Fé, devoção e boas obras de
Anthony W. Ivins
"Ora, aconteceu que havia muitos da nova geração que não podiam compreender as palavras do rei Benjamim, pois eram criancinhas na época em que ele falara a seu povo; e não acreditavam na tradição de seus pais. ¶
"Não acreditavam no que fora dito sobre a ressurreição dos mortos nem acreditavam no que se referia à vinda de Cristo. ¶
"Ora, por causa de sua incredulidade não podiam compreender a palavra de Deus; e seu coração estava endurecido. ¶
"E não queriam ser batizados nem desejavam unir-se à igreja. E formavam um povo à parte, quanto a sua fé, e assim permaneceram para sempre; sim, em seu estado carnal e pecaminoso, porque não queriam invocar o Senhor seu Deus." ¶
Desde a última conferência geral da Igreja, em abril, tenho visitado muitas das estacas organizadas de Sião. Estive no Canadá, ao norte, e nos limites extremos deste estado, ao sul, e é com grande prazer e sincera satisfação que testifico perante esta grande congregação de Santos dos Últimos Dias a respeito da fé, da devoção e das boas obras da grande maioria dos Santos dos Últimos Dias, onde quer que eu tenha estado. Encontrei, porém, em todas essas diferentes localidades, pessoas que parecem carecer de fé, que são indiferentes às doutrinas do evangelho conforme ensinadas pela Igreja; elas não ¶
creem, ou ao menos duvidam, que o espírito do homem existisse antes de vir a este mundo, que viva após deixá-lo, ou que haverá uma reunião do espírito e do corpo na ressurreição dos mortos. Para elas, esta vida é tudo o que existe da existência humana. Ao buscar a causa que levou à incredulidade desses jovens entre os nefitas, aos quais se refere a escritura que li, descobri, para usar as palavras daqueles que mantiveram seus registros, que surgiram entre eles homens de artimanhas engenhosas e palavras lisonjeiras, que ensinavam doutrinas destrutivas da fé em Deus. Proeminente entre esses homens foi Korihor, de cujas palavras desejo agora ler: ¶
"Ó vós, que estais presos a uma louca e vã esperança, por que vos submeteis a semelhantes loucuras? Por que esperais por um Cristo? Porque nenhum homem pode saber de qualquer coisa que esteja por acontecer. ¶
"Eis que essas coisas a que chamais profecias, que dizeis haverem sido transmitidas por santos profetas, eis que não passam de tradições tolas de vossos pais. ¶
"Como podeis ter certeza delas? Eis que não podeis saber de coisas que não vedes; não podeis, portanto, saber que haverá um Cristo. ¶
"Olhais adiante e dizeis que vedes a remissão de vossos pecados. Mas eis que isso é efeito de uma mente desvairada; e esse transtorno de vossa mente é resultado das tradições de vossos pais, que vos induzem a acreditar em coisas que não são verdadeiras. ¶
"E disse-lhes muitas outras coisas semelhantes, afirmando-lhes que não poderia haver expiação para os pecados dos homens, mas que o quinhão de cada um nesta vida dependia de sua conduta; portanto, cada homem prosperava segundo sua aptidão e cada homem conquistava segundo sua força; e nada que o homem fizesse seria crime. ¶
"E assim lhes pregava, desviando o coração de muitos, ¶
fazendo com que levantassem a cabeça em sua iniquidade; * * * dizendo-lhes que, quando o homem morria, tudo se acabava." ¶
Ao ler e refletir sobre estas palavras, pensei em como o presente se assemelha ao passado, quando aplicado a esta questão. Recentemente, em uma das estacas de Sião que visitei, um homem que se dizia de grande erudição declarou, perante uma assembleia pública, com artimanhas engenhosas e palavras lisonjeiras, àqueles a quem se dirigia, que seus antepassados pendiam dos ramos das árvores da floresta pela cauda. Com audácia, defendeu a teoria de que o homem havia evoluído gradualmente, sem esforço consciente, do tipo mais ínfimo de vida criada até o que hoje é, e que, assim como seu passado fora um contínuo processo de mudança, assim também seria o seu futuro. ¶
