O Novo Nascimento — Batismo pelos Mortos — Templos
George Q. Cannon
Lerei parte do 3º capítulo da primeira epístola de Pedro, começando no versículo 18: ¶
Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; ¶
No qual também foi e pregou aos espíritos em prisão; ¶
Os quais noutro tempo foram desobedientes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas almas, isto é, oito, se salvaram pela água. ¶
Que também agora, à semelhança desta, o batismo nos salva (não o despojamento da imundícia da carne, mas a resposta de uma boa consciência para com Deus), pela ressurreição de Jesus Cristo; ¶
O qual está à direita de Deus, tendo subido ao céu; havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potestades. ¶
No primeiro capítulo desta epístola o mesmo assunto continua. Diz o apóstolo: ¶
Que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo. ¶
Em que grandemente vos alegrais, ainda que agora, por um pouco de tempo, seja necessário que estejais contristados com várias tentações. ¶
Quando fui chamado a falar, estas passagens se apresentaram à minha mente. Não sei se o Espírito me levará a demorar-me longamente nelas, mas há princípios importantes contidos nestes versículos que li em vossos ouvidos, princípios que, quando corretamente compreendidos, mudam a crença dos homens em relação ao futuro, isto é, a crença daqueles que aceitam os credos comumente admitidos da cristandade. Por alguma razão ou outra, há uma ideia predominante no mundo cristão de que a humanidade, ao deixar a vida mortal, é enviada a uma condição ou lugar de felicidade ou de dor, para ali permanecer por todas as intermináveis eras da eternidade. Pode haver alguns poucos que não têm essa crença, mas é a crença geral da maioria das seitas que compõem a cristandade. Há uma ideia predominante de que, se os homens não recebem o que se poderia chamar uma conversão, ou mudança de coração, se não obtêm a remissão dos pecados pelo sangue de Jesus, e morrem nessa condição, seu destino está irrevogavelmente fixado, e são enviados a uma miséria eterna e interminável. Creio que não estou deturpando a crença, a este respeito, de algumas das seitas mais proeminentes que compõem o assim chamado mundo cristão. Já conversei com ministros de várias denominações sobre o futuro dos pagãos — aqueles que morrem sem conhecimento do nome de Jesus, e de seu caráter como Redentor e Salvador do mundo. Perguntei-lhes o que pensavam ser a condição dos pagãos, e onde se dava alguma resposta definida, os sentimentos de tais pessoas se inclinavam para a ideia de que seriam enviados ao inferno com os demais; ou não se tinha ideia definida alguma, ou, sendo mais ternos em seus sentimentos, a resposta seria que não sabiam qual seria sua condição futura. ¶
Há uma expressão do Salvador a Nicodemos que penso que lerei; encontra-se no 3º capítulo do Evangelho de João. Havia um homem entre os fariseus, escreve João, chamado Nicodemos, principal dos judeus: Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. ¶
Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus. ¶
Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? ¶
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. ¶
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. ¶
Não te maravilhes de te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. ¶
Ora, aqui está uma doutrina definida, estabelecida pelo Salvador, de que, a menos que um homem nasça de novo, não pode ver o reino de Deus, e, a menos que nasça da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus; ele não pode nem ver o reino sem o novo nascimento, e não pode entrar nesse reino sem nascer da água e do Espírito. Esta doutrina é extremamente positiva, não deixa margem alguma para dúvida; não há como evitar o fato desta doutrina, se se há de depositar alguma confiança nas palavras de Jesus. Somos, então, forçados a crer que nenhum homem pode entrar no reino de Deus sem nascer da água e do Espírito. ¶
