Essenciais, Não Essenciais, e Caridade
B. H. Roberts
Gostaria de saber quem foi que disse: "Nos essenciais, que haja unidade; nos não essenciais, liberdade; e em todas as coisas, caridade." Mas, se algum dia soube quem disse isso, agora não consigo me lembrar quem foi, e não sei se isso importa, porque a beleza e a verdade do dito são evidentes por si mesmas. É uma daquelas coisas que o mundo aceitou em sua literatura como sendo verdadeira e sensata, e pouco importa quem a disse, já que não requer outra autoridade além da própria coisa para recomendá-la aos homens. ¶
Ao ouvir, como ouvi, pelo menos em algumas das reuniões desta conferência, o discurso de meus irmãos, senti-me regozijar no conhecimento do fato de que, no que diz respeito aos essenciais, aos essenciais absolutos e positivos, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está sobre um terreno muito firme e sólido. Sabemos as coisas que dizem respeito à salvação dos homens. Conhecemos a Deus: não apenas o fato de Sua existência, mas o tipo de ser que Ele é, porque Ele é plenamente revelado na pessoa e no caráter do Senhor Jesus Cristo. Jesus Cristo é Deus manifesto na carne. Ele é o Filho de Deus, e, como Ele era e é, assim também é o Pai. Como Ele agiu e ensinou, assim o Pai teria agido e ensinado, se tivesse vindo entre os homens. O Senhor Jesus Cristo não é apenas a expressa imagem da pessoa do Pai, e o resplendor da glória do Pai, como declaram as escrituras, mas também é uma completa revelação de Deus, de tudo o que é divino. Assim, conhecemos a Deus por meio da revelação de Si mesmo na pessoa de Jesus Cristo; e que o Pai e o Filho, e a personagem espiritual conhecida como Espírito Santo, constituem, para nós, homens, a suprema Trindade, a quem devemos lealdade, a quem submetemos nosso juízo e nossa vontade, pois somente isso é a verdadeira adoração. Conhecemos estas personagens divinas também por meio de suas principais funções. O Pai é, primariamente, Criador. O Filho é, primariamente, o Revelador de Deus, e o Redentor dos homens; e o Espírito Santo é a testemunha de Deus quanto ao Pai e ao Filho, e de toda a verdade, todo o volume dela; a Testemunha divina de Deus para as almas dos homens. Quaisquer que sejam as divisões e opiniões opostas que existam no mundo a respeito da Trindade, os Santos dos Últimos Dias são tão abençoados que há unidade perfeita e absoluta em relação a esta grande verdade central da religião cristã. ¶
Estamos igualmente unidos em relação ao grande fato da redenção humana; sabemos que somos redimidos das consequências da transgressão de Adão por meio da expiação do Cristo, sem condição, no que se refere a esse mero fato, isto é, sem condição de nossa parte; pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Somos redimidos das consequências de nossos pecados e transgressões individuais também pela aceitação da expiação do Cristo; e pela obediência às leis e ordenanças do evangelho; e sabemos, pelas revelações de Deus, sem sombra de dúvida, quais são essas leis e ordenanças. Sabemos que devemos manifestar nossa aceitação da expiação do Cristo submetendo-nos a, e realizando, os símbolos da expiação em nosso batismo, simbolizando neles a morte e a ressurreição do Cristo; e, na confirmação, pela imposição das mãos, recebemos o batismo do Espírito Santo. Sendo levados, por essa ordenança e uma disposição correta, à plena comunhão com o Espírito Santo — para tê-lO como amigo, guia, e testemunha da verdade em nossas almas. ¶
Para manter em memória os convênios e obrigações que fazemos, repetimos estes símbolos da expiação ao participar do santo sacramento; participando do pão partido, em memória do corpo partido do Cristo; participando da água, ou do vinho, em memória do sangue derramado do Cristo, testificando ao Pai que sempre nos lembraremos dEle, e guardaremos os mandamentos que Ele nos deu; para que possamos ter tudo isso coroado com a realização daquela bela e esplêndida promessa, de que teremos sempre Seu Espírito conosco. Em todos estes assuntos, há unidade absoluta, e deve continuar a haver unidade absoluta entre os Santos. Não pode haver variação. Não pode