Nisso, pensei eu, ele é ao menos coerente, pois, se o homem nem sempre foi o que é agora, se é verdade que ele ascendeu gradualmente das ordens inferiores das coisas criadas, que mudanças as eras futuras não lhe poderão trazer! Tive ocasião de questionar a teoria defendida por esse homem, de apontar o que me pareciam ser suas inconsistências, com o resultado de que me foi pedido que lesse certos livros que tratavam do assunto da evolução; alguns deles, disse-se, eram de uso muito geral em nossas escolas públicas. Assim o fiz, com o resultado de que minhas conclusões, a que já havia chegado há muito tempo, foram mais fortemente confirmadas do que nunca, e minha fé na palavra revelada do Senhor se fortaleceu, se é que isso era possível. ¶
A doutrina ensinada nesses livros vos leva ao reino da dúvida, ensina que esta terra e tudo o que nela existe são resultado do acaso, deixa-vos confusos quanto ao passado, incertos quanto ao presente, e sem esperança quanto ao futuro. A verdade, tal como revelada do céu, ensina o plano de um Criador infinitamente sábio, projetado para a realização de um propósito divino. ¶
Sei que se alegará que não sou capaz de discutir esta questão, que não sou um homem instruído, que não possuo diploma universitário e que, por consequência, sou incapaz de emitir um julgamento inteligente. Admito que não passei minha vida atrás de portas fechadas, lendo livros escritos por homens não inspirados, e aceitando suas conclusões sem reservas. Não a passei num esforço para produzir, por cruzamento, uma nova espécie de porquinho-da-índia, ou, por seleção e cultivo intensivo, uma nova variedade de ervilha; mas li alguns livros, estive em contato próximo com a natureza, não corrompida pela mão do homem, fui um observador e estudioso do que me cerca, até chegar a conclusões que me satisfazem, e que parecem justificar minha fé, e assim vou permitir-me pisar neste terreno tido por sagrado pelos homens da chamada erudição, e expressar a esta congregação o resultado de algumas de minhas observações. ¶
Esta moderna teoria da evolução sugere que, num período do passado tão remoto que é quase inconcebível, por alguma ação espontânea, a terra veio a existir. Aos poucos, a vida apareceu sobre ela; foi gradualmente mudando sob algum processo natural, até que o que, no início, era uma forma muito inferior de vida vegetal e animal evoluiu para o que o mundo hoje é, ¶
com o homem representando o seu mais elevado desenvolvimento. ¶
Considero certo que, se esta teoria for admitida, deve seguir-se logicamente que esta evolução de uma condição inferior ainda está em processo de desenvolvimento, e que, assim como o homem, no presente, não tem associação nem afinidade com a fonte da qual se diz ter surgido, assim, à medida que as eras passem, será tão diferente do que agora é quanto agora é diferente do que outrora foi. ¶
Em contraste com essa teoria, temos a doutrina ensinada pela Igreja de que a terra, e tudo o que nela existe, foram criados pelo fiat, ou decreto, de Deus. Que a terra, a vegetação e toda a vida foram criadas em períodos sucessivos, e, por último, o homem — à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou. A única coisa criada que estava à imagem de Deus, a única coisa criada dotada de razão, e, em certo grau, da inteligência do Criador. E Deus deu ao homem domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, e toda outra coisa criada. Por causa da transgressão, uma maldição recaiu sobre a terra, e foi decretado que espinhos e cardos seriam o seu produto espontâneo, que a tendência natural de tudo o que foi criado seria a decadência e a dissolução, e que a redenção dessas condições adversas só poderia vir por meio da aplicação da inteligência de que o homem fora dotado, e do esforço que ele empreendesse para subjugar a terra e redimi-la, até que fosse restaurada à sua glória paradisíaca. ¶
Desejo pedir aos defensores desta teoria da evolução sem esforço consciente que me apontem um único exemplo em que, dentro da conhecida ¶
história do mundo, algum ser vivo, sem a aplicação do esforço inteligente do homem — que é a aplicação da inteligência de Deus —, tenha mudado do que era para outra coisa, em que algo tenha ascendido de uma condição inferior para uma superior. Por outro lado, minha própria observação me ensinou que, no momento em que a coisa mais altamente desenvolvida é deixada a si mesma, entregue ao acaso, sem a aplicação inteligente da inteligência do homem, ela imediatamente reverte do que é para uma condição inferior, exatamente como o Senhor decretou que deveria ser. ¶
