Nossos corpos são dádivas de Deus — o espírito e o corpo combinados constituem a alma do homem
James E. Talmage
Sinto-me muito grato pela oportunidade de acrescentar meu testemunho aos muitos e fortes testemunhos que ouvimos durante esta conferência. Ao ouvir o discurso de abertura, ouvi ecoar pelos recônditos de minha mente aquilo que desde então ouvi em cântico e citação: "Agradecemos-Te, ó Deus, por um Profeta"; e muitas vezes, no decorrer dos discursos subsequentes, disse em meu coração: "Agradeço-Te, ó Deus, pelos profetas em Israel, que não temem falar e dizer ao povo as necessidades da hora, e pregar-lhe as doutrinas do dia, e chamar a atenção para as coisas de importância presente." Concordei sinceramente com a instrução dada naquele primeiro discurso, como de fato concordei com todas as instruções dadas, mas tenho particularmente em mente aquela relativa à negligência que por vezes manifestamos em relação às coisas espirituais. Fomos advertidos contra dar atenção demasiada às coisas deste mundo, em detrimento das coisas de maior valor. Por outro lado, ouvimos muito acerca de deveres práticos, assuntos práticos, religião temporal, se assim o quiserdes; e fomos, por implicação, advertidos contra dedicar-nos exclusivamente àquela outra mundanidade, que é tão perigosa quanto a mundanidade extrema. ¶
Foi-nos dito, como muitos de nós já sabíamos, e sabíamos antes, que esta vida é parte necessária do curso de progressão delineado por nosso Pai. Fomos ensinados, novamente, a olhar para estes nossos corpos como dádivas de Deus. Nós, Santos dos Últimos Dias, não consideramos o corpo como algo a ser condenado, algo a ser aborrecido, e algo a ser subjugado no sentido em que essa expressão é frequentemente ouvida no mundo. Consideramo-lo como o sinal de nosso direito de nascença real, o termos corpos sobre a terra. Reconhecemos o fato de que aqueles que não guardaram seu primeiro estado, na existência primeva, foram negados essa bênção inestimável, a de tomar corpos mortais. Cremos que estes corpos devem ser bem cuidados, que devem ser vistos como algo pertencente ao Senhor, e que cada um pode tornar-se, em toda a verdade, o templo do Espírito Santo, o lugar em que o Espírito de Deus há de entrar e onde Ele Se comprazerá em habitar, se ali encontrar limpeza e ordem e pureza e retidão de pensamento e conduta. ¶
É peculiar à teologia dos Santos dos Últimos Dias considerarmos o corpo parte essencial da alma. Lede vossos dicionários, os léxicos, e as enciclopédias, e vereis que em nenhum lugar, fora da Igreja de Jesus Cristo, se ensina a solene e eterna verdade de que a alma do homem é o corpo e o espírito combinados. É bastante a regra considerar a alma como aquela parte incorpórea do homem, aquela parte imortal que existiu antes de o corpo ser formado e que continuará a existir depois que aquele corpo houver decaído; contudo, isso não é a alma; isso é apenas uma parte da alma; é o homem-espírito, a forma em que cada um de nós, e cada ser humano, existiu antes de ser chamado a tomar tabernáculo na carne. Foi declarado na solene palavra da revelação que o espírito e o corpo constituem a alma do homem; e, portanto, devemos considerar este corpo como algo que há de perdurar no estado ressuscitado, além da sepultura, algo a ser mantido puro e santo. Não temais sujar suas mãos; não temais as cicatrizes que possam nele advir, se ganhas em esforço sincero, ou em luta honesta, mas cuidai-vos das cicatrizes que desfiguram, que vieram a vós em lugares aonde não devíeis ter ido, que vos sobrevieram em empreendimentos indignos; cuidai-vos das feridas de batalhas em que tendes lutado do lado errado. ¶