haver alteração. Não pode haver diminuição nem acréscimo a estas coisas. Elas são essenciais. Sabemos também que estas ordenanças do evangelho devem ser realizadas, e só podem ser realizadas apropriadamente, por aqueles que receberam comissão divina de Deus, que detêm autoridade divina. Deus fez de Sua Igreja um depositário de Sua verdade, e comissionou aquela Igreja com autoridade divina para ensinar, no poder e na demonstração de Seu Espírito, estas verdades essenciais a todos os habitantes da terra, nossa missão estendendo-se a toda nação, e parentela, e língua, e povo, sob todo o céu — uma igreja universal, com uma missão universal. Nestas coisas essenciais, estamos unidos. Sabemos também que, além desta comissão recebida de Deus para ensinar a verdade, é a missão da Igreja aperfeiçoar as vidas daqueles que recebem a verdade que ela ensina; e isso por meio do ensino, da persuasão, da paciência, e da longanimidade. Tal, em resumo, é a missão da Igreja de Cristo; e estamos unidos em relação a todas estas coisas. E não apenas estamos unidos em relação a estas coisas — estes essenciais — mas em relação à lei moral do evangelho, à ética da Igreja de Cristo, e do evangelho de Jesus Cristo. Penso que não há fundamento para divisão em relação à lei da retidão. Conhecemos a lei da retidão — quase disse, perfeitamente bem; pelo menos, não há fundamento para séria divisão entre nós a respeito do que é verdade, e justiça, e retidão, e moralidade, em todas as coisas, e em todas as relações. ¶
Os Santos dos Últimos Dias são um povo abençoado. Existe — eu ia dizer que pode existir, mas prefiro dizer que existe — unidade perfeita em relação a todos estes essenciais; quanto à fé que recebemos, quanto à dispensação da plenitude dos tempos que Deus nos revelou nestes dias. E assim me regozijo nestas bênçãos, e posso olhar adiante com perfeita confiança de que, em todas estas grandes e essenciais coisas, tocantes à salvação dos homens, a Igreja de Cristo permanecerá absolutamente unida. A crença nestas coisas, e sua aceitação, são essenciais à unidade e integridade e à própria existência da Igreja. ¶
Ora, quando contemplais aquela outra divisão, os não essenciais, aqui tendes um campo em que deveria existir liberdade; em que deveria existir tolerância: tolerância em nossas relações e atividades sociais, em nossos assuntos comerciais, e nas ocupações industriais; na esfera do governo civil. Estas coisas em que o juízo dos homens pode ser exercido, e onde é apenas, talvez, uma questão de política, ou de administração. Se apenas pudermos infundir, nesta esfera dos não essenciais, onde o juízo de um homem pode ser tão bom quanto o de outro, se nesse campo pudermos apenas trazer o princípio da caridade, e da tolerância, e o reconhecimento da liberdade de todos os homens, parece-me então que teremos boa razão para crer que, nesta esfera dos não essenciais, nos daremos tão bem quanto no campo em que estamos unidos em relação aos essenciais absolutos. Creio que temos o direito de assumir uma visão otimista a respeito destes assuntos que compõem a esfera dos não essenciais; e especialmente em relação à esfera do governo civil. Há uma passagem no Livro de Mórmon que, para mim, tem sido muito instrutiva, e também muito encorajadora. Penso que vo-la lerei, já que alguns de vós talvez a tenham perdido. Ocorre no Livro de Mosias, onde se descreve uma transição de uma forma monárquica de governo para um reinado de juízes, o que, na realidade, era uma espécie de república, ou governo pelo povo. O valor desta passagem, que lerei, está em que expressa confiança na capacidade do povo de governar, de se governar a si mesmo; e este homem inspirado, Mosias, os conclama a exercer esse dever, e a fazê-lo no temor de Deus. Ao recomendar as mudanças na forma do governo nefita, ele disse: ¶
