Casamento
Orson Pratt
Lerei uma parte da Palavra de Deus, encontrada no capítulo 19 do Evangelho de São Mateus, começando no versículo 3: ¶
Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? ¶
Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não lestes que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, ¶
E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão os dois uma só carne? ¶
Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. ¶
A parte destes ditos de Jesus a que desejo especialmente chamar vossa atenção está contida no versículo 6: "Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem." Há poucas coisas que ocorrem em nosso mundo em que a mão de Deus se manifesta de modo especial. Poderíamos mencionar algumas coisas ordenadas por Deus, e que ele mesmo deu aos filhos dos homens para que as observassem. Tais são a ordenança do batismo, a Ceia do Senhor, agora ministrada aos Santos nesta congregação, e a ordenança da confirmação pela imposição das mãos, para o batismo de fogo e do Espírito Santo. Estas ordenanças foram ordenadas por Deus; ele é seu Autor, e confere autoridade a seus servos para nelas oficiarem, e sem autoridade de Deus para isso, todas essas administrações são ilegais. Além destas poderíamos mencionar uma variedade de outras ordenanças, tais como as ordenações ao ministério — ordenar uma pessoa a oficiar no ofício e chamado de Apóstolo, e nos ofícios e chamados de Élderes, Sacerdotes, Mestres, etc., sem as quais nenhum homem pode desempenhar os deveres destes vários ofícios de modo a ser aceitável aos olhos de Deus. ¶
Mas, para sermos breves, chegaremos mais diretamente ao ponto. Deus instituiu o casamento, e este é tão sagrada e religiosa ordenança quanto o batismo para a remissão dos pecados, a confirmação, a ordenação ao ministério, ou a administração da Ceia do Senhor. Não há distinção quanto à divindade destas ordenanças — uma é tão divina quanto a outra, uma é tão religiosa ordenança quanto a outra, e, portanto, o povo de todas as seitas e partidos nesta grande República deveria ficar livre para administrá-las segundo os ditames de sua própria consciência. Em outras palavras, o Congresso não deveria assumir-se o ditador de minha consciência nem da vossa. O que quero dizer com isto é que, se sou um ministro, o Congresso, ou o Presidente dos Estados Unidos, não tem direito algum, por força da Constituição, de dizer como devo administrar a ordenança do casamento a qualquer casal que a mim venha com esse propósito; porque tenho consciência a respeito deste assunto. É uma ordenança instituída por Deus; é uma ordenança religiosa; por isso o Congresso não deveria decretar uma lei prescrevendo, para o povo de qualquer parte da República, certa forma segundo a qual a ordenança do casamento deva ser administrada. Por que não deveriam fazer isto? Porque isto é violação de princípios religiosos, e daquele grande princípio fundamental da Constituição de nosso país que estabelece que o Congresso não fará lei alguma em matéria religiosa que, em grau algum, infrinja os direitos de qualquer homem ou mulher nesta República no tocante à forma de sua religião. ¶
Talvez alguns perguntem — "Que faremos com aqueles que não professam religião alguma, alguns dos quais são incrédulos, ou o que se poderia chamar 'nadaístas', que não creem em princípio ou credo religioso particular algum? Desejam entrar no estado matrimonial, e, além da autoridade religiosa, não deveria haver uma autoridade civil para a solenização do casamento entre esses não-religiosos?" Sim; admitimos que, sendo o casamento uma instituição importante, é direito e privilégio das Legislaturas dos Estados e Territórios elaborar certas leis, de modo que todo o povo tenha o privilégio de escolher a autoridade civil ou religiosa, segundo os ditames de sua consciência. Se um metodista deseja casar-se segundo o credo e as instituições metodistas, o Congresso não deveria fazer lei alguma que infringisse os direitos daquele corpo de religiosos, mas eles deveriam ter o privilégio de oficiar exatamente como suas consciências ditassem. O mesmo argumento se aplica aos presbiterianos, quakers, batistas, e a toda denominação religiosa que se encontre nesta República, sem excetuar os Santos dos Últimos Dias. Então, quanto ao não-religioso, se deseja tornar-se pessoa casada, e não deseja que seu casamento seja solenizado segundo a forma usada por denominação religiosa alguma, deve ficar-lhe aberto cumprir as formas que a Legislatura prescrever. Isto é deixar à escolha do indivíduo, e é como deveria ser, e como nos é garantido, no que toca às demais ordenanças. Por exemplo, jamais o Congresso pensaria em fazer lei alguma quanto à forma do batismo, ou em nomear um funcionário federal para ir a um dos Territórios desta União e decretar que somente ele estaria autorizado a administrar a ordenança do batismo. Não sabemos que todo o povo desta República clamaria contra tal infração da Constituição de nosso país? Todo homem e toda mulher que saiba o mínimo a respeito dos grandes princípios da liberdade religiosa diria imediatamente: "Que os vários corpos religiosos do Território escolham por si mesmos quanto ao modo de batismo; um funcionário federal não é a pessoa que deve prescrever o modo ou administrar a ordenança do batismo." ¶