Pois bem, considerando estas passagens, uma grande classe de pessoas chegou à conclusão de que, a menos que um homem nasça de novo, ou, como dizem, experimente uma mudança de coração, é enviado a uma miséria interminável; e há os que creem que todos os pagãos que morreram na ignorância do evangelho de Jesus Cristo são assim punidos, e, de fato, há os que professam ter fé em Jesus Cristo como Salvador do mundo, que creem que no inferno, esse lugar de tormento do qual declaram não haver escape, há crianças pequenas em dezenas, e centenas e milhares, e posso dizer que em milhões, sofrendo tormento inconcebível e interminável porque morreram antes de receber as ordenanças que consideram necessárias à salvação. ¶
Não compreendo assim as Escrituras, não compreendo assim o plano de salvação; não vejo assim o caráter e os tratos de Deus, nosso Pai celestial, para com suas criaturas. Um dos atributos mais proeminentes que atribuímos a nosso Pai nos céus é a misericórdia. As Escrituras declaram enfaticamente que ele é um Deus de misericórdia, e um Deus de amor. Podemos nós, mesmo em nossa condição degradada, considerar que um ser dotado, ainda que em menor grau, dos atributos do amor e da misericórdia, ou mesmo da justiça, enviaria milhões de suas criaturas a um tormento interminável porque não creem nem obedecem a uma doutrina que jamais ouviram? Ora, tal ideia é indigna de seres inteligentes. Suponde que qualquer de nós que temos famílias aprovasse uma lei ou prescrevesse uma norma para seu governo, e, no momento em que fosse aprovada ou prescrita, uma parte de nossos filhos não estivesse ao alcance de ouvi-la, e, ainda ignorando-a, a violasse inconscientemente, e por isso o pai os castigasse. Que diríeis de tal pai? Não diríeis que era injusto, duro e cruel? Ora, certamente este seria nosso veredicto, se pronunciássemos algum, não poderíamos pronunciar outro. Seríamos obrigados a concluir que o pai que agisse assim não seria nem bondoso, nem justo, nem sábio. E há de dizer-se de nosso Pai celestial, que é a fonte do amor, da misericórdia e da justiça, que ele agirá com menos justiça do que o homem, e que castigará, amaldiçoará e enviará à miséria eterna seus filhos, porque deixaram de obedecer a leis que ele nunca lhes deu a conhecer? Certamente que não; e é por causa destas doutrinas, que foram propostas e disseminadas tão largamente na cristandade, que os céticos se contam por centenas de milhares, e talvez se possa dizer que por milhões. Os sentimentos do povo recuam, a humanidade se revolta com doutrinas tão monstruosas, e o crescimento do ceticismo e da incredulidade pode ser atribuído ao fato de que princípios tão hediondos são defendidos por aqueles que professam ser servos do Deus vivo e ministros de Jesus Cristo. Mas ensinam as Escrituras, as palavras de vida eterna, registradas na Bíblia, tais ideias? Certamente que não. Há no plano de salvação que Deus, nosso Pai celestial, revelou, amor perfeito, misericórdia e justiça, e todos os demais atributos pertencentes ao caráter da Divindade são perfeitamente ilustrados no plano de salvação que ele revelou para orientação do homem. ¶
As palavras de Jesus que vos li contêm uma verdade imutável: que, a menos que um homem nasça de novo, não pode ver o Reino de Deus. É verdade imutável que, a menos que um homem nasça da água e do espírito, não pode entrar no Reino de Deus. Estas palavras procederam da boca de Jesus, o Filho de Deus, o autor de nossa salvação, o fundador de nossa religião. ¶
Ele conhecia perfeitamente as leis necessárias para se obedecer a fim de conseguir entrada no reino de seu Pai; e, assim as conhecendo, tinha tanto o direito quanto o conhecimento necessário para apresentar e proclamar esta doutrina aos filhos dos homens. ¶
