A Personalidade e a Onipresença de Deus: Respondendo a Lyman Abbott
B. H. Roberts
Tenho em mãos um trecho de um número recente do Outlook, do qual o Sr. Lyman Abbott, um mestre religioso de grande fama, é o editor e também o editor-responsável. Nele, ele mantém uma seção em que responde a perguntas daqueles a quem chama de "amigos desconhecidos", e esta pergunta aparece nessa coluna: ¶
"Houve profetas depois de Cristo que acrescentem às grandes profecias algo de valor para os que desejam conhecer a verdade; ou basta conhecer os antigos profetas e os ensinamentos de Cristo?" ¶
A esta pergunta o Sr. Abbott dá a seguinte resposta: ¶
"Os profetas, diz-se-nos, falaram conforme eram movidos, inspirados, guiados pelo espírito de Deus. Não há razão para supor que Deus tenha deixado de mover-Se sobre os espíritos dos homens e de inspirá-los e guiá-los. Certamente não há nada no Novo Testamento que justifique tal opinião. Pedro declara expressamente que a promessa do Espírito Santo é para todos os que O receberem, e Paulo nos ordena orar para que sejamos cheios de toda a plenitude de Deus." ¶
À segunda parte da pergunta ele responde: ¶
"Por outro lado, não há razão para supor que algo tenha sido acrescentado às verdades substanciais a respeito de Deus e de Suas relações com Seus filhos, tal como ensinadas no Antigo e no Novo Testamento. Seus ensinamentos, de que Deus ama, serve e Se sacrifica em amor por Seus filhos, não deixam nada além a desejar, ou mesmo a conceber. Os profetas desde aquela revelação são guiados, não para acrescentar novas verdades, mas para mostrar como a verdade do amor, o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus e por seus semelhantes, deve ser aplicada em todas as situações e condições cambiantes da vida humana." ¶
Pensei que gostaria de ler essa passagem a esta grande multidão, porque, em certos aspectos, ela realmente marca um avanço nas concepções deste mestre religioso, ao menos no que diz respeito ao princípio da revelação. Na história primitiva de nossa Igreja, a grande novidade a ela associada, e a maravilha de sua mensagem, pareciam ser que Deus havia novamente falado dos céus; que anjos haviam visitado servos de Deus para restaurar o Evangelho. Foi neste ponto que nossa mensagem foi confrontada pelos mestres religiosos daquele tempo com a alegação de que o volume da escritura estava completo, e para sempre fechado; que a temível voz da profecia não mais se ouviria, que a última palavra da revelação já havia sido pronunciada. Nessa controvérsia, os primeiros élderes da Igreja obtiveram fácil vitória sobre seus opositores; porque lhes era tão simples fazer exatamente o que o Sr. Lyman Abbott aqui faz, a saber, apontar o fato de que a profecia não veio, em tempos antigos, pela vontade do homem, mas homens santos de Deus falaram conforme foram movidos pelo Espírito Santo, e onde quer que esse espírito seja possuído, ali está o espírito de profecia; e era uma inconsistência, da parte do mundo cristão, alegar que possuíam o Espírito Santo e, contudo, careciam do dom de profecia e de revelação. Por conseguinte, digo, a vitória dos servos de Deus nesse ponto foi facilmente obtida. O Sr. Abbott concede a razoabilidade desse argumento, pois ele mesmo o utiliza aqui. Mas o surpreendente, no que se refere a esta resposta dada à pergunta que lhe foi submetida, está na segunda parte dela, a saber, que, embora admita que o espírito de profecia possa ainda estar sobre os filhos dos homens, e que possa haver profetas entre os cristãos que possuam esse espírito, ainda assim nada de novo poderiam acrescentar ao que já foi revelado! Seria extremamente interessante mostrar ao Sr. Abbott, e aos que pensam como ele, quão grande é a necessidade de que a sabedoria divina se manifeste, e de que instruções divinas sejam dadas, sobre muitas questões religiosas vitais. Poder-se-ia chamar sua atenção, por exemplo, para o fato de que, na própria ordenança pela qual os homens podem ser admitidos na Igreja de Cristo — o batismo — a fórmula a ser usada, os sujeitos próprios do batismo e o propósito do batismo — em tudo isto, o mundo cristão parece incapaz de chegar a uma unidade de fé. É evidente que constituem problemas que não podem ser resolvidos pela erudição do mundo, aplicada à interpretação das escrituras, seja na língua original em que foram escritas, seja nas traduções; pois a cristandade está irremediavelmente dividida sobre estes assuntos, e o mundo carece da palavra de Deus para resolver suas disputas. ¶