Por que não se aplicaria este raciocínio ao casamento assim como ao batismo? Podeis fazer distinção quanto à divindade das duas ordenanças? Eu não posso. Leio aqui, no último versículo do meu texto: "O que Deus ajuntou não o separe o homem." Percebe-se, por esta sentença, que Deus tem parte no ajuntamento do macho e da fêmea; isto é, quando se faz segundo sua mente e vontade: faremos disto uma condição. Mas diremos que, em todos os casos, sob todos os céus, onde um casal é ajuntado, e Deus tem alguma parte nisso, ele não pede ao Congresso que faça lei alguma, nem ao Presidente dos Estados Unidos que designe uma forma, e ele a sancionará. Não, ele reivindica o direito, e seus filhos reivindicam que Deus tem o privilégio de prescrever a forma ou cerimônia, e as palavras a serem usadas; e quando essa cerimônia é realizada por autoridade divina, podemos então dizer, no sentido mais pleno do termo, que estão ajuntados divinamente, e não por alguma lei civil. ¶
Considero a união do macho e da fêmea uma das mais importantes ordenanças que Deus estabeleceu; e se sua solenização tivesse ficado inteiramente entregue aos caprichos e noções dos homens, poderíamos ter tantas maneiras diferentes de realizar o rito matrimonial quantas temos de administrar a ordenança do batismo. Sabeis que, na realização do rito batismal, alguns creem em aspersão, e alguns em efusão; algumas sociedades creem na imersão depois de terem obtido a remissão dos pecados; outras, como Alexander Campbell e seus seguidores, creem que a imersão deve ser administrada para a remissão dos pecados. Outra classe crê em ser imerso com a face para a frente; outros, ainda, creem em ser imersos três vezes — uma vez em nome do Pai, uma em nome do Filho, e uma em nome do Espírito Santo. Tomando todas estas classes como igrejas, são sem dúvida sinceras; foram instruídas por seus mestres, até que sinceramente creem nestas várias formas de batismo. ¶
Ora, se o Congresso, ou as assembleias legislativas dos diferentes Estados e Territórios, fossem autorizados a fazer leis regulando isto, teriam talvez muitas outras formas além das que mencionei, às quais forçariam o povo, sob pesadas penalidades, a se conformar. E o mesmo quanto ao casamento. Se o Congresso empreendesse fazer uma lei para governar os metodistas, por exemplo, na solenização do casamento, isto não lhes agradaria, nem aos presbiterianos, nem aos batistas. Um homem pertencente a qualquer destas denominações diria: "Eis aqui uma lei que me proíbe de exercer minha fé religiosa, e me obriga a casar-me por um juiz de paz, ou um funcionário federal, ou alguma pessoa que, talvez, não creia em Deus, e não tenha respeito algum pelas ordenanças do céu. Sou obrigado pelas leis da terra a tê-lo oficiando e me pronunciando, a mim e a minha 'pretendida', marido e mulher, ou a permanecer solteiro." A Constituição não contempla esta imposição sobre a mente humana quanto ao que é ordenado por Deus. Se eu, crendo em Deus e nas ordenanças que ele instituiu, sou forçado a me casar por um incrédulo, talvez um bêbado e homem imoral, ou não me importa se ele crê em algum tipo de credo, se estou convencido de que ele não tem autoridade para oficiar na união dos sexos, e sou obrigado a me casar por ele, isto satisfaria minha consciência? Poderia eu considerar-me ajuntado pelo Senhor? É inconsistente supor que eu pudesse sentir assim, e, pela própria natureza das coisas, a solenização da cerimônia matrimonial, assim como todas as demais ordenanças religiosas, são matérias que deveriam ficar a critério de todas as pessoas agirem como se sentirem inclinadas. ¶
Mas prossigamos; não devemos deter-nos demasiadamente neste assunto. Minha razão, contudo, para fazer estas poucas observações é provar que a ordenança do casamento é divina — que Deus a ordenou. Desejo que esta congregação compreenda particularmente que, para sermos ajuntados pelo Senhor, de modo que nenhum homem tenha o direito de vos separar, o Senhor deve ter parte no que se refere ao casamento, tal como a tem no que se refere ao batismo. ¶
Ora, pergunto se alguma das sociedades religiosas da terra, com exceção dos Santos dos Últimos Dias, recebeu alguma forma especial no tocante à cerimônia do casamento. Se receberam, de que fonte a receberam? Inventaram-na eles mesmos? Reuniu-se um corpo erudito de sacerdotes em conferência e, por sua própria sabedoria, sem revelação alguma do céu, elaborou certa forma pela qual o macho e a fêmea deveriam ser unidos em casamento? Ou como entraram em posse dela? Eles mesmos a inventaram, como podeis verificar lendo os regimentos, credos e artigos de fé que quase toda sociedade religiosa possui, e que algumas delas possuem há longo tempo. Se retrocedermos alguns séculos, encontraremos algumas destas formas já existentes. Na Igreja Católica Romana, o ritual do casamento existe há muitas gerações. O mesmo se dá com a Igreja Grega, ramo numeroso dos católicos que se separou da igreja estabelecida em Roma, poucos séculos depois de Cristo. Martinho Lutero também tinha suas opiniões quanto à ordenança do casamento. Era, em princípio, polígamo, como podeis encontrar em seus escritos publicados. Temos relato dele, juntamente com seis ou sete outros ministros de sua fé, aconselhando certo príncipe europeu a tomar para si uma segunda esposa, estando viva a primeira, dizendo Lutero e estes ministros que isto não contrariava as Escrituras. João Calvino tinha suas próprias noções sobre o assunto, mas todas e cada uma das cerimônias de casamento em uso entre as várias igrejas cristãs, tanto católicas quanto protestantes, desde os dias da primeira Reforma, várias centenas em número, até nossos dias, são invenções dos homens; pois, entre todas elas, onde podereis encontrar uma sequer que afirme que Deus lhes disse algo sobre casamento, ou qualquer outra coisa relativa a suas oficiações como ministros em sua causa? Nenhuma; todas elas afirmam que a Bíblia contém a última revelação já dada dos céus. Portanto, se sua afirmação for verdadeira, Deus jamais disse uma palavra a Martinho Lutero, João Calvino, João Wesley, ou a qualquer outro reformador, sobre seu ministério, a ordem do casamento, o batismo, ou qualquer outra coisa. Se sua afirmação for verdadeira — que a última revelação que Deus jamais deu foi a João, na Ilha de Patmos —, a que conclusão devemos chegar a respeito deles? Devemos concluir que todas as suas administrações são ilegais. Se fui batizado pelos presbiterianos, pela Igreja da Inglaterra, pelos católicos romanos, pela Igreja Grega, pelos wesleyanos, ou por qualquer outra denominação religiosa que negue revelação posterior à Bíblia, meu batismo não vale nada. Deus não teve nada a ver com ele, nunca tendo falado ao ministro que oficiou, nem o tendo chamado, como Arão foi chamado, isto é, por nova revelação. ¶