Enquanto tratamos deste assunto, bem podemos fazer algumas observações sobre a natureza deste novo nascimento de que Jesus fala. Como já vos disse, e como bem sabeis, há uma grande classe na cristandade que crê que este novo nascimento consiste no que chamam uma mudança de coração; se o coração muda, dizem que a criatura nasceu de novo. Ora, não compreendo assim as Escrituras, não penso que a mudança de coração assim referida seja o novo nascimento a que o Salvador se refere; pelo contrário, diz-se aqui com toda a clareza que devem nascer da água tanto quanto do Espírito. Não para o despojamento da imundícia da carne, como li a vós na passagem de Pedro, mas para a resposta de uma boa consciência para com Deus. Jesus, como vos recordareis, na ocasião em que João Batista, como era chamado, batizava no Jordão, foi e ofereceu-se a João como candidato ao batismo. João, tendo recebido do Pai testemunho de que Jesus era seu filho amado em quem se comprazia; sabendo também que ele próprio era o precursor de Jesus, de quem falaram os profetas, recusou-se a batizá-lo, dizendo, em efeito, que era melhor que ele se submetesse a Jesus do que Jesus a ele. Jesus respondeu: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então João levou Jesus e batizou-o. ¶
Aqui temos um exemplo, da parte de nosso Salvador, de obediência a uma certa ordenança. Alguns dizem que, nesta ordenança, derramaram água sobre Jesus; outros dizem que foi aspergido; e muitas das gravuras populares o representam de pé no Jordão, com os braços cruzados sobre o peito, e João Batista derramando água sobre sua cabeça; mas uma leitura cuidadosa dos escritos daqueles que descreveram este evento deixará apenas uma conclusão na mente desprevenida, a saber, que Jesus desceu à água e foi batizado por João, e subiu da água; e que, se derramar ou aspergir tivesse sido o método de administrar a ordenança do batismo, não teria havido necessidade de João e do povo de Jerusalém e das regiões circunvizinhas percorrerem a distância que havia entre o rio Jordão e Jerusalém para atendê-la, e, de fato, há outras passagens nas Escrituras que provam que a imersão era o método do batismo, e que João assim administrava a ordenança. Numa passagem das Escrituras diz-se que João batizava em um lugar perto de Enom, porque havia ali muita água, mostrando que era necessária uma abundância de água para sua correta administração. Esta foi a ordenança a que Jesus se submeteu. Ele era o Filho de Deus, o Cordeiro morto desde a fundação do mundo; era imaculado e sem pecado à vista de seu Pai, e, contudo, considerou necessário atender a esta ordenança para cumprir toda a justiça; e é fato notável que não temos relato nas Escrituras de Jesus atuando em seu ministério antes de ter atendido a esta ordenança. ¶
Este, como compreendo as Escrituras, e como testemunham os Santos dos Últimos Dias, foi o novo nascimento. Ele desceu a um elemento, foi sepultado nesse elemento, e, emergindo dele, nasceu de novo, em outras palavras, nasceu da água. Podeis imaginar um novo nascimento mais perfeitamente representado do que por este ato que descrevi, realizado por João sobre Jesus? Depois deste nascimento da água ter acontecido, seguiu-se o nascimento do Espírito, pois, assim que ele saiu da água, o Espírito Santo, em semelhança de pomba, desceu sobre ele, e ouviu-se uma voz do céu testificando que ele era o filho amado em quem o Pai se comprazia. Jesus foi envolto naquele elemento espiritual, e nasceu do Espírito assim como havia nascido da água. Assim, em seu próprio caso, ele ilustrou, por sua obediência e humildade à vontade de seu Pai, a doutrina que ensinou a Nicodemos, e que ele declarou ser necessária para preparar não apenas a ele, mas a todos os filhos dos homens, para entrar no reino de Deus. Paulo também, em certo lugar, fala de sermos sepultados com Cristo no batismo, à semelhança de seu sepultamento, e também à semelhança de sua ressurreição; o sepultamento na sepultura líquida sendo símbolo da morte e sepultamento do Filho de Deus, e o sair dali de sua ressurreição. ¶
