Meus irmãos e irmãs: estou
B. H. Roberts
Meus irmãos e irmãs: estou deveras feliz por ter esta oportunidade de encontrar-vos e dirigir-vos a palavra nesta ocasião. ¶
Estamos vivendo em tempos que são os mais difíceis pelos quais o mundo já passou; mas também estamos vivendo no tempo mais esplêndido que o mundo já viu. Não invejo os antigos patriarcas mencionados na Bíblia, pertencentes ao período patriarcal da história de nosso mundo; não invejo o povo que viveu nas terras clássicas, e nos tempos heroicos da Grécia ou de Roma, no auge de seu esplendor. Não invejo os homens que viveram nos dias da cavalaria, na Idade Média, quando o indivíduo, e sua proeza, contavam tanto. Nenhum daqueles ¶
períodos foi tão esplêndido quanto o período em que vivemos; e as oportunidades daquelas épocas não se igualavam às oportunidades de hoje. ¶
Não sei explicar como isto acontece, mas todo dia me emociona com sentimentos de gratidão por estar vivendo agora, e por ter, de um modo muito pequeno e humilde, a oportunidade de fazer as coisas que me são designadas, e penso que isto pode ser verdade também para o mais humilde cidadão desta grande república — pois não há ninguém tão humilde na vida que seja privado de participar da grandeza e da glória destes dias. E, no entanto, reconheço o fato de que vivemos num dia em que forças destrutivas estão em operação, quando as mentes dos homens estão perturbadas por causa das coisas que aparentemente estão sobrevindo sobre a terra. Percebo que é um dia de grande sacrifício, quando o povo é chamado a colocar sobre o altar de sua pátria os dons mais preciosos que Deus lhe deu; e ao testemunhar as tristezas das mães que sentem estar sacrificando seus filhos, mais queridos para elas do que todas as riquezas do mundo, tenho-me compadecido delas, mas também as tenho felicitado em meu coração pelas oportunidades que lhes vieram de expressar a nobreza de suas almas por meio dos sacrifícios que fazem. ¶
Estamos num período da história do mundo de grandíssima perturbação, quando a ação é intensa, quando a mudança é contínua. Eu me regozijo nisto, porque creio que a ação significa purificação. O Profeta Joseph, numa de suas revelações à Igreja, faz esta pergunta, ou pelo menos o Senhor a faz por meio dele: «Por quanto tempo podem as águas correntes permanecer impuras?» São as águas estagnadas que geram miasmas, e que se tornam perigosas para a saúde das comunidades. A corrente gloriosa que se precipita pelo desfiladeiro da montanha e desce por precipícios em cachoeiras, e depois se lança pelas corredeiras, quebrada em espuma, beijada pela luz do sol e purificada por sua exposição ao ar, em sua grande corrida para o oceano — tais águas se purificam rapidamente; e assim também os povos, assim também um mundo em comoção, em ação intensa. Isto significa, para o mundo, purificação, limpeza: significa uma marcha de progresso. E queremos ter em mente que, por trás de toda a agitação e comoção que vem com este período de guerra em que vivemos, Deus permanece, e sua lei prevalece. Queremos possuir nossas almas com absoluta confiança de que vivemos sob a lei, e que a lei opera tanto no meio das forças destrutivas quanto na operação das forças construtivas. Em minhas próprias reflexões, cheguei a um estado de espírito muito feliz. Em meio a toda esta luta, aprendi a lembrar-me de que Deus vive em seu universo, que ele está presente em toda parte, com influência e poder amplamente difundidos, sustentando todas as coisas, e que as forças destrutivas não irão além do que sua sabedoria decretar como seus limites. ¶
Sobre este assunto, penso que há uma bela, e até mesmo sublime, passagem em uma de nossas revelações, que gostaria de ler-vos: ¶
«A todos os reinos se deu uma lei: e há muitos reinos; pois não existe espaço em que não haja reino; e não existe reino em que não haja espaço, seja um reino maior ou um reino menor. E a todo reino é dada uma lei; e toda lei também tem certos limites e condições.» ¶
Esta revelação se une admiravelmente a uma dedução feita por um escritor eminente, o autor de A Lei Natural no Mundo Espiritual — Henry Drummond. Naquela obra, o autor diz: «Não há generalização mais bela do que esta, de que até a lei é governada pela lei.» Em outras palavras, como está expresso aqui, na revelação que acabei de ler: «Toda lei também tem certos limites e condições.» E por trás da lei está sempre o Legislador, maior do que a lei, visto que dela é a fonte. ¶