"Bem," diz alguém, "isto é descristianizar o mundo." Sei que, segundo as opiniões contidas na Bíblia, isto é descristianizá-lo em um dos pontos mais fundamentais — mostra que todas as ordenanças e cerimônias do mundo cristão, sendo administradas em nome da Trindade, sem nova revelação, são ilegais e sem efeito algum, e que Deus não as registra nos céus, embora possam ser registradas pelo homem na terra. Mas, quando um homem é chamado por nova revelação, isto muda o caso. Quando Deus fala ou envia um anjo, e um homem é chamado e ordenado, não por homens não inspirados que negam a nova revelação, mas por autoridade divina, quando ele administra o batismo, ou qualquer outra ordenança do Evangelho, isto é legal, e o que é legal e selado na terra é legal e selado nos céus, e quando tal administração é registrada aqui na terra, é também registrada nos arquivos do céu: e no grande dia do juízo, quando a humanidade for trazida diante do tribunal de Jeová, o Grande Juiz dos vivos e dos mortos, para dar conta dos atos praticados no corpo, saber-se-á então se um indivíduo oficiou em, ou recebeu ordenanças por designação divina: e, se não, sendo tal administração ilegal, será rejeitada por Deus. ¶
"Ah, mas," diz alguém, "tal pessoa, oficiando ou sendo ministrada, pode ter sido sincera." Sim, admito isso. A sinceridade é boa coisa, e sem ela não pode haver verdadeiros cristãos; mas a sinceridade não faz de uma pessoa um verdadeiro filho de Deus; requer-se algo mais do que isso. Se a sinceridade sozinha bastasse para fazer de uma pessoa filho de Deus, então os pagãos, quando se lavam no Ganges, adoram crocodilos, o sol, a lua, as estrelas, ou imagens esculpidas, ou quando se prostram e são esmagados sob os carros de Jagrená, seriam filhos de Deus; pois nestes vários atos certamente dão prova de sua sinceridade, e, se, segundo as ideias de algumas pessoas, apenas isto fosse necessário para torná-los filhos de Deus, certamente teriam razão. Mas não é assim. A sinceridade sem dúvida mostra a existência de um bom princípio no coração, seja do pagão, seja do sectário, mas não mostra que seu possuidor está certo, ou que recebeu a verdadeira doutrina; mostra apenas que ele é sincero. ¶
Voltemos, então, ao assunto da administração de ordenanças por designação divina. Disse que os seus batismos são ilegais. Deixai-me ir agora um pouco mais adiante, e dizer que a ordenança do casamento é ilegal entre todos os povos, nações e línguas, a menos que administrada por um homem designado por nova revelação de Deus para unir o macho e a fêmea como marido e mulher. Diz alguém — "Não quereis dizer que todos os nossos casamentos são também ilegais, assim como nossos batismos?" Sim, quero, no que diz respeito a Deus. Isto é tomar um ponto de vista muito amplo; mas estou vos dizendo o que é minha crença; e presumo, até onde estou informado, ser esta a crença dos Santos dos Últimos Dias por todo o mundo, que todos os casamentos de nossos antepassados, por muitas longas gerações passadas, foram ilegais aos olhos de Deus. Foram legais aos olhos dos homens; pois os homens elaboraram as leis que regulam o casamento, não por revelação, mas por seu próprio juízo; e nossos progenitores foram casados segundo estas leis, e portanto seus casamentos foram legais, e seus filhos legítimos, no que tocava à lei civil; e isto é tão verdadeiro em nossos dias quanto no passado; mas aos olhos do céu estes casamentos são ilegais, e os filhos ilegítimos. ¶
"Bem," diz alguém, "como ireis tornar legais estes casamentos? Eis aqui um homem e uma mulher que se casaram, segundo a lei civil, antes mesmo de ouvirem falar de vossas doutrinas; mas chegaram a compreendê-las, e agora há alguma maneira possível de tornar seu casamento legítimo, aos olhos do céu?" Sim. Como? Fazendo-os casar de novo por um homem que tenha autoridade de Deus para isso. Isto tem sido feito em quase inumeráveis instâncias; e é o mesmo com o batismo. Alguma pessoa, batizada pelos metodistas, pela Igreja da Inglaterra, pelos batistas ou presbiterianos, foi admitida na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias com base em seu antigo batismo? Nunca. Nem uma sequer, entre as centenas de milhares que se uniram a esta Igreja, desde seu surgimento em 1830, foi admitida com base em seu antigo batismo. Por quê? Porque não cremos em seus antigos batismos. O Senhor ordenou a seus servos que saíssem a pregar o Evangelho, e a batizar todos os que a eles viessem para o batismo. Se encontramos um homem sincero, que passou por uma forma correta de batismo — e muitos passaram, como os campbelitas e os batistas —, dizemos-lhe que, se crê em nossa doutrina, deve ser batizado novamente, porque seu antigo batismo foi administrado por um homem que negava a nova revelação, e que não cria que alguma tivesse sido dada além da contida no Novo Testamento. O mesmo se dá quanto aos casamentos. ¶