Esta doutrina está claramente estabelecida nas Escrituras. Podereis encontrá-la se seguirdes a pregação e os trabalhos dos apóstolos e dos homens que estiveram imediatamente ligados ao Senhor em seus ministérios ao povo. Vereis que, em todos os casos em que os registros estão completos, estas ordenanças foram atendidas — o povo, se cria em Jesus Cristo e se arrependia de seus pecados, era batizado, a fim de nascer da água; e, depois de atender a esta ordenança, era então batizado do Espírito, ou, em outras palavras, tinha mãos impostas sobre si para o dom do Espírito Santo. Eram envoltos naquele Espírito e nele nasciam, e tornavam-se herdeiros legítimos, com direito a entrar no reino de Deus. Não há registro de nenhum outro caso, de nenhuma outra espécie, nas Escrituras. Frequentemente citamos os ensinamentos do próprio Pedro, no Dia de Pentecostes, para provar isto, e, de passagem, bem posso aludir a isso brevemente. ¶
No Dia de Pentecostes, depois de os judeus terem sido convencidos do fato de que Jesus, o Nazareno, que fora crucificado como malfeitor, era de fato o próprio Messias de quem falaram os profetas; quando ficaram convencidos disto e também do fato de que os homens que estavam ali e pregavam em seu meio, e por meio dos quais tinham visto manifestado o poder de Deus, eram seus apóstolos, clamaram: "Homens e irmãos, que faremos?" Sentiam que eram pecadores; provavelmente, ao que se saiba, tinham consentido, em seus sentimentos, na morte deste ser sagrado, e deram vazão à sua ansiedade na expressão que já citei. Ora, presume-se que, naquela ocasião, Pedro declarou o evangelho em sua plenitude e pureza, tal como existia na mente de Deus, e tal como lhe fora revelado por Jesus. Não podemos presumir que ele ensinou algo que não estava autorizado a ensinar, algo que não era o evangelho, pois a ocasião era, provavelmente, uma das mais importantes que a Igreja testemunhou naquela geração. Foi, ao que sabemos, a primeira proclamação do evangelho depois da morte de Jesus, e foi certamente a primeira vez que o poder de Deus se manifestou em tão maravilhosa extensão. Pedro, então, de pé, inspirado não apenas pela grandeza da ocasião, mas pela sublimidade das manifestações que Deus havia derramado, pelo fato de que ele, pela primeira vez, declarava o evangelho aos ouvidos dos judeus reunidos em Jerusalém, que haviam crucificado Jesus, também pelo espírito e poder de seu grande ofício, não podemos duvidar de que declarou o evangelho com simplicidade e clareza, e disse, em resposta à sua importantíssima pergunta: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado para remissão dos vossos pecados, e recebereis o Espírito Santo. ¶
Ora, aqui estão os dois nascimentos de que falei. Já criam que Jesus era o Cristo, e lhes disseram para se arrependerem, e serem batizados para remissão de seus pecados; não, repito de novo, para o despojamento da imundícia da carne, mas para a remissão de seus pecados, a fim de nascerem da água, a fim de se tornarem candidatos aptos a receber o Espírito Santo. Pedro continuou: "E recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos pertence a vós, e a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a quantos o Senhor nosso Deus chamar." E foram, e foram batizados, e diz-se que três mil se juntaram à Igreja naquela ocasião. Este é apenas um exemplo do que os apóstolos depois ensinaram. Não pretendo, esta tarde, citar as numerosas ocasiões que ocorrem nas Escrituras em que esta doutrina foi ensinada, em que foi obedecida por aqueles a quem foi ensinada, e as bênçãos que se seguiram à obediência; mas chamo a atenção para o fato de que esta doutrina foi apresentada pelos apóstolos assim como Jesus a ensinou e assim como Jesus a obedeceu, e que eles administraram as ordenanças conforme o Senhor lhes havia ensinado. ¶
