergiríeis em uma daquelas grandes câmaras subterrâneas fracamente iluminadas, e vos encontraríeis na presença de uma grande congregação. Todas as classes de pessoas estariam ali representadas. Sob a veste exterior, reconheceríeis o uniforme de um oficial das legiões reais de Roma, o traje rico do patrício, o pobremente vestido plebeu. Ali se reuniam como irmãos e irmãs, unindo suas vozes em hinos de louvor e oração a Deus, pedindo força para suportar a perseguição de seus inimigos ignorantes e cegos.

Pedro ou Paulo, se por acaso ali estivessem presentes, sem dúvida teriam exortado devotamente a assembleia a permanecer na fé, testificando-lhes que a morte a serviço do Mestre assegurava uma entrada mais gloriosa em seu Reino. O pão seria partido, abençoado e participado; o vinho, abençoado e bebido, e então vós vos furtaríeis silenciosamente de volta a vosso lar, sem saber se, antes do pôr do sol do dia seguinte, também vós seríeis lançados aos leões. Assim era a adoração cristã durante a última parte do primeiro século depois de Cristo.

A Igreja Primitiva e a Igreja de Nossos Dias Tiveram Experiências Análogas

Assim, por comparação, meus irmãos e minhas irmãs, as experiências da Igreja primitiva e as da Igreja na dispensação em que

vivemos são análogas. Jesus foi batizado por João Batista aos trinta anos de idade, e foi condenado e crucificado três anos depois. Joseph Smith foi batizado sob a direção desse mesmo João, aos vinte e quatro anos, e foi martirizado quinze anos depois, no trigésimo nono ano de sua idade. Cada um viveu apenas um curto tempo depois de iniciado seu ministério. Ambos morreram pelo estabelecimento das mesmas verdades. Cada um encontrou a morte violentamente às mãos de seus inimigos, mas em condições inteiramente diferentes. Jesus foi formalmente acusado, julgado e condenado por um tribunal legal, embora não inteiramente segundo a forma legal. Joseph Smith foi morto por uma turba, sem pretensão alguma de formalidade legal.

Antes que se completasse um século desde o nascimento de Cristo, todos os apóstolos que ele escolheu, com a única exceção de João, foram violentamente mortos por seus inimigos. Durante o século que acaba de passar, a Igreja não experimentou condições como essas. Em ambas as dispensações a Igreja foi impopular, e seus membros amargamente perseguidos; em nossos dias, graças ao Senhor, não com o mesmo espírito perverso e implacável que se manifestou contra a Igreja primitiva.

A Condição da Igreja Primitiva Neste Continente

A condição da Igreja e de seus membros durante os primeiros cem anos após seu estabelecimento neste continente, pelo Redentor, contrastava diretamente com a da Igreja no velho mundo.

Permiti-me ler brevemente:

E aconteceu que se passou o trigésimo quarto ano, como também o trigésimo quinto, e eis que os discípulos de Jesus organizaram uma igreja de Cristo em todas as terras circunvizinhas. E todos os que a eles se chegavam e verdadeiramente se arrependiam de seus pecados, eram batizados em nome de Jesus; e também recebiam o Espírito Santo.

E aconteceu que no trigésimo sexto ano todo o povo de toda a face da terra foi convertido ao Senhor, tanto nefitas como lamanitas; e não havia contendas nem disputas entre eles; e procediam retamente uns com os outros.

E tinham todas as coisas em comum; portanto, não havia ricos nem pobres nem escravos nem livres, mas eram todos livres e participantes do dom celestial.

E aconteceu que não havia contendas entre todo o povo, em toda a terra; e grandes milagres eram realizados entre os discípulos de Jesus.

E aconteceu que se passou o septuagésimo primeiro ano e também o septuagésimo segundo ano; sim, em resumo, tinha-se passado até o septuagésimo nono ano; sim, até mesmo cem anos tinham-se passado; e os discípulos que Jesus escolhera haviam todos ido para o paraíso de Deus, com exceção dos três que deveriam permanecer; e outros discípulos tinham sido ordenados para substituir aqueles; e também muitos daquela geração haviam morrido.

