Revelação Contínua: Um Paralelo Entre o Apóstolo Paulo e o Profeta Joseph
Orson F. Whitney
"Uma vez, a cada homem e nação, vem o momento de decidir, na luta da verdade contra a falsidade, ¶
pelo lado do bem ou do mal; alguma grande causa — o novo Messias de Deus, ¶
oferecendo a cada um a flor ou a praga, separa os bodes à mão esquerda e ¶
as ovelhas à direita, e a escolha passa para sempre ¶
entre aquela escuridão e aquela luz." ¶
"Cremos em tudo o que Deus revelou, em tudo o que Ele revela agora, e cremos que Ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus." A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está irrevogavelmente comprometida com esta posição; a única posição segura para um povo assumir, quando lida com aquele Deus que estruturou, nos céus eternos, o Evangelho da vida e da salvação, e decretou que ele seria o meio do progresso e da glória do homem no tempo e na eternidade. A negligência desta importante verdade tem trazido sobre a raça humana as mais sérias calamidades que ela já sofreu. ¶
Durante uma recente indisposição, que me manteve confinado em casa por vários dias, examinei, não pela primeira vez, a vida do Apóstolo Paulo, lendo juntamente com ela as epístolas de São Paulo e os Atos dos Apóstolos. Fiquei mais impressionado do que nunca com a semelhança geral entre as experiências daquele grande homem, aquele poderoso apóstolo de Jesus Cristo, e as experiências de outro grande homem, outro poderoso apóstolo de nosso Senhor, a saber, o Profeta Joseph Smith. Quase poderia imaginar que estava lendo a história do profeta moderno enquanto me debruçava sobre a biografia do antigo apóstolo. É verdade que há grandes diferenças entre eles. Joseph Smith jamais foi um perseguidor da Igreja de Deus, nem perseguidor de nenhum homem ou homens, e, quando encerrou sua carreira, foi morto por uma turba irresponsável, enquanto Paulo foi vítima de um assassinato judicial, uma execução legal. Se Joseph pudesse ter sido morto legalmente, provavelmente teria sido feito assim; mas, depois de ter sido julgado e absolvido muitas vezes, seus inimigos chegaram a esta conclusão: "A lei não pode alcançá-lo, mas a pólvora e a bala o farão." ¶
Paulo descreve algumas de suas experiências nestas palavras: ¶
"Recebi cinco vezes dos judeus uma quarentena de açoites menos um. ¶
"Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; ¶
"Em viagens, muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; ¶
"Em trabalhos e fadiga, em vigílias, muitas vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez; ¶
"Além das coisas exteriores, me sobrevém cada dia o cuidado de todas as igrejas; ¶
"Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me abrase?"— II Coríntios 2:24-29. ¶
A mente se cansa e o coração se aflige ao ler das tribulações de Paulo; e o mesmo é verdade quanto aos sofrimentos do Profeta Joseph. ¶
Do que se tratava tudo isso? Qual foi a causa de todas essas dificuldades e provações? Por que estes homens foram perseguidos e, por fim, mortos? Paulo foi condenado pelo Imperador Nero e decapitado em Roma no ano 66 d.C. Joseph, com seu irmão Hyrum, foi morto a tiros em Carthage, Illinois, em 27 de junho de 1844. Paulo foi acusado de um crime capital; era um dos membros de um grupo de pessoas acusadas de incendiar a grande cidade de Roma. Era uma falsa acusação, mas, sob ela, foi condenado e executado. Joseph também foi falsamente acusado — acusado de tumulto e traição — lançado na prisão para aguardar julgamento, e ali, enquanto isso, assassinado por uma turba que invadiu a cadeia. Estas são as razões superficiais para a morte destes nobres homens. ¶
Mas qual foi a verdadeira razão? No fundo, fundamentalmente, o que foi que provocou a morte do Apóstolo Paulo e a morte do Profeta Joseph? A razão fundamental foi esta: eram servos de Deus, e Satanás queria tirá-los do caminho. Estavam como "leões no caminho", e estavam edificando o reino de Deus da maneira que Ele próprio havia designado. Ambos os homens tinham contemplado a face da Divindade. Paulo fora "arrebatado ao terceiro céu", Joseph ao "sétimo céu", e ali "ouvira coisas que não é lícito revelar". Cada um foi um pregador divinamente comissionado do evangelho, na abertura de uma nova dispensação. ¶
