A Coisa de Maior Valor
Orson F. Whitney
Sou grato por meu coração estar em sintonia com o espírito desta conferência, e com tudo o que foi dito pelos servos de Deus sob a influência do Espírito Santo. A nota fundamental da conferência foi dada pelo Presidente Smith quando, na manhã de ontem, proferiu estas palavras: "Sinto, esta manhã, como tenho sentido durante quase toda a minha vida, e sinto-o mais fortemente esta manhã, talvez, do que nunca antes, que não há nada debaixo dos céus de tanta importância para mim ou para os filhos dos homens quanto o grande plano de vida e salvação." ¶
No momento em que estas palavras saíram de seus lábios, minha mente voou àquele incidente na vida de nosso Salvador, em que um jovem veio a Ele e perguntou que boa coisa deveria fazer para herdar a vida eterna. Foi-lhe dito que guardasse os mandamentos, e estes foram enumerados. Ele respondeu: "Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade." O Salvador então disse: "Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres... e vem, segue-me." Em outras palavras: Ajuda-me a salvar o mundo. ¶
Recordei também algumas revelações dadas por meio do profeta Joseph Smith, nas quais Deus revelou a certos homens os pensamentos secretos de seus corações. Um desses homens foi João Whitmer, uma das oito testemunhas do Livro de Mórmon. O Senhor lhe disse, por meio de Joseph, o Vidente, no mês de junho de 1829: "E agora, eis que eu te digo que a coisa de maior valor para ti será declarar arrependimento a este povo, a fim de trazeres almas a mim e descansares com elas no reino de meu Pai. Amém." Pedro Whitmer, Jr., outra das oito testemunhas, recebeu resposta de modo semelhante. ¶
Em uma revelação subsequente, dada em benefício de Oliver Cowdery e David Whitmer, encontramos estas importantes passagens, já mencionadas em parte pelo Irmão Heber J. Grant: ¶
"Lembrai-vos de que o valor das almas é grande à vista de Deus; pois eis que o Senhor vosso Redentor sofreu a morte na carne; portanto, sofreu a dor de todos os homens, para que todos os homens se arrependessem e viessem a ele. ¶
"E ressuscitou dentre os mortos, para trazer a si todos os homens, sob condição de arrependimento. ¶
"E quão grande é sua alegria pela alma que se arrepende! ¶
"Portanto, sois chamados para clamar arrependimento a este povo. ¶
"E, se trabalhardes todos os vossos dias clamando arrependimento a este povo e trouxerdes a mim mesmo que seja uma só alma, quão grande será vossa alegria com ela no reino de meu Pai! ¶
"E agora, se vossa alegria é grande com uma só alma que tiverdes trazido a mim no reino de meu Pai, quão grande será vossa alegria se me trouxerdes muitas almas!" ¶
Podemos nos admirar de que o Presidente da Igreja se sentisse levado a nos lembrar destas coisas? A obra mais proveitosa em que homens ou deuses podem se engajar é a salvação das almas. Consequentemente, não há nada tão importante para mim, ou para vós, ou para qualquer dos filhos dos homens, quanto aquele grande plano de vida e salvação, concebido nos céus e entregue ao homem sobre a terra numa série de dispensações do Evangelho, das quais esta é a última e a maior. ¶
Que plano é este? O que ele contempla? Qual é sua natureza e seu propósito? O apóstolo Paulo escreveu: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação." Poderia ter ido mais além, se fosse oportuno, e mostrado que o Evangelho de Cristo também é o poder de Deus para a exaltação. A exaltação é a salvação acrescida; é uma extensão daquela ideia ou condição, assim como a salvação é uma extensão da redenção. Uma alma pode ser redimida, isto é, levantada da sepultura, e, ainda assim, condenada no juízo final, por más obras praticadas no corpo; ou uma alma pode ser salva, e, ainda assim, ficar aquém da glória que constitui a exaltação. O propósito tríplice do evangelho é redimir, salvar e glorificar os filhos de Deus. ¶