«Todos os seres que não se conformam a essas condições [prescritas pela lei] não são justificados; ¶
«Pois a inteligência apega-se à inteligência; a sabedoria recebe a sabedoria; a verdade abraça a verdade; a virtude ama a virtude; a luz se apega à luz; a misericórdia se compadece da misericórdia e reclama o que é seu; a justiça segue seu curso e reclama o que é seu; o julgamento vai ante a face daquele que se assenta no trono, e governa e executa todas as coisas: ¶
«Ele compreende todas as coisas e todas as coisas estão diante dele e todas as coisas estão ao seu redor; e ele está acima de todas as coisas, e em todas as coisas, e através de todas as coisas, e ao redor de todas as coisas; e todas as coisas existem por ele e dele, sim, Deus, para todo o sempre. ¶
«E também, em verdade vos digo, ele deu uma lei para todas as coisas, pela qual se movem em seu tempo e em suas estações; ¶
«E seus cursos são fixos; sim, os cursos dos céus e da terra, que abrangem a terra e todos os planetas; ¶
«E transmitem luz uns aos outros em seu tempo e em suas estações, em seus minutos, em suas horas, em seus dias, em suas semanas, em seus meses e em seus anos: tudo isto é um ano para Deus, mas não para o homem. ¶
«A terra gira em suas asas, e o sol dá sua luz de dia, e a lua dá sua luz à noite, e as estrelas também dão sua luz, ao girarem em suas asas ¶
em sua glória, no meio do poder de Deus. * * * ¶
«E também, em verdade vos digo, que aquilo que é governado pela lei também é preservado pela lei, e por ela é aperfeiçoado e santificado.» ¶
I ¶
Isto nos transmite, penso eu, o esplêndido pensamento de que vivemos sob o reinado da lei. Nada vai acontecer neste mundo que não esteja sob o domínio da lei. Até mesmo as próprias forças destrutivas têm seus limites e restrições fixados pelo decreto de Deus — a lei. ¶
Os astrônomos nos dizem que, lá na distância obscura, tão longe nas profundezas do espaço que não podemos formar nenhuma noção dessa distância, eles têm evidências de que aqui e ali um mundo parece, por vezes, ser apagado da existência, e aquilo que era visível a eles desapareceu — foi destruído. De modo que, fixas como parecem ser as estrelas lá no alto, à noite, regulares como se movem em seus cursos, mantendo-se, até onde o homem sabe, de era em era, ainda assim ocorrem mudanças naquelas vastas criações, e elas se rompem e são destruídas. ¶
Isto também é mencionado em uma de nossas revelações na Pérola de Grande Valor. Ouvi: ¶
«Eis que há muitos mundos que pela palavra do meu poder passaram * * * e há muitos que agora permanecem * * * os céus, eles são muitos e são inumeráveis para o homem, mas são enumeráveis para mim, pois são meus; e assim como uma terra passará, e o seu céu, assim outra surgirá; e não há fim para as minhas obras, nem para as minhas palavras. Pois eis que esta é minha obra e minha glória: levar a efeito a imortalidade e a vida eterna do homem.» ¶
O Senhor revelou, pois, que os mundos passam. Nesta mesma ¶
passagem está escrito que há muitos mundos que agora permanecem e que há muitos que já passaram. Em outras palavras, forças destrutivas estão em operação, assim como forças construtivas e mantenedoras. O que desejo gravar em vossas mentes aqui e agora é que estas forças destrutivas estão sob o domínio da lei, e que todo o plano das coisas está sob a mão, o governo, a autoridade e o poder de Deus; que não há forças destrutivas em operação que não contenham em si mesmas a profecia da reconstrução — que quando um mundo, em certo curso de seu desenvolvimento, atinge o mais alto grau que se poderia esperar dele nas condições que prevaleceram, eis que esta condição há de passar — a destruição vem, mas apenas para usar esses materiais numa reconstrução melhor, e para o alcance de propósitos mais elevados e mais nobres. ¶