O que queremos dizer com uma dispensação do evangelho? Queremos dizer a abertura dos céus depois de um período de trevas e degeneração, e o envio ou a dispensação da luz espiritual para a salvação da humanidade; o envio também da autoridade divina, sem a qual nenhum homem pode estar qualificado a pregar o evangelho ou administrar suas sagradas ordenanças. E estes homens, cada um em seu tempo, permaneceram como proclamadores e ministros autorizados do evangelho restaurado. Sim, o evangelho restaurado: Paulo não pregou nenhum evangelho novo. Há apenas um evangelho, como ele disse aos Gálatas: "Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. Que não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem distorcer o evangelho de Cristo; mas, ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além daquele que já vos anunciamos [...] além do que já recebestes, seja anátema." ¶
O evangelho que Paulo pregou era o evangelho que Adão pregara; o evangelho que Enoque pregara; que Noé pregara; que Abraão pregara; e que Moisés pregara; pois nos é dito na revelação moderna que Moisés tinha a plenitude do Evangelho, com o Sacerdócio de Melquisedeque, e que, se Israel estivesse disposto naquele tempo, Moisés os teria santificado pelo evangelho, pelo sacerdócio, e eles, assim como ele, teriam sido admitidos à presença do Senhor. Mas não o quiseram; eram indignos disso; não estavam prontos para isso; não haviam progredido até o grau em que pudessem receber a plenitude do evangelho; e assim ela foi tirada, juntamente com Moisés e o sacerdócio de Melquisedeque, e Israel foi deixado, por mil e quinhentos anos, sob o domínio do sacerdócio aarônico, ou menor, com a lei mosaica — a lei dos mandamentos carnais. Estas continuaram, num estado mais ou menos degenerado, até a vinda de João Batista e do Senhor Jesus Cristo. ¶
O que Jesus pediu aos judeus? Propôs Ele destruir o que eles tinham de verdadeiro, bom, sábio e louvável? Não. "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruir, mas para cumprir." Isto se referia a observâncias como o sacrifício, a circuncisão e a Páscoa; não afetava os Dez Mandamentos, que ainda estão em vigor, nem as Profecias, muitas das quais ainda estão para se cumprir. Ele lhes pediu que deixassem de lado o obsoleto, aquilo que já havia cumprido seu propósito, e que aceitassem algo melhor, mesmo a plenitude do Evangelho, para o qual a Lei de Moisés fora dada para os preparar — "um aio", como Paulo o coloca, "para nos conduzir a Cristo". Isto era o que significava a nova dispensação: subi mais alto! "Ouvistes que foi dito antigamente: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo; mas eu vos digo: amai os vossos inimigos, orai por aqueles que vos maltratam e vos perseguem." "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus; porque Ele faz que o seu sol se levante sobre os maus e os bons, e a chuva desça sobre os justos e os injustos." E ficaram "admirados com a doutrina"; porque, por quinze séculos, haviam sido instruídos sob uma lei menor, e agora se lhes exigia que tomassem a lei superior para sua orientação: que se firmassem sobre uma plataforma mais ampla e mais grandiosa, e praticassem a plenitude da religião de Jesus Cristo. Apenas poucos estavam dispostos a fazer isso: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam; mas a todos quantos o receberam", tanto judeus como gentios, "deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus". E, porque a grande massa da raça judaica não estava disposta a deixar de lado a lei obsoleta de Moisés e aceitar a lei viva do Cristo, rejeitaram seu Messias, a quem esperavam havia séculos, crucificaram o Filho de Deus, e perseguiram Seus seguidores. A verdadeira razão para o martírio de homens como Paulo e Pedro foi esta: o mundo, embora disposto a crer, em parte, no que Deus havia revelado, não estava disposto a aceitar uma nova revelação, para a qual a revelação anterior se destinava a prepará-los. ¶
O mesmo foi verdade quando o Profeta Joseph anunciou a abertura da última dispensação. O que ele exigiu do mundo? Pediu-lhes que jogassem fora algo que fosse bom, que fosse útil, que ainda estivesse em vigor e o estivera desde os dias de Moisés e Paulo? Não; os servos de Deus jamais exigiram isso da humanidade. Joseph conclamou a Cristandade, não a virar as costas ao Redentor, não a perder sua fé em Jesus Cristo, não a jogar fora nada que fosse precioso, que fosse destinado a durar, que não tivesse cumprido sua missão. Como Seu divino Mestre, ele não veio para destruir, mas para cumprir; conclamou os homens a receberem algo melhor do que já possuíam — mesmo o Evangelho restaurado, restaurado pela última vez, nesta a dispensação da plenitude dos tempos, na qual todas as outras dispensações desembocam, como rios no oceano; — o tempo da segunda vinda do Filho de Deus; do grande Milênio de paz e boa vontade — a manhã da gloriosa ressurreição, quando os mortos em Cristo ressuscitarão para encontrar o Senhor, quando Ele vier com Seus Santos nas nuvens do céu para reinar sobre Seu povo. ¶