Alegra-me saber que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que proclama a reabertura dos céus e a restauração do Evangelho, com autoridade divina para administrar suas ordenanças, tem uma mensagem para o mundo sobre este assunto do batismo; e que, quando o Senhor restaurou essa parte do Evangelho, adequadamente o fez enviando aquele que era conhecido em sua vida terrena, por excelência, como O Batista, e este restaurou a autoridade para batizar, e supervisionou os primeiros batismos nesta dispensação da plenitude dos tempos. Essa é uma verdade a mais que foi revelada pelo Senhor nesta dispensação. ¶
Poderia também chamar a atenção do Sr. Abbott e dos que pensam como ele para o fato de que, no importante assunto de administrar o santo sacramento — a Ceia do Senhor — o meio que Deus estabeleceu em Sua Igreja para a perpetuação — Santos dos Últimos Dias, notai bem! — para a perpetuação da vida espiritual que Ele traz à existência mediante a aceitação do Evangelho, eles — o mundo cristão — carecem da fórmula pela qual os emblemas de nossa Ceia do Senhor possam ser adequada e eficazmente consagrados a este grande propósito espiritual. Não sabem como administrar o santo sacramento da Ceia do Senhor para a perpetuação da vida espiritual do homem. Por meio do Livro de Mórmon e na Doutrina e Convênios, pelas revelações ali contidas, algo mais é acrescentado às verdades religiosas pelas quais os homens podem ser guiados, a saber, a oração de consagração do santo sacramento. ¶
Não foi, contudo, com o propósito de referir-me a estes assuntos, e a muitos outros que poderiam ser enumerados, se o tempo o permitisse, que apresentei a resposta do Sr. Abbott às perguntas que vos li. Não tinha em mente o batismo e o sacramento, mas isto: ele nos diz que nenhuma verdade adicional àquela contida no Antigo e no Novo Testamento a respeito de Deus pode ser esperada, não obstante a admitida presença do espírito de revelação entre os homens; e quis contrapor a afirmação deste homem às grandes verdades que foram anunciadas nesta conferência pelo Presidente Smith e pelo Presidente Penrose, como prova de que um mundo de conhecimento acrescido, de inteligência e de entendimento a respeito de Deus foi trazido à luz pelas revelações de Deus ao grande profeta desta nova dispensação, Joseph Smith. Duas coisas confundem o mundo hoje quanto a seu conhecimento de Deus — o dever que alguns sentem, de um lado, de considerar Deus como uma personalidade; e, de outro lado, de considerá-lO como espírito universal, presente em toda parte, e presente em toda parte com poder. A reconciliação das duas concepções intriga os teólogos e os filósofos. O Deão Mansel, em sua grande palestra, que equivale a um livro, sobre o tema "Limitações do Pensamento Religioso", escreve isto como sua conclusão: "É nosso dever pensar em Deus como pessoal, e é nosso dever crer que Ele é infinito;" embora confesse que há algo inconsistente nas duas visões. Herbert Spencer, apossando-se dessa inconsistência do deão e comentando as conclusões, observa: "Que aqueles que possam crer haja guerra eterna entre nossas faculdades intelectuais e nossas obrigações morais. Eu, por mim, não admito tal vício radical na constituição das coisas." Naturalmente, quando se fala de Deus como pessoa, especialmente se O considerardes pessoa no sentido de ser um indivíduo, de quem Jesus, o Cristo, como personagem ressuscitado, imortal e todo-glorioso, era a plena e completa manifestação — se assim considerardes a personalidade, então, ao pensar em Deus como presente em toda parte, difundido como presença e poder através de todas as Suas criações, parece de fato haver uma contradição; porque forma significa limitação no espaço, e a mais simples filosofia ensina que um corpo, um objeto de forma, delimitado como necessariamente é por certas linhas, não pode, no mesmo instante, estar presente em dois lugares diferentes; isso não pode ser. ¶
