A Ressurreição Literal e uma Religião Atualizada
James E. Talmage
É com sentimentos de genuína gratidão que me apresento diante de vós para acrescentar meu testemunho aos que ouvistes. Uma visão mais inspiradora do que esta diante de mim dificilmente poderia ser imaginada, e certamente não poderia ser desejada. É duvidoso que, em qualquer outro lugar desta grande terra, uma reunião maior enobreça este dia de Páscoa. Sinto que os Santos dos Últimos Dias manifestaram um interesse mais louvável por sua religião, uma sinceridade mais recomendável, e genuína devoção à causa da verdade, na atenção que dedicaram a esta Conferência. ¶
Este é, de fato, um dia entre os dias, para todos os cristãos. Embora seja verdade que a celebração da Páscoa tem sua contraparte em muitos costumes pagãos, não obstante, a Páscoa representa hoje a crença, a profissão e a esperança cristãs. É o dia mais alegre do ano; e cremos que, neste ano presente, o aniversário cai bem próximo da data real e correta. É o aniversário do maior acontecimento em toda a história, o milagre mais eficaz conhecido pelo homem — um milagre que supera tudo o que a mente do homem poderia, por si mesma, conceber. Foi no dia que agora comemoramos que a vitória sobre a sepultura foi proclamada, e as boas novas da vida eterna foram dadas a conhecer. ¶
Os Santos dos Últimos Dias creem em uma ressurreição literal do corpo. Aceitam a doutrina bíblica em toda a sua beleza e simplicidade. Não a investem de mistérios estranhos, nem leem, no registro sagrado, interpretações e significados nele não inerentes. Os Santos dos Últimos Dias creem que esta vida é parte necessária da educação da alma, que é um estágio que marca avanço e progressão; que somente aqueles filhos e filhas de Deus que foram dignos tiveram permissão para tomar sobre si tabernáculos mortais sobre a terra. Creem que a morte é tanto parte do plano divino quanto o é o nascimento; e que a morte é apenas uma passagem de um estágio necessário para outro ainda mais avançado. Creem, sem questionamento ou dúvida, que o corpo e o espírito se reunirão novamente em uma ressurreição literal; e que se lembre: a ressurreição do corpo é o pensamento dominante e a ideia central do culto pascal. O homem que crê na ressurreição do corpo deve basear sua crença na revelação; e o homem que assim crê é inconsistente se questiona a verdade declarada em revelação absoluta e literal de Deus. ¶
É um fato que buscamos em vão, na natureza, qualquer analogia da ressurreição. Nunca estive em harmonia com as tentativas de alguns de encontrar, na natureza, analogias que não existem, relativas a este grande acontecimento de tão excepcional importância. O ovo, apresentado como símbolo pascal, tem sido apontado como um exemplo de vida após a morte. Disse-se que o surgimento da ave a partir do recesso semelhante a um túmulo do ovo é um exemplo do retorno da vida da morte. A analogia é falha; o exemplo não é bom; pois deve-se compreender que o ovo que pode chocar, ou que virá a chocar, não está morto; e, se estiver de fato morto, não voltará a ter vida. O rebentar dos brotos na primavera, o vestir-se novamente de folhagem pelas árvores, tem sido forçado por alguns e colocado a serviço como outro exemplo de ressurreição dos mortos; mas creio que isso é igualmente falho, pois a árvore que está morta não brota folhas na primavera, e a planta que está morta não volta a dar flores. O sono do inseto, pelo qual ele passa da larva rastejante para a crisálida semelhante à morte, semelhante a um cadáver, da qual, depois de algum tempo, a imago alada surge em toda a glória da maturidade, foi usado por outros como exemplo da ressurreição. Mas, novamente, isso é falho e inverídico, pois a crisálida não está morta, e, se estivesse, não irromperia na beleza alada que coroa a sequência da vida do inseto. Quando aceitamos essas ocorrências naturais como analogias da ressurreição corpórea da morte, somos levados a considerar favoravelmente também aquela analogia que alguns tentam afirmar, de que o Cristo crucificado não estava morto, mas estava em estado de coma, ou transe, e saiu daquela condição por um simples processo de revitalização, e voltou a ser visto pelos homens, não como um Ser