A Revelação do Céu e Sua Necessária Continuidade
Orson Pratt
Às vezes tenho o hábito de tomar um texto, mas neste momento não há nenhuma passagem das Escrituras que se apresente à minha mente; começo, pois, a falar e, por meio de vossa fé e orações diante do Senhor, confio que algo me será dado que edificará e beneficiará a congregação. Os assuntos pertencentes ao reino de Deus são tão numerosos que, às vezes, a grande dificuldade na mente de um servo de Deus que tenta se dirigir ao povo é conhecer a mente e a vontade do Espírito quanto ao que deve ser dito. Se conheço meu próprio coração, não tenho desejo de falar minhas próprias palavras nem de vos transmitir minha própria sabedoria natural; mas é o desejo sincero do meu coração transmitir instrução segundo a mente e a vontade do Deus vivo. Isto não posso fazer a menos que Deus me conceda a inspiração de seu Espírito no exato momento, e isto dependerá em grande medida tanto dos ouvintes quanto do orador. Se o povo tem fé em Deus e ora a ele, exercendo essa fé, ele pode lhes dar algo instrutivo para suas mentes; mas, se não têm fé, talvez o Senhor não considere próprio transmiti-lo. ¶
Temos a permissão, Santos dos Últimos Dias, de viver numa época muito peculiar do mundo. É chamada por nós a dispensação da plenitude dos tempos. Muitas dispensações foram reveladas aos habitantes da terra em eras passadas, e Deus tem dado, de tempos em tempos, desde a criação, muita instrução ao povo. O que quero dizer com dispensação é poder, autoridade e revelação dados do Céu para dirigir e aconselhar os homens aqui na terra. Isto tem sido dado em diferentes épocas do mundo, e a instrução que Deus tem dado esteve de acordo com as circunstâncias do povo, sendo as revelações e instruções dadas diferentes num período em relação a outro. Quando digo diferentes, não me interpreteis mal. Muitas das revelações de Deus são imutáveis em sua natureza e adaptam-se a todas as dispensações; mas muitos mandamentos foram dados que se adaptavam somente às dispensações em que foram revelados. Mencionarei alguns destes. ¶
Por exemplo, quando haviam se passado uns mil e seiscentos ou dois mil anos desde a criação, o mundo havia se corrompido muito aos olhos de Deus, tanto que a pouca história que temos sobre o assunto nos informa que toda carne havia corrompido seu caminho sobre a face da terra. Deus deu um novo mandamento naquele período, diferindo inteiramente de todos os mandamentos anteriores. Não se adaptava a nenhuma dispensação que o havia precedido, nem seria adequado a nenhuma dispensação futura: destinava-se somente àquele período particular. O Senhor ordenou a seu servo Noé que construísse uma arca, segundo certas regras e dimensões que lhe deu, pois, disse o Senhor: "Pretendo destruir toda carne com um dilúvio, exceto aqueles que se ajuntarem na arca que construirás." ¶
Este era um novo mandamento. Se houvesse pregadores sectários que vivessem então, e talvez houvesse — pois pregadores que não foram enviados por Deus parecem ter sido numerosos em todas as dispensações — teriam talvez argumentado com Noé a respeito desta nova revelação e mandamento, e lhe dito: "De que adianta agora obter nova revelação de Deus? Não negarás, Noé, que Enoque foi salvo e trasladado ao céu. Ele teve revelação suficiente para salvá-lo, e não podemos ser salvos da mesma maneira que ele foi, sem receber nenhuma nova revelação comunicada a nós?" Menciono isto porque tais argumentos são usados hoje em dia com referência às novas revelações que os Santos dos Últimos Dias levam ao mundo. O povo diz: "Credes no Livro de Mórmon como uma nova revelação, e que Deus deu novos mandamentos. Não temos o suficiente? Não foram salvos os que viveram nos dias de Enoque, Abraão, Moisés e os Profetas, nos dias de Jesus e dos Apóstolos? E, se tiveram o suficiente para salvá-los, se seguirmos as instruções que receberam, de que adianta obter outro livro, chamado Livro de Mórmon, ou novos mandamentos e revelações?" Isto tem sido apresentado como argumento desde minha juventude, ao meu certo conhecimento, em todos os países onde viajei e tentei comunicar ao mundo nossas ideias sobre nova revelação. Os mesmos argumentos poderiam ter sido usados nos dias do dilúvio — "Já foi dado o suficiente; Enoque foi salvo e trasladado, e, se seguirmos as revelações a ele dadas, por que não podemos ser salvos sem ter algo novo?" Mas Noé teria respondido, e com muita propriedade: "Deus pretende realizar agora algo que não realizou nos dias de Enoque, nem nos dias de Abel e Sete, nem nos dias de nenhum daqueles antigos dignos — ele pretende trazer destruição sobre toda carne que não se arrepender, submergindo este nosso mundo num dilúvio de águas. Ele pretende derramar sua indignação e justa ira sobre os que se corrompem à sua vista; e proveu um modo particular de escape disso, pelo qual podeis, se quiserdes, ser salvos deste juízo, e esse modo há de ser dado a conhecer por nova revelação." Passemos adiante, contudo. ¶
