Há um mês, eu viajava pelas
Stephen L Richards
Há um mês, eu viajava pelas verdes colinas da Nova Inglaterra. Ao percorrer aquela grande região, fiquei profundamente interessado e impressionado com as cenas históricas e com os pontos de tanto interesse para todo americano. ¶
Uma Visita ao Leste
Lembrei-me, ao viajar pelas redondezas de Boston, de algo da história da colonização daquela região. Recordei-me de que, cerca de trezentos anos atrás, os Pais Peregrinos desembarcaram em Plymouth, impelidos para lá pelas perseguições e pela intolerância que encontraram existir no velho mundo. Lembrei-me com que dificuldade e abnegação eles se estabeleceram naquela parte que hoje é a parte antiga do novo mundo. Vieram vividamente à minha mente e imaginação algumas das circunstâncias que acompanharam a colonização deste novo mundo por aqueles que aqui vieram em busca de liberdade. Tive a oportunidade de percorrer o terreno trilhado não apenas pelos primeiros Pais Peregrinos, mas por aqueles que foram instrumentais em iniciar este grande governo que agora prevalece entre os estados da União. Estive em pé sobre o Gramado de Lexington, onde sabia que, mais de um século e meio atrás, aqueles Minute Men haviam permanecido para defender seus direitos e dar suas vidas pelos princípios de liberdade, que consideravam tão importantes e tão caros a si mesmos e a seu povo. Ao estar naquele local histórico, refleti um pouco sobre as condições que então prevaleciam, em contraste com as condições que agora prevalecem. ¶
Problemas Momentosos Diante da Nação
Estive presente nas sessões da Associação Americana de Advogados (American Bar Association) em Boston, quando foram trazidos à atenção dos presentes muitos dos importantes problemas que agora confrontam o povo. Homens de destaque, homens que se dedicaram ao pensamento e ao estudo, admitiram a perplexidade da situação. Confessaram que os próprios alicerces da civilização estavam ameaçados. Estavam dispostos a admitir que os problemas que agora confrontam a nação e o povo estão quase além do poder e da sabedoria dos homens para resolver. ¶
Enquanto eu estava nos estados da Nova Inglaterra, o povo de Boston se viu diante de um dos mais, senão o mais, lamentável espetáculo já surgido nesta nação durante sua história. Naquele período, os homens que haviam jurado fazer cumprir a lei naquela grande cidade americana entraram em greve, desprezando seus juramentos de posse. Recusaram-se a servir e entregaram a cidade aos caprichos, à arbitrariedade e aos ultrajes de multidões e à violência das turbas. O Estado de Massachusetts, que tem sido o próprio berço da liberdade americana, de onde vieram muitas das melhores partes da Constituição, muitas das melhores leis já formuladas, foi desonrado por esse ultraje e por esse fracasso dos homens em cumprir seus juramentos, guardar seus convênios e fazer cumprir a lei. Por toda parte, os homens que estudavam as condições públicas ficaram perturbados. O honrado Elihu Root, referindo-se a essa ocasião, disse, em substância, que isso sinalizava um afastamento das instituições americanas e da observância da lei, o que ameaçava os próprios alicerces de nossa civilização. Outros homens de destaque e de reputação nacional a consideraram da mesma maneira. ¶
Antes de eu chegar à cidade de Nova York, soube, como todos sabemos, que grandes forças ali estavam em greve, e ao voltar pelas grandes cidades do país, tendo ocasião de visitar indústrias e outras instituições, soube que todo o mundo dos negócios estava perturbado, agitado, incapaz de prever o futuro com qualquer grau de certeza, e totalmente sem nenhum sentimento de segurança quanto ao que poderia vir a acontecer. Lembro-me de entrar numa determinada indústria, conversar com o presidente da empresa e ouvi-lo dizer que, nos últimos seis meses, sua instituição havia sido afetada, direta ou indiretamente, por mais de vinte e quatro greves. É desnecessário tentar apontar mais dessas dificuldades e problemas que confrontam o povo. ¶
Como Resolveremos Esses Problemas?