O povo está muito ansioso para que seus filhos sejam legítimos, e para que seus casamentos sejam solenizados de tal modo que Deus os reconheça nos mundos eternos; e por isso dizemos a todos os milhares e dezenas de milhares que aqui chegam de terras estrangeiras — "Vinde, e casai-vos segundo a designação divina, para que sejais legalmente marido e mulher aos olhos do céu." ¶
Ora, prossigamos um pouco mais. Tendo-vos explicado a autoridade necessária para unir homens e mulheres no Senhor, explicaremos agora a natureza do próprio casamento — se é condição limitada, para terminar com o que chamamos "tempo", ou se é uma união que existirá por todas as eras da eternidade. Esta é uma pergunta importante. No que toca à ordenança do batismo, sabemos que ela não se refere apenas ao tempo. Deve ser administrada no tempo, ou durante nossa existência na vida mortal; mas seus resultados alcançam além da morte, e o sepultamento e a saída da água são típicos da morte e ressurreição de nosso Salvador. Quando saímos da água, ressurgimos a uma novidade de vida, e é declarado a todo o povo que assiste à realização da ordenança que os candidatos assim recebendo o batismo esperam sair do túmulo, que seus corpos serão ressuscitados, osso ligando-se a osso, carne e pele vindo sobre eles, e a pele os cobrindo; que, se forem fiéis até o fim, sairão seres imortais, e herdarão a glória celestial. Vedes, pois, que o batismo aponta para a eternidade, seus efeitos alcançando além da sepultura. Assim também quanto ao casamento. ¶
O casamento, quando Deus tem parte nele, estende-se a todas as eras futuras da eternidade. Os Santos dos Últimos Dias jamais casam um homem e uma mulher apenas para o tempo, salvo em certas circunstâncias. Certas circunstâncias permitiriam isto, como no caso de uma mulher, por exemplo, casada por toda a eternidade com um marido, homem bom e fiel, que vem a falecer. Depois de sua morte, ela pode casar-se com um homem vivo, apenas para o tempo, isto é, até que a morte a separe de seu segundo marido. Nestas circunstâncias, o casamento para o tempo é legal. Mas quando se trata de casamento pertencente a um casal, nenhum dos dois jamais tendo se casado antes, o Senhor ordenou que esse casamento, se realizado segundo sua lei, por autoridade e designação divinas, terá efeito depois da ressurreição dos mortos, e continuará em vigor desde então por todas as eras da eternidade. ¶
Diz alguém — "Que fareis com aquela Escritura que diz que, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento?" Vou deixá-la exatamente como está, sem a menor alteração. Um homem que é tão tolo a ponto de negligenciar a ordenança divina do casamento para a eternidade, aqui neste mundo, e não assegura para si uma esposa por toda a eternidade, não terá a oportunidade de fazê-lo na ressurreição; pois Jesus diz que, depois da ressurreição, não há casamento nem se dão em casamento. É uma ordenança que pertence a este mundo, e aqui deve ser atendida; e as partes que voluntariamente a negligenciam, aqui nesta vida, privam-se para sempre das bênçãos daquela união no mundo vindouro. É o mesmo quanto ao batismo. Trazemos à tona estas duas ordenanças divinas para vos mostrar como se harmonizam. Um homem que, nesta vida, ouve o Evangelho e sabe que é seu dever ser batizado, a fim de que possa sair na manhã da ressurreição com um corpo celestial, glorificado, semelhante ao de nosso Senhor Jesus Cristo, e negligencia o batismo e morre sem atender à ordenança, não pode ser batizado ele mesmo depois da ressurreição dos mortos, do mesmo modo que não pode casar-se depois da ressurreição dos mortos. Por quê? Porque Deus ordenou que tanto o casamento quanto o batismo devem ser atendidos na carne, e, se negligenciados aqui, as bênçãos são perdidas. ¶
Lemos, em nosso texto, algo sobre o primeiro casamento que ocorreu em nossa terra. Muito se tem dito a respeito deste acontecimento, e, visto que Deus ordenou este sagrado rito, sinto-me disposto a apresentá-lo como um tipo de todos os casamentos futuros. O primeiro casal de cujo casamento temos algum relato, nesta terra, eram seres imortais. "O quê! Não quereis dizer que seres imortais se casam, quereis?" Sim, este é o primeiro exemplo que temos registrado. Pergunta alguém — "Quereis dizer que Adão era um ser imortal?" Qual é a natureza de um ser imortal? É aquele sobre quem não foi pronunciada a maldição da morte. Tinha Adão a maldição da morte pronunciada sobre ele, quando o Senhor trouxe Eva — a mulher — e a deu a ele? Não, não tinha. Tinha o Senhor pronunciado a maldição da morte sobre Eva no momento em que a trouxe a Adão? Não tinha. Por quê? Porque nenhum dos dois havia transgredido. Está dito no Novo Testamento que a morte entrou neste mundo pela transgressão, e de nenhuma outra maneira. Se Adão e Eva jamais tivessem transgredido a lei de Deus, não estariam vivendo agora? Certamente estariam; e continuariam a viver ainda por milhões de anos. Podeis, estendendo os pensamentos pelas eras do futuro, imaginar um momento em que Adão e Eva seriam mortais e sujeitos à morte, se não fosse por sua transgressão? Não, não podeis. Bem, então, não eram eles imortais? Eram, para todos os efeitos, dois seres imortais, macho e fêmea, unidos em casamento no princípio. Era aquele casamento para a eternidade, ou até que a morte os separasse? Lembro-me de ter assistido a alguns casamentos quando era jovem, e esta sentença tem sido geralmente incorporada em todas as cerimônias de casamento que já vi realizadas por autoridade civil — "Eu vos declaro marido e mulher, até que a morte vos separe." Contrato bem curto, não é? Dura apenas por pouco tempo; talvez a morte venha amanhã ou depois de amanhã, e seria um período bem curto para se estar casado, muito diferente do casamento instituído no princípio, entre os dois seres imortais. A morte não entrava em consideração no caso deles; jamais fora pronunciada. O Senhor nada dissera sobre a morte, mas os havia unido, com a intenção de que aquela união continuasse por todas as eras da eternidade. ¶