Pouco depois dos dias de Noé, achamos que certos homens viveram na terra, cujos nomes estão registrados nesta história sagrada (a Bíblia), que foram chamados para serem os servos escolhidos de Deus, e a quem o Senhor abençoou de maneira peculiar. Refiro-me agora aos Patriarcas, e mais especialmente a Abraão, Isaque e Jacó, três homens muito dignos, tão dignos que o Senhor os escolheu como representantes dos fiéis em todas as eras futuras, e declarou que todos os que fossem salvos em eras futuras se tornariam sua semente, seja procedendo diretamente de seus lombos, seja sendo adotados, por meio do evangelho, na família de Abraão, que seria chamado o pai dos fiéis: isto é, o pai não somente dos fiéis que viveram de seus dias até a vinda de Cristo, mas de todos os que viessem a viver depois de Cristo, que seguissem os passos deste antigo Patriarca e abraçassem o mesmo evangelho que ele ensinou, e estes teriam direito às promessas que lhe foram feitas. ¶
Ora, recebeu o Patriarca Abraão algo novo de Deus, ou já havia o suficiente dado? Talvez muitos clamem: "O suficiente para salvar Noé, Enoque, Abel, e todas as pessoas que andassem diante do Senhor segundo a revelação antiga, sem nada de novo." Mas não havia o suficiente adaptado às circunstâncias que rodeavam Abraão. Por quê? Porque o Senhor pretendia chamar Abraão para fora da casa de seu pai, de seus amigos e de sua terra, e conduzi-lo a uma terra estranha. Abraão poderia ter examinado todos os registros e revelações anteriores, mas eis aqui um dever que nunca poderia ter aprendido deles — "Sai da casa de teu pai!" Isto não se podia encontrar escrito em revelações anteriores; daí as circunstâncias exigirem nova revelação, e Deus a deu, ordenando a este grande homem — o pai dos fiéis — que deixasse a terra de Caldeia e fosse para uma terra onde nunca estivera. Abraão foi obediente, saiu e viajou para a terra que chamamos Palestina — um pequeno território a leste do Mar Mediterrâneo. E, tendo chegado àquela terra, poderia ter examinado em vão todas as revelações anteriores para aprender qual era então o seu dever, pois havia certos deveres então exigidos dele a respeito dos quais a revelação a ele dada em sua terra natal não o esclarecia. Um destes deveres era subir a certa eminência ou montanha em Canaã. Ele fez como lhe foi ensinado. Foi um mandamento peculiar. Nunca me foi ordenado fazer isso, nem a nenhuma outra pessoa nesta congregação; nem a ninguém que viveu antes de Abraão, senão a ele, e somente ele precisou de nova revelação para descobrir que devia subir ao cume de certa montanha. Quando ali chegou, outra nova revelação lhe foi dada, ordenando-lhe olhar para o leste e depois para o oeste; e depois lançar os olhos para o norte e para o sul, e então, eis que uma grande promessa lhe foi feita por nova revelação, a saber: "Toda a terra que vês te darei a ti e à tua semente para sempre." Nenhuma promessa assim ele poderia ter encontrado em revelação anterior: esta promessa era adaptada àquele indivíduo peculiar, e às circunstâncias em que estava colocado. ¶
Poderíamos imaginar que Isaque, tendo as revelações de seu pai bem diante dos olhos, e conhecendo tudo a respeito delas, diria em seu coração: "Não preciso me preocupar em buscar de Deus e receber algo novo dos céus. Meu pai era um homem bom; foi salvo, e eu me contentarei em atender às antigas revelações." Mas Isaque não raciocinou desse modo; e o Senhor tinha algumas novas revelações a comunicar ao filho de Abraão, e uma delas era confirmar a promessa que havia sido feita a seu pai. Poder-se-ia supor naturalmente que a revelação feita a seu pai era ampla o bastante e cobria o caso sem necessidade de confirmação, pois declarava que a terra prometida a Abraão seria dada a ele e à sua semente depois dele, e poderíamos supor que isso incluía Isaque, e que não havia necessidade de uma nova revelação a ele sobre o assunto; mas, mesmo que o incluísse, Isaque não estava plenamente satisfeito, não quis depender de algo que fora dito a outro homem, mas quis saber por si mesmo se Deus lhe destinava possuir aquela terra, e não havia outro modo de obter este conhecimento senão por comunicação direta com os céus. Ele a obteve, renovando Deus a promessa a ele feita a seu pai Abraão. ¶