Sou um crente na evolução. Posso muito facilmente crer que meus antepassados possam ter vivido numa caverna ou no mais rústico tipo de habitação, ao passo que, hoje, vivem em palácios. Posso muito facilmente compreender que esses lares primitivos e simples possam ter sido aquecidos e iluminados pelo fogo produzido pelo atrito de gravetos, ao passo que hoje é produzido pela aplicação daqueles meios científicos que foram revelados ao homem por meio do Espírito de Deus, pelos quais ele foi capacitado a aplicar, para sua conveniência, os elementos que o cercam. Posso muito facilmente crer que, ao passo que cultivavam a terra com os mais primitivos instrumentos agrícolas e travavam suas batalhas com armas feitas de pedra, agora cultivam a terra pela aplicação dos métodos mais científicos, e que suas batalhas são travadas por processos impensados e desconhecidos do homem primitivo. Posso facilmente compreender que recolhiam dos leitos dos rios e talhavam da rocha o metal nativo, que martelavam em ornamentos e talvez usavam ¶
como meio circulante, ao passo que agora os minérios são extraídos e os metais obtidos pelo mais intrincado processo químico. Nisso vejo o mais maravilhoso progresso, a mais admirável evolução; mas vejo em tudo isso, meus irmãos e irmãs, não o resultado do acaso, mas o desenvolvimento da mente do homem, que segue a ordem da mente de Deus; que, à medida que crescia, sua observação lhe ensinava que havia formas melhores de fazer as coisas do que a forma como as fazia, e que, à medida que refletia, pensava e estudava, Deus lhe dava sabedoria para prosseguir e assim aperfeiçoar o pensamento primitivo que originalmente tinha. Já vi as coisas mais belas do mundo vegetal, que a mão do homem e a sabedoria de todas essas eras criaram, quando deixadas a si mesmas por um curto período, entregues ao acaso, reverterem quase imediatamente à condição selvagem. Já vi cavalos e gado criados segundo o mais elevado padrão degenerarem-se ao serem deixados apenas por um curto período de tempo a si mesmos, ilustrando exatamente o que a palavra de Deus declarou: que a tendência natural de tudo o que pertence a esta terra é para o declínio, para a dissolução, e não para prosseguir indefinidamente sem esforço inteligente até que se alcance a perfeição. Mas um desses homens instruídos me disse, quando ilustrei meu pensamento dessa maneira: "Ora, isso é natural, é por causa do ambiente; esses cavalos degeneraram e se tornaram mustangues porque essa era exatamente a melhor condição para se adaptarem ao seu meio." Isso pode ser verdade, mas o argumento não se sustenta, porque tomei esses mesmos cavalos, comendo a mesma erva, bebendo a mesma água, expostos à mesma tempestade e ao mesmo sol, e, pela aplicação de minha própria inteligência, meu próprio julgamento, comecei a trazê-los de volta à condição em que antes se encontravam; mas isso não ocorreu com aqueles que o homem havia negligenciado e a que não dera atenção alguma. ¶
Assim, meus irmãos e irmãs, cheguei a esta conclusão, e é este o pensamento que desejo deixar em vossas mentes: que todo o desenvolvimento que há no mundo, toda a evolução que ocorreu, conduzindo de coisas menores a maiores, de condições piores a melhores, são resultados da inteligência de Deus, tal como representada na única coisa criada que está à sua imagem no mundo. ¶
Desejando, em certa época de minha vida, saber algo sobre as rochas, sobre a terra em que vivemos, tal como suas condições foram determinadas pela pesquisa científica, fui a uma livraria e comprei este pequeno livro, "Steele's Series in the Natural Sciences, Geology" [Série Steele de Ciências Naturais, Geologia], obra escrita por J. Dorman Steele, autor de obras de química, física, zoologia, botânica, astronomia, fisiologia e geologia, uma simples exposição das verdades científicas conhecidas pelo mundo naquela época, um livro que foi usado em milhares de escolas, um livro com o qual muitos de meus ouvintes estarão mais familiarizados do que eu, pois nunca o estudei sob a direção de um professor, mas o li e estudei com grande interesse por conta própria. Não esperava, ao final, encontrar o que descobri. Jamais esquecerei a impressão que as palavras deste homem causaram em minha mente, na conclusão desta pequena obra, e desejo lê-las a vós, porque merecem consideração, vindas que são de um ¶