Poder-se-ia dizer: Como é possível que os milhões que existem sobre a face da terra obedeçam a esta doutrina? Esta pergunta nos é feita com muita frequência, porque os Santos dos Últimos Dias insistem consideravelmente nesta parte do evangelho, e na necessidade de que se obedeça a estas ordenanças. A pergunta, muito naturalmente, surge de imediato na mente dos homens: se é necessário que todos os homens e mulheres nasçam da água e do Espírito, então o que será dos milhões que morreram sem terem tido a oportunidade? Recordo-me de que, numa ocasião, quando ainda jovem, falando sobre este princípio do batismo, e demorando-me algo sobre a necessidade de o povo obedecer-lhe, depois de haver concluído, um cavalheiro veio ter comigo e disse que se interessara muito por minhas palavras, mas que lhe surgira uma dificuldade, e gostaria que eu a explicasse. Disse ele: sem dúvida vos recordais de que, quando Jesus foi crucificado, havia dois ladrões com ele, um dos quais o insultava e escarnecia. Isto provocou uma repreensão do outro ladrão, que, voltando-se para Jesus, disse: "Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino." Jesus respondeu assim: "Hoje estarás comigo no paraíso." Ora, disse o cavalheiro, "se vossa doutrina for correta, que um homem deve nascer da água e do Espírito antes de poder entrar no reino de Deus, gostaria de saber como aquele ladrão entrou naquele reino." Bem, encarando isto de seu ponto de vista, era uma pergunta muito plausível, e parecia que sua posição era incontestável. Mas entrou Jesus no reino de Deus quando foi crucificado? Entrou ele, ao ser crucificado, na glória que depois alcançou, e o acompanhou o ladrão? Sei que muitos ministros cristãos, assim chamados, creem nisso, sei que o ensinam. Ao ler os jornais, frequentemente vejo relatos da execução de criminosos vis, cujas vidas inteiras foram gastas na prática de crimes revoltantes. Ministros cristãos, assim chamados, assistem a esses criminosos enquanto encarcerados na prisão, e até ao cadafalso; oram com eles e procuram despertá-los para um senso de sua condição perdida, e frequentemente têm êxito, pois muitas influências atuam sobre a mente dos malfeitores em tais momentos, e seus corações se amolecem à aproximação da morte. Então, quando esses ministros os acompanham ao cadafalso, oram ali com eles, e lhes asseguram que, pelos méritos e pela morte de Jesus, serão conduzidos ao reino dos céus assim que forem executados. Esta é a garantia invariável dada aos criminosos que os escutam, por ministros dessa espécie. Creem que o ladrão da cruz foi conduzido à presença imediata de Deus, para ali habitar eternamente em paz e felicidade. Esta era a opinião mantida por este cavalheiro que mencionei. ¶
Se voltardes e lerdes o relato da ressurreição de Jesus, encontrareis uma explicação para isto que provavelmente muitos não pensaram. Recordai-vos que, depois da morte de Jesus, e depois de ter sido colocado no sepulcro, houve grande ansiedade da parte dos apóstolos e dos que haviam sido familiares de Jesus, quanto ao seu corpo. Buscavam a sua ressurreição, esperavam que ele viesse à luz, mas estavam cheios de dúvida e ansiedade, pois tinham a ideia de que ele voltaria como rei de Israel, que chegara o tempo determinado para o estabelecimento do reino de Deus na terra, para nunca mais ser derrubado. Entre outros que estavam muito ansiosos quanto a isso estava Maria, uma das mulheres que serviam a Jesus. Foi ela ao sepulcro e encontrou que o corpo de seu Senhor e Mestre fora levado, e não pôde encontrá-lo. Voltou-se, cheia de tristeza e ansiedade por aquele a quem amava, e viu uma pessoa de pé ao seu lado, que supôs ser o jardineiro, e perguntou-lhe o que tinham feito do corpo de seu Senhor. Era