Leio que, quando nossos primeiros pais foram colocados no lugar preparado para eles, em sua criação, na criação do primeiro homem, seu corpo foi preparado; então Deus, o Deus da vida, soprou nele o fôlego de vida, e só então, não antes, o homem se tornou alma vivente. Foi o avanço do estado de espírito ao estado de alma que assinalou o grande dom de Deus para o homem, a saber, a vida aqui sobre a terra, uma existência que há de nos preparar para a vida que jaz além da sepultura. A ressurreição do corpo, a ressurreição dentre os mortos, é a redenção da alma; e, assim como Cristo foi o primeiro a romper os laços da morte e retomar Seu corpo, o corpo que fora morto, do qual o espírito temporariamente se apartara, assim, por Ele e por meio d'Ele, veio a ressurreição, por Ele e por meio d'Ele veio a redenção da alma, e por isso Ele conquistou para Si o título que a nenhum outro pertence, na terra ou no céu, o de Redentor da humanidade. ¶
Ouvimos muito acerca dos deveres que temos para com estes corpos, no sentido de guardá-los das coisas prejudiciais, das coisas degradantes, das coisas que envenenam os tecidos, das coisas que destroem o próprio organismo que Deus criou. O tempo não permitiu que aqueles que falaram antes de mim se detivessem longamente, mais do que me permite deter-me longamente naquela importante revelação de Deus ao homem, de Deus a Israel nestes últimos dias, pela qual o homem pode ser sábio — a Palavra de Sabedoria. Esta, como outras revelações que vieram na presente dispensação, não é inteiramente nova. É tão antiga quanto a raça humana. O princípio da Palavra de Sabedoria foi revelado a Adão. Todos os elementos essenciais da Palavra de Sabedoria lhe foram dados a conhecer em seu estado imortal, antes de ele haver introduzido em seu corpo aquelas coisas que dele fizeram uma coisa da terra. Ele foi advertido contra essa mesma prática. Não lhe foi dito que tratasse seu corpo como algo a ser torturado. Não lhe foi dito que o considerasse como os faquires da Índia vieram a considerá-lo, ou professam considerá-lo, como algo a ser totalmente desprezado, mas lhe foi dito que não devia introduzir naquele corpo certas coisas que ali estavam ao seu alcance. Foi-lhe advertido de que, se o fizesse, seu corpo perderia o poder que então detinha de viver para sempre, e que ele se tornaria sujeito à morte. Foi-lhe apontado, como vos foi apontado a vós, que há muitos bons frutos a serem colhidos, a serem comidos, a serem desfrutados. Cremos em desfrutar de boa comida. Pensamos que essas boas coisas nos foram dadas por Deus. Cremos em obter todo o prazer da alimentação que pudermos; e, portanto, devemos evitar a gula, e devemos evitar os extremos em todos os nossos hábitos alimentares; e, como foi dito a Adão, assim nos é dito: "Não toqueis nessas coisas; pois no dia em que o fizerdes, vossa vida será encurtada, e morrereis." ¶
Aqui, permiti-me dizer, consistiu a Queda — o comer de coisas impróprias, o introduzir no corpo as coisas que dele fizeram uma coisa da terra; e aproveito esta ocasião para levantar minha voz contra a falsa interpretação da escritura, que em algumas ocasiões foi adotada por certas pessoas, e que corre em suas mentes, e é referida de modo velado e quase secreto, de que a queda do homem consistiu em alguma ofensa contra as leis da castidade e da virtude. Tal doutrina é abominação. Que direito temos nós de desviar as escrituras de seu sentido e significado próprios? Que direito temos nós de declarar que Deus não quis dizer o que disse? A Queda foi um processo natural, resultante da incorporação, nos corpos de nossos primeiros pais, das coisas provenientes de alimento impróprio, por meio da violação do mandamento de Deus a respeito do que deviam comer. Não andeis por aí sussurrando que a queda consistiu na mãe da raça perder sua castidade e sua virtude. Não é verdade; a raça humana não nasceu de fornicação. Estes corpos que nos são dados foram dados na maneira que Deus proveu. Que não se diga que o patriarca da raça, que esteve com os deuses antes de vir aqui à terra, e sua igualmente régia consorte, foram culpados de tal ofensa vil. A adoção dessa crença tem levado muitos a desculpar afastamentos do caminho da castidade e do caminho da virtude, dizendo que é o pecado da raça, que é tão antigo quanto Adão. Não foi introduzido por Adão. Não foi cometido por Eva. Foi a introdução do demônio, e adveio a fim de que ele semeasse as sementes da morte precoce nos corpos dos homens e das mulheres, para que a raça degenerasse, como tem degenerado sempre que as leis da virtude e da castidade foram transgredidas. ¶
