A Mão de Deus em Todas as Coisas
James E. Talmage
Em uma revelação dada a Joseph, o Profeta, em 1831, o Senhor disse: ¶
"Em nada ofende o homem a Deus ou contra ninguém está acesa sua ira, a não ser contra os que não confessam sua mão em todas as coisas e não obedecem a seus mandamentos. Eis que isto está de acordo com a lei e os profetas. * * * Eu, o Senhor, disse-o e o Espírito testifica. Amém." (D&C 59:21.) ¶
Entendo que a confissão ali declarada como essencial a uma vida temente a Deus não é uma confissão apenas em palavras, mas o reconhecimento genuíno da mão de Deus manifesta na vida e nas ações dos homens. Existe hoje uma tendência muito geral de relegar Deus a segundo plano nos assuntos humanos, de considerar que Ele não tem voz em nossos atos, e a esse respeito o Senhor declarou-se e assim nos deixa claro que sua ira se acende contra aqueles filhos ingratos que O esquecem; pois o homem que esquece o Deus vivo volta-se para a idolatria, e, tendo uma vez conhecido a Deus e desviando-se dEle, torna-se pior do que o gentio que jamais conheceu outros deuses além dos de madeira e pedra. Creio em meu coração que muitos de nós tendemos a levar vidas relativamente sem Deus. Falo da família humana, não deste povo em particular. Muitos de nós, filhos de Deus, esquecemos nosso Pai, esquecemos o que Ele tem feito por nós, o que está fazendo por nós; esquecemos quão verdadeiramente dependemos dEle por tudo o que temos e tudo o que somos; e os que assim procedem são grandes ofensores aos olhos do Senhor. Pois Ele odeia a ingratidão e odeia o orgulho que eleva o homem em sua própria estimativa e o faz olhar ao redor para as coisas que Deus lhe deu e dizer a si mesmo, como disse o rei babilônico: "Todas essas coisas eu fiz; toda essa riqueza eu ajuntei; todos esses grandes edifícios eu ergui"; e lembre-se que o Senhor o feriu em sua ira e o reduziu ao nível de um animal em suas capacidades e faculdades. ¶
A mão do Senhor está em nossas vidas; se apenas a procurarmos, na escuridão, podemos segurá-la e por ela sermos erguidos. Não obstante, o Senhor permitirá que O neguem aqueles que assim escolherem fazer. Pois para tal fim foi o decreto no grande conselho dos anjos e dos Deuses, quando os serviços oferecidos por Lúcifer, um filho da manhã, foram rejeitados, e a oferta do Filho bem-amado foi aceita, para que o homem fosse livre — livre para escolher o caminho que o trará de volta à presença de seu Pai, vestido de glória, por causa de sua vitória sobre o pecado, com a imortalidade mediante o sacrifício redentor do Senhor Jesus, e com a vida eterna como o dom supremo de Deus, ou pode escolher o caminho que o levará à companhia, ali para permanecer para sempre, do diabo e de seus anjos. Entre nossas fraquezas humanas devemos contar a tendência, manifesta em certo grau, talvez, na vida da maioria de nós, de colocar a culpa de nossos erros em outra pessoa. Quando nossa consciência nos pungisse e começássemos a perceber em pequena medida nossas fraquezas, imperfeições e falhas, somos muito propensos a nos desculpar citando o que outros estão fazendo, o que outros já fizeram; e é somente quando o Espírito de Deus nos convence de pecado que sentimos assumir a culpa sobre nós mesmos e clamamos em nossos corações, como fez a multidão penitente do Pentecostes: "Que faremos para ser salvos?" ¶
A Escritura que citei deve ser interpretada à luz da razão, do bom senso, se assim o quiserdes. Há alguns que a interpretam de forma egoísta e de maneira totalmente injustificada. Alguns vão tão longe a ponto ¶