Passamos por uma grande guerra; enfrentamos os problemas e as dificuldades dessa guerra, mas ouso dizer que qualquer homem ponderado estará disposto a admitir que os problemas que confrontam nosso povo, depois da guerra, são igualmente sérios e importantes quanto aqueles que nos vieram durante a guerra. Como havemos de enfrentar essas situações? O que faremos aqui na América — esta terra escolhida, a respeito da qual ouvistes tantas coisas ditas durante as sessões desta conferência? Como havemos de preservar esta terra para os puros de coração? Como poderá ela ser mantida como a terra de Sião? Como será possível que ela viva de acordo com suas tradições e que preserve os elevados princípios de liberdade, justiça e equidade sobre os quais foi fundada? Estas são algumas das questões que nos preocupam nesta hora. Elas não nos dizem respeito apenas como cidadãos deste grande país, mas dizem respeito ao mundo inteiro, porque o mundo inteiro passou a olhar para esta terra, para fomentar o espírito de liberdade e os princípios e a causa que fundamentam a liberdade entre a humanidade. ¶
Razões para a Agitação, a Deslealdade e o Descontentamento
Ao considerarmos estas grandes questões, somos obrigados, penso eu, a confessar que os grandes estadistas do mundo não têm sido capazes de encontrar os remédios nem de resolver os problemas. Creio que as condições que vemos prevalecer hoje no país são um fruto natural e lógico de muito do que tem prevalecido em nossos sistemas de educação, em nossos sistemas de ética, e na própria maneira pela qual os assuntos deste país têm sido conduzidos, de tempos em tempos. Ao longo, pelo menos, dos últimos cinquenta anos, nossos processos educacionais têm sido, em grande parte, senão inteiramente, desprovidos de tudo o que pertence ao divino, de tudo o que pertence ao espiritual, ou de tudo o que pertence ao verdadeiramente religioso. Tem havido um esforço deliberado, por parte daqueles que controlam os sistemas educacionais de hoje, para evitar até mesmo a aparência de religião de qualquer forma, feitio ou maneira. Considero que, como consequência natural desse tipo de educação, surgiu um total desrespeito pelo religioso na vida do homem. Surgiu um absoluto desrespeito e desprezo pelas coisas divinas. Deus foi deixado de fora da consideração; apenas os métodos dos homens têm prevalecido, e, em toda parte e sob todas as condições, as coisas que pertencem a este mundo, as coisas que pertencem à nossa vida temporal, têm sido colocadas em primeiro lugar e têm predominado sobre as coisas que pertencem às nossas almas e ao bem-estar de nossas almas. Em nossa política — não falo de um partido apenas, mas de todos os grandes partidos — cresceu tal partidarismo, tal parcialidade, tal ódio entre aqueles que defendem causas diferentes, que coisas foram ditas, campanhas foram conduzidas de tal maneira e modo que serviram para acabar com o verdadeiro espírito do patriotismo nacional, em vez de fomentá-lo. Homens e mulheres que pertencem a partidos políticos foram levados a pensar que a grande coisa a ser realizada, o grande fim a ser alcançado, é o predomínio de suas próprias ideias, é o sucesso de seu próprio partido, em vez do grande bem-estar e do bem comum de todos. De fato, tanto antagonismo, tanta parcialidade, inveja e ódio foram gerados que sou um daqueles que creem que isso tem sido em grande parte responsável por alguns dos grandes crimes nacionais. Chegou-se a um total desrespeito por aqueles que estão em autoridade. Surgiu um desrespeito pela lei que, a meu ver, tem sido consequência do tipo de educação, política e de outra natureza, que nosso povo neste país tem recebido. ¶