Com o tempo vem o neto de Abraão — Jacó, que, não satisfeito com as promessas feitas a seu avô e a seu pai — Abraão e Isaque — e não se considerando seguro em depender de promessas feitas a outro, veio diante do Senhor e suplicou-lhe, e os anjos de Deus vieram e visitaram este jovem, e ele viu uma escada que ia do chão em que dormia até os próprios céus, pela qual os anjos subiam e desciam; e ele, naquela ocasião, obteve confirmação da promessa feita a seu pai e a seu avô. ¶
É desnecessário traçar a história destes patriarcas, ou mencionar as várias vezes em que Deus julgou próprio comunicar-lhes uma nova revelação, segundo as circunstâncias em que estavam colocados. Poderíamos relatar as revelações dadas a Jacó depois que desceu à terra de Labão, onde casou com suas quatro esposas. Poderíamos relatar-vos as várias revelações que Deus lhe deu durante sua permanência naquela terra. Poderíamos também relatar-vos as revelações que recebeu depois de deixar aquela terra com suas quatro esposas e seus filhos. Quando chegou ao ribeiro de Jaboque, enviando toda a sua família adiante, ficou para trás, e o Senhor se dignou a dar-lhe uma nova revelação. Um anjo desceu, e Jacó e esta pessoa agarraram-se um ao outro, como os homens às vezes fazem agora, para experimentar a força um do outro, no que se chama luta. Estas duas pessoas lutaram juntas toda a noite. O anjo não julgou próprio tirar nenhuma vantagem de Jacó por milagre, mas lutou com ele como um homem lutaria com outro; e parece que nenhum dos dois venceu o outro. O anjo não conseguiu derrubar Jacó ao chão, nem Jacó conseguiu derrubar o anjo ao chão; mas, depois de contenderem juntos toda a noite, o anjo por fim estendeu o dedo e tocou a articulação da coxa de Jacó e o coxeou um pouco, e por este meio conseguiu vencê-lo. Assim coxeado, Jacó percebeu que estivera lutando com um anjo de Deus, e disse: "Não te deixarei ir, senão me abençoares"; e Deus, pela boca daquele anjo, deu-lhe as mesmas grandes e gloriosas promessas que dera a seu pai, e também o abençoou como príncipe, porque teve poder para lutar com um anjo a noite toda e prevaleceu com ele. ¶
Alguns supõem que esta foi a primeira conversão de Jacó; mas, seja como for, Jacó, antes disto, já tivera muitas grandes revelações de Deus. Depois de lutar deste modo de um lado do ribeiro de Jaboque, partiu no dia seguinte para alcançar sua família, e colocou suas quatro esposas e seus filhos em certa ordem, preparando-se para encontrar seu irmão Esaú. Com o tempo, chega Esaú com um exército considerável de homens, e encontra a companhia dianteira, composta de Bila e Zilpa e seus filhos — duas das esposas de Jacó e sua prole poligâmica. Ele continua até encontrar a terceira esposa de Jacó, e finalmente chega à quarta e a seus filhos, com quem Jacó estava, e, voltando-se para Jacó, diz: "Quem são todas estas mulheres e crianças?" Jacó respondeu: "São as que Deus deu a teu servo." O quê! Deus deu a Jacó mais de uma esposa, e uma multidão de filhos poligâmicos! Será isto verdade? Pois bem, Jacó o diz, e somos informados de que ele estava então convertido, que este encontro entre Jacó e Esaú se deu, e que esta declaração de Jacó foi feita depois de sua conversão no ribeiro de Jaboque. Ora, supor-se-ia que um homem convertido faria tal declaração sobre suas esposas e filhos, como Jacó fez a Esaú, se não fosse verdade? Se um homem hoje em dia declara que Deus lhe deu mais de uma esposa, e uma multidão de filhos poligâmicos, é acusado de blasfêmia; contudo Jacó, depois de lutar com um anjo, declarou que este era o seu caso: sabia que era assim e reconheceu a mão de Deus. Depois de chegar à terra de Canaã, achamos que Deus continuou a dar a este homem revelação após revelação, adequadas às circunstâncias; e assim podemos traçar a história das dispensações de Deus para com o homem. ¶
