Condições na Missão Mexicana
Rey L. Pratt
Confio sinceramente, meus irmãos e irmãs, que, nos poucos minutos que ocupar, eu possa ser inspirado pelo Senhor, para que seja auxiliado a relatar-vos as condições tais como existem em nossa missão mexicana, e tais como existem na nação mexicana, entre aquele povo. ¶
Gostaria de chamar vossa atenção, a título de prefácio, para as palavras do Senhor, faladas por meio do Profeta Leí, a respeito das condições que sobreviriam a seus descendentes, caso abandonassem o Senhor. Quando Leí foi informado desta terra e instruído a trazer sua família e vir para cá, foi também informado sob quais condições seu povo poderia permanecer na posse pacífica da terra. Ele diz: ¶
"Portanto, eu, Leí, obtive uma promessa de que se aqueles que o Senhor tirar de Jerusalém guardarem seus mandamentos, prosperarão na face desta terra; e permanecerão ignorados de todas as outras nações, a fim de que ocupem esta terra para si próprios. E se guardarem seus mandamentos, serão abençoados na face desta terra e não haverá ninguém para molestá-los nem para tirar a terra de sua herança; e habitarão em segurança para sempre. ¶
"Mas eis que quando chegar o tempo em que degenerarem, caindo na incredulidade, depois de haverem recebido tão grandes bênçãos das mãos do Senhor — tendo conhecimento da criação da Terra e de todos os homens, conhecendo as grandes e maravilhosas obras do Senhor desde a criação do mundo; tendo recebido o poder de fazer todas as coisas pela fé; possuindo todos os mandamentos desde o princípio e tendo sido trazidos para esta preciosa terra de promissão pela sua infinita bondade — eis que digo: se chegar o dia em que rejeitarem o Santo de Israel, o verdadeiro Messias, seu Redentor e seu Deus, eis que sobre eles recairão os julgamentos daquele que é justo; ¶
"Sim, ele trará outras nações até eles e dar-lhes-á poder; e tirar-lhes-á as terras de sua posse e fará com que sejam dispersados e feridos." ¶
Sem entrar em detalhes, irmãos e irmãs, os lamanitas que habitam a terra abandonaram, em sua história passada, seu verdadeiro Messias, seu Redentor e seu Deus, e, como resultado disso, trouxeram sobre si o cumprimento desta promessa de condenação que o Senhor fez por meio de seu pai Leí. Contrariamente às opiniões gerais, entre um grande número de pessoas com quem tenho contato, desejo afirmar que o povo mexicano é, em sua grande maioria, descendente, descendente literal, de Leí, por meio de seus filhos Lamã e Lemuel, e são os lamanitas. Uma proporção muito pequena do povo que habita o México é de sangue misto; a grande maioria são tribos indígenas puras, mas foram conquistadas pelas mãos das outras nações que o Senhor havia dito viriam entre eles, caso desobedecessem a Ele e abandonassem o evangelho tal como Ele o revelara. O mesmo é verdade a respeito de todos os países latino-americanos ao sul daqui. As nações gentias, conforme se explica em outras partes do Livro de Mórmon, entraram e literalmente tomaram daquele povo as terras de sua herança, a tal ponto que as estatísticas divulgadas a respeito do México, nos últimos dias do regime de Porfirio Diaz, afirmam que, dos quinze milhões de habitantes que há no México, apenas dois milhões são proprietários de terras. ¶
Minha observação levou-me a saber que esses dois milhões de proprietários de terras no México são os descendentes dos conquistadores espanhóis que ali entraram. Hernando Cortez, no ano de 1519, tomou do povo daquela terra toda parte de suas posses, das terras de sua herança; e não apenas lhes tomaram as terras, mas lhes tomaram também as liberdades pessoais. Acreditavam que o direito de conquista estava investido na Santa Sé, e que lhes fora dado conquistar aquele povo, e fizeram deles vassalos, servos e escravos de seu rei. Em recompensa pela parte que tomaram, receberam enormes concessões de terra, e concessões dos nativos da terra, com os quais cultivar seus imensos domínios. Todo o vale de Oaxaca, um vale quase tão grande quanto o vale do Lago Salgado, foi dado a um só homem, e trinta mil homens da população indígena lhe foram dados para cultivar sua terra. ¶
Ora, as condições assim iniciadas pela conquista do México pelos espanhóis têm-se perpetuado até esta data. Na parte sul do país, essas imensas plantações são trabalhadas apenas por mão de obra humana. Os ricos donos de fazendas introduziram muito pouca maquinaria, achando mais barato e mais de seu interesse trabalhar seus imensos domínios à custa dos nativos da terra, porque a mão de obra ali tem sido tão acessível a eles, e tão barata. Homens foram literalmente trabalhados até a morte em algumas das plantações do sul. ¶