Pergunta alguém: "Não perderam eles isto ao comer o fruto proibido?" Não temos relato de que o perderam; mas, supondo que sim, podeis me mostrar uma única coisa que nossos primeiros pais perderam pela Queda que não tenha sido restaurada pela expiação de Jesus? Nada. Se perderam a vida de seus corpos, a expiação de Cristo e sua vitória sobre a sepultura, pela ressurreição, restaurou a Adão e Eva a imortalidade que possuíam antes de transgredirem; e tudo o que perderam pela Queda foi restaurado por Jesus Cristo. Mas não temos relato de que Adão e Eva perderam o privilégio de sua união eterna por sua transgressão; portanto, quando eles, em virtude da expiação de Cristo, saírem da sepultura (se não saíram na ressurreição de Cristo), terão corpos imortais, e terão todas as características, no que toca a seus corpos, que possuíam antes da Queda. Ressuscitarão da sepultura macho e fêmea, imortais em sua natureza, e a união instituída entre eles antes de se tornarem mortais será restaurada, e, visto que foram casados quando seres imortais, continuarão a ser marido e mulher por todas as eras futuras da eternidade. ¶
Poder-se-ia perguntar: "Qual o objetivo disto? O casamento, supúnhamos, foi instituído principalmente para que este mundo se enchesse de habitantes, e, se este era o objetivo, quando a terra tiver recebido sua plena medida de criação, para que serve esta união eterna no casamento, continuando depois da ressurreição?" ¶
Nunca lestes o primeiro grande mandamento dado na Bíblia? Deus disse: "Sede fecundos e multiplicai-vos." Deu ele este mandamento a seres mortais? Não, deu-o a dois seres imortais. "O quê! Quereis dizer que seres imortais podem multiplicar-se, assim como casar-se por toda a eternidade?" Digo. Deus deu o mandamento a estas duas personagens imortais, antes da Queda, mostrando clara e evidentemente que os seres imortais tinham essa capacidade, ou Deus jamais lhes teria dado tal mandamento. Admitirei que não tinham o poder de gerar filhos de mortalidade; era necessária uma queda para lhes permitir fazer isso, e sem ela nenhum ser mortal poderia ter sido produzido. Mas vemos o que foi legado aos filhos de Adão, pela Queda. Em vez de sua descendência ser imortal, vêm a este mundo e participam de toda aquela natureza decaída que Adão e Eva tiveram depois de caírem; e também herdaram a morte do corpo. Se havemos de ser restaurados à imortalidade juntamente com eles, devemos ser restaurados àquela celestial união do casamento, ou de outro modo perdemos algo. Se tinham o poder de multiplicar filhos de imortalidade, e se o mandamento lhes foi dado para fazê-lo antes de se tornarem mortais, se seus filhos algum dia forem restaurados ao que se perdeu pela Queda, devem ser restaurados também a isso. Eis aqui, pois, motivo suficiente para que a multiplicação continue depois da ressurreição. ¶
"Mas," pergunta alguém, "não ficará este mundo suficientemente cheio, sem que seres ressuscitados gerem filhos por todas as eras da eternidade?" Devemos lembrar-nos de que este mundo não é o único que Deus fez. Ele tem estado ocupado, desde toda a eternidade, na formação de mundos; isto é, houve mundos sobre mundos criados por aqueles que possuíram o poder, a autoridade e o direito de criar; e uma cadeia sem fim de mundos foi assim criada, e jamais houve um período, na duração passada, em que não houvesse mundos. A ideia de um primeiro mundo é tão fora de questão quanto a ideia do primeiro pé de espaço, ou o primeiro pé de uma linha sem fim. Tomai uma linha sem fim e tentai encontrar seu primeiro pé, jarda ou milha. Não se pode fazer isso, tampouco podeis descobrir o primeiro minuto, hora ou ano da duração sem fim. Não há primeiro minuto, hora ou ano na duração sem fim, e não há primeiro numa cadeia sem fim de mundos, e Deus tem trabalhado desde toda a eternidade em sua formação. Para quê? Será apenas para ver seu poder exercido? Não: é para que fossem povoados. Povoados por quem? Por aqueles que têm o poder de multiplicar sua espécie. Jamais haverá um tempo em que se dará um fim definitivo à criação de mundos; seu aumento continuará daqui em diante e para sempre; e, como o número de mundos será sem fim, assim também será o número da descendência de cada casal fiel. Serão como as estrelas do céu, ou como a areia da praia do mar; e os mundos se encherão da posteridade daqueles que forem contados dignos de sair, unidos àquela celestial e eterna forma de casamento que foi ministrada a Adão e Eva no princípio. ¶
"Mas há pouco nos dissestes que nossos casamentos eram ilegais, e agora como poderá nossa espécie multiplicar-se depois da ressurreição? Não pode ser, não há casamento nem se dão em casamento então. Que será então do povo, a menos que haja alguma provisão, ordenada pelo Senhor, pela qual os vivos possam agir pelos mortos?" Tirai esse princípio, e aí está o fim de tudo para aqueles que não se casaram para a eternidade, assim como para o tempo, no que toca à multiplicação de sua espécie; pois lá não vos podeis casar. Mas, se há uma provisão pela qual aqueles que estão vivos aqui na carne possam oficiar em sagradas e santas ordenanças, por e em favor dos mortos, então surge a pergunta: Até onde se estendem estas ordenanças? ¶