Jesus a quem ela se dirigia, mas não o reconheceu de início, e só o reconheceu quando ele pronunciou seu nome. Quando ele disse "Maria," então reconheceu sua voz e pessoa, e, como era muito natural nessas circunstâncias, no excesso de sua alegria, correu para abraçá-lo; mas ele recuou, e a proibiu com aquelas palavras notáveis: "Não me toques, Maria, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai a meus discípulos, e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus." Isto foi no terceiro dia depois de sua crucificação, e, durante esse tempo, ele não havia subido a seu Pai, e não queria ser tocado, não queria que mãos mortais fossem postas sobre si. Quando citei isto a este cavalheiro, disse ele: "Onde estava ele, então, durante este período? Se não subiu a seu Pai, e se o paraíso a que foi o ladrão com ele não era o céu, então onde estava ele?" Então citei-lhe as palavras que primeiro li esta tarde: "Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, etc." ¶
Aqui Pedro dá a explicação, e é tão clara e inequívoca quanto a linguagem pode tornar. Jesus morreu na cruz, foi crucificado e morto na carne, como dizem os apóstolos, e, depois de morto, foi e pregou aos espíritos que estavam em prisão, espíritos que foram desobedientes nos dias de Noé, tendo rejeitado o testemunho de Noé, e que estiveram encarcerados por cerca de vinte e cinco séculos. Ele estava ocupado neste trabalho enquanto seu corpo jazia no túmulo, e por isso, quando Maria o viu depois de sua ressurreição, e tentou abraçá-lo, ele disse: "Não me toques, Maria, porque ainda não subi a meu Pai, etc." ¶
Ora, com isto não pretendo insinuar que, depois de sua crucificação, quando seu espírito deixou seu corpo, ele saiu da presença de seu Pai, pois a presença, o poder e os olhos de Deus estão em toda parte; mas ele não subiu à sua presença pessoal imediata senão depois de seu corpo ser ressuscitado do túmulo. E em confirmação adicional da opinião que procuro apresentar-vos, o apóstolo Pedro, continuando este assunto, como vos li do 4º capítulo de sua primeira epístola, diz: "Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito." "Ah," diz alguém, "mortos em pecado!" Quem vos disse isso? Que direito tem qualquer homem de dar tal interpretação às Escrituras? A declaração aqui é tão clara quanto a linguagem pode tornar: "o evangelho foi pregado também aos mortos," etc., confirmando o que o apóstolo dissera no capítulo anterior, que Jesus estava ocupado em pregar o evangelho aos espíritos em prisão enquanto, como já disse, seu corpo dormia no túmulo. ¶
Ora, vedes e compreendeis algo da longanimidade e misericórdia de Deus para com os milhões que nasceram e morreram sobre nossa terra na ignorância do evangelho de Jesus Cristo? Compreendeis o grande plano de salvação, ou uma parte desse grande plano que Deus, nosso Pai celestial, concebeu para a redenção de todos os seus filhos? Diremos que a obra de Deus se restringe a esta breve provação nossa, que seu trabalho pela salvação de seus filhos e o plano que concebeu se restringem a este breve espaço a que chamamos tempo, ou diremos que o plano de salvação de Deus se estende sobre todas as suas criaturas e através de todas as suas criações, e que, se os homens não têm oportunidades aqui de compreendê-lo, terão essa oportunidade no futuro? Isto se declara nestes capítulos com toda a clareza, de modo a não deixar dúvida alguma na mente daqueles dispostos a aceitar as Escrituras como as leem. Naturalmente, onde os homens têm tradições e ideias e opiniões preconcebidas sobre estes assuntos, é provável que se apeguem a elas e rejeitem a verdade. Preferem crer que nove décimos da família humana serão enviados a um tormento interminável a aceitar a ideia de que Deus é um Deus de misericórdia, e que o plano de salvação que ele concebeu é totalmente suficiente e se estende a todos os graus, condições e circunstâncias em que se encontram suas criaturas. ¶