de dizer que, estando a mão de Deus em todas as coisas, o próprio Deus é responsável por tudo o que existe e por tudo o que acontece. Já ouvi ensinar, por defensores de uma teologia frívola, que tudo o que existe está de acordo com a vontade de Deus, que tudo o que vemos é como Ele o quer que seja. Toda a minha alma se revolta contra tal concepção. Não posso crer que seja vontade de Deus que os homens estejam como estão no pecado. Não posso crer que seja segundo a vontade de Deus que o vício percorra nossas ruas e perambule pela terra; que a desonestidade, a embriaguez e o espírito de homicídio grassem na terra. Não responsabilizeis a Deus por tais coisas; não reconheçais sua mão no sentido de colocar sobre Ele a culpa, mas reconhecei sua mão no arbítrio assim dado aos homens e em seu poder de, por fim, extrair o bem de todo esse mal. As nações em guerra estão cada qual expressando orações a Deus, orações por quê? Pela justiça? Não, pelo triunfo, pelo sucesso de suas armas, quer estejam lutando do lado do direito, quer do lado do erro. Alguém sugeriu, com o que posso chamar de humor sacrílego, que talvez fosse melhor se as nações confessassem sua idolatria e cada uma delas orasse a seu próprio deus. Seria mais conveniente, disse um humorista sombrio recentemente, que cada nação tivesse a atenção e os serviços exclusivos de alguma divindade. Assim, uma delas poderia orar a Baal, outra a Astarote, outra a Moloque, e ainda outra a Dagom, e assim a todos os deuses que os homens fizeram para si mesmos. Estamos lutando, não apenas em capacidade nacional, mas na capacidade de indivíduos, pelo triunfo em vez da verdade, pelo êxito egoísta em vez da vindicação do direito e do fomento da retidão. É Deus quem leva os homens a contender uns com os outros? É Deus quem leva as nações a lutar umas contra as outras? É quando o Espírito de Deus se retira dos homens que eles lutam. É quando o Senhor escondeu seu rosto das nações que elas vão à guerra. Contudo, de tudo isso Ele pode fazer surgir os princípios da verdade. Assim como o cristal se forma na salmoura, Ele pode fazer cristalizar os princípios da retidão a partir do magma sangrento que nos é apresentado por este terrível conflito. ¶
Nós, como povo, professamos ser um povo dado à oração. Pergunto a cada um de vós, e podeis responder à vossa própria consciência individualmente, orais ou vos contentais em dizer vossas orações? Há uma diferença vital entre os dois processos. Muitos de nós fomos ensinados a dizer orações e não aprendemos a orar. Que inconsistência há, que gritante inconsistência, no homem que se ajoelha e diz: "Pai nosso, que estás nos céus," e depois proclama que é descendente do bruto e não filho de Deus; que Deus não é uma pessoa, mas uma influência, uma essência, um nada imaterial — não pode haver um algo imaterial — e então dirige essa concepção sua como "Pai." Ó, que sacrilégio no homem profano de coração que arrasta o nome de Deus na lama de seu juramento ímpio e blasfemo, e depois diz: "Santificado seja o teu nome!" Que dizer de nós que oramos: "Venha o teu reino," e depois, mediante a operação da máquina política e mediante nossos planos e desígnios partidários, buscamos estabelecer e manter um poder cujo principal propósito é o de opressão e ¶
negação dos direitos que foram vindicados na grande batalha de Miguel e suas hostes contra Satanás e seus seguidores. ¶
"Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu," dizem alguns, e depois saem para frustrar a vontade de Deus e impedir seus propósitos e colocar obstáculos no caminho do progresso. ¶
"O pão nosso de cada dia dá-nos hoje," é dito como uma oração, mas não pode ser verdadeiramente orado pelo homem que está armazenando para seu próprio futuro distante, tirando o pão da boca dos famintos de hoje. Não somos ensinados a orar: Dá-me o meu pão de cada dia somente, mas: Dá-nos, a todos os teus filhos, o sustento de que necessitamos. ¶
"E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores," ou "Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos ofende," e levantar-nos de joelhos, como alguns fazem, para sair e agarrar um irmão pelo pescoço e dizer: "Paga-me o que me deves; eu o exijo." A alma que não perdoa e assim ora condena-se a si mesma de hipocrisia e de sacrilégio. ¶