Poderá alguém dizer: "Talvez se estendam apenas ao batismo. Cremos que o batismo pelos mortos é verdadeiro, porque as Escrituras falam bem claramente a respeito, no capítulo 15 da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, na qual, argumentando sobre a ressurreição dos mortos, o Apóstolo diz — 'Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?'" Com efeito, teria sido inútil para aqueles coríntios terem sido batizados pelos mortos, se não houvesse ressurreição. Mas Paulo sabia muito bem que os coríntios entendiam que deviam batizar-se por seus mortos; e que na verdade praticavam aquela ordenança, para que seus antepassados, já mortos havia gerações, tivessem o privilégio de sair na ressurreição. O batismo era típico de seu sepultamento e ressurreição, e por isso Paulo, escrevendo aos coríntios, usou-o como argumento em apoio ao princípio da ressurreição. ¶
Mas haveria alguma inconsistência em supor que outras ordenanças possam ser oficiadas por, e em favor dos mortos? Ou diremos que Deus meramente selecionou a única ordenança do batismo, e disse aos vivos que oficiassem nela pelos mortos, e negligenciassem todas as demais? Se, porém, cremos que Deus é um Deus de ordem e de justiça, é razoável supor que, se, por sua permissão e designação, os vivos podem fazer algo pelos mortos, podem fazer tudo por eles, no que toca a ordenanças. Isto é, se podem ser batizados por e em favor dos mortos, podem também ser confirmados, e podem também oficiar na ordenança do casamento por eles. Por que ser tão inconsistente a ponto de supor que Deus ordenasse uma lei pela qual os vivos pudessem ser batizados pelos mortos, e nada mais fazer por eles? Deus é mais misericordioso e consistente do que isso; e quando falou em nossos dias e revelou o plano de salvação, ele, na medida em que estávamos prontos para recebê-lo, nos deu um sistema pelo qual os mortos que morreram sem a oportunidade de ouvir e obedecer ao Evangelho podem ser ministrados em todos os aspectos, e redimidos até o extremo, e salvos com plena salvação; e por isso, Santos dos Últimos Dias, há esperança para nossas gerações que viveram na terra, desde nossos dias até a apostasia da igreja — uns dezesseis ou dezessete séculos atrás. Podeis retroceder até aquele dia e recolher todas as vossas gerações — os corações dos filhos buscando os pais, de geração em geração; e os antigos pais olhando para seus filhos, para fazer algo por eles, tal como o Senhor prometeu no último capítulo de Malaquias. Há uma promessa de que, antes que viesse o grande dia do Senhor, este arderia como fornalha, e todos os soberbos, e os que praticassem a impiedade, se tornariam como palha. Mas, antes que viesse aquele dia terrível, Deus enviaria o profeta Elias para converter o coração dos filhos aos pais, e o coração dos pais aos filhos, para que o Senhor não viesse e ferisse a terra com maldição. Como quem diz que os filhos pereceriam tanto quanto os pais, se esta conversão de seus corações uns para com os outros não se desse. Paulo, ao falar de seus antepassados, aos que viviam em seus dias, disse — "Sem nós, eles não seriam aperfeiçoados." Deve haver uma união entre gerações antigas e modernas, entre nós e nossos antepassados. Dizer que Deus seria bondoso e misericordioso para com certa geração, e revelaria seu Evangelho por meio de um santo anjo para seu benefício especial, e deixaria todas as demais gerações sem esperança, é inconsistente. Quando Deus começa uma obra, ela é digna dele mesmo — divina em sua natureza, elevando-se ao alto céu, e penetrando as regiões das trevas, por aqueles que estão presos em sua prisão, para que se proclame liberdade aos cativos; um plano que não pertence apenas ao presente, mas alcança de volta ao passado, e salva até o extremo todos os que têm direito, e estão dispostos a receber sua misericórdia oferecida. Mas estas ordenanças devem ser atendidas aqui, neste mundo e nesta provação. Esta é a lei do Grande Jeová. Na ressurreição, estas coisas não se podem fazer. ¶
Tendo explicado o casamento para a eternidade, deixai-me explicar outra parte do meu texto — "Assim não são mais dois, mas uma só carne. O que Deus ajuntou não o separe o homem." ¶
Parece ter havido, no princípio, até onde temos relato na Bíblia, duas personagens, um homem e uma mulher — Adão e Eva, unidos por toda a eternidade. Tinham poder para multiplicar sua espécie, e sua posteridade se tornará tão numerosa que, nas eras vindouras da eternidade, será inumerável. Alguns talvez arguam que, visto que, no princípio desta criação, Deus julgou conveniente colocar apenas um casal para começar a obra de povoar o mundo, não poderia haver coisa tal, divinamente ordenada e designada, como um homem tendo duas esposas vivendo ao mesmo tempo. Em resposta a isto, permiti-me perguntar: Não houve homem de Deus, nos dias antigos, a quem o Senhor se revelou, que tivesse duas ou mais esposas vivendo com ele ao mesmo tempo? Sem dedicar muito tempo à discussão deste assunto, referir-me-ei ao caso especial, registrado no livro de Gênesis, de Jacó, depois apelidado Israel, por causa de sua poderosa fé em Deus e poder com Deus. Tinha quatro esposas vivas. Foi sua prática, a este respeito, sancionada pelo Todo-Poderoso? Lede sobre Jacó, quando era jovem, antes de se casar sequer, e vede que peculiares favores o Senhor lhe concedeu. Certa vez, fugindo da terra onde seus antepassados, Abraão e Isaque, haviam peregrinado, para escapar de seu irmão Esaú, deitou-se na terra, tendo uma pedra por travesseiro. Orou ao Senhor, e o Senhor ouviu sua oração, e as visões do céu se abriram à sua mente. Viu uma escada que subia do lugar onde dormia, chegando até os céus; viu os anjos de Deus subindo e descendo por aquela escada; ouviu a voz do Senhor lhe proclamando quão grande e poderoso