Necessidade dos Milagres—Crença dos Santos dos Últimos Dias
Orson Pratt
Ouvimos, esta manhã, algumas excelentes instruções a respeito do plano de vida e salvação — instruções que concordam em todo aspecto com aquele plano tal como foi revelado nos tempos antigos. Foi verdadeiramente observado pelo orador que se dirigiu a vós, que as mesmas causas produzirão os mesmos efeitos, isto é, quando operam sob circunstâncias semelhantes. Não vejo, em minha própria mente, diferença alguma entre as circunstâncias que nos cercam e as circunstâncias que cercavam o povo nos dias de nosso Salvador e de seus Apóstolos. Somos criaturas caídas, assim como eles eram; somos seres muito imperfeitos e precisamos ser salvos; o mesmo era verdade quanto a eles. Temos enfermos entre nós neste dia, e eles também os tinham. Deus então ordenou a imposição de mãos em benefício dos enfermos. Por que não ordenar o mesmo princípio, pela mesma razão, em nossos dias? Não beneficiaria os enfermos serem curados pela imposição de mãos agora, tanto quanto naqueles dias? Qual é a diferença? Não há hoje tantos enfermos quanto havia então? Não seria uma bênção tão grande para os habitantes da terra serem curados agora, por meio desta simples ordenança, quanto o era então? Quando se comparam as circunstâncias e condições do povo de então e de agora, nenhuma razão se pode apresentar para que este dom seja negado ao povo agora. O mundo diz que, naqueles dias, era necessário que Deus manifestasse seu poder na cura dos enfermos, e de várias outras maneiras, a fim de convencer os habitantes da terra quanto ao plano de salvação que lhes era oferecido. Por que não convencer os habitantes da terra em nossos dias? Não há hoje tanta necessidade quanto havia então? Não é uma alma tão preciosa aos olhos de Deus hoje quanto o era então? Se era necessário que a incredulidade fosse desfeita por milagres então, por que não agora? Ou foram os milagres dados para desfazer a incredulidade? Esta é uma questão digna de investigação. Descobrimos que os milagres eram realizados nos tempos antigos segundo a fé e a crença dos filhos dos homens. Poderíamos supor, ao ouvir conversar alguns dos eruditos teólogos de nossos dias, que quanto maior a incredulidade, maiores deveriam ser os milagres para a desfazer. Mas vejamos como o Senhor operava e realizava milagres nos tempos antigos. ¶
Lemos que ele foi a seu próprio país natal, onde nascera, entre seus vizinhos e conhecidos, em certa ocasião, e que não pôde ali realizar muitos milagres poderosos, por causa da incredulidade deles. Que grande pena que Jesus não tivesse alguns dos eruditos teólogos de hoje para o instruir! Sem dúvida teriam dito a Jesus que, por causa da grandeza da incredulidade em seu próprio bairro e entre seus conhecidos, ele deveria realizar entre eles alguns milagres maiores do que fez em qualquer outro lugar. Isso teria sido consistente com as ideias atuais dos teólogos. Mas, naqueles dias, Jesus operava entre o povo segundo sua fé, e, quanto maior a incredulidade, menores os milagres. ¶
Encontramos o mesmo princípio existindo muito antes de Jesus vir à terra. O próprio Jesus testifica que, nos dias do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Sabeis que essa é uma doença muito repugnante, e que o povo naturalmente ficaria muito contente em ser curado. Mas nenhum deles foi curado nos dias de Eliseu, diz Jesus, exceto um homem, não de Israel, mas um estrangeiro — Naamã, o Sírio. Qual foi a razão? A incredulidade deles. Como veio este Naamã, o Sírio, a ter fé? Ele creu no testemunho de uma jovem judia, que fora levada cativa pelo exército sírio e conduzida a um país distante, e, ao conversar com o povo ali, contou-lhes sobre um grande profeta em Israel, chamado Eliseu. "Quem dera," disse ela, "que meu senhor visse este profeta e fosse curado!" Ela parecia ter fé, e, quando o relato de sua conversa chegou aos ouvidos de seu senhor, este tomou grandes riquezas e partiu com o propósito expresso de visitar este profeta em Israel. Ao chegar à região da Palestina onde o profeta vivia, apresentou-se primeiro diante do rei; mas este, sendo em grande medida cheio do espírito de incredulidade, pensou que