"E não nos induzas à tentação," ou como alguns o rendem, "Não nos deixes na tentação," e depois ir tão rápido quanto pudermos exatamente para o lugar onde sabemos que a tentação é mais forte; queremos ser tentados. ¶
"Livra-nos do mal," quando amamos os antros do mal mais do que a morada da retidão. ¶
"Porque teu é o reino," quando negamos a nosso Senhor toda e qualquer influência ou participação nos assuntos destes reinos, principados e potestades terrenos que o homem estabeleceu, e a Ele atribuímos a glória quando estamos tomando todo o crédito para nós mesmos, e selamos tudo com um grande Amém, que não passa de uma blasfêmia. ¶
Temo que penseis que estou fazendo uma acusação severa. Quero assegurar-vos, meus irmãos e irmãs, que não aplico estas palavras a nenhum de vós, nenhum — a menos que penseis que sim. Não me refiro a nenhum homem que, honesta, sobriamente, sinceramente, não sinta que estas palavras se apliquem a ele. ¶
A infinita presciência de Deus tornou conhecido a Ele e Lhe torna conhecido o fim desde o princípio; mas há alguns de nós tão míopes, tão fracos de mente, tão inaptos ou relutantes em analisar a proposição, que chegamos a sustentar e ensinar que a presciência de Deus determina o que há de acontecer. Quão absurda é tal inferência, quão totalmente injustificada é tal conclusão, que, porque Deus em sua sabedoria vê e sabe de antemão o que acontecerá entre nações e homens, sob determinadas condições, condições que Ele também pode prever, esse conhecimento seu determina que tais coisas devam acontecer. Façamos um exemplo concreto: o professor universitário instrui seus alunos, explica-lhes, demonstra-lhes por meio do quadro-negro e de gráficos, e talvez por aparelhos sobre a mesa, torna claro para eles o funcionamento das leis que estão sendo consideradas e estudadas; não somente isso, ele ajudará individualmente o aluno que a ele recorrer, que vier a ele no espírito adequado e pedir ajuda; e esse professor prevê o resultado. Depois de estudar bem seus alunos, ele diz: "Sei que aquele jovem vai fracassar; sei que a decepção virá a ele; a tristeza virá a seus pais; tenho certeza de que ele vai desonrar-se." ¶
O professor o prevê e faz tudo o que razoável e coerentemente pode para evitá-lo. Ousareis afirmar que a previsão desse professor determina o fracasso daquele aluno? Por outro lado, ele vê um que é dedicado, sério e capaz, e diz: "Aquele jovem crescerá para se tornar um mestre em sua profissão escolhida; ele não deixa por fazer nada que deva ser feito; não está estudando páginas, mas assuntos; posso prever para ele um grande futuro." Será que essa previsão determina o sucesso do jovem? Ou considerai o caso de um pai sério, ponderado e amoroso na mortalidade que observa com grande preocupação os caminhos errantes, digamos, para efeito de exemplo, de um filho desgarrado. Ele o adverte, ora com ele, ministra-lhe, dá-lhe um bom exemplo e, ainda assim, pode ver, embora a visão do futuro seja uma nuvem de tristeza sobre sua alma, que este jovem caminha para a destruição; sim, pode ver as portas da prisão se abrindo para ele, e estremece ao pensar no que é iminente na vida daquele jovem. Aquele pai daria tudo o que possui para evitar o que vê chegando. Podemos ser coerentes ao dizer que, por ter assim estudado seu filho, aprendido sua natureza e assim saber o que se aproxima, seu conhecimento determina que aquele filho pecará? Se assim fosse, seria melhor ensinarmos aos pais a não estudar seus filhos, a nada saber sobre eles — deixá-los seguir seu caminho e tomar seu curso, porque nosso conhecimento determinará o que hão de fazer e ser. Se examino o barômetro, o higrômetro e outros instrumentos de precisão construídos com o propósito de revelar as condições atmosféricas, e se, pela aplicação das