Tocarei agora, brevemente, na história de Moisés, que viveu várias centenas de anos depois de Jacó — numa época em que as circunstâncias exigiam mandamentos e revelações diferentes de tudo o que jamais fora dado antes. Depois de matar o egípcio, Moisés fugiu da casa de Faraó, e desceu à terra de Midiã, e ali habitou quarenta anos. Certa vez, quando apascentava os rebanhos de seu sogro, Jetro, viu uma sarça ardendo com uma chama muito brilhante. Isto lhe despertou a curiosidade, e ele se aproximou, e viu a sarça aparentemente ardendo, e contudo não se consumindo. Ao se aproximar mais, Deus lhe falou do meio da sarça ardente, e lhe disse que tirasse as sandálias dos pés, pois o lugar em que estava era terra santa. Ele nunca poderia ter descoberto por revelação anterior que o solo em que estava era santo. Este Deus, que apareceu na sarça ardente, ou o anjo, conforme o caso, tinha algo para Moisés fazer que ele de modo algum poderia aprender por revelação anterior, e isso era levantar-se e descer ao Egito e libertar o povo de Deus — os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó — das mãos de seus inimigos. Não vedes que se requeria nova revelação para informá-lo deste fato? Ele foi obediente ao mandamento, pois, levando Arão consigo, desceu ao Egito e se apresentou diante do rei, e então começou uma série de novas revelações maravilhosas e admiráveis em sua natureza. As revelações de hoje, porém, não conviriam a amanhã, e as de amanhã não conviriam ao dia seguinte. Por quê? Porque Deus tinha algo novo a realizar todo dia, e o que fora dado ontem não se adaptaria à obra que Deus julgasse próprio realizar hoje ou amanhã; daí que, à medida que o dia se sucedia, nova revelação tinha de ser dada a Moisés para lhe dar a conhecer o que o Senhor exigia de sua mão, qual era sua missão, o que devia fazer na casa de Faraó e diante de todos os egípcios. Tendo realizado estas maravilhas, por nova revelação, Moisés e toda a casa de Israel, cerca de dois milhões e quinhentos mil em número, deixaram a terra do Egito e chegaram à margem oriental do Mar Vermelho. ¶
Se houvesse sectários naquela grande companhia, teriam sem dúvida raciocinado com Moisés desta maneira: "Moisés, que abundância de revelação Deus deu em tempos passados, e não temos o suficiente para nos guiar agora?" Digo que, se houvesse batistas, metodistas, presbiterianos, membros da Igreja da Inglaterra, ou de qualquer das várias centenas de diferentes seitas em que a cristandade está agora dividida, este teria sido o argumento deles, pois o argumento deles agora é — "Temos o suficiente, e não precisamos de mais." Mas Moisés e os filhos de Israel não se deixaram influenciar por tais considerações, pois estavam colocados em circunstâncias que exigiam algo novo. O Mar Vermelho estava diante deles, havia montanhas ao sul e ao norte, e a oeste os egípcios os perseguiam, e a pergunta entre eles era: "Que faremos?" Deus lhes deu revelação. Não lhes disse que buscassem revelações anteriores, pois isso era tudo o que era necessário, mas lhes deu revelação dizendo o que fazer, e esta revelação foi: "Ficai quietos, e vede a salvação de Deus." Se não tivessem recebido esta nova revelação, poderiam ter ficado tão confusos que, em vez de ficarem quietos, alguns teriam corrido para um monte e outros para outro, alguns por um caminho e outros por outro; mas uma nova revelação lhes fez compreender que seu dever, em vez de fugir, era ficar quietos e ver a salvação que Deus operaria por eles. Moisés foi ordenado a ferir as águas do Mar Vermelho, e assim o fez, e elas se dividiram pelo poder do Todo-Poderoso e, como somos informados em outro lugar, se ergueram como muros de ambos os lados do caminho pelo qual os filhos de Israel atravessaram o meio do mar. Suporíamos naturalmente que a água não faria isto, mas foi um milagre operado pelo poder do Todo-Poderoso. Ele colocou as águas, como muros sólidos de cada lado de seu povo, e eles atravessaram a pé enxuto, enquanto o exército egípcio, tentando persegui-los, foi derrubado no meio do mar. ¶
Vem então outra nova revelação — dada por inspiração — para cantar como o Senhor derrubara os inimigos de seu povo, como o Senhor engrandecera seu grande poder e preservara seu povo da nação egípcia, e o livrara da escravidão. As hostes de Israel viajaram desde as margens do Mar Vermelho até chegarem ao sopé do Monte Sinai, onde, por nova revelação, acamparam; e em certo momento, o Senhor, por nova revelação, chamou Moisés ao monte; e, quando ali chegou, o Senhor julgou próprio escrever certo código de leis em tábuas de pedra, e, depois de manter Moisés no monte quarenta dias e quarenta noites, enviou-o de volta, e, quando desceu, achou que os filhos de Israel se haviam corrompido diante do Altíssimo, pois haviam feito para si deuses, certos bezerros de ouro, e os adoravam. Arão fizera o povo despir-se, e dançavam ao redor dos bezerros. Moisés