As escrituras, contudo, ensinam estas duas coisas a respeito de Deus, a saber, que Deus é uma pessoa, de quem Jesus Cristo é "o resplendor de Sua glória e a expressa imagem de Sua pessoa;" e ensinam também a onipresença, ou o estar-em-toda-parte, de Deus. Davi disse, ao contemplar talvez — não sei — mas talvez, a conveniência de afastar-se da presença de Deus, por causa de seus grandes pecados; mas, de qualquer modo, foi levado a declarar — e é escritura, e apresenta a verdade: ¶
"Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se eu subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se eu tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se eu disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz em redor de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti, mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa." ¶
Contudo, o Sr. Gladstone, o grande estadista inglês, assim como o Deão Mansel, sentiu a necessidade de aferrar-se à concepção da personalidade de Deus. Na verdade, considerava-a uma necessidade do mundo, e a esperança do futuro. Falando dessas questões a seu amigo, o Sr. Stead, que lhe perguntou, pouco antes de sua morte, qual era sua maior esperança para o futuro da humanidade, o grande estadista respondeu: ¶
"Diria que devemos buscar isso na manutenção da fé no invisível. Essa é a grande esperança do futuro. É o esteio da civilização; e por isso entendo uma fé viva num Deus pessoal. Não me aferro a correntes de tendência; depois de sessenta anos de vida pública, aferro-me mais fortemente do que nunca a esta convicção, aprofundada e fortalecida por longa experiência, da realidade, da proximidade e da personalidade de Deus." ¶
Mas observai que, entre estas grandes mentes, há acentuada diversidade de opinião a respeito desta grande questão, a necessidade de manter a fé num Deus pessoal, e, ao mesmo tempo, outros homens igualmente intelectuais duvidando da possibilidade de sustentar, na consciência e na fé, a personalidade de Deus e, ao mesmo tempo, Sua onipresença. Que bênção seria para sua geração aquele Profeta cuja mente fosse movida pelo espírito santo, ou que, por revelação direta e comunhão face a face com Deus, pudesse vir ao mundo com uma palavra vinda do íntimo das coisas, e resolver esta questão. O Sr. Abbott precisa que ela lhe seja resolvida, assim como outras pessoas precisam que lhes seja resolvida. Nenhuma sabedoria humana poderia encontrar essa palavra, mas o profeta inspirado desta nova dispensação vem com uma mensagem que a resolverá; uma mensagem que apela tanto ao entendimento quanto às emoções e aos anseios dos homens em sua sede de conhecimento de Deus; e permitir-me-ei tomar tanto de vosso tempo a ponto de ler essa breve mensagem, na qual ambas as grandes verdades — a personalidade de Deus e a universalidade de Sua presença — são sustentadas. Ouvi esta dulcíssima — não, não devo dizer que seja a mais doce mensagem, pois é difícil dizer qual é a mais doce entre as muitas mensagens que Deus está enviando ao mundo nesta nova dispensação; portanto, talvez não me seja lícito caracterizar uma como mais doce que outra, mas ouvi esta esplêndida mensagem que nossa Igreja tem para o mundo. Falando do Filho de Deus, esta revelação diz: ¶