A palavra "evangelho" vem de "godspell", termo anglo-saxão que significa história de Deus, ou a história de Deus. Deriva seu significado daquela grande ideia central da fé cristã -- a vinda de Deus como o Filho de Deus para redimir e salvar a humanidade. Abinadi, o profeta nefita, declarou, centenas de anos antes do nascimento do Salvador, que o próprio Deus desceria entre os filhos dos homens e redimiria Seu povo; "e porque ele habita na carne, será chamado o Filho de Deus." Ele é o autor de nossa salvação. Pagou nossa dívida; resgatou o mundo do penhor em que fora colocado pela transgressão de nossos primeiros pais, Adão e Eva. ¶
E, contudo, por meio dessa transgressão, e da consequente queda do homem, o propósito de Deus foi cumprido, na vinda de uma raça de espíritos para tomarem para si corpos, tornando-se assim almas, capazes de aumento infinito e progressão eterna. "Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria." Mas não haveria alegria, nem progresso -- não haveria redenção, nem salvação, nem exaltação, se Cristo não tivesse morrido, para que o homem pudesse viver novamente. A ação de nossos primeiros pais trouxe a morte, a morte eterna, ao mundo -- a morte do corpo, a morte do espírito, o banimento eterno da presença de Deus; e, contudo, teve o grande resultado de dar aos filhos de Deus as oportunidades que esta vida oferece para educação e desenvolvimento. ¶
Mas, para que o plano pudesse ser operante, para que a transgressão se transformasse em bom efeito, o propósito de Deus se cumprisse, e o homem fosse salvo e glorificado, havia de haver um resgate, uma redenção; as balanças da justiça eterna tinham de ser reequilibradas, e o equilíbrio do direito, restaurado. A vida de um Deus foi o preço da liberdade do mundo, e esse preço foi pago por aquele chamado Jesus, o Nazareno, mas que era e é ninguém menos que Jeová, o Deus de Israel, que veio aos Seus, foi rejeitado por eles, foi crucificado por instigação deles, e deu Sua vida para redimir o mundo. ¶
Ora, isto é o que o Salvador fez por nós. Não terá Ele conquistado o direito de nos dizer o que faremos por Ele? Não teve Ele o direito de dizer ao jovem: "Abandona tudo e segue-me"? Não teve Ele o direito de dizer a Joseph, e por meio dele a João Whitmer, a Pedro Whitmer, a Oliver Cowdery e a David Whitmer: "Aquilo que será de maior valor para ti é trazer almas a mim"? Se Ele pôde descer de Seu glorioso trono, fazer-Se exilado da eternidade, andar no pó de Seu próprio escabelo, para trazer estas boas novas de imortalidade e da ressurreição, para abrir para nós e para todos os homens as oportunidades de progressão eterna, poderemos nós fazer menos do que segui-Lo e fazer tudo quanto Ele requeira de nossas mãos? ¶
Há apenas um Salvador; há somente "um nome dado debaixo do céu pelo qual os homens podem ser salvos"; mas pode haver inúmeros assistentes, inúmeros subordinados, salvadores em sentido e grau menores. João, o Revelador, viu não menos que cento e quarenta e quatro mil de tais salvadores, de pé sobre o Monte Sião, com o nome do Pai escrito em suas testas; e foi dito deles: "Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá." ¶
O Evangelho de Cristo representa o que Deus fez pelo homem, o que o homem não poderia fazer por si mesmo; e representa também o que Ele exige do homem em troca. Não há nada possível de realização que Deus não possa fazer, mas pode haver coisas que Ele não tem tempo de fazer, e que podem ser feitas por Ele. Há, contudo, algumas coisas que nem mesmo Deus pode fazer. Digo-o com toda reverência. Por exemplo, Ele não pode fazer algo do nada, ainda que muitos cristãos piedosos Lhe atribuam esse poder -- se assim se pode chamar. Há outra coisa que Deus não pode fazer -- Ele não pode estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo, em Sua própria pessoa. Esta é a obra de Deus, e só pode ser feita pelo poder de Deus; mas não podemos esperar que Ele esteja em toda parte presente, nem em dois lugares ao mesmo tempo, exceto por Sua autoridade, Seu espírito e Sua influência. Este fato torna necessário um sacerdócio para representá-Lo, e uma Igreja como esta para levar adiante Sua obra -- uma Igreja que, de cima a baixo, é uma grande máquina para a salvação das almas. ¶