imortal, mas como um homem que se recuperara de um desmaio. Jesus morreu na cruz. Seu espírito foi literal e verdadeiramente separado de Seu corpo; aquele corpo não estava em estado de animação suspensa, ainda vivo; aquele corpo estava morto, no sentido de ser um tabernáculo de barro sem habitante, e foi somente pelo poder de Deus que pôde ser trazido novamente à vida. Não neguemos a literalidade da ressurreição, tal como dada a conhecer por meio das revelações de Deus. Cremos que verdadeiramente morreremos, e que o espírito — aquela parte imortal do homem, que existiu antes de o corpo ser formado, e que existirá e continuará a viver depois que aquele corpo se decompuser — tomará novamente sobre si este tabernáculo de elemento terreno, imortalizado, contudo, e destinado a servir-lhe como veste apropriada por toda a eternidade. ¶
Os Santos dos Últimos Dias têm sido acusados de grande literalidade, de surpreendente simplicidade, e, como um crítico me disse, de uma materialidade brutal, em sua doutrina. Reconhecemos a acusação no sentido em que foi feita, embora possamos objetar a alguns dos adjetivos. Os Santos dos Últimos Dias são simplesmente de mente tão simples que estão dispostos a crer no Senhor quando Ele fala, e a tomá-lO por Sua palavra. Regozijamo-nos na esperança e na certeza de uma gloriosa ressurreição. Regozijamo-nos na obra que foi inaugurada naquele primeiro período pascal, por e em favor dos mortos. Pois, enquanto o corpo do Cristo jazia na sepultura, como sabemos sem questionamento, Seu espírito foi aos espíritos em prisão, àqueles que estavam presos em cadeias por causa de sua desobediência, àqueles que não haviam tido o privilégio de aprender a respeito da eficácia redentora do Evangelho; e Ele introduziu e inaugurou ali um trabalho missionário que tem continuado desde então — um trabalho missionário com o qual, comparado, aquilo que tentamos fazer aqui na terra, com nossos dois mil missionários no campo, não é sequer uma gota comparada ao oceano. São necessários homens para o serviço missionário entre os mortos. Quem são os mortos, senão aqueles que outrora viveram? Deus é Senhor tanto dos vivos como dos mortos; e todos vivem para Ele. Se é verdade que o homem que agora vive não pode esperar entrar no Reino de Deus a menos que cumpra a simples lei e exigência estabelecida pelo autor de nossa salvação, a saber, que devemos nascer da água e do espírito, isso se aplica igualmente a cada um dentre as incontáveis miríades que viveram e já partiram. ¶
A doutrina da salvação para os mortos veio como uma revelação à terra. Teve de ser dada a conhecer novamente; pois, embora já fosse conhecida antigamente, ela, como muitas outras das doutrinas salvadoras do Evangelho, havia sido perdida de vista e esquecida. O trabalho em favor dos mortos foi citado por Paulo, um apóstolo antigo, como argumento e evidência da ressurreição; disse ele: "Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?" Ao longo dos séculos da profunda noite da apostasia, nenhuma ordenança sequer foi realizada em favor dos mortos. No entanto, as fileiras dos mortos, naquele tempo, aumentavam por incontáveis milhares. Estamos muito atrasados na obra, mas o Senhor providenciou um meio pelo qual ela será realizada, e pelo qual é privilégio daqueles que entram pela porta manterem essa mesma porta aberta para admitir outros, outros que outrora estiveram entre os vivos e agora estão entre os mortos. ¶
Para mim, há um significado especial em nos reunirmos neste quarteirão, junto ao grande templo consagrado, em sua maior parte, à obra pelos mortos. Pois saiba-se que esta grande obra de construção de templos, pela qual os Santos dos Últimos Dias são tão bem conhecidos e tão amplamente afamados, é, em grande medida, embora não inteiramente, uma obra em favor dos mortos. Não estão dando de seus bens para erigir esses grandes edifícios para si mesmos, para engrandecimento próprio, nem para o embelezamento da terra. O espírito de construção de templos manifestado entre os Santos dos Últimos Dias é o espírito do absoluto desprendimento; é o espírito de Elias, o espírito pelo qual o coração dos filhos se volta para os pais, e o coração dos pais se dirige para os filhos; pois