"Portanto, escolhei juízes pela voz deste povo, para que sejais julgados de acordo com as leis que vos foram dadas por nossos pais, as quais são corretas e foram dadas a eles pela mão do Senhor. Ora, não é comum a voz do povo desejar algo contrário ao que é direito; mas é comum a minoria do povo desejar o que não é direito; portanto, observareis e tereis isto por lei — resolver vossos negócios de acordo com a voz do povo. E se chegar o tempo em que a voz do povo escolher iniquidade, então os julgamentos de Deus recairão sobre vós; sim, então será o tempo em que ele vos visitará com grande destruição, assim como tem, até aqui, visitado esta terra. * * * E eu vos ordeno que façais estas coisas no temor do Senhor; e ordeno-vos que façais estas coisas e que não tenhais rei; de modo que, se este povo cometer pecados e iniquidades, recairão sobre sua própria cabeça, pois eis que vos digo que os pecados de muitos foram causados pelas iniquidades de seus reis; portanto, suas iniquidades recaem sobre a cabeça de seus reis. E agora desejo que esta iniquidade não exista mais nesta terra, especialmente entre meu povo; mas desejo que esta seja uma terra de liberdade e que todos os homens gozem igualmente de seus direitos e privilégios, enquanto o Senhor julgar conveniente que vivamos e herdemos a terra; sim, enquanto qualquer de nossos descendentes permanecer sobre a face desta terra." ¶
A meu ver, Joseph Smith, ao trazer à luz este princípio por meio do Livro de Mórmon — o princípio da responsabilidade pessoal e moral perante Deus, pelo governo que prevalece em repúblicas livres — contribuiu com um dos mais poderosos pensamentos para a vida política da era em que viveu, de todos os que qualquer homem trouxe, em todas as contribuições já feitas ao pensamento político na América. A ideia de Patrick Henry, de que os homens tinham um direito inerente de se rebelar contra a tirania insuportável, não se equipara a ele. A grande doutrina de Jefferson na Declaração de Independência, de que todos os homens são criados iguais, e de que são dotados dos direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade, não é maior do que esta doutrina do Livro de Mórmon. A grande contribuição de Webster sobre o "nacionalismo", a saber, que esta nação era uma união indestrutível de estados indestrutíveis, não é superior a ele. E o grande pensamento de Lincoln, de que o princípio da Declaração de Independência, de que todos os homens são, por direito, livres, deve valer tanto para a raça de cor quanto para a raça branca, não o supera. Porque este grande pensamento do Livro de Mórmon é este: que, embora os governos derivem seus justos poderes do consentimento dos governados, com isso vem a temível responsabilidade moral, direta para com Deus, de cada homem e mulher que participa, como soberanos, num governo livre, pelo tipo de governo que prevalece em tal país. A grande doutrina da responsabilidade moral direta, perante Deus, de um povo livre, é de fato um enunciado que inspira a alma, mas é também uma condição que inspira temor reverente, e traz em si evidência da divina fonte de onde provém. ¶
Foi sobre este princípio de confiança na capacidade do povo de se governar a si mesmo que o Senhor inspirou aqueles a quem chamamos "pais de nossa república", os fundadores da constituição — foi sobre este grande princípio de fé na capacidade do povo para o autogoverno, que as pedras angulares desta república foram lançadas. Os governos foram anunciados, na Declaração de Independência, como criaturas do povo; e, de fato, foi ainda anunciado na Declaração de Independência — e deveis vos lembrar de que a Declaração de Independência é o prefácio da Constituição, a Constituição meramente organizou os meios para levar a cabo os princípios de liberdade anunciados no documento conhecido como Declaração de Independência — foi anunciado, digo, que, se os governos se tornarem destrutivos das liberdades e dos direitos do povo, é direito do povo alterá-los, ou mesmo aboli-los, e instituir novas formas que, a seu juízo, melhor tendam a preservar seus direitos e suas liberdades. ¶