ficou muito irado, não com aquela espécie de ira que enche o peito de homens e mulheres tolos; mas aquele princípio de justiça que arde no peito do Todo-Poderoso ardeu no peito de Moisés, e ele lançou por terra as tábuas do convênio que trouxera do Monte Sinai, e elas se despedaçaram. Chamou os que estavam do lado do Senhor para saírem do meio daquela companhia e ficarem com ele, ao mesmo tempo ordenando-lhes que cingissem suas espadas e matassem os que não eram pelo Senhor. Aquilo foi uma nova revelação, e curiosa, não foi? Depois de tudo isto acontecer, o Senhor chamou Moisés uma segunda vez ao monte por nova revelação, e novamente lhe deu tábuas de pedra e leis nelas escritas. Manteve-o ali pela segunda vez quarenta dias e quarenta noites, sem comer nem beber nada. Suporíamos que ele não poderia ter suportado tão longo período de jejum — oitenta dias e oitenta noites, quarenta de cada vez. Quando obteve as tábuas pela segunda vez, desceu e se apresentou diante dos filhos de Israel, e seu semblante resplandecia com tal brilho que ficaram tomados de temor, e fugiram da presença de Moisés. Não podiam suportar a glória de seu semblante, e suplicaram a Moisés que a presença do Senhor não se manifestasse entre eles. "Vai tu, Moisés, e fala com o Senhor. Podes conversar com ele, e nos dizer o que o Senhor diz, mas não deixes o Senhor vir conversar conosco, para que não sejamos destruídos." Achamos que se haviam corrompido tanto diante de Deus que ele, que se deleitaria em conversar com todo o povo, como um homem fala com outro, foi obrigado a esconder sua presença deles, e a enviar Moisés para ensiná-los. Além disso, suas corrupções se haviam tornado tão grandes que o Senhor, em sua ira, jurou que não entrariam em seu descanso. Isto lhes foi dado a conhecer por nova revelação no deserto, pois de outro modo nunca o teriam sabido. O Senhor também lhes informou que não subiria no meio de seus acampamentos. Disse ele: "Não subirei no meio deste povo, porque se corromperam à minha vista, para que não venha a irromper e a consumi-los num momento"; "mas", disse ele, "enviarei um anjo adiante de vós, e deveis ouvir a sua voz, mas minha presença não irá convosco, sois demasiado corruptos." Com o tempo achamos que um anjo lhes foi deixado, e uma nuvem de dia, e o resplendor de um fogo chamejante de noite, guiava todos os seus acampamentos. A voz e a presença do Senhor se manifestavam a Moisés, e Moisés conversava com o Senhor como um homem fala com outro, e durante quarenta anos no deserto ele, de tempos em tempos, recebeu revelações e comunicações para guiar o povo. Não vedes que, nestas circunstâncias, durante todos aqueles quarenta anos, não houve um ano — provavelmente não um mês, e talvez não um dia — em que nova revelação não fosse necessária? O código de leis dado no Monte Sinai não era suficiente sem nova revelação. ¶
Poderíamos traçar a história do povo de Deus, se tivéssemos tempo, mas vejo que não temos, desde os dias de Moisés até os dias de Josué, Gideão, Samuel, Baraque e vários outros antigos dignos, todos os quais receberam revelação. Se chegarmos aos dias de Gideão, achamos que ele foi um homem que teve setenta filhos, e quantas filhas, não sei. O Senhor conversou com Gideão e lhe enviou um anjo para dizer-lhe que o levantaria como poderoso homem valente, para sair em seu poder e em sua força para libertar seu povo Israel da escravidão. Poderíamos relatar todas estas coisas para demonstrar que a escravidão dos filhos de Israel suscitou nova revelação do céu, e que, por causa dela, o Senhor falou e ordenou a seus servos o que fazer para a libertação daquele povo; e, se chamou um homem que tinha tantas esposas e filhos, não o considerou criminoso e indigno de receber comunicação dele, mas, pelo contrário, é claro que o Senhor o considerou o homem mais digno de todo Israel, e por isso lhe enviou seu anjo. E a este notório poligamista, dentre todos os milhares de Israel, foi confiada a missão de libertar aquele povo de seus inimigos. Deus operou milagres especiais por sua mão para realizar esta grande obra, embora ele fosse poligamista. ¶
