Pulpit

Uma obra maravilhosa e um prodígio

Orson F. Whitney

Conferência Geral de Outubro de 1916·Sessão da Tarde do Segundo Dia·1916-10-07

Setecentos anos antes do nascimento de nosso Salvador, um profeta de Deus no hemisfério oriental predisse o advento de "uma obra maravilhosa e um prodígio." O "mormonismo", assim chamado, segundo a fé de seus adeptos, é o cumprimento daquela antiga predição. E, de fato, seria difícil conceber algo mais maravilhoso, mais prodigioso, do que os fatos fundamentais sobre os quais repousa a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O que poderia ser mais estranho, mais inesperado, do que a reabertura dos céus numa época em que se

cria e afirmava que os céus estavam permanentemente selados, que Deus não mais falava ao homem, que a revelação havia cessado, e que os anjos jamais voltariam a comungar com os habitantes da terra? Mas eis que os céus se abrem; anjos vêm à terra; e não somente isso, mas o próprio Deus desce de seu glorioso trono e aparece ao homem, abrindo a última e maior das dispensações do evangelho. Um anjo revela o passado oculto do continente americano — o Livro de Mórmon, contendo a plenitude do evangelho, uma história das Américas em tempos pré-históricos, e uma profecia de seu maravilhoso futuro. Um anjo restaura o Sacerdócio Aarônico, que detém as chaves do arrependimento e do batismo; e outros anjos trazem de volta o sacerdócio superior, o Sacerdócio de Melquisedeque, que detém as chaves dos mistérios celestiais; e sob esta autoridade divina delegada, sem a qual nenhum homem pode legalmente representar Deus, ou administrar as sagradas ordenanças do evangelho, a Igreja de Cristo é organizada mais uma vez sobre a terra. Verdadeiramente, uma obra maravilhosa e um prodígio — tão maravilhosa, tão prodigiosa, que a maioria dos homens a rejeita, considerando-a uma fábula. E, contudo, ela não é nada mais nem nada menos do que o simples cumprimento da profecia.

Esta Igreja foi fundada com um propósito definido. Não é apenas mais uma acrescentada às centenas de seitas religiosas de que o mundo está cheio. É o estandarte erguido para o ajuntamento do Israel escolhido de Deus dos quatro cantos do globo, com o propósito de edificar uma Sião, a Nova Jerusalém, e preparar um povo para a gloriosa vinda do Senhor. É uma obra tanto iconoclasta quanto construtiva. Já se fez referência, por

oradores anteriores, à mudança de credos e à ruptura de antigas tradições, como resultado da restauração do evangelho eterno. Não tenho tempo para detalhes; só posso tocar nos pontos altos e lançar alguns pensamentos pertinentes a este tema. Chamo vossa atenção para o fato de que a ciência, a arte, a descoberta e a invenção têm complementado a obra de pregar o evangelho. Homens instruídos, investigadores e demonstradores eruditos têm seguido os passos do Profeta dos Últimos Dias, confirmando as doutrinas que ele ensinou, e praticamente prestando testemunho de sua verdade. Vivemos numa época de prodígios, de milagres; pois, afinal, o que são milagres, senão métodos aperfeiçoados de fazer as coisas, acompanhados, é claro, de uma medida maior de poder do que aquela geralmente possuída e exercida pelo homem? Vós que estivestes presentes a esta conferência e à Feira Estadual, agora em curso, vistes, ontem à noite e ontem, o que teria sido considerado um milagre por pessoas que viveram há menos de cem anos. Contemplastes uma aeronave navegando pelos céus. Quando a vi, lembrei-me das palavras do poeta-profeta Tennyson:

"Mergulhei no futuro,

Tão longe quanto o olho humano podia ver; Vi a visão do mundo,

E toda a maravilha que haveria de ser; Vi os céus se encherem de comércio,

Argosias de velas mágicas, pilotos do crepúsculo purpúreo,

Descendo com fardos preciosos; Ouvi os céus se encherem de gritos,

E choveu um orvalho medonho Das aéreas frotas das nações,

Enlaçadas no azul central. Ao longo do sussurro do mundo inteiro

Do vento sul que corre quente, E os estandartes dos povos

Mergulhando através da tempestade de trovões. Até que o tambor de guerra não mais palpitasse,

E as bandeiras de batalha fossem recolhidas No parlamento do homem,

A federação do mundo. Ali o bom senso da maioria

Há de manter em respeito um reino inquieto, E a terra bondosa há de adormecer,

Envolta na lei universal."