Nós, como povo, cremos em honrar e apoiar a lei. Reconhecemos a absoluta necessidade de sustentar as leis fundamentais de nossa terra, se é que o progresso, o avanço e a própria integridade da nação hão de ser mantidos. Os males dos quais a sociedade agora mais se queixa são os males que resultam da falha, por parte dos homens, em considerar que têm qualquer obrigação para com a lei. Eles são uma lei para si mesmos, como foi assinalado pelo Irmão McKay. Seus convênios, seus pactos, seus contratos não valem nada. Eles os cumprem apenas quando lhes convém cumpri-los. Servem apenas a seus próprios interesses egoístas. Não lhes foi ensinada a necessidade fundamental da obediência para preservar não apenas a lei de Deus, mas também a lei dos homens. Não lhes foi ensinado o respeito pela pessoa ou pela propriedade; e o respeito que, em muitos casos, tem sido concedido, tem sido apenas aquele imposto por processos externos. Jamais poderá haver uma grande cidadania que provenha da mera força, da força externa da lei. Não podeis impor os deveres da cidadania a fim de fazer um grande povo. As obrigações da cidadania, o amor à pátria e o patriotismo devem vir de dentro, e não ser impostos de fora. Portanto, a meu ver, a grande necessidade desta hora é a necessidade de um treinamento sistemático para homens, mulheres e crianças nas obrigações fundamentais da cidadania e nas obrigações fundamentais pertinentes à sua vida neste mundo. As grandes questões — Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? — têm sido deixadas de fora de consideração em nossos processos educacionais. Não tem feito diferença alguma quem éramos, de onde viemos, ou para onde vamos. Nossa educação tem sido comercializada. Temos pensado em estimular o industrial, o financeiro, e em ganhar prestígio de um ponto de vista mundano. Embora, graças ao Senhor, tenha permanecido nesta grande terra algo do espírito dos pais, algo do grande amor à liberdade, infelizmente não tem havido o suficiente disso para conter o egoísmo, o espírito mercenário e os motivos ocultos de grande parte deste país. Portanto, sobre essa base fundamental, deploro a organização e a manutenção de qualquer sociedade, de qualquer classe, de qualquer fraternidade, de qualquer união de pessoas que de qualquer maneira possa ser interpretada como contrária aos interesses de todo o povo e ao bem comum. Pela minha parte, a Igreja é minha união, a Igreja é meu clube, a Igreja é minha loja; a Igreja é minha fraternidade; e quero dizer a todo homem que, dentro da Igreja, há oportunidade para a expressão de todo desejo legítimo que deva existir no coração do homem. Embora possa ser considerado apropriado que os homens se organizem em clubes, uniões e fraternidades de um tipo ou de outro a fim de promover seus próprios interesses egoístas, sinto-me compelido a dizer que, com o tempo, isso se revelará hostil ao governo, e que, com o tempo, esses mesmos interesses egoístas se voltarão uns contra os outros. A única maneira pela qual uma grande causa pode permanecer, prevalecer e persistir é que todos os seus adeptos tenham um motivo altruísta e desinteressado ao buscar prestar serviço a todos e por todos. A verdade, os grandes princípios do evangelho, a própria outorga do Sacerdócio, ensinam-nos que devemos servir a todos e amar a todos, se havemos de ter êxito na obra de Deus. ¶
Não Buscai Aliança com Nenhuma União que Não Promova o Bem Comum de Todos
Meus irmãos e minhas irmãs, creio que é ocasião apropriada para advertir nosso povo quanto aos perigos que estão adiante, de associar-se a qualquer instituição que não vise ao bem comum da humanidade. Concordo com meus irmãos que há muitas instituições no mundo que realmente contribuem para a elevação e o progresso da humanidade; creio que muitos dos filhos de nosso Pai que estão fora dos limites da Igreja são instrumentos para levar adiante sua obra. Não posso deixar de pensar que ele tem deixado seu Espírito repousar sobre homens bons, em todo o mundo, para promover a causa da