nenhum homem está sozinho sobre esta terra. Falamos de independência. Nenhum homem é independente. Somos todos interdependentes; e só nos elevaremos à medida que levarmos outros conosco, e à medida que formos auxiliados por outros. Minha própria mente se voltou para este grande assunto, e tenho pensado muito nele enquanto estive sentado durante os exercícios desta manhã, pelo fato de que foi na gloriosa época pascal que a obra pelos mortos foi inaugurada; foi nesta estação que o grande trabalho missionário no mundo espiritual foi iniciado, e as portas ali se abriram, e um meio de libertação foi pregado àqueles que estavam sentados em trevas, alguns deles desde os dias de Noé. ¶
Sinto-me particularmente satisfeito nesta oportunidade de prestar-vos um humilde testemunho da divindade desta obra, da sacralidade do trabalho pelo qual a Igreja se posiciona. Como ouvimos ontem, o testemunho é frequentemente mais eficaz do que o argumento, frequentemente mais poderoso do que as razões, tal como o homem enumera razões, e as lista, e as coteja, e as analisa; pois, no final, ele só pode basear a correção de suas conclusões na certeza de que seus processos estão livres de erro. Ao passo que aquele que é capaz de se apresentar e dizer "eu sei" testifica de si mesmo, por causa do conhecimento que existe dentro dele; e esse conhecimento lhe é dado por Deus. Este povo crê em fazer testemunho, em prestar testemunho, em falar o testemunho; e, embora não creiam que o testemunho de um homem, por si só, condene ou justifique outro, creem que o testemunho humilde e sincero de um homem merece consideração respeitosa. Os Santos dos Últimos Dias vos dizem que sabem que o Evangelho é verdadeiro, pois esse conhecimento lhes foi dado; e, quando um homem é capaz de dizer, como disse o principal dos apóstolos antigos a respeito de Cristo, "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo," a ele se aplica a resposta: "Não to revelou a carne e o sangue, mas o Pai que está nos céus." E, venha esse testemunho da forma que vier, ele tem um poder salvador para o homem; este é o tipo de testemunho que permanece e abunda nos corações deste povo, e o manifestam em suas vidas. Jesus veio com Seu testemunho, e o povo se surpreendeu com Suas doutrinas, não porque Ele lhes trouxesse algo essencialmente novo em todos os pormenores; pois Ele usava as próprias escrituras deles; trazia à colação seus provérbios, e se referia às coisas que bem conheciam; mas Ele deu a tudo isso uma nova aplicação e um novo significado; e disseram: "Ele fala como quem tem autoridade, e não como os escribas." Seu discurso não era uma laboriosa compilação de passagens. Ele não baseava Suas doutrinas no que os profetas que O precederam haviam dito, embora Se referisse com aprovação a muitas de suas declarações inspiradas; mas falava a partir do conhecimento que possuía dentro de Si, e falava em virtude da autoridade que detinha; e assim Ele se distinguia entre os mestres da época, e, portanto, compelia a atenção. ¶
Tal é, em certa medida, o testemunho do Élder dos Santos dos Últimos Dias. Ele sai em humildade. Talvez não seja eloquente. Pode estar longe de ser instruído, como o mundo considera a instrução; contudo, não é ignorante, quando é capaz de se apresentar e dizer: "Sei que este Evangelho é verdadeiro." Olhamos para as escrituras do passado com reverência. Cremos que são necessárias para a edificação da igreja nestes dias; mas não dependemos delas para nossa autoridade, nem para a interpretação que damos às mensagens de Deus. ¶
Não cremos em viver inteiramente no passado. Cremos em uma doutrina atualizada, em uma igreja atualizada, em uma religião atualizada, uma religião que é sempre enriquecida por nova revelação, uma igreja que está em comunicação direta com a sede, uma igreja que está recebendo, por meio da revelação, a palavra de Deus hoje, referente aos assuntos de hoje. Quando se fez pela primeira vez a proclamação de que a revelação direta de Deus era característica dos tempos modernos, houve consternação nas fileiras das igrejas daquela época; pois saiba-se que, quando esta igreja foi estabelecida no século dezenove, não havia sobre a terra nenhuma igreja consagrada ao nome de Cristo. Havia