Nestes belos versos, o poeta inglês descreve a vinda da aeronave e o advento do Milênio, uma predição que nós, em nossos dias, vimos em parte cumprida. Esta profecia foi proferida há sessenta anos e mais. O que trarão os próximos sessenta anos? Provavelmente a realização completa do prognóstico do poeta.

O que teria pensado o primeiro homem — o primeiro homem branco que jamais entrou nesta região — se pudesse ter "mergulhado no futuro" e visto o que agora contemplamos? Sabeis quem foi esse homem? Foi um sacerdote espanhol chamado Escalante, que veio de Santa Fé, no Novo México, há cento e quarenta anos, partindo em julho de 1776, o próprio mês e ano em que a Declaração de Independência foi assinada na Filadélfia, e uma nova nação nasceu nas costas do Atlântico. A região compreendida dentro dos atuais estados de Utah, Nevada, Califórnia, Arizona e Novo México pertencia então à Espanha, e a maior parte dela ficava no coração do que, num período posterior, foi designado nos mapas e nos livros escolares como "O Grande Deserto Americano," uma região infestada de feras e selvagens. Naquela época, havia apenas duas cidades de alguma importância em toda essa vasta extensão de terra. Uma era Santa Fé, capital da província espanhola do Novo México; e a outra era Monterey, na costa marítima da Califórnia. Santa Fé estava na segunda metade de seu segundo século, mas

Monterey tinha apenas seis anos. Monterey havia sido transformada em porto de entrada pelo governo espanhol, para a transmissão de tropas e suprimentos à capital neomexicana, e era importante que se abrisse uma estrada entre os dois lugares. O Padre Escalante, que tinha experiência entre os índios, ofereceu-se voluntariamente ao governador do Novo México para buscar tal rota — uma antiga trilha espanhola que partia para o oeste, de Taos. Com sete companheiros, partiu de Santa Fé com esse propósito. Seguindo um curso tortuoso para o noroeste, atravessaram o Rio Green, subiram o Rio Uintah, e chegaram aos cumes das Montanhas Wasatch, próximo às cabeceiras do Rio Provo. Dali desceram para o Vale de Utah. Os "yutas" nativos os receberam com bondade, mas não puderam dar-lhes informação alguma a respeito de uma rota até o mar, nem de colonos brancos em toda a região circundante. Os exploradores não avançaram mais para o norte, embora tivessem ouvido falar do Grande Lago Salgado, e, depois de batizar alguns dos riachos e dar-lhes nomes espanhóis, seguiram para o sul com dois guias nativos. Descendo o Rio Sevier, e atravessando as montanhas por volta de onde hoje fica Beaver, encontraram-se no vale desde então chamado Escalante. Ali seus suprimentos de alimento se esgotaram, e, a contragosto, abandonaram a expedição. Voltando-se para o leste, viajaram em direção ao Colorado, atravessaram o Grande Cânion, e, pelas aldeias índias dos moquis, chegaram a Santa Fé em janeiro de 1777. Esses foram os primeiros homens brancos de quem se tem notícia terem penetrado nestas paragens.

Depois vieram os caçadores de peles britânicos e americanos. A Grã-Bretanha herdara o comércio de peles dos franceses, com a conquista do Canadá, e estabelecera a poderosa Companhia da Baía de Hudson, que, por muitos anos, manteve domínio quase incontestado entre as tribos indígenas do noroeste. John Jacob Astor, o patriarca do comércio de peles nos Estados Unidos, propôs-se a romper o monopólio britânico e fazer de Nova York, em vez de Londres, o entreposto daquele lucrativo empreendimento. Em 1808-09, estabeleceu o posto comercial de Astoria, na foz do Rio Columbia, com a intenção de fundar postos semelhantes ao longo dos rios Columbia e Missouri. Mas a guerra de 1812 interrompeu suas operações, e somente em 1822 é que a Companhia Americana de Peles foi organizada em St. Louis pelo General William N. Ashley e outros. Estes levaram suas brigadas de caçadores de peles através das Montanhas Rochosas, e, por volta de 1825, já estavam firmemente estabelecidos na região do Rio Green. Um desses caçadores era James Bridger, tido como o descobridor do Grande Lago Salgado. Ele construiu o famoso Forte Bridger, cujo sítio se encontra hoje no sudoeste de Wyoming. O chamado "forte" consistia em algumas casas de troncos cercadas por uma paliçada. O General Ashley construiu um forte semelhante junto ao Lago Utah, então conhecido como Lago Ashley. Nesses solitários fortes de toras viviam os caçadores e negociantes com suas esposas índias e filhos mestiços, atraindo o urso, armando armadilhas para o castor, e servindo de guias para viajantes ocasionais ou comboios de emigrantes eventuais, a caminho do oceano ocidental. A maior parte dessa emigração se destinava ao Oregon, então ocupado conjuntamente pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos; o restante ia para a Califórnia, que ainda pertencia ao México, como herança da Espanha.