Nossos primeiros pais eram puros e nobres, e, quando passarmos além do véu, talvez aprendamos algo de seu elevado estado, mais do que sabemos agora. Mas fique sabido que eram puros; eram nobres. É verdade que desobedeceram à lei de Deus, comendo coisas que lhes foi dito não comer; mas quem entre vós pode levantar-se e condenar? Ouvi, não faz muito tempo, uma lição conduzida como lição-modelo, numa classe de Escola Dominical; tratava da queda do homem. Aquele que foi designado para tecer a crítica exprimiu sua sincera aprovação da lição, tal como fora apresentada, e elogiou particularmente o mestre por ter conseguido conduzir uma lição "sobre assunto tão delicado como esse, com uma classe mista de rapazes e moças jovens, e não ofender!" O que há de delicado na queda do homem? O elemento sexual não entra no assunto. A Queda consistiu na desobediência aos mandamentos quanto ao que era próprio para o corpo, e temos caído da mesma maneira desde então; e fostes advertidos disso por vozes autorizadas aqui, nas várias sessões desta conferência. ¶
Se quiserdes viver na plena medida de vossos dias, como Deus vos destinou, então vivei de acordo com o mandamento de Deus em todas essas coisas. Podeis comer dos frutos de todas essas boas árvores; podeis participar plenamente, dentro dos limites da sabedoria e da propriedade, mas daquela árvore do conhecimento do terrível mal não deveis participar. Ah, se o fizerdes, obtereis experiência que de outro modo não obteríeis; conhecereis mais do mal, e por contraste podereis, talvez, estimar de modo diferente o bem; mas, contudo, descobrireis que comprastes esse conhecimento a preço muito alto. Havemos de ser julgados pelo que sabemos, tanto e tão bem quanto pelo que não sabemos. Pois, recordai-vos, depois que eles, nossos primeiros pais, empreenderam colocar seu próprio juízo acima do juízo do Deus que os fizera e que preparara o lugar de sua morada, e que lhes dera mandamento, tiveram conhecimento que antes não possuíam, e, quando novamente foram chamados pela voz de Deus, esconderam-se; pois haviam despertado para o fato de que havia algo vil neles, algo impróprio, algo impuro, e se esconderam; e notai as palavras com que sua culpa lhes foi trazida à tona. Quando Adão declarou que ouvira a voz de Deus chamando-o, e se havia escondido porque se tornara ciente de que estava nu, a pergunta foi: "Quem te disse que estavas nu?" Onde obtiveram Adão e Eva esse conhecimento? Não guardando os mandamentos de Deus, mas violando-os. Assim, às vezes digo, quando vejo jovens e moças mostrando, por palavras ou ações descuidadas, que sabem coisas que não deveriam saber, quem vos disse isso? Onde estivestes? Que estáveis fazendo? Ainda não chegou o tempo de aprenderdes essas coisas; e nunca as teríeis aprendido nesta etapa de vosso desenvolvimento, e desta maneira, se não houvésseis transgredido as leis de Deus. ¶
O que se disse a respeito de nossos deveres para com nossos corpos nesta vida, e a atenção estrita que devemos dar às coisas espirituais, fala-nos da vida que há de vir e da relação entre esta vida e aquela. Ouvimos muito, hoje em dia, acerca das ideias especulativas dos homens sobre a condição além da sepultura; mas a admissão de que há uma existência individual além da sepultura é uma declaração de que deve ter havido uma criação individual e inteligente antes de virmos aqui na carne. A vida além da sepultura pressupõe um estado pré-existente, ao qual se fez referência ontem. Enquanto o mundo admite a pré-existência de Cristo, e aponta para Ele como aquele que, antes do nascimento mortal, compartilhou com Seu Pai as honras da divindade e os poderes do Criador, negam às almas que agora estão sobre a terra, e àquelas que viveram como mortais, uma condição pré-existente. Quero ler-vos uma escritura