Mas passemos adiante, e cheguemos, uns dois mil anos depois, aos dias de nosso Salvador. Suporíamos naturalmente que, quando o próprio Filho de Deus veio da glória de seu Pai para habitar aqui na terra em carne, e começou a ensinar pelo poder do Espírito Santo as coisas de seu Pai, que durante os três anos e meio de seu ministério entre o povo, este, é claro, poderia dizer: "Agora não precisamos de mais revelação, temos o suficiente; o Filho de Deus, de quem nossa lei, suas ordenanças e sacrifícios eram figura, veio finalmente e se ofereceu na cruz, e, tendo terminado a obra que lhe foi dada para fazer, há ainda necessidade de nova revelação?" A conduta dos Apóstolos é a melhor resposta que se pode dar a isto, pois os achamos, como todos os seus predecessores, desde os dias de Adão até os dias deles, buscando de tempos em tempos orientação por nova revelação. Lemos de Filipe indo à cidade de Samaria, pregando ali por algum tempo e batizando homens e mulheres; mas, não tendo autoridade para administrar a ordenança superior da imposição de mãos, os cristãos em Jerusalém, ao ouvirem que Samaria havia recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e João para administrar a ordenança da imposição de mãos para o batismo superior de fogo e do Espírito Santo. Quando Pedro e João chegaram a Samaria, acharam que havia grande alegria entre o povo, pois muitos deles haviam se convertido; mas sua alegria não era por causa do batismo do Espírito Santo, pois o versículo seguinte diz: "Pois sobre nenhum deles havia ainda caído", apenas haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus, mas nem homem nem mulher havia recebido o batismo de fogo e do Espírito Santo. Mas os Apóstolos impuseram-lhes as mãos e o Espírito Santo caiu sobre eles. ¶
Ora, eis Filipe na cidade de Samaria. Havia pregado ali o evangelho, para onde deveria ir agora? Provavelmente cumprira todos os deveres ali exigidos dele. Não fora contratado para pregar naquela cidade por tanto ao ano, e para ali ficar até o fim de seus dias. Não, precisava de uma nova revelação. Todas as revelações que Jesus dera não bastavam para guiar Filipe quanto ao seu próximo dever; o Senhor, portanto, enviou-lhe um anjo para dizer-lhe que descesse ao país do sul. Ele nunca teria aprendido este fato por nenhuma revelação anterior. Enquanto Filipe seguia para o sul, viu diante de si um carro, e ali novamente lhe foi dada uma nova revelação — "Chega-te a esse carro." Assim fez, e, tendo ensinado o evangelho ao seu ocupante, enquanto seguiam viagem, chegaram a certa água e, tendo o homem crido no que Filipe dissera, quis ser batizado. O carro parou, e Filipe e o eunuco desceram ambos à água, e o eunuco foi batizado, e saíram da água. Ora, como poderia Filipe saber se não era seu dever, naquela ocasião, continuar falando com o eunuco, subir ao carro e seguir viagem com ele, dando-lhe mais instruções? Mas não, o Senhor tinha outra coisa para ele fazer, e o Espírito do Senhor arrebatou Filipe, e ele se achou em Azoto. Não sei se este Espírito realmente arrebatou Filipe, corpo e espírito, e o transportou rapidamente do lugar onde o eunuco fora batizado até a cidade de Azoto. Não me surpreenderia, contudo, se assim fosse, pois temos algo muito semelhante nas Escrituras do Velho Testamento, e a promessa é que os que esperam no Senhor subirão como que com asas de águias, e correrão e não se cansarão, e andarão e não desfalecerão. Não sei se foi este o caso de Filipe. De qualquer modo, o Espírito do Senhor conduz as pessoas, por nova revelação, para onde ele quer. ¶
Em outra ocasião achamos que Barnabé e Saulo, não tendo perguntado ao Senhor quanto a seus deveres, mas provavelmente tendo lido as antigas Escrituras, que eram suficientes para a instrução na justiça, e para tornar o homem de Deus perfeito e preparado para toda boa obra. Digo que provavelmente Barnabé e Saulo tinham lido estas, e, tendo deixado de perguntar ao Senhor, e de obter nova revelação, partiram com o propósito de ir a certa cidade, mas o Senhor os deteve. Disse ele: "Não vades ali!" Quão importante era obter nova revelação! "Não vades a essa cidade, tenho outra obra para vós realizardes"; e então lhes foi dito para onde ir. Falai aos ministros cristãos de hoje, ou a quaisquer que tenham vivido por séculos passados, e, se tivessem decidido ir a algum lugar, jamais pensariam que o Senhor os deteria, ou lhes proibiria ir, por nova revelação, pois todos dizem que o cânon das Escrituras está completo, e que nenhuma nova revelação é necessária. ¶
