Discurso
George Q. Cannon
Nossa Conferência, até aqui, tem sido de excepcional interesse para mim, e presumo que o tenha sido para todos os que participaram de suas sessões. Não sei se algum dia ouvi nossos irmãos dos Doze Apóstolos falarem com maior poder do que falaram durante esta Conferência; não sei se algum dia me senti mais edificado pelas palavras que foram proferidas; e sinto-me muito grato pela medida do Espírito de Deus que repousou sobre o Presidente Wilford Woodruff. Ele tem sido grandemente favorecido pelo Senhor ao falar-nos. E assim também o Presidente Lorenzo Snow. Não tenho dúvida de que os Santos dos Últimos Dias sairão desta Conferência instruídos em muitos pontos, e com as mentes iluminadas a respeito de muitas coisas que, talvez, em certa medida, lhes tenham estado ocultas. Pelo que ouvi, é evidente que muitas suposições têm sido cultivadas, e talvez comentários maldosos e injustos feitos a respeito das autoridades da Igreja quanto a algumas de suas ações recentes. Fiquei, portanto, extremamente grato de que o Espírito de Deus movesse o Presidente Woodruff e os demais irmãos a dirigir-se à Conferência sobre o assunto que trataram. Creio que é dever das autoridades desta Igreja explicar, na medida do possível, os motivos de suas ações e de suas palavras; pois somos um corpo unido, e aquilo que interessa àqueles que são chamados a liderar a Igreja interessa a todos os membros da Igreja. Além disso, para se ter perfeita harmonia, e para impedir que o adversário tire proveito, é necessário que, por vezes, se façam explicações que os homens naturalmente relutam em fazer, especialmente em público. Este tem sido o caso das autoridades da Igreja; assim tem sido com o Presidente Woodruff e também com os demais irmãos. Além disso, a situação dos assuntos tem sido bastante peculiar, especialmente porque a política recebeu tanta atenção, causando sentimentos entre o povo, e em alguns casos entre os homens dirigentes. Em consequência disso, os irmãos sentiram-se levados a guardar silêncio, e a nada dizer sobre assuntos que realmente precisavam ser esclarecidos. Fomos reservados, porque sentíamos que provavelmente seríamos mal compreendidos, e que teríamos nossos motivos mal interpretados. Por essa razão, permitimo-nos ficar expostos à censura e à reprovação, e, em alguns casos, à condenação. É claro que podeis compreender por que os irmãos se sentiriam constrangidos. A ansiedade de salvar era o sentimento predominante em seus corações. ¶
Mas aquilo que se deu, e as explicações que foram dadas ontem, deveriam servir de solene advertência aos Santos dos Últimos Dias, para que não sejam precipitados em suas conclusões, nem em suas críticas e censuras, para não dizer condenação, dos homens que Deus colocou para presidir a Igreja. Creio que grande quantidade de pecado tem sido cometida quanto a este ponto; que o Espírito de Deus tem sido magoado, e que a escuridão tem chegado a muitas mentes, porque homens e mulheres se entregaram à condenação sem compreender todas as circunstâncias que cercam o caso mencionado aqui ontem. Há poucos dias, chegou às minhas mãos uma carta contendo as mais severas críticas a respeito de nossa conduta. Foi escrita por um homem que anteriormente havia sido Presidente de um Setenta e superintendente de escola dominical. Ele se expressou de tal maneira que nos levou, a nós que lemos a carta, a concluir que ele dava voz aos sentimentos de muitos outros também. Este homem disse que estávamos autoconvictos de termos violado uma lei da Igreja, e nos exortou a arrepender-nos e a reparar nossa conduta. Ora, quando um homem que professa amar a causa de Sião e respeitar as autoridades da Igreja põe seus pensamentos no papel dessa maneira, e os envia a nós, isso é um indício de como outros podem sentir-se, mesmo aqueles que talvez não tenham tido a mesma oportunidade que ele teve de conhecer a verdade. É muito significativo que tal carta tenha sido escrita e enviada. Embora seja, em si, algo pequeno, é uma indicação de como centenas de outros podem sentir-se. ¶