Disse tanto porque podemos considerar-nos, agora mesmo, no meio de um período destrutivo na história do mundo. E, de fato, estamos; mas não temo essas forças destrutivas, porque tenho esta fé, de que essas forças destrutivas estão sob o controle de Deus, e que significam a reconstrução de coisas melhores para o mundo; e deste turbilhão de guerra, fome e desperdício — desperdício de vidas humanas, desperdício de tesouros humanos, desperdício, ao que parece, das realizações da civilização acumuladas ao longo de muitas eras —, hão de vir coisas ainda maiores e mais elevadas. Há de vir maior liberdade para os habitantes da terra; há de vir uma segurança mais profunda e alegria de vida, de liberdade, e a busca da felicidade. Há de vir uma melhor distribuição da riqueza criada pela combinação dos esforços dos homens, por sua labuta diária e pelo suprimento do capital que torna possível o trabalho das mãos dos homens. E assim, olho para tempos melhores, para condições aperfeiçoadas, e deste crisol pelo qual o mundo está passando, sendo provado como ouro sete vezes provado no fogo — antecipo o desenvolvimento de oportunidades maiores e bênçãos maiores do que o mundo já conheceu. ¶
Não cantamos, por vezes, «O sacrifício traz as bênçãos do céu»? E sabeis, tenho em mente que há alguma proporção entre as bênçãos que hão de vir e os sacrifícios feitos por essas bênçãos. Não é esta uma conclusão razoável? Ora, se é uma conclusão razoável, e se as promessas são verdadeiras, então, deste ponto de vista, o que não pode o mundo esperar em matéria de bênçãos, diante dos enormes sacrifícios que agora estão sendo feitos pelos filhos dos homens? Se as bênçãos que hão de vir forem de algum modo proporcionais aos sacrifícios que as nações da terra têm feito durante os últimos três anos de luta, guerra e sacrifício, parece-me que a própria terra não será capaz de conter as bênçãos que Deus está preparando para os habitantes da terra, depois que forem purificados por este turbilhão de sacrifício e juízo que está passando sobre o mundo. ¶
E assim, estou feliz, feliz por viver neste dia da purificação das nações da terra, feliz por viver nos dias que hão de ver uma maior purificação de nossa própria nação e povo. Estou muito satisfeito com nossa nação. Nenhuma nação na ¶
história deste mundo jamais empunhou a espada por uma causa mais justa e com um espírito mais desinteressado, e com maior desejo de beneficiar a humanidade, do que nossa nação tem feito no caso presente. Se jamais houve uma guerra santa neste mundo, podeis considerar a guerra que os Estados Unidos travam contra o Governo Imperial da Alemanha como a mais justa e santa das guerras. Não entramos nela por conquista, não entramos nela com o propósito de ampliar nossas fronteiras e apropriar-nos das terras ou riquezas de outros povos. De antemão, a atual administração do governo dos Estados Unidos declarou que não queríamos indenizações. Não pedimos nenhum território de outras nações; não travamos esta guerra com espírito de vingança por injúrias infligidas à nossa cidadania, ou aos nossos direitos em alto-mar. Simplesmente empunhamos a espada neste caso para que as nações da terra fossem livres do terror do militarismo, da tirania dos que aspiram a ser senhores do mundo; simplesmente desejamos ver as nações colocadas no caminho de viver suas próprias vidas sem temor, tanto as mais fracas quanto as mais fortes. Empunhamos a espada da guerra contra a própria guerra. Não lutamos para que a guerra se perpetue, mas para que a guerra cesse eternamente sobre a face da terra, e para que os homens sejam livres e vivam suas vidas sem serem interrompidos pelo temor do opressor. Podeis citar uma guerra mais justa do que esta? E não haveremos de ser dedicados à nossa pátria e a esta causa da liberdade? ¶
Aqui, na Doutrina e Convênios, há uma declaração que já li, suponho, umas quinhentas vezes, e, no entanto, penso que sua verdade nunca me atingiu inteiramente até recentemente. ¶
Quando os Santos dos Últimos Dias estavam no exílio, expulsos do condado de Jackson, Missouri, e acampados nas várzeas do Missouri, sem outra cobertura senão o dossel do céu, expostos, numa estação inclemente do ano, aos rigores do inverno daquela terra, o Senhor, dando instruções sobre como deveriam proceder, disse, no decorrer dessa instrução: ¶
«E também vos digo que é a minha vontade que aqueles que foram dispersos por seus inimigos continuem a exigir compensação e redenção das mãos daqueles que foram colocados como governantes e que têm autoridade sobre vós, de acordo com as leis e a constituição do povo, que permiti fossem estabelecidas e que devem ser mantidas para os direitos e a proteção de toda carne, segundo princípios justos e santos.» ¶