Muitos outros exemplos de caráter semelhante poderiam ser citados, mas o tempo não permite. Achamos, porém, que, depois de tudo o que Deus revelou por meio de Jesus, e aos Apóstolos, durante noventa e seis anos no primeiro século da era cristã, não tiveram o suficiente, e o Senhor então deu o livro da profecia de João na Ilha de Patmos. João foi mandado escrevê-lo em pergaminho, e neste livro muitas novas revelações foram prometidas para os últimos tempos. Uma delas era que um anjo viria do céu tendo o evangelho eterno para pregar a todo povo, nações, tribos e línguas, declarando que a hora do juízo de Deus havia chegado. Eis aqui uma promessa ou predição de que uma nova revelação seria dada por um anjo do céu, e tão importante seria que deveria ser proclamada a toda criatura debaixo do céu. Muitas pessoas dizem: "Temos o evangelho eterno neste livro — a Bíblia — chamado o cânon das Escrituras, reunido pelos monges, cardeais, bispos e grandes homens da Igreja Católica Romana, uns quatro séculos depois de Cristo. Encadernaram juntos neste volume todos os livros que tinham e que não condenavam, e declararam que isso bastava, e que não havia necessidade de o Senhor dizer mais nada." Mas estas mesmas Escrituras contradizem seus compiladores — aqueles homens ímpios que se assentaram em julgamento sobre a palavra de Deus, deixando de lado este livro e aquele livro, este manuscrito e aquele manuscrito, e encadernando juntos o restante. Digo que puseram algumas coisas neste mesmo livro, que provam que Deus tornaria a dar a conhecer sua vontade aos filhos dos homens nos últimos tempos; que tornaria a dar nova revelação, não em benefício de um ou dois indivíduos, mas em benefício de suas criaturas universalmente. ¶
Não obstante termos o evangelho escrito aqui neste livro, contudo esse evangelho, sem o poder e a autoridade de administrar suas ordenanças, é letra morta. Poderíamos crer no evangelho, poderíamos crer que Jesus é o Cristo lendo este livro, poderíamos arrepender-nos de nossos pecados lendo aqui registrada a proclamação de arrependimento; mas não poderíamos ser batizados para a remissão de nossos pecados, nem poderíamos ter mãos impostas sobre nós para o batismo do Espírito Santo pela leitura, e isso é parte e porção do evangelho do Filho de Deus, tanto quanto a palavra escrita que proclama estas coisas aos filhos dos homens. Tirai o poder e a autoridade de administrar aquela palavra, e deixareis de imediato a letra morta do evangelho, e ela não beneficiaria nenhum dos filhos dos homens, no que diz respeito a obedecer-lhe. Poderiam beneficiar-se arrependendo-se e crendo, e assim por diante, mas não poderiam abraçar o evangelho, não poderiam entrar no reino de Deus, pois "aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Não poderíeis nascer da água a menos que houvesse um homem autorizado por nova revelação para administrar o batismo de água, nem poderíeis receber o batismo do Espírito Santo senão pela ordenança que Deus instituiu; daí a necessidade da restauração da autoridade para administrar as ordenanças do evangelho, e é por isso que Deus a restaurou depois de a terra estar sem ela por mil e setecentos anos. Nenhum homem, entre todas as nações, tribos e línguas da terra, durante esse tempo, teve esta autoridade, nem a autoridade de administrar a Ceia do Senhor, que é parte do evangelho, nem nenhuma outra ordenança. ¶
Deus, tendo previsto este longo período de trevas, predisse pela boca do Revelador, São João, que enviaria um anjo do céu com o evangelho eterno, e, quando aquele anjo viesse e confiasse aquele evangelho ao homem na terra, seria proclamado a todo povo debaixo do céu, do mesmo modo que os Élderes desta Igreja agora o fazem. O Livro de Mórmon, contendo o evangelho eterno tal como foi publicado aos antigos habitantes da América, foi trazido à luz pelo poder de Deus, e seus servos foram enviados a pregá-lo, e não somente a pregá-lo, mas, tendo autoridade para administrar suas ordenanças; contudo o mundo nos diz que não precisamos de mais revelação, que temos o suficiente se apenas seguirmos as Escrituras, que Paulo disse a Timóteo serem suficientes para salvá-lo. Mas, no mundo cristão, não podeis ser salvos seguindo as Escrituras, pelo fato de não poderdes segui-las sem autoridade de Deus para administrar as ordenanças. Sois batizados por um homem sem autoridade por nova revelação do céu, e vosso batismo é ilegal, e vossa pretensa adoção no reino de Deus não é reconhecida no céu, pois Deus não autorizou o administrador, e o que ele fez em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo não pode ser selado e registrado no céu para vosso benefício. Não é de admirar, então, que o mundo tenha habitado nas trevas por tantos séculos, pois a terra se tornou tão corrupta, e os céus aparentemente se tornaram como bronze sobre a cabeça das nações. Nenhum Profeta, nenhum anjo, nenhuma inspiração, nenhum Revelador, nenhum homem de Deus para dizer ao povo: "Assim diz o Senhor Deus". Não é de admirar, então, que o Senhor, antes do grande dia da vinda de seu amado Filho desde os céus, enviasse um anjo para preparar o caminho diante de sua face! Isto ele fez, e a proclamação vai adiante, dizendo a todo povo, nações e línguas: "Deus enviou um anjo, e o enviou para vos preparar, a vós e a nós, para o grande dia da vinda do Filho do Homem, no qual haverá mais revelações dadas do que jamais foram dadas em todas as dispensações anteriores." ¶