Em 1847, os Santos dos Últimos Dias, sob a liderança do Presidente Brigham Young, começaram a cumprir a predição do Profeta Joseph Smith, que declarara, dois anos antes de sua morte, que os Santos "se tornariam um povo poderoso no meio das Montanhas Rochosas." No livro de Doutrina e Convênios há uma revelação intitulada "A Palavra e a Vontade do Senhor", a um povo acampado junto ao Rio Missouri, que deixara para trás a civilização, que fora expulso de seus lares e se preparava para atravessar as grandes planícies e montanhas e estabelecer-se nesta terra então vazia e desolada. Aquela "Palavra e Vontade do Senhor" ordenou ao povo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que se organizasse em companhias de centenas, cinquentas e dezenas, em preparação para a longa e fatigante jornada de carroça de bois até o Vale de Salt Lake.

E agora eu gostaria de fazer algumas perguntas: seria sensato ou sábio, neste momento, alguém tentar cumprir os termos daquela revelação? Que pensaríeis de um homem que, numa época de ferrovias, automóveis e aeroplanos, atrelasse uma junta de bois aqui em Utah, e partisse rumo ao Rio Missouri? Que pensaríeis de um homem que armasse uma armadilha para um urso ou um castor aqui mesmo, em frente ao Escritório de Informações? Pensaríeis que ele deveria procurar o Escritório para obter uma informaçãozinha atualizada, não é verdade? A lição que desejo transmitir é esta: somos um povo progressista, pois somos o povo de Deus, e, como tal, temos o direito de usar estes métodos modernos, estas facilidades científicas aperfeiçoadas, que o Senhor proveu e colocou em nossas mãos para a promoção de sua obra maravilhosa.

"Novas ocasiões ensinam novos deveres, O tempo torna o bem antigo inconveniente; Devem eles seguir para cima e para diante, Os que quiserem acompanhar a Verdade; Eis que, diante de nós, brilham suas fogueiras de acampamento, Nós mesmos devemos ser Peregrinos, Lançar nosso Mayflower, e navegar audazmente Através do desesperado mar de inverno; Nem tentar o portal do futuro Com a chave enferrujada de sangue do passado."

Muitos anos atrás, veio a Utah um erudito prelado da igreja greco-católica. Vós que estais familiarizados com a história da igreja cristã sabeis que ela se dividiu, nos primeiros séculos, em duas partes, uma com sede em Roma, e a outra com sede em Constantinopla. A igreja ocidental, com o Papa de Roma à sua frente, ficou conhecida como igreja católica romana; enquanto a igreja oriental, com o Patriarca de Constantinopla como seu principal dirigente, é a igreja greco-católica de hoje. Este homem erudito — creio que era o Arcebispo de Atenas — visitou Salt Lake City, e tive uma conversa com ele. Havia assistido a uma reunião sacramental "mórmon", e tinha muito a dizer em crítica ao nosso método de administrar a Ceia do Senhor, particularmente ao nosso uso de água, em vez de vinho, em tais ocasiões. Disse que lhe causava horror ver o povo sorvendo a água; e apontou o fato, pois é um fato, de que, segundo a Bíblia, o Salvador, ao instituir o sacramento entre os judeus, usou vinho, declarando que era seu sangue, ou que representava seu sangue. Eu poderia acrescentar que o Livro de Mórmon também declara que o Salvador usou vinho quando introduziu o sacramento entre os nefitas.

Meu amigo greco-católico, quer o soubesse quer não, havia tocado no grande traço distintivo que diferencia a Igreja de Deus de todas as outras igrejas debaixo do sol — no fato de que, ao passo que elas são fundadas sobre livros, tradições e os preceitos dos homens, esta Igreja é edificada sobre a rocha de Cristo, sobre o princípio da revelação imediata e contínua. Os Santos dos Últimos Dias não fazem as coisas apenas porque aconteceram de estar impressas num livro. Não fazem as coisas porque Deus assim ordenou aos judeus; nem fazem ou deixam de fazer coisa alguma por causa de instruções que Cristo deu aos nefitas. Tudo o que é feito por esta Igreja é porque Deus, falando dos céus em nossos dias, ordenou a esta Igreja que o fizesse. Nenhum livro preside esta Igreja, e nenhum livro está em seu fundamento. Não podeis empilhar livros suficientes para ocupar o lugar do sacerdócio de Deus, inspirado pelo poder do Espírito Santo. Essa é a constituição da Igreja de Cristo. Se usamos água em vez de vinho no sacramento da Ceia do Senhor, é porque Cristo assim o ordenou. A revelação divina adapta-se às circunstâncias e condições dos homens, e mudança após mudança se sucede, à medida que a obra progressiva de Deus avança para seu destino. Não há livro grande ou bom o bastante para presidir esta Igreja.