Devo confessar-vos que, no passado, quando eu lia isto, pensava que o Senhor estava se preocupando principalmente com aqueles que viviam sob nossa Constituição e as leis promulgadas em harmonia com ela; mas eis que aqui há uma visão mais ampla disso, e fico admirado de não a ter percebido antes. Não somente o povo é abençoado por habitar esta terra, não somente há de gozar destes privilégios que nos são garantidos por esta Constituição que Deus fundou, inspirando os homens sábios daquele tempo a redigi-la, não somente estes princípios de liberdade são para eles, mas, como está declarado aqui, «devem ser mantidos para os direitos e a proteção de toda carne.» Invoco aqui e agora a própria palavra de Deus nesta dispensação para a retidão e a santidade de estender estes princípios americanos de liberdade, para que incluam todos os habitantes da terra. ¶
Fizemos algo nobre, lá atrás, na administração do Presidente Monroe, em 1823, quando nosso governo então notificou as potências europeias de que as repúblicas deste Hemisfério Ocidental não deveriam mais ser consideradas esferas nas quais sistemas europeus de governo pudessem ser impostos ao povo contra sua vontade; que aquelas repúblicas, tendo declarado e mantido sua independência como fizera nossa república, não deveriam mais ser oprimidas pelas nações da Europa. A isto chamamos a Doutrina Monroe, e, ao anunciá-la, simplesmente defendíamos o direito de autogoverno dentro das repúblicas deste mundo ocidental. Em outras palavras, não se deveria permitir à Europa coagir as repúblicas do mundo ocidental, nem impor-lhes sistemas europeus. E, ao assumir essa posição, o governo dos Estados Unidos defendeu o grande princípio da Democracia, no mundo ocidental, a saber, que os governos derivam seus justos poderes do consentimento dos governados; que o povo de toda a América tinha o direito de autogoverno, e que ajudaríamos a mantê-lo na posse e na manutenção desse direito, pois dissemos naquela época que qualquer tentativa de coagir ou oprimir qualquer daqueles governos seria considerada um ato hostil contra os Estados Unidos. E esta era a maneira educada — era a maneira diplomática de dizer: «Se tentardes coagir qualquer um destes governos americanos, isto significa guerra com os Estados Unidos.» E assim as potências europeias, naquela época, cessaram seus esforços para coagir as repúblicas do mundo ocidental. ¶
O que dizemos agora? Dizemos agora: «Todas as nações da terra hão de se autogovernar; não há de surgir poder algum, por mais maravilhoso que seja o gênio de seu povo, por mais confiante que se sinta em sua capacidade de governar o mundo melhor do que qualquer outro, para proibir tal liberdade.» Simplesmente notificamos o Governo Imperial da Alemanha e seus aliados de que o princípio do autogoverno entre as nações da terra há de tornar-se mundial; o direito de toda nação, tanto a mais fraca quanto a mais forte, de governar-se a si mesma será exigido e mantido. Assim, é uma aplicação mundial da antiga Doutrina Monroe aquilo que a América está fazendo, e não há de haver, de modo algum, o abandono da Doutrina Monroe. ¶
Visto que nossa causa é justa, não podemos esperar que o Deus das batalhas sustente nossa causa, fortalecendo nossas mãos, tornando fortes nossos corações? Tornando invencíveis nossos exércitos, seja qual for o sacrifício que tenham de fazer na luta em que se hão de empenhar? A única coisa com que me preocupo é simplesmente esta: se nos mostraremos dignos da ajuda e do apoio de Deus. Sentiremos sua força e poder capacitando-nos a realizar os altos propósitos que declaramos ser nossos, em relação à nossa entrada nesta grande luta mundial? Estou confiante de que o povo responderá à justiça de nossa causa, e às admoestações do presidente destes Estados Unidos. ¶
Estas reflexões indicam-nos, espero, um pouco por que me sinto tão feliz neste dia em que vivemos; e oramos para que Deus nos ajude, de modo que recebamos renovadas manifestações de sua bondade e de sua ¶
misericórdia, e de sua mão orientadora nos assuntos desta nação, e deste mundo; mundo este que pertence a Deus por direito de propriedade, tendo-o ele criado, sustentado, e designado seus cursos, pois ele decretou, desde o princípio, qual há de ser o fim distante deste mundo, e a salvação e glória de seus habitantes. ¶
Que Deus nos ajude a apreciar o dia em que vivemos, e a fazer com que nossos espíritos se elevem ao alto nível destes tempos, e das oportunidades que proporcionam, é minha oração em nome de Jesus. Amém. ¶