Falar do cânon das Escrituras estar completo, que absurdo! Que insensatez! Onde há qualquer prova de tal coisa? Deus tem ainda que dar revelação suficiente para encher a terra com seu conhecimento como as águas cobrem o grande abismo. Ele tem ainda que derramar seu espírito sobre toda carne que habita a face da terra, e fazer revelador, profeta, ou profetisa, de todo homem e mulher vivos, e, se todas as suas revelações forem escritas, este livro, a Bíblia, será como uma cartilha em comparação com elas. "Nos últimos dias", diz Deus, pela boca do Profeta Joel, "derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos sonharão sonhos, os vossos jovens verão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito, e profetizarão." Suponhamos que escrevam seus sonhos como Daniel escreveu os seus, e suponhamos que escrevam suas visões como Isaías escreveu as suas, e suponhamos que escrevam suas profecias como todos os Profetas escreveram as suas, não seriam elas tão sagradas quanto este cânon das Escrituras? Digo que seriam. Eu me sentiria tão obrigado a receber as revelações de cada homem e mulher entre toda carne quanto as de uma pessoa que viveu há dois ou três mil anos. Uma revelação dada a um homem vivo em meus dias é tão sagrada quanto uma dada a um homem que está morto há uns três mil anos. Deus é um ser consistente, e se revela segundo sua própria mente e vontade, e, na última dispensação, continuará a revelar linha sobre linha, preceito sobre preceito, aqui um pouco e ali um pouco, trazendo à luz um registro aqui, desvendando a história de outro povo ali, trazendo à luz a bíblia das dez tribos que estiveram ausentes da terra de Canaã por quase três mil anos. A bíblia delas tem de ser trazida à luz, e, quando voltarem, trarão consigo suas revelações escritas, profecias, visões e sonhos, e teremos a bíblia das dez tribos, assim como a bíblia dos antigos israelitas que viveram neste continente, e a bíblia dos judeus no continente oriental, e estas bíblias serão unidas numa só, e mesmo então o povo não terá revelação suficiente. Não, todo homem e toda mulher terá de ser um revelador e profeta, e o conhecimento e a glória de Deus cobrirão a terra como as águas cobrem o seio do grande abismo. E, por fim, como uma espécie de clímax de tudo isto, a revelação do próprio Senhor Jesus se dará desde o céu em fogo chamejante, para tomar vingança sobre os que não conhecem a Deus, e que não obedecem ao evangelho. Aquela será uma revelação que os ímpios não poderão suportar, uma revelação demasiado grande para eles, e que os traspassará até o mais íntimo da alma. Será uma revelação que os consumirá em sua maldade, como a palha se consome diante da chama devoradora, e ele reinará aqui, rei dos reis e senhor dos senhores por mil anos. ¶
Suporíeis que ele não dará nenhuma nova revelação durante esse tempo, mas que se assentará em seu trono como os ídolos em algumas nações pagãs? Suporíeis que o Senhor Jesus, aquele ser inteligente, por quem o Pai fez os mundos, virá aqui reinar rei dos reis, e assentar-se em seu trono no templo em Jerusalém, e em seu trono em seu templo em Sião, e ali permanecer como uma estátua, geração após geração, por mil anos, e, quando o povo vier lhe fazer uma pergunta, ele não dirá uma palavra, senão que já têm o suficiente? Suporíeis que será este o caso? Ah, não, meus amigos, o Senhor Jesus conversará por todo o milhar de anos com seu povo, e lhes dará instrução. Reinará sobre a casa de Davi, sobre os filhos de Israel, sobre as doze tribos, sobre Sião e sobre todos os habitantes da terra, isto é, sobre todos os que forem poupados naquele dia, dando conselho aqui, instruções ali, revelando algo acolá, e assim por diante, e a quantidade de revelação que será dada durante o milhar de anos será, sem dúvida, dez mil vezes maior do que a contida nesta Bíblia, e ainda assim dirá o mundo: "Não há mais revelação!" ¶