Verdade. Parece-me que deve ser assim. Nós, creio, devemos unir-nos e fomentar todo bom movimento, toda boa causa, tudo o que tende a promover os interesses do evangelho e da verdade no mundo; mas penso que devemos manter-nos seguros, inviolados, coesos contra incursões de todo tipo, de influências de todo tipo de organizações que de alguma forma tendam a nos dividir. Se todos permanecermos unidos, estaremos seguros. Se todos abraçarmos a mesma causa, se todos formos devotados a ela, faremos com que essa causa seja sentida no mundo. E a única maneira pela qual todos podemos aderir uniformemente à grande causa da verdade é todos guardarmos os mandamentos de Deus e seguirmos a liderança que foi posta sobre nós. ¶
Temos sido criticados por sermos um povo que age com tal unanimidade que somos meros fantoches, que não pensamos por nós mesmos, que não agimos por iniciativa própria e que não somos guiados por nossa própria sabedoria. Essa crítica é totalmente injustificada. Seguimos a liderança que Deus colocou sobre nós, porque sabemos que é certa, porque sabemos que é segura, porque sabemos que a liderança dos homens, na própria sabedoria do homem, não é segura e não se pode confiar nela, e que não podemos depositar nossa confiança na sabedoria dos homens. ¶
Que os Santos dos Últimos Dias Sigam Sua Liderança
Conclamo o povo desta Igreja a seguir a liderança destes homens que foram designados para presidir sobre eles, em suas alas e em suas estacas. Sei que não errareis se seguirdes o conselho deles. Sei que sereis preservados dos perigos, das tentações, dos males e das ciladas deste mundo se seguirdes sua liderança. São verdadeiros líderes; não têm motivos ocultos a servir, nem propósitos egoístas a servir. Buscam apenas o vosso bem-estar, e deploro o fato de que, ocasionalmente, encontramos, dentro da Igreja, aqueles que atribuem motivos impróprios aos homens que lideram e guiam. Quero ainda testificar-vos que é a verdade de Deus que as autoridades gerais que presidem sobre vós e sobre a Igreja não têm senão o vosso bem-estar no coração. Não têm propósitos pessoais a servir. Seu único pensamento, seu único propósito, é promover a obra de Deus no mundo. Amam os Santos dos Últimos Dias. Creio que não há um só deles que não estivesse perfeitamente disposto a dar a vida pela Igreja, para promover esta grande obra e ajudar a levar a Verdade aos corações dos homens. Não critiqueis, não vos queixeis quanto a isso. Isso é errado; e o homem que diz que os líderes da Igreja não são movidos pelos mais nobres e elevados motivos, temo, tem dentro de si um motivo sinistro que suscita tal declaração. ¶
Que Deus abençoe nosso povo para que possamos ser uma luz refulgente para este mundo. Aqui, bem aqui, nos vales das montanhas, cheguei à conclusão de que está o berço da liberdade. Estou disposto a conceder a Massachusetts todo o crédito que lhe é devido pelo grande esforço que fez para trazer liberdade à humanidade; mas digo que bem aqui, com o povo de Deus, é que está o verdadeiro berço da liberdade. Cheguei à conclusão de que há apenas uma lei perfeita de liberdade, e essa é o Evangelho de Jesus Cristo. Sei que todos os sistemas que possam ser concebidos, todos os governos que possam ser construídos, não trarão liberdade à humanidade se os verdadeiros princípios de liberdade não estiverem nos corações do povo. Aquilo de que o mundo precisa hoje é de retidão individual, e se homens e mulheres conformarem suas vidas aos princípios do Evangelho, se forem, como já foi dito, vivificados por estes grandes princípios de verdade, os problemas do mundo se dissolverão, virá a paz, o Senhor encontrará seu povo pronto para seu reinado, e o Milênio estará sobre nós. Que Deus nos abençoe, para que, como o sal da terra, não percamos o nosso sabor, rogo, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