"Aquele que subiu ao alto, como também desceu abaixo de todas as coisas, no sentido de que compreendeu todas as coisas, para que fosse em tudo e através de todas as coisas, a luz da verdade." Isto é, o poder pelo qual a verdade se manifesta. "Verdade essa que brilha." Isto é, é evidente, não oculta; está diante de vossa vista. "Verdade essa que brilha. Essa é a luz de Cristo." Peço-vos que vos lembreis desta frase. "Como também ele" — esta luz de Cristo — "está no sol e é a luz do sol e o poder pelo qual foi feito. ¶
"Como também a luz das estrelas e o poder pelo qual foram feitas; ¶
"E também a Terra e seu poder, sim, a Terra sobre a qual estais. ¶
"E a luz que agora brilha, que vos dá luz, é por meio daquele que ilumina vossos olhos, que é a mesma luz que vivifica vosso entendimento." ¶
O apóstolo João fala dela como "a luz que alumia todo homem que vem ao mundo." Jó deve tê-la tido em mente quando disse: "Há um espírito no homem, e a inspiração de Deus lhe dá entendimento." Mas, para continuar com a revelação na Doutrina e Convênios: ¶
"Que é a mesma luz que vivifica vosso entendimento;" e agora a mensagem, "luz essa," o poder criador, o poder sustentador dos mundos, o poder que inspira inteligência — "luz essa que procede da presença de Deus para encher a imensidade do espaço. ¶
"A luz que está em todas as coisas; que dá vida" — e, portanto, a força vital no universo — "que dá vida a todas as coisas; que é a lei pela qual todas as coisas são governadas: até mesmo o poder de Deus, que se assenta em Seu trono, que está no seio da eternidade, que está no meio de todas as coisas." ¶
Ora, meus amados irmãos, com esta grande verdade diante de vós, é fácil compreender o grande mistério que confunde o mundo, a saber, como sustentar em vossa consciência, em vossa fé, a crença de que Deus é uma personalidade no sentido de ser um indivíduo glorificado, tal como era o Cristo depois de Sua ressurreição, e agora é — uma personagem imortal. Não sabemos, talvez, em que esfera resplandecente, como personalidade, Ele tem Seu lar, mas onde quer que esteja, como personalidade, o Cristo é como quando deixou a terra — depois de Sua ressurreição — Ele é como será quando retornar à terra, conforme exposto nas observações do Élder Talmage nesta conferência. É também possível, ao mesmo tempo, considerá-lO como presença e poder universais — que os homens corretamente chamam Deus — procedendo da presença pessoal do Cristo, também da presença de Deus, o Pai, e da presença do Espírito Santo — dali emana, para as profundezas do espaço, o Espírito que, emanando destas Santas Personagens, enche a imensidade do espaço com a própria presença e poder de Deus. Essa presença e poder são também constantemente mantidos, e são a presença real de Deus em toda consciência, em ver, ouvir, sentir, saber e amar. Digo que esta presença, chamada, na revelação que li, "a luz de Cristo" — porque é de Sua natureza, e projeta fortemente para o espaço Seus atributos — este Espírito é presença real de Deus; pois, assim como o raio de luz não se separa de sua fonte, também este Espírito e Poder que procede da presença de Deus não se separa das personagens da Trindade de onde procede para encher a imensidade do espaço. Deste modo, Deus habita em Seus mundos, e aqueles mundos nos quais Deus habita cumprirão e realizarão os propósitos de Deus. ¶
Esta é a Deidade imanente sobre a qual os homens em nossos dias tanto têm a dizer; e para nosso esclarecimento — a fim de que possamos conhecer a Deus — mesmo o Espírito de Deus — embora procedendo das diversas Personagens Divinas da Trindade — é chamado "a Luz de Cristo", pela razão já dada, e, ainda mais, para que o Cristo pudesse ser, de fato e em todos os aspectos, a manifestação, ou revelação, de Deus ao homem. ¶
Pensei que gostaria de apresentar esta verdade, para que a atenção fosse chamada ao problema do mundo a respeito da doutrina de Deus; e para que os sermões do Presidente Smith e do Presidente Penrose pudessem servir de resposta ao sofisma e à vã filosofia dos tempos atuais, que afirmam que nada foi acrescentado, pela revelação, ao conhecimento que o mundo tem de Deus. O Senhor vos abençoe. Amém. ¶