Talvez muitas pessoas se surpreendam ao saber que um sistema de escravidão existia no México, até a época em que Madero iniciou sua revolução, um sistema de escravidão que, em todos os aspectos, era tão mau quanto a escravidão que existia no Sul. Membros de nossa própria Igreja caíram naquela armadilha ali, os membros nativos da Igreja, e foram vendidos como escravos. Recordo-me, agora mesmo, de um jovem que foi atraído para longe de seu lar, perto da Cidade do México, e foi vendido como escravo lá no estado de Oaxaca, para trabalhar ali. Foi maltratado ali por três anos, e somente quando ficou tão absolutamente emaciado e tão enfraquecido pelo trabalho constante que já não podia trabalhar, foi jogado na selva como morto. Depois de recuperar-se, perto de um riacho, fez seu caminho de volta até sua família, e contou aos élderes e a mim, muitas vezes, suas experiências; e relatou as daquelas várias centenas de pessoas que estavam na plantação na época em que ali chegou. Havia apenas alguns poucos deles ainda vivos na época em que ele partiu. ¶
Ora, tem havido, no México, revoluções desde a época em que os espanhóis conquistaram o México, e as condições a que me referi são a causa dessas revoluções. O povo jamais foi conquistado em seu espírito, embora tenha sido conquistado e mantido subjugado por uma força superior à sua. Têm lutado pela liberdade, e foi esse desejo de participar na posse da terra, e no governo do país, que tornou possível a revolução de Madero ali, com a qual todos estamos familiarizados. Embora possa parecer diferente para aqueles que não estão muito familiarizados com ela, é um fato que a luta sempre se deu entre os dois poderes que mencionei — o povo rico, que são os descendentes dos conquistadores do país; e a parte empobrecida da população, que compreende a grandíssima maioria daqueles que não têm nada além de miséria, e que nem sequer possuem as roupas que trazem sobre o corpo. E, embora tenham surgido em suas fileiras homens que foram líderes, mas que depois lideraram contrarrevoluções contra o próprio povo que tentaram colocar no poder, isso sempre se deu por causa do lamentável fato, na natureza humana e no gênero humano, de que há muito poucos homens que não tenham um preço, e homens como Pasqual Orozco, e outros que lideraram contrarrevoluções contra a verdadeira luta pela liberdade, foram comprados pelos milhões das classes privilegiadas e ricas daquele país. ¶
Minhas observações, e cartas que recebi de nossos mil e duzentos Santos nativos, os representantes deles que temos na Cidade do México e arredores, ensinam-me que as condições não estão melhores agora do que estiveram nos últimos quatro ou cinco anos. Tenho cartas datadas apenas do mês passado, informando-me que o líder revolucionário do sul, Zapata, está a vinte milhas da capital do México com suas forças; e sabemos, por reportagens de jornais, que a causa revolucionária está ganhando terreno no norte. ¶
Ora, muitas pessoas se perguntam por que o homem reconhecido como presidente provisório do México não consegue efetuar a pacificação daquele país. Gostaria de dar-vos minha opinião a respeito, irmãos e irmãs. É simplesmente isto: o General Carranza é, por nascimento e por formação, e em todos os demais aspectos, um aristocrata — uma das classes privilegiadas do México, e é um homem que não consegue inspirar nenhuma confiança no povo mexicano. A ideia geralmente prevalente de que o povo mexicano preferiria lutar a comer é, para mim, errônea. Não acredito nisso; mas o povo mexicano jamais deporá novamente suas armas até que o povo do país tenha a oportunidade de participar na posse do país, e no governo do país, na política do país, algo que jamais tiveram até o presente momento, desde que o país foi conquistado pelos espanhóis. Jamais tiveram propriedade, e jamais tiveram liberdade política, jamais tiveram liberdade religiosa, naquele país até esta época. Até que chegue o tempo em que obtenham essas coisas, as massas do povo, os treze milhões de pessoas, jamais deporão suas armas, segundo minha crença. ¶
Tive o privilégio de permanecer naquele país durante três anos da presente revolução, e conheci aqueles soldados. Nas encostas frias do Vulcão, a leste do México, vi soldados das partes tropicais do país, em farrapos, e perguntei-lhes por que desejavam continuar a luta contra tais adversidades, e diante de tão grandes dificuldades. ¶