Esta é a mensagem do "mormonismo" ao mundo — não é uma mensagem de guerra, mas de paz; não uma mensagem de destruição, mas de conservação. Conclama o mundo cristão, e todos os homens, a abandonarem seus credos sem vida e gastos; a jogarem fora tudo o que é falso e sem valor — as doutrinas dos homens e as doutrinas dos demônios — e a voltarem para a luz, para o caminho que Deus traçou. É só isso; e foi isto que provocou a morte de Joseph Smith — não a destruição do Nauvoo Expositor, nem a convocação da Legião para defender a cidade contra turbas e saqueadores. Isso é apenas a razão superficial. A razão profunda, fundamental, é esta: o mundo não estava disposto, como nunca esteve, a abandonar suas falsas tradições, a crer em tudo o que Deus havia revelado, para que pudesse estar preparado para o que Ele ainda revelará, antes que o homem possa ser aperfeiçoado e o reino de Deus firmemente estabelecido. O mundo cristão, contudo, está começando a se conscientizar de suas deficiências, está começando a perceber sua necessidade de nova luz e ajuda de Deus. Na Assembleia de Outono dos Congregacionalistas Britânicos, em outubro de 1910, um dos temas em discussão foi: "Está a Igreja Perdendo Seu Domínio sobre os Homens?" O Reverendo David Walters, de Leeds, expressou-se da seguinte forma: "Já ouvi dizer, repetidas vezes: quando vós, pregadores da religião, decidirdes entre vós mesmos no que devemos crer, estaremos prontos para ouvir. Não é uma simples desculpa; é a expressão do cansaço com a incerteza. Diferentes pregadores não apenas se contradizem uns aos outros, mas muito poucos de nós, se algum, prega com aquele tom de certeza que carrega convicção. Não podemos fazer o povo crer mais, ou mais profunda e fortemente, do que nós mesmos cremos. Não sabemos onde estamos. A hesitação nunca inspira. Creio que sairemos deste período de incerteza, e que Deus levantará, a Seu próprio tempo, quando as condições forem favoráveis, outro Paulo, ou Agostinho, ou Calvino, que interpretará para nós nosso grande evangelho em termos que serão reais e convincentes para a mente moderna. Será uma teologia mais nova do que qualquer coisa que já tivemos; e, contudo, será reconhecida como a antiga. Os corações dos homens saltarão em resposta a ela e dirão: Isto é verdade; isto é o que estávamos esperando; e todos nós o pregaremos com a consciência de que estamos alinhados com todos os pregadores fiéis do passado, e, contudo, que pregamos numa linguagem que é compreendida pela geração presente." O Bispo de Liverpool, num sermão proferido na Igreja da Santíssima Trindade, em Southport, em 20 de março de 1912, disse que "a igreja, no presente, parecia quase superada pelos poderes das trevas. Às vezes, parecia que as trevas estavam ganhando terreno sobre a luz. Qual era a causa desta estranha paralisia que acometera a igreja? Ele acreditava que a igreja precisava, hoje, de uma redescoberta de Deus; acreditava que a igreja estava fraca hoje porque Deus estava tão distante, tão irreal, tão tenuamente visto hoje. Viam os resultados dessa visão tênue do Deus distante; viam, por todos os lados, instabilidade na fé, frouxidão na vida espiritual, homens perdendo seu domínio sobre aquelas grandes e vitais verdades que fizeram da Cristandade o que ela era." ¶
A única falha séria que se pode encontrar em declarações como estas é o fato de que elas predizem algo que já aconteceu. Tem havido "uma redescoberta de Deus", e, como resultado, milhares, sim, dezenas, centenas de milhares, estão hoje adorando o Deus verdadeiro e vivo, que não se parece em nada mais com o Deus tênue e distante da Cristandade moderna do que o céu se parece com a terra, ou a substância com a sombra. ¶
O novo "Paulo" chegou; o novo Evangelho, que é o antigo, restaurado por mensageiros celestiais, interpretado por oráculos vivos, para a alegria de muitas almas honestas, está sendo pregado novamente em todo o mundo, como testemunho antes que venha o fim. ¶
E a história está se repetindo: os judeus esperavam um Messias, mas, quando Ele veio, O crucificaram, e continuaram a esperar por Sua vinda. O mundo cristão matou os profetas de Deus, enviados como precursores da segunda vinda do Messias. Qual será sua atitude para com Aquele que os enviou? Esperemos, pela honra da raça humana, que, quando o Cristo glorificado tiver vindo, e estiver sentado em Seu trono soberano, com todas as nações diante dEle, não haverá Santo dos Últimos Dias, nenhum cristão, nenhum judeu, nenhum gentio, que, depois de contemplar Seu glorioso semblante, depois de encontrá-lO face a face, ainda esteja esperando pelo tempo de Sua vinda. ¶