Nas palavras que aqui profiro, gostaria de gravar isto nas mentes dos membros desta Igreja. Há uma coisa a respeito da qual o Senhor nos tem advertido desde o princípio, e é que não devemos falar mal dos ungidos do Senhor. Ele nos disse que qualquer membro da Igreja que se entregue a isto está sujeito a perder o Espírito de Deus e a cair na escuridão. O Profeta Joseph disse, repetidas vezes, que este era um dos primeiros e mais fortes sintomas de apostasia. Não temos comprovado isto? Não se cumpriram suas palavras a este respeito ao pé da letra? Nenhum homem pode fazer isto sem incorrer no desagrado do Senhor. Pode parecer estranho, nesta era de irreverência e iconoclastia, falar desta maneira. Não obstante, esta é a verdade. Deus escolheu Seus servos. Ele reclama para Si o direito de condená-los, se precisarem de condenação. Não nos concedeu, a nós individualmente, censurá-los e condená-los. Nenhum homem, por mais forte que seja na fé, por mais elevado que esteja no sacerdócio, pode falar mal dos ungidos do Senhor e criticar a autoridade de Deus sobre a terra sem incorrer em Seu desagrado. O Espírito Santo se retirará de tal homem, e ele cairá na escuridão. Sendo este o caso, não vedes como é importante sermos cautelosos? Por mais difícil que nos seja compreender as razões de qualquer ação das autoridades da Igreja, não deveríamos questionar precipitadamente seus atos nem pronunciá-los errados. Talvez, desde os dias da grande apostasia em Kirtland, nunca tenha havido um espírito tão inclinado a fazer aquilo de que falo quanto tem havido nos últimos anos. Ora, alguns de nós sentimos como se mal ousássemos ir a alguma conferência em certos lugares, de tanto que ouvimos acusações contra nossos motivos e condenações de nossas ações. Isto é algo estranho de se dizer, e, contudo, é verdade, e muitas pessoas aqui sabem que é verdade. ¶
As explicações de ontem deveriam ter o efeito de fazer com que aquelas pessoas que se entregaram a essas observações censórias e a esta condenação sintam tanta vergonha de si mesmas, a ponto de levá-las, se tiverem algum amor pela verdade e algum desejo de guardar os mandamentos de Deus, a vestirem-se de saco e cinza e a suplicarem ao Senhor que lhes perdoe o pecado que cometeram. Pois condenaram homens inocentes. Disseram aquilo que não é verdade a respeito dos servos de Deus, e nenhum homem tem o direito de fazer isto a respeito de ninguém, muito menos a respeito de homens que se esforçam ao máximo pela obra de Deus. Se estes homens e mulheres não se arrependerem, é provável que apostatem. ¶
Eu tinha uma filha na congregação ontem, e ela ouviu uma irmã comentar com outra: "Ora, eu pensava que fosse apenas um ou dois na Primeira Presidência que tinham esses sentimentos, e que fosse alguma dificuldade pessoal com um deles. Ora, é todo o Quórum dos Doze também. Não se limita a um ou dois da Primeira Presidência, ou aos três; mas também aos Doze." ¶
Isto mostra a ignorância que tem prevalecido a respeito da situação dos assuntos, e mostra como temos estado expostos a estas observações injustas e cruéis. Tem parecido que muitas de nossas pessoas tiraram sua inspiração e suas ideias a respeito das ações das autoridades da Igreja de artigos nos jornais, cujos redatores não sabiam mais a respeito do que estava se passando do que um estranho completo. ¶
Falo neste tom para gravar em vós, se possível, a insensatez de se entregar a um espírito dessa natureza, e de sorvê-lo como se fosse algo agradável. Deus nos falou tão claramente a respeito das muitas influências que andam soltas pelo mundo, que já deveríamos, a esta altura, ter compreensão a respeito delas. O Presidente Woodruff, ontem, deteve-se sobre as muitas influências más que se espalharam pelo mundo. Conheci homens e mulheres bons, sinceramente desejosos de fazer o certo, que foram trazidos à sujeição destas más influências, e eles mesmos não o souberam, porque não tinham discernimento suficiente para distinguir entre o verdadeiro e o falso. Este é o caso de muitos Santos dos Últimos Dias. Contudo, há isto a respeito dos Santos dos Últimos Dias: eles conhecem a voz do verdadeiro pastor; são capazes de distinguir entre aquele que serve a Deus e aquele que não O serve. Há muito do espírito de discernimento entre este povo, e é um povo difícil de enganar; mas às vezes se deixam enganar. Homens astutos os desencaminham e os enganam, e espíritos errados se apossam deles. O espírito da falsidade anda solto, e frequentemente atribui aos melhores dos homens uma conduta que é vil e baixa. Fez isso ao Senhor Jesus Cristo; fez isso ao Profeta Joseph Smith; fez isso a todos os profetas que já viveram. O objetivo é destruí-los, e que melhor maneira há de pôr em ação uma influência que destrua um homem do que macular seu caráter e contar mentiras suficientes para fazê-lo parecer um demônio encarnado? Isso é o que Satanás procura fazer. Estas têm sido suas táticas desde o princípio. Ele procuraria fazer parecer que os servos de Deus são demônios encarnados. E ele enganará, se possível, até os próprios eleitos, com suas mentiras e falsas representações. A única coisa a fazer, para os homens de Deus, é confiar Nele. Não podeis enfrentar estas falsidades. São fabricadas mais depressa do que podem ser expostas. Nenhum homem pode se defender contra mentiras. Seus protestos não valem nada, porque não são cridos. ¶