Ao dizer isso, falo com toda a reverência devida à palavra escrita de Deus, aquela que está impressa nos livros, parte da qual pode estar obsoleta, tendo cumprido seu propósito e sido posta de lado, enquanto a outra parte é vigorosa, cheia de vida, e aplicável a nosso estado presente — nosso grau presente de desenvolvimento. Mas mesmo essa parte deve ser interpretada corretamente. Nenhum homem deveria contender pelo que está nos livros, diante do porta-voz de Deus, que fala por ele e interpreta sua palavra. Contender assim é preferir a letra morta ao oráculo vivo, o que é sempre uma posição falsa. O que o Senhor disse aos judeus e aos nefitas, há dois mil anos, ou o que disse aos Santos dos Últimos Dias há cinquenta ou sessenta anos, não tem força alguma neste momento, a menos que esteja de acordo com a revelação dos dias atuais, com as instruções mais recentes do Senhor a seu povo, por meio de seu servo ou servos escolhidos ou designados; e aqueles que ignoram esse fato correm o risco de se meterem em dificuldades. É a palavra mais recente de Deus que deve ser atendida, com preferência a qualquer revelação anterior, por mais verdadeira que seja. O mesmo Deus que diz hoje "fazei assim e assado" pode revogar esse mandamento amanhã, sem ser mutável ou inconsistente. A legislatura, reunindo-se a cada dois anos, revoga leis antigas, ou aquelas de seus decretos anteriores que já cumpriram seu propósito; mas ninguém pensa em acusar os legisladores de inconsistência ou autocontradição. Como, então, pode Deus ser considerado inconsistente, se diz uma coisa hoje, e a modifica amanhã, ou no mês seguinte, ou no ano seguinte, a fim de adequar-se a circunstâncias alteradas? Ele ordenou a Abraão que matasse seu filho, e Abraão estava prestes a fazê-lo, quando o mesmo Deus disse: "Não estendas a tua mão sobre o moço." Abraão estava sob a obrigação de cumprir o primeiro mandamento, até que o segundo lhe fosse dado, e então ficou sob a obrigação de obedecer ao segundo mandamento, em vez do primeiro; e teria sido um transgressor, se assim não o fizesse.

Poderia prosseguir com o tema indefinidamente, mas encerrarei agora com este pensamento. A obra de Deus é progressiva. Muda de aparência, mas nunca de princípios. As verdades sobre as quais está fundada são eternas, inalteráveis, mas há muitos regulamentos que mudam, e mudam, e mudam, à medida que a obra de Deus avança. O evangelho eterno é algo mais do que uma saída de emergência, o caminho para escapar de uma situação perigosa. É o plano divino para o progresso humano, o caminho para a perfeição; e o espírito do evangelho é o espírito do aperfeiçoamento, do avanço. A obra de Deus prosseguirá, mas prosseguiremos nós, eu e vós, com ela? "Seus propósitos amadurecerão depressa, desdobrando-se a cada hora," mas amadureceremos e nos desdobraremos nós com eles? Esse é o problema. Levemo-lo a nossos corações. Como podemos avançar juntamente com a obra do Senhor? Há apenas um caminho, e é fazer as coisas que ele ordenou, e deixar por fazer as coisas que ele proibiu. Há duas maneiras de perder o espírito desta obra, e tornar-se não progressivo, estéril e infrutífero. A maneira mais rápida é transgredir os mandamentos de Deus, fazendo as coisas que ele disse que não faríamos; a outra maneira é negligenciar e ignorar o que ele nos ordenou fazer. Ó meus irmãos e irmãs da Igreja de Cristo! Estejamos despertos, de pé e em ação. Mantende vivo em vossos corações o espírito do progresso eterno, e prossegui para a perfeição. Não estejais entre os que se cansam de fazer o bem, que caem à beira do caminho e permitem que a grande procissão siga em frente sem eles. Continuai fazendo algo por Deus, para que o espírito de sua obra permaneça em vós, e vos guie por aquele caminho "que vai brilhando mais e mais até ao dia perfeito."

Como citar este discursoOrson F. Whitney, “Uma obra maravilhosa e um prodígio”, Conferência Geral de Outubro de 1916, Sessão da Tarde do Segundo Dia (1916-10-07). Pulpit Vault, 1916-10-13-orson-f-whitney-remarks-13. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).