Naamã viera buscar algum pretexto para a guerra. "Sou eu Deus," disse o rei, "para realizar esta obra?" O Senhor revelou a seu servo o profeta que este homem viera, e o propósito de sua visita, e Naamã e seu servo encontraram Eliseu e foram à sua morada. Mas Eliseu, em vez de ser muito cortês, e receber Naamã em sua casa, enviou-lhe uma mensagem, dizendo-lhe que fosse mergulhar sete vezes no Jordão e seria curado. Isto não parecia estar de acordo com o que Naamã tinha em mente. Talvez pensasse que, tendo feito uma longa jornada com grande pompa e grandes presentes, o profeta seria extremamente respeitoso para com ele, e ficou muito irado em sua mente, e disse — "não são as águas da Síria tão boas quanto as águas de vosso Jordão?" e virou-se com grande fúria. Finalmente, um de seus servos lhe disse — "se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: lava-te, e ficarás purificado?" "Sim," disse Naamã, "esperava que ele saísse a mim, colocasse a mão sobre minha cabeça e repreendesse a lepra, e eu fosse curado; mas ele me mandou ir mergulhar sete vezes no Jordão, e enviou-me esta mensagem por um servo, em vez de vir ele mesmo me ver." Mas foi finalmente persuadido por seu servo a ir e fazer o que o profeta dissera, e foi e mergulhou sete vezes no Jordão, e imediatamente sua carne se renovou como a carne de uma criancinha. Todos os demais leprosos, por todo o Israel, permaneceram não curados, mas este estrangeiro foi purificado e sarado. ¶
Ora, por que esta parcialidade? Por que não realizar alguns milagres maravilhosos, curando todos os leprosos de Israel? Foi por causa da incredulidade deles. Mas diz o teólogo de hoje — "quanto maior a incredulidade, maior a necessidade do milagre e, consequentemente, para desfazer esta incredulidade, o profeta deveria ter curado todos os leprosos de Israel." O Senhor, contudo, tem seu próprio modo, e, quando encontra uma geração muito incrédula, não satisfaz sua curiosidade carnal, nem manifesta seu poder em grande medida no meio dos ímpios; mas sempre mostra seu poder àqueles que são humildes, mansos e de coração contrito. Ele fez isso em todas as dispensações, não somente nos dias de Jesus e dos Apóstolos, mas em toda dispensação, e o poder manifestado tem sido de acordo com a fé do povo. ¶
Quanto ao dom de profecia, muitos supõem que era necessário nos tempos antigos, nas eras sombrias; mas que, quando o Evangelho foi plenamente estabelecido na terra, e grande poder e sinais se manifestaram, não havia mais necessidade de profecia, revelações, etc., e citam uma passagem dos escritos de Paulo, ou antes, parte de uma passagem, em vez do todo, a fim de provar sua posição. No capítulo 13 da primeira epístola aos Coríntios, Paulo diz — "ainda que haja profecias, desaparecerão; ainda que haja línguas, cessarão; ainda que haja ciência, desaparecerá." A profecia e as línguas haveriam de cessar: "ora," diz o erudito teólogo de hoje, "aqui está um testemunho claro e direto de que estes dons eram destinados apenas às primeiras eras do mundo, e deveriam ser desfeitos e cessar." Mas por que não citar os versículos seguintes? Por que citar metade de uma frase ou ideia, e então deixá-la? Por que não dar o todo, e descobrir o tempo em que estes milagres, tais como a profecia, a cura dos enfermos, o falar em línguas, etc., haveriam de cessar? Se os teólogos de hoje lessem um pouco mais adiante, saberiam o tempo e as circunstâncias que haveriam de se dar, quando estas coisas fossem desfeitas. Diz Paulo, nos versículos seguintes — "porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte desaparecerá." "Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido." Aqui, então, se prediz claramente que, quando não houver mais necessidade de profecia, cura, falar em línguas, etc., terá chegado o dia da perfeição; em outras palavras, quando a Igreja de Deus tiver vencido e estiver aperfeiçoada, quando a Igreja de Deus não precisar mais de profetas, quando não tiver mais enfermos (pois, se todos os seus membros se tornarem imortais, não haverá enfermo algum a curar, por isso a cura será desfeita, quando a Igreja de Deus toda falar uma só língua — a língua pura, a língua falada pelos anjos, restaurada à terra pelo Senhor), não haverá necessidade de falar em línguas. Mas, até que chegue aquele dia de perfeição, todos estes dons serão necessários. ¶