homem ele se tornaria, que o Senhor o multiplicaria, etc., e sua semente seria tão numerosa quanto as estrelas do céu, e Jacó adorou o Senhor desde então. Desceu à Síria, e ali entrou ao serviço de certo Labão, como pastor de ovelhas. Com o tempo, casou-se com uma das filhas de Labão, cujo nome era Lia. Pouco depois, casou-se com uma segunda filha deste Labão, chamada Raquel. Em período muito curto, casou-se com outra mulher que vivia na casa de Labão, chamada Bila, e pouco depois casou-se com uma quarta mulher, chamada Zilpa. Eis aqui quatro mulheres casadas com Jacó, e no livro de Gênesis são chamadas suas esposas. Ora, sancionou o Senhor, ou não sancionou, o casamento de Jacó com estas quatro esposas? E, depois de Jacó ter-se casado com elas, condescendeu ele em ouvir as orações de Jacó? Encontramos Jacó continuamente recebendo revelação depois disto, e isto é prova bastante conclusiva de que não foi rejeitado pelo Senhor por ter mais de uma esposa. ¶
Quando os filhos de Jacó e suas quatro esposas se tornaram numerosos, resolveu deixar aquela terra estrangeira, e voltou à terra onde Abraão e seu pai Isaque haviam vivido. Chegou ao ribeiro de Jaboque, e então enviou sua comitiva adiante de si, e começou a lutar em oração com Deus. Sentiu certo temor por causa da inimizade de seu irmão Esaú, que vivia na terra para onde ia, e lutou e suplicou ao Senhor. O Senhor enviou um anjo para experimentar a fé de Jacó, e ver se ele desistiria de lutar e orar ou não. O anjo procurou libertar-se dele, mas Jacó o segurou e disse: "Não te deixarei ir, se não me abençoares." O anjo, é claro, não exerceu poder sobrenatural de uma só vez, mas continuou a lutar com Jacó como se desejasse livrar-se dele, e lutaram ali a noite inteira, e, por fim, vendo que o único modo de dominá-lo era realizar um milagre, o anjo tocou a articulação da coxa de Jacó, fazendo encolher o nervo, produzindo coxeadura. Eis, pois, um homem de poderosa fé. Lutou a noite inteira com quem tinha razão para crer ser uma personagem divina, e não o deixaria ir sem receber dele uma bênção. O Senhor finalmente o abençoou, e disse que, como homem que não aceitaria recusa, como um príncipe, prevalecera com Deus, e recebera bênçãos de suas mãos. ¶
Alguns supõem que esta foi a primeira conversão de Jacó, e que ele obteve suas esposas antes de sua conversão. Mas seguiremos a história de Jacó um pouco mais. No dia seguinte ao de sua luta com o anjo, atravessou o ribeiro, e, esperando que Esaú viesse a seu encontro com grande exército de homens, sentiu certo temor. Assim, tomou uma esposa com seus filhos, e a enviou à frente; atrás dela pôs outra esposa com seus filhos; ainda atrás dela pôs a terceira esposa e seus filhos, e, por último, a quarta esposa e seus filhos. Por fim veio Esaú, tendo passado pelos rebanhos e gados que Jacó havia enviado adiante como presente, e encontra a esposa e os filhos colocados em primeiro lugar na fila. Provavelmente olhou para eles, e perguntou-se quem poderiam ser todos. Passou pela segunda e terceira companhia, e finalmente chegou a Jacó e à quarta companhia, e disse: "Jacó, quem são todos estes?" A resposta foi — "São aqueles a quem o Senhor meu Deus graciosamente concedeu a teu servo." O quê! Um homem que, segundo o Dr. Newman, se converteu apenas na noite anterior, dizendo a seu irmão que o Senhor lhe dera quatro esposas e muitíssimos filhos? Sim, e estava tudo certo, também. ¶
"Mas," diz alguém, "como ireis reconciliar isto com aquela parte de vosso texto, também citação da primeira parte de Gênesis, que diz — 'e serão os dois uma só carne'?" São eles uma só carne, ou, ao menos, uma só pessoa? Não, o Senhor não disse que seriam, mas que os dois seriam uma só carne. Em que sentido? Diz alguém, "Suponho que no que toca a seus filhos, pois a carne tanto do homem quanto da esposa se incorpora em seus filhos, e assim se tornam uma só carne." Olhemos por este ângulo. Quando nasceu o primeiro filho da primeira esposa de Jacó, se isto se referia aos filhos, os dois eram então uma só carne. Depois Raquel dá à luz um filho, e, se "uma só carne" se referia aos filhos, Jacó e Raquel eram uma só carne naquele filho. Depois Jacó e Bila tornam-se pais, e também são uma só carne no filho que lhes nasceu; e por último Zilpa tem um filho, e ela e Jacó também são "uma só carne nisto". ¶
"Bem," diz alguém, "se não se refere aos filhos, talvez se refira àquela unidade de mente que deveria existir entre marido e esposa." Muito bem, olhemos por este ângulo. Pode haver uma união entre dois indivíduos no que toca à mente? Vejamos o que disse Jesus. "Não rogo somente por estes" — referindo-se aos Doze Apóstolos — "mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim, que todos sejam um como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós." O quê! Mais de dois podem ser um só? Sim. Não importa se fossem dois mil os que cressem em Jesus por meio das palavras dos Apóstolos, deveriam ser um em seus afetos, desejos, etc., e isto poderia incluir, e incluiria, todos os membros da Igreja de Deus que já viveram em qualquer dispensação, e permaneceram fiéis até o fim, pois todos serão um, como Jesus e o Pai são um. ¶
"Serão os dois uma só carne." Se isto se refere a qualidades e faculdades mentais, pode incorporar as quatro esposas de Jacó tanto quanto uma. Tomai-o como quiserdes, e verificaremos que Deus o reconheceu, pois abençoou estas quatro esposas e todos os seus filhos. Vede sua posteridade, por exemplo. Deus honrou de tal modo os doze filhos das quatro esposas de Jacó, que os fez os chefes, os patriarcas de todas as doze tribos de Israel. A terra recebeu seus nomes — a terra de Rúben, a terra de Simeão, a terra de Judá, etc.; e estas tribos reconheciam estes filhos polígamos como seus pais e patriarcas. ¶