leis da meteorologia, sou capaz de dizer: "haverá chuva dentro de poucas horas; uma grande tempestade de vento cairá sobre nós em breve; teremos neve antes do amanhecer" — podeis dizer que eu causo a chuva, que eu convoco o vento, ou que eu sou o doador da neve? Se isso fosse verdade, a ignorância não seria apenas felicidade, mas muito preferível, por razões práticas. A presciência de Deus mostrou-Lhe exatamente o que nossos primeiros pais fariam sob determinadas condições, mas Ele não os fez cair; Ele não os fez desobedecer; Ele lhes deu sua liberdade e seu arbítrio para fazer como escolhessem fazer e arcar com as consequências de sua escolha. Sejamos homens e estejamos dispostos a assumir a culpa por nossos atos maus, se escolhemos o mal. ¶
Da mesma forma, muitos de nós culpamos Satanás por muita coisa da qual ele não é responsável — pobre diabo. Se Satanás e suas hostes estivessem hoje amarrados e não mais capazes de agir pessoalmente sobre a terra, o mal continuaria por muito tempo, porque ele tem representantes muito capazes na carne. Quando viajei pela distante Rússia, anos atrás, tomei conhecimento de uma concepção peculiar entre os "moujiks", ou camponeses, daquela terra. Dizem que existe um duende doméstico, um pequeno espírito invisível que habita em cada casa e está sempre tentando causar problemas; e se uma moça, por descuido, deixa cair um prato e o quebra, a mãe balança a cabeça e diz: "Foi o duende." Se o homem se esquece de si e se embriaga, e em sua embriaguez comete atos de barbárie, dizem: "Ah, coitado; está sob a influência do duende; ele não pôde evitar" — e assim, para cada pequeno detalhe da vida, encontram uma desculpa e culpam aquele pequeno espírito invisível ¶
por seus próprios atos de maldade ou descuido. ¶
Esta é uma religião prática a nossa, meus irmãos, uma religião muito real. Não há nada de fantasioso ou teórico nela. Aprendamos a analisar nossas próprias almas e a zelar por que estejamos nos esforçando para praticar a retidão. Uma observação atribuída ao grande Lincoln, e que, tenha sido dita por ele ou não, é inteiramente digna do homem, é talvez proveitosa para consideração aqui. Quando lhe perguntaram, durante o grande conflito em que irmão se alinhava contra irmão, se sentia em seu coração que o Senhor estava do seu lado, ele respondeu: "Não sei, e, de fato, isso não me diz respeito; o que quero saber é se estou do lado do Senhor." É muito melhor para nós, uma concepção bem mais elevada, penso eu, considerar que estamos do lado de Deus do que nos preocuparmos se Ele está do nosso lado. Em vossos negócios, meu irmão, em vosso comércio e vossas transações, estai do lado do Senhor; fazei como Ele quereria que fizésseis naquelas condições. Como povo, professamos estar do lado do Senhor. Cabe-nos honrar essa profissão, viver de acordo com ela, aproveitar-nos das influências que trabalham para o nosso bem e dos poderes que operam para a salvação dos homens. Lembrai-vos de que esta ajuda é estendida pelo Senhor com toda a razão — não caprichosamente e não quando é imerecida e não apreciada; pois assim Ele mesmo se declarou, como haveis de encontrar registrado na primeira seção da Doutrina e Convênios: ¶
"Pois eu, o Senhor, não posso encarar o pecado com o mínimo grau de tolerância; entretanto, aquele que se arrepender e cumprir os mandamentos do Senhor será perdoado; e aquele que não se arrepender, dele será tirada até a luz que recebeu, pois o meu Espírito não contenderá para sempre com o homem, diz o Senhor dos Exércitos." Rogo que não percamos as influências desse Espírito, mas que estejamos abertos às suas influências, sejamos guiados por seu poder e, por fim, voltemos à presença do Pai, e da Mãe, que aguardam para dar as boas-vindas a seus filhos no seu retorno desta escola terrena em que agora somos alunos e estudantes. Deus o conceda em nome do Mestre. Amém. ¶