Isso concorda com o que Paulo disse em seu primeiro capítulo aos Efésios. Ali nos informa que estes poderes e dons milagrosos, que Jesus deu quando subiu às alturas e levou cativo o cativeiro, foram dados com propósito especial. Deu alguns apóstolos, alguns profetas, evangelistas, pastores, mestres, dons, cura; todos foram dados com um propósito especial. Qual foi esse propósito? O aperfeiçoamento dos Santos. ¶
Perguntaria aos eruditos teólogos de hoje: precisam os Santos, nesta era, de algo que os aperfeiçoe? Ou já estão suficientemente aperfeiçoados para entrar na presença do Pai? Se precisam de aperfeiçoamento, e ninguém pode negar que precisam, então apóstolos são necessários agora, profetas são necessários agora, evangelistas, pastores e mestres são necessários agora. "Bem," diz alguém, "admitiremos que evangelistas, pastores e mestres são necessários agora; não os abolimos, temos abundância de mestres e pastores, mas não cremos em apóstolos e profetas hoje." Por quê não? Não nos disse o mesmo Apóstolo, no mesmo versículo, que apóstolos e profetas, assim como evangelistas, pastores e mestres, foram dados, quando Jesus subiu às alturas, para o aperfeiçoamento dos Santos? Por que, então, os separais, e dizeis que os dois primeiros mencionados já não são necessários, mas os outros três, sim? Por que fazeis isso? Para serdes consistentes com a insensatez desta geração, e para vos ajustardes a suas tradições. Não tendes apóstolos, não tendes profetas, e precisais de alguma desculpa para os abolir, e vossa desculpa é que já não são necessários. Provai-o — não podeis, está além de vosso poder. Não tendes evidência alguma, testemunho algum pelo qual o possais provar. Com todo o testemunho a favor de vossa posição que possais apresentar, posso provar que pastores, evangelistas, mestres, Bispos, diáconos, Élderes, e todo outro ofício da Igreja de Cristo em que credes, não são necessários hoje, com a mesma facilidade com que podeis provar que apóstolos e profetas não são necessários hoje. Tanta evidência se pode apresentar a favor de uma posição quanto da outra; e o fato é que não há evidência alguma para nenhuma delas. Todos foram dados para o aperfeiçoamento dos Santos e a obra do ministério, e deveriam continuar até que chegasse o dia da perfeição; e, no momento em que dizeis que não são necessários, dizeis virtualmente que a obra do ministério não é necessária; e por que, então, administrais? Foram dados não somente para o aperfeiçoamento dos Santos e a obra do ministério, mas para a edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja. Tirai os apóstolos, inspirados por Deus, tirai os profetas que predizem acontecimentos futuros, e tirareis o meio que Deus ordenou para a edificação de seu corpo — sua Igreja — e aquele corpo, ou Igreja, não poderá ser aperfeiçoado. ¶
Outro objetivo, informa-nos Paulo, para o qual estes dons foram dados, era que os Santos pudessem chegar à unidade da fé, a um homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo. Tirai estes dons, e qual é vossa condição? Estais na mesma condição de que Paulo fala no versículo seguinte — "meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engodo dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente." Os dons foram dados para impedir que o povo fosse levado em roda por todo vento de doutrina. Tirai estes dons — o dom da revelação, da profecia e dos milagres, que os Santos desfrutavam nos tempos antigos — e o povo fica sujeito a ser jogado de um lado para outro por todo vento de doutrina que soe a seus ouvidos. Por quê? Porque são inteiramente governados pelas opiniões dos homens. Um homem tem sua opinião, e tenta sustentá-la com sua erudição; outro homem tem opinião oposta, e tenta sustentá-la, e, como nenhum deles é inspirado pelo poder do Espírito Santo, nenhum tendo o dom de profecia ou de revelação, cada um, tanto quanto pode, ganha influência e poder sobre seus vizinhos, e reúne um grupo de pessoas, e o proclama a Igreja de Cristo. Mas Deus nada tem a ver com