Sobre este assunto, desejo vos ler uma declaração do Presidente Brigham Young, que tinha certa reputação por sua capacidade construtiva de estadista e por sua compreensão inteligente das coisas. Neste documento diante de mim, eu poderia possivelmente vos ler coisas que, em nossa presente condição, poderiam ser consideradas um tanto surpreendentes, mas não desejo fazer isso. Prefiro não trazer confusão, mas paz; e, uma vez que sou um homem de paz, e a desejo com todo o meu coração — isto é, aquela paz que é compatível com a liberdade humana, e com a preservação dos direitos humanos. Mas, por mais cara que a paz me seja, não é tão cara a ponto de eu a comprar ao custo do sacrifício dos direitos humanos e da liberdade humana. Mas vos leio aquilo com que estou certo de que todos concordaremos. "A constituição geral de nosso país", disse Brigham Young, "é boa, e um governo saudável poderia ser fundado sobre ela; pois foi ditada pelas operações invisíveis do Todo-Poderoso. O propósito de Deus, ao levantar estes homens e inspirá-los com ousadia suficiente para superar todo poder opositor, foi preparar o caminho para a formação de um verdadeiro governo republicano. Eles lançaram o fundamento, mas, quando outros vieram construir sobre ele, ergueram uma superestrutura muito aquém de seus privilégios, se tivessem andado retamente, como deveriam ter feito. * * * * Os signatários da Declaração de Independência, e os redatores da Constituição, foram inspirados do alto para realizar aquela obra. Mas era aquilo que lhes foi dado perfeito, sem admitir acréscimo algum? Não; pois, se os homens sabem alguma coisa, devem saber que o Todo-Poderoso jamais encontrou, na mortalidade, um homem capaz, à primeira indicação, ao primeiro impulso, de receber algo num estado de inteira perfeição. Eles lançaram o fundamento, e coube às gerações posteriores erguer a superestrutura sobre ele. É uma obra progressiva e gradual." Penso que é sabedoria divina, manifesta na Constituição de nosso país, que se preveja sua emenda, de tempos em tempos, conforme a experiência, visões mais amplas, e condições mutáveis o justifiquem. Contudo, sobre este assunto de mudança na Constituição, creio que o espírito conservador deve prevalecer; que cuidado, e muitíssima atenção, devem ser exercidos em relação à mudança na lei fundamental de nosso governo; mas não penseis que, por crermos na grande verdade de que a Constituição de nosso país foi produto de inspiração divina, novas condições e uma condição em constante mudança não justificariam, de tempos em tempos, mudanças na lei fundamental da terra. ¶
Ora, em relação a todos estes assuntos, estamos operando no reino dos não essenciais, isto é, o reino onde o juízo humano pode ser exercido; e onde os homens talvez não consigam chegar a uma unidade absoluta de entendimento em relação a certos assuntos, e, nesse caso, lembremo-nos de que é o reino onde prevalecem a liberdade e a tolerância, e é próprio que a caridade também abunde. ¶
Agradeço ao Senhor e aos irmãos por esta oportunidade de dizer tanto em relação a estas questões que ocupam a atenção do povo. Regozijo-me por, no grande campo das coisas que são essenciais, o Senhor ter falado, e haver fundamento para unidade absoluta existir entre nós; e confio sinceramente que, para este outro campo, no reino dos não essenciais, haja liberdade e tolerância; e em ambos — no exercício e na administração tanto dos essenciais como do reino da liberdade — o grande princípio da caridade — que é o puro amor de Deus — possa abundar. ¶
Para concluir, meus irmãos e irmãs, permiti-me, uma vez mais, dar-vos testemunho da verdade da grande obra dos últimos dias, e proclamar mais uma vez meu amor e minha devoção por ela. Amo o evangelho de Jesus Cristo. Creio nele e o aceito com todo o meu coração. Se é possível que a consciência do homem seja despertada para o conhecimento da verdade de uma coisa, então sei, tão certamente quanto sei que vivo, que Deus vive; que Jesus é o Cristo; que os homens podem formar uma companhia com o Espírito Santo; que o perdão do pecado é verdadeiro; que a ressurreição dos mortos é uma doutrina verdadeira; que a divindade da Igreja está além de qualquer questionamento; que o poder do Santo Sacerdócio é divino; e que o homem pode ter esperança de imortalidade e vida eterna, nos reinos da liberdade, sob a lei de Deus. Testifico-vos que minha alma tem um testemunho de que todas estas coisas são verdadeiras, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