igrejas em grande variedade, igrejas que traziam nomes de homens, organizações bem como edifícios estabelecidos e erigidos em nome de Pedro, e de Paulo, e de Moisés, e de Elias; igrejas nomeadas segundo peculiaridades de sua adoração, presbiteriana, congregacional, episcopal; igrejas nomeadas segundo homens que se dedicaram à sua fundação — havia a igreja luterana, a igreja wesleyana, a igreja calvinista. Mas, quando se proclamou que agora havia sobre a terra uma igreja consagrada ao nome de Cristo, manifestou-se medo e tremor entre os professores de religião. A consternação entrou em suas almas quando aquele estandarte foi erguido; e, no entanto, que outro nome seria apropriado? A profissão desta igreja está expressa em seu nome. Não é a igreja de Joseph Smith, nem de Brigham Young, nem de Joseph F. Smith, nem de qualquer outro homem ou combinação de homens. Não é a igreja mórmon, embora não nos oponhamos a esse termo, primeiramente aplicado com escárnio, exceto pelo possível erro que possa acompanhar seu uso; pois não é a igreja de Mórmon! É a Igreja de Jesus Cristo. Se o nome, Igreja de Jesus Cristo, foi assumido com autoridade, isso, por si só, é explicação suficiente para a ascensão e o desenvolvimento fenomenais desta igreja; e, se foi assumido sem autoridade, é o mais flagrante exemplo de blasfêmia que o mundo já conheceu. Nenhum desafio maior pode ser lançado ao mundo do que o nome que esta igreja carrega. Testifico-vos que esta é a Igreja de Jesus Cristo, que o poder do Cristo está nela, o próprio Cristo que viveu como homem, que morreu como Deus, aquele que ressuscitou, que saiu da sepultura com o mesmo corpo que fora traspassado e ali depositado; que Ele voltou a falar nesta era e época do mundo, tal como fora declarado que falaria, que voltou a estabelecer Seu Evangelho salvador entre os homens, e abriu o caminho pelo qual os homens podem alcançar a salvação e a vida eterna em Sua presença e na do Pai, o único caminho debaixo do céu pelo qual a salvação e a exaltação podem ser alcançadas, o único nome debaixo do céu pelo qual o homem pode ser salvo. ¶
Estranho, não é, que alguns tenham dito, em sua ignorância, que esta igreja mórmon não é uma igreja cristã. Não cristã, quando carrega, com autoridade, o nome de Cristo, que é o autor de tudo o que há de melhor no cristianismo? Não cristã — quando sua grande missão é preparar a terra para a vinda de seu Rei, esse mesmo Senhor, Jesus Cristo? Não cristã — quando está apresentando ao mundo um exemplo de abnegação jamais conhecido antes, e tudo em interesse de Cristo e de Sua obra? A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está pregando a mesma doutrina que foi pregada na igreja antiga, e está proclamando a mesma grande mensagem: Arrependei-vos, arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. Dizemos que Cristo retornará à terra, e literalmente reinará aqui, em Pessoa, que é Seu direito reinar; e que a igreja está se preparando para Sua vinda. Os testemunhos que ouvimos, os testemunhos que ouvimos em reuniões menores do que esta, nas várias estacas e alas da Igreja, todos têm o mesmo som, a mesma verdade e divindade do Evangelho de Jesus Cristo, e a divindade da obra do homem que foi o instrumento, nas mãos de Deus, para estabelecer esta Igreja na terra, na dispensação da plenitude dos tempos; pois esta é aquela dispensação para a qual os profetas antigos têm olhado, pela qual anelaram, para a qual seus desejos se voltaram. É a dispensação da plenitude; marca o início do grande final deste drama do Senhor. Bem gratos deveríamos ser por termos o privilégio de ter um nome e uma posição na Igreja nestes dias, e de participar desta grande obra. Sou grato por esse nome e por essa posição, e pelo privilégio de vos testificar hoje, como o último e o menor daqueles que foram chamados a se apresentar diante do mundo, no momento presente, como testemunhas especiais do Senhor Jesus Cristo, que verdadeiramente vive, e que verdadeiramente virá, como foi predito, para tomar Seu lugar sobre a terra, entre Seu povo. Que Seu espírito sempre nos guie, através de todas as cenas da vida, para nos fazer dignos de nosso nome, dignos de nosso destino prometido, peço, em Seu nome. Amém. ¶