Esta doutrina foi revelada aos Santos dos Últimos Dias por meio do Profeta Joseph Smith. Éramos tão ignorantes dela e do significado destas passagens quanto qualquer outro, antes do estabelecimento desta Igreja. Entre outras doutrinas que foram ensinadas ao Profeta Joseph, estava esta que procurei apresentar-vos brevemente. Não me demorei nela longamente, mas foi ensinada com toda a clareza ao Profeta, e ele a ensinou ao povo. O profeta Malaquias, recordai-vos, prediz que, antes de vir o grande e terrível dia do Senhor, o Senhor enviará Elias, o Profeta, e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais, para que o Senhor não venha, e fira a terra com uma maldição. Podeis ler isto em Malaquias; e quando os Santos dos Últimos Dias ouviram este evangelho, e souberam que era necessário que homens e mulheres fossem batizados para remissão de seus pecados, seus corações imediatamente anelaram por seus antepassados. Ouvi centenas de pessoas que se filiaram a esta Igreja dizer: "Oh, se meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã, meu marido, minha esposa, meus filhos, meu avô ou minha avó tivessem ouvido esta doutrina como os élderes a ensinam! Como teriam abraçado a ela com alegria! Como seus corações se teriam aquecido para com este evangelho! Viveram na expectativa de uma doutrina como esta; não se contentavam com os credos dos homens, nem com o cristianismo tal como se ensinava. Queriam os dons, as graças e as bênçãos do evangelho. Oh, se pudessem ter vivido e ouvido os ensinamentos que agora ouvimos, que Deus revelou dos céus, o evangelho antigo e puro, com o Espírito Santo e seus dons! Oh, como seus corações teriam se alegrado ao ouvir estas boas novas!" Assim se converteu o coração dos filhos aos pais, e não duvido de que o coração dos pais se converteu aos filhos. ¶
Havia, entre o povo desta igreja, ansiedade por muitos anos, quanto ao que seria de seus antepassados e do mundo em geral que não conhecia o evangelho, até que o Senhor se dignou dar uma revelação em que esta doutrina foi explicada. Voltando-vos à primeira epístola aos Coríntios, encontrareis que o apóstolo Paulo, raciocinando sobre a ressurreição, apresentou uma ideia que geralmente não se compreende. No capítulo 15, versículo 29, dessa epístola, o apóstolo usa esta linguagem: "Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?" ¶
Ora, entre outros argumentos que apresentou para convencer os coríntios de que havia tal coisa como a ressurreição, apela para o fato de que havia tal doutrina como o batismo pelos mortos na Igreja e praticada pelos santos de outrora, e, para reforçar a doutrina, usa as palavras que li, um dos mais poderosos argumentos que poderia apresentar em favor da ressurreição. Que inútil seria homens e mulheres serem batizados pelos mortos, se os mortos absolutamente não ressuscitassem; mas os mortos ressuscitam, e os Santos são batizados por eles. Poderia parafrasear suas palavras e raciocinar assim: os mortos são batizados, pois somos batizados por eles, e eles ressuscitam, ou então todo o nosso trabalho seria em vão, indo e sendo batizados por eles. Ora, aqui está uma doutrina que esteve oculta. É verdade que é apenas uma leve alusão, mas basta para mostrar que houve na Igreja antiga tal doutrina, crida e praticada pelos santos de Deus. ¶