que trata desse assunto, e leio-a do Livro de Abraão, uma escritura com a qual algumas de nossas pessoas estão hoje mais familiarizadas do que estavam há um ano, por causa das tentativas fúteis que se fizeram para desacreditá-la. Pelos fracassos que resultaram dessas tentativas, a força da fé de nosso povo se tem fortalecido. O grande patriarca diz: "Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes; e Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas e disse: A estes farei meus governantes; pois ele se encontrava entre aqueles que eram espíritos, e viu que eles eram bons; e disse-me: Abraão, tu és um deles; foste escolhido antes de nasceres." Lede o resto dessa escritura por vós mesmos. ¶
Alegro-me em ver que os princípios salvadores proclamados pelos profetas desta dispensação estão se espalhando pelo mundo, apesar de todas as tentativas em contrário. Se os jornais desta manhã relataram corretamente uma palestra proferida nesta cidade ontem à noite, há em nosso meio um estudioso de Londres que proclamou não apenas que as escrituras provam que há, e deve necessariamente haver, uma existência individual e inteligente além da sepultura, mas que, nesse estado, haverá oportunidade para o arrependimento e para o progresso. Ora, essa é uma doutrina "mórmon" que nunca fora aventada no mundo religioso moderno até que a voz do Profeta Joseph Smith se fez ouvir. Ministros sectários dizem-nos agora que as escrituras não devem mais ser distorcidas; que, pela figura que diz "Onde a árvore cair, ali ficará", já não devemos entender que um homem que morre nunca pode progredir. Doutores e teólogos aprendidos levantam hoje suas vozes na declaração do fato de que Deus proveu um meio pelo qual Seus filhos e filhas podem progredir e avançar através das eternidades que estão por vir. Leio ainda que foi declarado: Que haverá uma ressurreição dos justos, distinta da ressurreição dos injustos. Outra doutrina que, do modo agora apresentado, foi em certo tempo peculiar à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Mas, porque há esperança de arrependimento além do véu, não procrastineis o dia de vosso arrependimento; pois, como apontou o Profeta Alma, podeis descobrir que o dom do arrependimento vos será retido por muito, muito tempo, por causa de vossa indignidade. Pois o arrependimento é um dom de Deus, e, quando o homem o perde, perde o poder de arrepender-se; não pode afastar-se de seus pecados com coração contrito e com o desejo de abandoná-los, de uma vez por todas. Ó Santos dos Últimos Dias, homens e mulheres de Israel, escutai as vozes daqueles que vos falam sob a inspiração do poder de Deus, e dai-lhes ouvidos; pois, ao ouvirmos, seremos condenados, se não seguirmos o caminho que nos é apontado como o caminho de nosso dever. ¶
Ouvistes pouco em matéria de nova doutrina nesta conferência, talvez, e por essa razão deveis ser ainda mais diligentes em não esquecer novamente, como esquecemos de tempos em tempos, as coisas de que mais necessitamos. Fazemos a desculpa — essa é uma de nossas fraquezas, fazer desculpas — fazemos a desculpa de que nossas memórias estão em falta. Nossas memórias estão perfeitamente bem; boas demais, até, para satisfazer alguns de nós. Gostaríamos de esquecer coisas que não podemos. A memória é a biblioteca da mente, na qual encontramos guardadas as coisas valiosas e também as sem valor que nos vieram. A recordação é a bibliotecária, e ela é, com frequência, indolente e sonolenta, muitas vezes negligente de seu dever; não sabe onde pôr a mão no livro ou no documento de que precisamos, justamente quando dele precisamos. Nossas recordações foram despertadas nesta conferência, e oro para que possamos sempre lembrar-nos das coisas de que mais precisamos, das coisas de maior valor; e para que vós e eu e todos nós possamos progredir com a obra de Deus, pois ela há de progredir, não importa o que o homem faça ou como tente impedir seu avanço. Que as bênçãos do Deus de Israel estejam com Israel, em nome de Jesus. Amém. ¶