Em minha juventude, na atividade editorial, eu estava sempre pronto a combater toda mentira que aparecia. Julgava ser meu dever fazê-lo, e não sei se não era. Minha missão era publicar a verdade e opor-me à falsidade. Mas, à medida que envelheci, havia tal volume de mentiras que achei inútil respondê-las. Não o tenho feito há anos, exceto em uma ocasião, e então o fiz a pedido de meus irmãos. Se Satanás solta uma corrente de falsidade, é inútil que um homem tente contê-la; é melhor deixá-la fluir, e deixar a vindicação ao Senhor. E assim conosco, como povo. Mentiram tanto a nosso respeito que não há crime no calendário do qual não tenhamos sido acusados. Mas estamos sobrevivendo a eles, e os deixaremos para trás. O adversário, porém, ainda vive. Ainda fabrica falsidades, e encontra agentes dispostos a propagá-las; e os encontra também entre os Santos dos Últimos Dias. Já ouvi as mais abomináveis falsidades ditas a respeito da Primeira Presidência da Igreja por aqueles que se autodenominam Santos dos Últimos Dias. Qual será o resultado disto? Se essas pessoas não se arrependerem, perderão o Espírito de Deus, se já não o perderam; cairão na escuridão, e perderão sua posição na Igreja. Quando um homem perde o Espírito de Deus, o laço que o une à Igreja se rompe; e ele se pergunta, depois de algum tempo, como pôde pensar como uma vez pensou a respeito dela. ¶
Meus irmãos e irmãs, gostaria de vos impressionar, nesta tarde, com a importância de reter o Espírito de Deus, e de não permitir que outros espíritos se apossem de vós. Deveis viver de tal modo que o Espírito de Deus reine dentro de vós, e que, quando um espírito maligno procurar apossar-se de vós, o sintais tão sensivelmente, e que cause em vós uma impressão semelhante à de perturbar a superfície lisa de um tanque de água. Nossas mentes deveriam estar em tal condição de tranquilidade, e tão livres de qualquer influência perturbadora, que, quando algo contrário à mente do Senhor procurar entrar em nós, o percebamos tão rapidamente quanto o tanque de água percebe quando é perturbado. Quando algo surgir que não esteja certo, deveríamos parar para questionar a nós mesmos. Não deveríamos admitir um espírito forte em nossos corações, nem pensar mal de ninguém. Há demais disso no mundo — contar histórias a respeito de homens e mulheres, e, quando as examinais, em nove entre dez casos, verificais que não são verdadeiras. Pode haver algum elemento de verdade nelas; mas a verdade pode ser distorcida até se tornar uma falsidade. Nós, como povo, deveríamos procurar, acima de todos os povos, amar a verdade. ¶
As autoridades da Igreja tinham conhecimento daquilo de que se falou ontem, e estávamos convencidos quanto ao rumo que teria de ser tomado, a menos que houvesse uma mudança. Mas não desejávamos expor este assunto ao público, nem enfraquecer a confiança dos Santos; pois queríamos que exercessem sua fé. Mas é necessário que algo seja dito à Igreja, para que o povo não continue cedendo a influências erradas e entregando-se a observações e sentimentos contrários ao Espírito do Senhor. ¶
Ora, peço-vos que, se algum de vós se entregou ao espírito de condenação e censura, se arrependa de todo o coração, e peça ao Senhor que vos perdoe. Onde tiverdes dito coisas erradas publicamente, ide corrigi-las. Se falastes mal de vossos vizinhos, ide confessá-lo a eles e pedir-lhes perdão. Aplicai os princípios do Evangelho à nossa vida cotidiana. Não pensemos que podemos encobrir estas coisas. O Senhor as exporá. Se há algo que não compreendemos, suspendamos nosso julgamento e a expressão de nossas opiniões até que possamos compreendê-lo. ¶