E aconteceu que não havia contendas na terra, em virtude do amor a Deus que existia no coração do povo.

E não havia invejas nem disputas nem tumultos nem libertinagens nem mentiras nem assassinatos nem qualquer espécie de lascívia; e certamente

não poderia haver povo mais feliz entre todos os povos criados pela mão de Deus.

Nossas Realizações Comparadas com as dos Nefitas

Não temos conseguido, durante o século passado, realizar aquilo que os nefitas realizaram, não obstante os grandes resultados que vieram de nossos esforços. Nem todo o povo foi ainda convertido ao Senhor. Não chegamos àquela condição — que sinceramente creio devermos algum dia alcançar — em que estejamos unidos nas coisas temporais, como estavam os nefitas. Não chegamos a uma condição em que não haja inveja, nem discórdia, nem malícia, nem libertinagem, nem qualquer espécie de lascívia entre o povo. Não chegamos a uma condição em que sejamos, todos em um, os filhos de Cristo, como o Senhor deseja que sejamos.

É verdade, meus irmãos e minhas irmãs, que as condições sob as quais temos trabalhado são inteiramente diferentes das que existiam entre os nefitas. A Igreja foi estabelecida entre eles pelo próprio Redentor em pessoa, e o poder do Pai se manifestou em sua vida e obras, ao ministrar entre eles, como nunca se manifestou, nem jamais se manifestará, por meio de nenhuma outra pessoa. Na dispensação em que vivemos, a Igreja foi estabelecida por Cristo por meio de seu agente escolhido, e é verdade que os sinais têm acompanhado o crente em grau notável, mas nunca com a prova esmagadora e convincente que caracterizou o ministério do Filho de Deus. Eles eram um povo de uma só raça, que falava um só idioma, com os mesmos ideais, as mesmas tradições, ocupando um único país.

Nossos esforços têm-se dado entre povos de muitas nações e países diferentes, povos de idiomas diferentes, de tradições diferentes, de ideais diferentes, muitos dos quais, depois de sua conversão, deixaram sua terra natal, tudo o que o homem comum tem por caro, e vieram a uma terra estranha, para se identificarem com um povo estranho, para serem cercados por um novo ambiente, inteiramente contrário àquele a que estavam acostumados.

Assim, sinto, meus irmãos e minhas irmãs, que, ao analisarmos os acontecimentos do século passado, temos muitíssimo pelo que ser gratos, e que podemos, com justiça, orgulhar-nos do que, com a ajuda do Senhor, temos realizado, porque tudo o que se fez foi por meio do Senhor e pela ajuda que ele nos deu.

Podemos Olhar, com Confiança e Fé, para o Futuro

Parece-me que podemos olhar para o futuro com absoluta confiança e fé, sabendo, por causa das experiências do passado, que o Senhor está do nosso lado, e que, com sua ajuda, o desenvolvimento da Igreja continuará; que, nesta dispensação em que vivemos, ele consumará seus propósitos; seu povo do convênio será reunido; Cristo virá para reinar pessoalmente sobre a terra; todos os propósitos do Senhor serão consumados, e seu reino será estabelecido sobre a terra assim como o é no céu. Que o

Senhor nos dê fé e força para prosseguirmos os esforços do século passado, até que esses gloriosos propósitos se cumpram, é minha sincera oração, por meio de Jesus Cristo. Amém.

O élder Soren Rasmussen, Presidente da estaca Jordan, de Sião, pronunciou a bênção.

Como citar este discursoAnthony W. Ivins, “Cem Anos da Última Dispensação do Evangelho”, Conferência Geral de Abril de 1920, Sessão da Manhã do Segundo Dia (1920-04-05). Pulpit Vault, 1920-04-anthony-w-ivins-one-hundred-years-of-the-last-gospel-dispensation. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).