Podemos ir além desta vida, à próxima, e encontraremos que as honras concedidas por Deus a estes doze filhos ali continuam. Os cristãos creem que virá do céu, de Deus, uma santa Jerusalém, preparada como noiva ataviada para seu marido. Esta cidade santa, que descerá de Deus, do céu, terá um muro ao redor, e neste muro haverá certo número das mais belas portas — três ao norte, três ao sul, três ao leste e três ao oeste. Cada uma destas portas será feita de uma só pérola — pedra preciosa das mais formosas de se contemplar. Em cada uma destas portas haverá certo nome — uma terá inscrito o nome de Judá, outra Levi, outra Simeão, e assim por diante, até que as doze portas recebam os nomes dos doze filhos de Jacó e de suas quatro esposas polígamas; vemos assim que, em vez de o Senhor chamá-los bastardos, e proibi-los de entrar na congregação do Senhor até a décima geração, ele os honra acima de todo o povo, tornando-os os mais conspícuos na cidade santa, tendo seus nomes escritos em suas próprias portas. ¶
Naturalmente, todo aquele que ali entrar deve ser muito santo, ou a cidade não poderia ser santa, pois fora da cidade, diz-se-nos, haverá cães, feiticeiros, fornicadores, adúlteros, homicidas, e todo aquele que ama e faz mentira; mas tudo dentro será santo e justo — homens tais como Abraão e muitos outros, que tiveram mais de uma esposa. Se Abraão, Isaque e Jacó hão de ser salvos no reino de Deus naquela cidade santa, não serão também honrados os monógamos, que creem apenas em ter uma esposa, se tiverem o privilégio de ali entrar? Disse-se-nos que muitos virão do oriente e do ocidente, e se assentarão com Abraão, Isaque e Jacó, antigos polígamos, este último com suas quatro esposas, e serão contados dignos de ali serem salvos; enquanto muitos que professam ser filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. É isto que diz Jesus, e por isso não creio que aqueles que formaram a ideia de que apenas o sistema monogâmico de casamento é aceito pelo Todo-Poderoso se sintam naqueles dias como se sentem agora. Não creio que essa classe de pessoas se envergonhará, se tiverem o privilégio de sair na manhã da primeira ressurreição, de entrar naquela cidade santa, mesmo vendo os nomes dos filhos polígamos de Jacó em suas portas. Poderá haver alguns tão delicados em seus sentimentos a ponto de dizer — "Ó não, Senhor, não quero entrar por aquela porta, aquele povo é polígamo, eu gostaria que me levasses a outro lugar." Vão à próxima porta, e à próxima, até terem passado por todas, e todas são polígamas. Então talvez perguntem — "Não há alguma outra cidade onde o povo não seja polígamo?" "Ah sim, há muitos lugares, mas fora desta cidade há cães, feiticeiros, fornicadores, adúlteros, e todo aquele que ama e faz mentira. Quereis associar-vos com eles?" "Bem, acho que sua sociedade será um pouco mais agradável do que a daqueles velhos polígamos." ¶
Será este o modo como o povo raciocinará, quando vier diante desta cidade santa? Não, creio que ficarão muito contentes de entrar no seio de Abraão, mesmo tendo ele mais de uma esposa. Lembrai-vos do pobre Lázaro, o mendigo, que morreu buscando uma migalha da mesa do rico. Depois de sua morte foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Por fim o rico morreu, e, estando em tormento, ergueu os olhos e viu ao longe Lázaro no seio de Abraão, isto é, associando-se com o polígamo Abraão. Como suplicava este rico! "Ó pai Abraão, envia-me Lázaro!" "Que queres?" "Que ele venha e molhe na água a ponta do dedo e toque minha língua ardente, pois estou atormentado nesta chama." "Ó não," diz Abraão, "há um grande abismo entre ti e mim, deves permanecer onde estás. Lázaro está em meu seio, e não pode ser enviado a tal missão." "Bem, então, pai Abraão, se não podes enviar-me Lázaro para praticar este ato de misericórdia em meu favor, envia-o então a meus irmãos que vivem na terra, e adverte-os, para que não venham a este lugar." Não queria que mais ninguém ali fosse, tão atormentado estava ele mesmo. "Não," disse Abraão, "eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Se eles não os ouvirem, ainda que Lázaro ou qualquer outro lhes fosse enviado dentre os mortos, não creriam." ¶
É esse também o caso desta geração. Se não creem no que é testificado e falado na Bíblia, no tocante ao casamento, a santa ordenança ordenada por Deus, não creriam ainda que Lázaro, ou qualquer outro, lhes fosse enviado dos mundos eternos para lhes pregar estas coisas. Ridicularizariam então, como fazem agora, e seu clamor, então como agora, seria: "Congresso, ó Congresso, não podeis fazer algo para acabar com esta terrível corrupção que nos aflige lá em cima nas montanhas? Não podeis promulgar leis que restrinjam esses 'mórmons' e os obriguem a se casar por algum funcionário federal enviado a seu Território, e a acabar com essa parte de sua religião? Ó Congresso, fazei algo para destruir esta corrupção de nossa terra. Há um povo lá naquelas montanhas, que professa crer exatamente como a Bíblia ensina em muitos lugares, e não o podemos suportar. Creem tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e isto há de ser blasfêmia." ¶
Quem disse isto? Disseram nossos antepassados, ao elaborarem a Constituição, que todos os que cressem no Novo Testamento teriam liberdade religiosa, e que todos os que se dispusessem a crer no Antigo Testamento seriam expulsos deste governo, e afligidos com alguma terrível penalidade e lei que o Congresso viesse a promulgar? Creio que temos o privilégio de crer tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Amém. ¶