homem de pensamento profundo e grande erudição: ¶
"Temos traçado, na luz difusa do passado, a história de nossa terra e de seus habitantes. Em toda parte encontramos uma Mão Divina moldando e formando para realizar um ideal Divino. 'No princípio, Deus.' Nada podemos acrescentar à antiga declaração hebraica. Voltamos à origem do homem, e ali também repousamos sobre aquela verdade sublime: 'No princípio, Deus.' Levamos nossa imaginação, em pensamento, de volta ao tempo em que nossa terra era 'sem forma e vazia', e aqui, novamente, sentimos a força daquela mesma afirmação: 'No princípio, Deus.' ¶
"Foi o homem criado diretamente pelo fiat de Deus, ou por algum processo intermediário de causas secundárias? 'Ai da impotência da ciência e do alcance de nossa inteligência finita!' Trazemos os mais sutis agentes para a realização de nossos desígnios — calor, luz, eletricidade — mas, quando buscamos deles desenvolver até mesmo as forças intangíveis que revestem de verdura a rocha em decomposição, ou cobrem de limo o charco estagnado, o fracasso inevitavelmente nos espera. Em vão buscamos associar a manifestação vital à ação elétrica; podemos resolver o organismo vivo em células, grânulos e núcleos, mas a vida escapa à nossa mais orgulhosa filosofia. Se, sob certas condições, a matéria inorgânica assume forma orgânica, essas condições e as leis que as regem nos são igualmente desconhecidas. E assim paramos no limiar da vida criada e, colocando-nos reverentemente de lado, depomos humildemente nossa pequena sabedoria ao reconhecer a insondável grandeza do único e todo-sábio Criador." ¶
Meus irmãos e irmãs, o pensamento que desejo deixar convosco é este: em vossa busca pelo conhecimento, em vosso desejo de tornar-vos profundos, em vosso estudo da filosofia, não perdais de vista este único pensamento: que Deus, o Criador do céu e da terra, é o autor da inteligência e de toda a luz, o conhecimento e a sabedoria que vieram ao homem, ou que jamais lhe hão de ¶
vir emanam dessa fonte. Não vos permitais, por causa das palavras dos homens, de artimanhas engenhosas e palavras lisonjeiras — que estão aqui, tal como estavam entre os nefitas —, ser iludidos e desviados da verdade eterna de que devemos reconhecer a Deus, nosso Pai, que é o autor de todas as coisas, o Criador do céu e da terra, a quem todos os homens devem deferência, lealdade e serviço, quer os prestem ou não. Não negueis a expiação realizada por seu Filho Unigênito. Não vos deixeis possuir pelo pensamento de que esta vida é tudo o que existe da existência humana, porque isso é uma falácia. Dou-vos testemunho disso, em toda humildade. Tenho procurado entender, tenho estudado, tenho buscado o Senhor desde a minha juventude até o presente, quando já envelheço. Constato, por minha própria observação, meu próprio estudo, e o testemunho que Deus me deu, que a verdade eterna dessas coisas se torna cada vez mais forte, se é que isso era possível. Ele restaurou a verdade à terra por meio do instrumento do Profeta Joseph Smith; a plenitude do evangelho está aqui; é o poder de Deus para a salvação, e nela há vida eterna para todos os que creem e obedecem. ¶
Que o Senhor nos preserve das ilusões que grassam pela terra, firme a fé em nossos corações, para que nos apeguemos firmemente à barra de ferro, que é a palavra de Deus, e ela nos conduzirá em segurança, até encontrarmos nosso caminho de volta à presença de nosso Criador, e então compreenderemos. Sim, tem havido evolução; a evolução continuará até que nos tornemos semelhantes a ele, conhecendo como somos conhecidos, vendo como somos vistos, e compreendendo ¶
que, em todas estas maravilhosas obras que nos cercam, a sabedoria de Deus se manifesta, e que as leis pelas quais foram realizadas são simples, e nos serão simples quando chegarmos a compreendê-las. ¶
Que o Senhor nos preserve a todos na verdade, e nos guarde das ilusórias armadilhas do adversário, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Um solo de baixo, intitulado "Two Men Went Up into the Temple to Pray" [Dois Homens Subiram ao Templo para Orar], foi cantado por Everard McMurrin. ¶