Disseram-me: "Pouco importa para nós os sofrimentos pelos quais tenhamos de passar, mas estamos decididos a que nossos filhos, se for possível de nossa parte, herdem algo além da miséria em que tivemos de viver, e jamais deporemos novamente nossas armas até que se estabeleça a liberdade para a classe humilde do México." ¶
Na Cidade do México hoje, há maior sofrimento, segundo a carta que recebi, do que jamais houve. O dinheiro do país está absolutamente desvalorizado no próprio país, e não conseguem comprar as coisas necessárias para subsistir, e essas coisas não estão disponíveis ali, mesmo que tivessem o dinheiro para comprá-las. Recebi uma carta de um presidente do ramo muito sóbrio e bom que temos ali, em cuja palavra tenho toda confiança, na qual disse que muitas pessoas nas ruas da Cidade do México estão hoje recolhendo cascas de frutas ou qualquer outra coisa que possam apanhar e devorar, para satisfazer as dores da fome. Ele diz que há muitos de nossos próprios Santos nativos, bons, verdadeiros e consistentes membros da Igreja, que pagaram seu dízimo quando ganharam dinheiro, que compareceram às suas reuniões, e que atuaram como mestres, como missionários locais, nas reuniões, e como oficiais nas organizações da Igreja, tal como as temos estabelecidas na missão, e que há, entre eles, muitos que não comem senão uma refeição a cada quarenta e oito horas. ¶
Tais são as condições naquele país, no momento presente. Irmãos e irmãs, dói-me ter de falar sobre essas condições. São condições que guardo em meu coração, e oro constantemente ao Senhor para que outras condições possam sobrevir, porque tenho em mente a palavra do Senhor tal como veio a Néfi, o filho deste mesmo Leí, sobre quem tenho lido, quando o Senhor lhe mostrou as mesmas coisas que mostrara a seu pai. Mas mostrou-lhe ainda mais, e disse-lhe: "O Senhor Deus não permitirá que os gentios destruam completamente a mescla de tua semente, que está entre os teus irmãos, nem permitirá que os gentios destruam a semente de teus irmãos." ¶
Se tivesse tempo, irmãos e irmãs, poderia citar-vos passagens em que o Senhor disse que o evangelho seria restaurado até mesmo entre essa mesma nação gentia que viria feri-los, e que seria restaurado neste período, e que um livro viria a lume, contendo a plenitude do evangelho eterno, e contendo uma história desse mesmo povo, e que haveria muitos entre os gentios que creriam nas palavras do livro que seria escrito, e que o levariam de volta aos remanescentes da semente de Leí, para sua redenção. Tenho tanta fé no cumprimento dessa promessa quanto tenho no cumprimento que temos testemunhado em seu favor hoje. ¶
Sinto, meus irmãos e irmãs, uma honra em ser chamado para levar o evangelho a esse povo pisoteado, e desejo testificar-vos que, ao penetrardes sob a crosta da maldição que sobre eles repousa, por meio da chave do evangelho que levamos em nossas mãos, podeis sentir neles o verdadeiro sangue de Israel. São um grande povo, e tenho fé absoluta em sua redenção. Desejo convidar a caridade do povo da Igreja para com eles. Podem ter cometido depredações contra nós, e, se fosse apenas uma questão política, se fosse apenas uma questão nacional, se fôssemos apenas americanos, poderíamos ter ressentimento para com eles, mas recebemos a palavra do Senhor de que são nossos irmãos; e não podemos zombar dos judeus, porque, por meio dos judeus, temos a Bíblia, e não precisamos zombar da semente de Leí, porque, por meio deles, temos o Livro de Mórmon. Nós, de todos os povos do mundo, deveríamos ser os mais caridosos para com eles; ter o mais bondoso e o maior desejo de emprestar nossos esforços para sua redenção, e sermos contados entre aqueles que creem literalmente nas palavras do livro, e ter o desejo de levar-lhes as palavras do livro, para sua conversão à verdade, e para sua redenção no evangelho de Jesus Cristo. ¶
Nossos Santos, desejo dizer ao concluir, são fiéis naquela terra. Os mil e duzentos que ali temos reúnem-se domingo após domingo, mesmo em sua pobreza, e participam do sacramento e ensinam uns aos outros. As Sociedades de Socorro mantêm sua identidade, assim como as Escolas Dominicais, e estão trabalhando pela assistência e pela ajuda mútua; e oram pelo dia em que as nuvens da guerra se dissiparão, e em que os servos do Senhor serão permitidos vir novamente ensinar e ajudá-los, e levar o evangelho a seus irmãos e a suas irmãs que ainda estão nas trevas. Também oro por essas coisas, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