Regozijo-me sobremaneira nos testemunhos que foram prestados durante esta conferência. Sei que esta é a obra de Deus. Sei que Deus vive. Sei que Jesus vive; pois eu O vi. Sei que esta é a Igreja de Deus, e que está fundada sobre Jesus Cristo, nosso Redentor. Testifico-vos destas coisas como alguém que sabe — como um dos Apóstolos do Senhor Jesus Cristo, que pode testemunhar-vos hoje, na presença do Senhor, que Ele vive e que viverá, e virá reinar sobre a terra, para empunhar um cetro incontestado. Digo que é nosso dever guardar os mandamentos de Deus, e sermos fiéis em todas as coisas. O mundo pode dizer que estais vos submetendo a homens; mas não é assim; estais vos submetendo a Deus. Esta é a obra de Deus, e Ele apenas nos pede, a mim e a vós, aquela obediência que todo filho deve prestar a seu pai. Não devemos obediência alguma ao rebelde Satanás. Ele nos encheria de toda sorte de ideias contra Deus, e nos prenderia em correntes de escuridão, e nos conduziria à destruição, se o escutássemos. Isso pareceria correto na estimativa daqueles que têm o espírito dele; mas é errado. É certo escutar o Senhor, e obedecer-Lhe. Ele é nosso Pai, nosso Criador; Ele é a fonte de toda a nossa bênção e poder, e devemos nos submeter a Ele. Se Ele diz a certo homem: "Tu és meu servo, e desejo que todos os meus filhos façam o que dizes", é nosso dever respeitar essa designação. Frequentemente peço a meus filhos que escutem um de seus irmãos, e, se ele não agir corretamente, podem me dizer e eu cuidarei disso. Ensino meus filhos a respeitar seus irmãos que são mais velhos, e a se respeitarem uns aos outros; e advirto os filhos mais velhos a não usurparem os direitos de seus irmãos mais novos, mas a respeitá-los. Faço isso em minha pequena família — pequena, se comparada à família de Deus. Não tem Deus o direito de escolher um de Seus filhos, como o fez com Joseph Smith, e Brigham Young, e John Taylor, e Wilford Woodruff, e pedir ao resto de nós que obedeçamos a Seu conselho, tal como Ele o dá por meio daquele que escolhe? "Bem, mas", diz alguém, "como sabemos que Ele lhe deu esta autoridade?" Podeis sabê-lo, se fizerdes aquilo que Ele exige de vossas mãos. Se Deus escolhe o mais fraco entre Seus filhos, e diz ao restante: "obedecei-o, e eu vos sustentarei e abençoarei nisso", Ele tem todo o direito de fazê-lo. Ele tem feito isso com este povo, desde os dias de Joseph Smith até o presente, e temos sido prosperados, abençoados e livrados, ao escutarmos o conselho dos homens que o Senhor escolheu. Fomos abençoados e prosperados ao escutarmos o Profeta Joseph durante sua vida. Depois de sua morte, quão maravilhosamente fomos abençoados e prosperados ao escutarmos os conselhos do Presidente Brigham Young. Ele nos conduziu através destas planícies desoladas até esta terra inóspita (pois era inóspita então), e lançou o alicerce de tudo o que aqui se fez, até que hoje o Estado de Utah é a admiração, pode-se dizer, de toda a nação, e os homens se maravilham com a sabedoria e a perspicácia que o Presidente Young demonstrou. Portanto, não temos apenas nossa própria experiência a testificar quão prosperados e abençoados temos sido ao escutarmos o conselho, mas temos o testemunho de muitos outros. Deus também nos abençoou ao escutarmos o Presidente John Taylor durante sua vida; e Ele nos tem abençoado e testificado a nós, pelo derramamento de Seu Espírito, desde que é privilégio do Presidente Woodruff estar nesta elevada posição. Repito, o Senhor tem o direito de exigir isto de nós. Somos Seus filhos, e, quando O invocamos, Ele nos ouviu e respondeu às nossas orações. Assim é que vejo isto. Satanás me tenta, como suponho que faz com todos vós; mas eu digo a Satanás que nada tenho a ver com ele. Digo-lhe que é um rebelde, que procurou arruinar os propósitos de nosso Pai, e que nada quero com ele; procurarei não escutar nenhuma de suas lisonjas, nem deixá-lo sussurrar nada a meu ouvido ou a meu coração que enfraqueça meu apego e minha devoção a meu Pai e a Seu reino. É assim que me sinto. Nada quero com Satanás, em nenhuma forma. Creio que é dever de todos nós, como filhos de Deus, estarmos nesta condição, e então, no que a nós diz respeito, Satanás será amarrado. ¶
Meus irmãos e irmãs, suplico ao Senhor que vos abençoe a todos. Peço-Lhe que abra todos os nossos olhos, para que possamos ver; abra todos os nossos corações, para que possamos compreender, e para que possamos nos beneficiar da experiência que Ele nos dá, e crescer e aumentar em fé e poder, até que os próprios céus se aproximem de nós, e nós nos aproximemos deles, e se abram para nós, para contemplarmos as coisas de nosso Pai e Deus em sua verdadeira luz. Esta é minha oração por toda a Sião de Deus, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