eles. Nunca os chamou de Igreja de Cristo, nunca lhes falou, nunca lhes enviou um anjo, nunca lhes deu uma visão, nunca lhes enviou um profeta ou um apóstolo — nada tem a ver com eles — não são sua Igreja, nunca foram, nem jamais poderão sê-lo, senão pelo arrependimento e pela conversão ao Senhor, e pelo recebimento do Espírito Santo, que é o espírito de profecia. Aquele que tem o testemunho de Jesus tem o espírito de profecia. Paulo nos declarou que nenhum homem pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. Um homem pode ter a tradição de que Jesus é o Senhor, mas não conhece o fato, exceto pelo poder do Espírito Santo, e o testemunho de Jesus é o espírito de profecia — faz profeta a quem o possui. ¶
É isto o que os Santos dos Últimos Dias creem. Não temos novo evangelho a oferecer ao mundo. Viemos, enviados pelo Todo-Poderoso, a testificar contra os novos evangelhos que foram introduzidos, os quais têm apenas a forma da piedade e negam o poder que se manifestou na Igreja antiga. Viemos testificar contra as falsas doutrinas; fomos enviados expressamente com este propósito, e também para testificar corajosamente contra a iniquidade e as abominações do mundo que se professa cristão, bem como daqueles que não fazem profissão alguma. Deus nos ordenou levantar nossa voz e não poupar, testificar contra toda a sua iniquidade e suas falsas doutrinas, o que temos procurado fazer, sem pedir favor algum aos filhos dos homens. Deus não nos enviou para nos curvarmos e nos submetermos às tradições e falsas ideias dos filhos dos homens; enviou-nos para testificar claramente, com força, contra sua iniquidade e as corrupções que praticam continuamente, e têm praticado por gerações, diante do alto céu e de todo o mundo. ¶
Dizemos então, a todo o mundo, que, se se arrependerem de seus pecados, se humilharem, se tornarem como criancinhas diante de Deus; se se afastarem de suas falsas doutrinas, e crerem em Jesus, que foi crucificado nos tempos antigos, com todo o coração, e receberem seu Evangelho, receberão não somente a remissão de seus pecados, mas o dom do Espírito Santo, e os sinais, antigamente prometidos aos crentes, os seguirão. Toda criatura em todo o mundo que obedecer ao Evangelho desfrutará, mais ou menos, dos dons que Deus prometeu. Se todos não os desfrutam, podem saber que são incrédulos, pois Jesus disse que estes sinais seguirão aos que creem, e não se referia apenas aos Apóstolos. Citemos a linguagem, para que vejais que se referia a todo crente em todo o mundo. Disse ele aos onze Apóstolos — "ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura" — a toda criatura, lembrai-vos — "quem crer" — isto é, toda criatura, em todo o mundo, que crer, "e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." ¶
Aqui estava a linha divisória. Notai a promessa seguinte — "estes sinais seguirão os que crerem." Não haviam de seguir apenas a alguns indivíduos em Jerusalém, não apenas aos Apóstolos a quem então falava, mas aos que creem em todo o mundo. "Dou-lhes uma promessa de que serão salvos; e não somente lhes prometo a salvação, mas certos sinais os seguirão — em meu nome eles" — estes crentes — "expulsarão demônios, falarão novas línguas, pegarão em serpentes, e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum, porão as mãos sobre os enfermos e os sararão." ¶
Aqui está o modo pelo qual toda pessoa pode descobrir se é ou não crente em Cristo. Todo o mundo cristão pode se testar, e descobrir se são ou não crentes em Cristo. Se estes sinais os seguem, são crentes; se estes sinais não os seguem, não são crentes, nem tampouco os Santos dos Últimos Dias. Nenhum de nós é crente, a menos que estes sinais nos sigam; pois Jesus os prometeu a toda criatura em todo o mundo que crê; portanto, a promessa inclui as pessoas hoje vivas, bem como as que viveram em eras passadas. E ai de todos os habitantes da terra, por causa de sua incredulidade; porque desfizeram o poder da piedade; porque desfizeram o poder do Evangelho antigo, e se voltaram para as doutrinas dos homens; e, contudo, hipocritamente — talvez alguns deles sinceramente — se chamam a si mesmos a Igreja de Cristo, e crentes. Vergonha ao mundo! Amém. ¶