Não há uma única classe entre os Santos dos Últimos Dias sobre a qual repouse esta grande obra, com exclusão das demais. Tomai a peito o sábio conselho e as instruções do Presidente Francis M. Lyman. Como ele belamente atendeu à ocasião, e ajustou seu discurso às necessidades do momento -- como um emplastro sobre uma ferida. Está crescendo entre nós, receio, um sentimento de que apenas certos homens e mulheres devem ser chamados a realizar a obra do Senhor, a obra de salvar almas. Alguns pensam que a Primeira Presidência e as demais autoridades gerais, juntamente com os chefes das estacas, alas e missões, são os homens que devem fazer a obra de Deus, enquanto os demais continuam a ganhar dinheiro, a praticar política, a perseguir e acumular coisas materiais. Isto é heresia. A obrigação de salvar almas recai sobre todo homem e mulher nesta Igreja -- senão com igual peso, ao menos proporcionalmente, de acordo com sua força, seu tempo, suas oportunidades, suas habilidades; e não podem se eximir dessa responsabilidade alegando que ela pertence apenas a tais e quais pessoas. Não disse o Senhor, por meio de Joseph, o Vidente, no princípio desta obra: "Eis que é um dia de advertência, e não de muitas palavras: portanto, que toda alma que for advertida advirta o seu próximo"? ¶
Tive uma conversa, recentemente, com um de nossos irmãos, ao retornarmos de uma viagem, e, durante nossa conversa, ele disse, em substância: "Quando os apóstolos visitam as estacas, em vez de irem apenas à casa de reuniões, à casa do presidente de estaca, ou onde quer que sejam recebidos, por que não vão às esquinas das ruas, ou às lojas, onde se reúnem os rapazes que nunca frequentam as reuniões, que nunca são vistos nas congregações dos Santos? Por que não vão às lojas e se sentam no balcão com eles, colocam os braços ao seu redor, e tentam salvá-los? Que peso teria se um apóstolo dedicasse uma parte de seu tempo a um trabalho desta natureza. Do jeito que é, não se vê tudo o que se passa em nenhuma estaca de Sião. Ela lava o rosto, veste suas melhores roupas, e assume seu melhor comportamento, para receber os visitantes numa conferência; e os oficiais da estaca estão naturalmente ansiosos por dar um bom relato das condições locais. O resultado é que não se chega a todos os fatos. Não se está plenamente informado das condições. Não seria um bom trabalho para um ou dois dos Doze fazer -- o trabalho extra que sugeri?" ¶
Sim, tive de admitir que seria um bom trabalho, um excelente trabalho. Mas alguém pode me dizer por que não seria tão bom trabalho para um sumo sacerdote, ou um setenta, ou um élder, caso um apóstolo não pudesse estar presente? Doze homens não podem estar em toda parte. Por que esperar que os apóstolos venham, vós que deteis o Sacerdócio de Melquisedeque nas sessenta e cinco estacas de Sião? Por que não salvais vossos próprios filhos e filhas? ¶
Quando o Apóstolo Tiago escreveu: "Se há alguém doente entre vós" -- ele não disse: mandai chamar os chefes da Igreja. Ele disse: "Chame os anciãos da igreja." Ora, há um exército de élderes, e a obra de ministrar aos enfermos poderia ser distribuída muito mais amplamente, com melhores resultados do que os que agora se obtêm. Homens exerceriam seu sacerdócio, os quais não o exercem hoje, e poucos ficariam sobrecarregados de trabalho e esgotados por fazerem mais do que sua parte. Esta magnífica organização da Igreja foi instituída para a salvação das almas; e, se cada homem em todos os conselhos e quóruns do sacerdócio, e cada mulher nas organizações auxiliares, estivessem fazendo sua parte da obra, e alguns não tentassem fazer mais do que sua parte, não ouviríamos tanto sobre "prostração nervosa", não ouviríamos de homens esgotados, morrendo prematuramente; mas tudo funcionaria harmoniosa e felizmente. ¶
Deus nunca pretendeu que Sua obra esgotasse os homens. Ele pretendeu que ela os edificasse. Descubramos todos o que Deus requer de nós neste grande plano de salvação, e então que cada um faça sua parte, e todos seremos mais felizes, todos faremos melhor trabalho, e Deus será glorificado por meio de nossas administrações. Amém. ¶