"Oh," mas dirá alguém, "como podem os mortos nascer da água e do Espírito; suponde que Jesus foi e pregou aos espíritos em prisão, e, entre eles, ao ladrão que estava na cruz, quando chegou ao paraíso, como explicais o evangelho, como poderia ele, no mundo espiritual, nascer da água e do Espírito?" Pergunta muito séria, mas eis a explicação: aqueles que estão vivos na carne podem ir e ser batizados por eles. "O quê! Ser batizado pelos mortos? E isso terá validade?" Perguntaria eu aos que a isto objetam: como é que a morte de Jesus, o Filho de Deus, afeta a nossa salvação? Ele age por nós vicariamente; por sua expiação vicária, ele nos redime dos efeitos da transgressão de nossos primeiros pais. Assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos serão vivificados. A morte entrou no mundo por Adão. Adão não morreu para redimir o mundo, mas Jesus veio, vicariamente, como Salvador do mundo, e morreu para nos redimir do pecado de Adão. Por sua morte, o pecado de Adão é expiado. De modo semelhante, Malaquias diz, ao falar da vinda do profeta Elias antes do grande e terrível dia do Senhor: "O coração dos pais se converterá aos filhos." Por quê? Porque os filhos podem agir vicariamente por eles; "e o coração dos filhos se converterá aos pais," porque os filhos sentirão por seus pais; buscarão suas genealogias, e conhecerão seus antepassados, e irão adiante e realizarão ordenanças na carne por seus mortos, o que os mortos não podem realizar por si mesmos, e agirão vicariamente por eles, cumprindo assim o dito do profeta Obadias, onde diz: "Haverá salvadores nos últimos dias sobre o Monte Sião." Estarão como ministros de salvação. Haverá salvadores nos últimos dias, agindo, é verdade, em capacidade menor, mas ainda assim, de certo modo, na capacidade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, por seus mortos. Não expiando o pecado original, não derramando seu sangue, mas indo e sendo batizados por eles e recebendo as ordenanças de salvação em seu favor. ¶
Sei que esta doutrina é nova, e para muitos surpreendente; entra em choque com todos os seus preconceitos. Mas perguntaria ao mundo cristão: como há de ser salva a humanidade? Podeis substituir algo melhor do que isto? Como hão de ser salvos os milhões de pagãos que morreram na ignorância do nome de Jesus? Como hão de ser salvos nossos antepassados, que, vivendo e morrendo na longa noite de trevas que prevaleceu por toda a cristandade, nunca tiveram o privilégio de ouvir o evangelho em sua plenitude? "Oh," diz alguém, "salvos pela bondade de Deus." Sim, mas como havemos de escapar das palavras de Jesus, quando diz: "Aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus"; e "Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus"? É muito fácil aos homens, em suas tradições, dizer: "Bem, nosso modo nos convém, porque estamos acostumados a ele." Mas, se aceitamos estas tradições como vinculantes, como havemos de pôr de lado as palavras daquele que falou como nunca homem falou, daquele que era sem dolo e cujas palavras eram verdade e santidade? Como havemos de pô-las de lado? Não podemos, e, em vez de tentar fazê-lo, eu as aceitaria como verdadeiras e divinas, e as praticaria, ainda que isso exigisse o sacrifício de minhas tradições e preconceitos. A meu ver, há algo divino no evangelho de salvação. Posso ver beleza, e o poder de Deus nele. Compreendo, a partir disto, que há um plano de salvação capaz de salvar todos os homens; que, embora haja um espaço entre a morte e a ressurreição, durante esse espaço os espíritos daqueles que morreram sem o evangelho podem ser pregados, e podem receber o evangelho do Senhor Jesus Cristo, ainda que tenham morrido na ignorância dele. ¶
Muitos se têm perguntado por que os Santos dos Últimos Dias estão tão ansiosos por construir templos. Construímos um templo em Kirtland, e, depois de o termos construído, fomos obrigados a deixá-lo e fugir para o Missouri. Lançamos os alicerces de dois no Missouri, um no Condado de Jackson, outro no Condado de Caldwell. O de Caldwell não foi lançado senão depois de sermos expulsos de lá. Foi dada uma revelação por meio de Joseph Smith, penso que em 11 de julho de 1838, de que, no dia 26 de abril seguinte, a pedra fundamental do templo deveria ser lançada em Far West; e os Doze Apóstolos deveriam partir daquela pedra angular, e atravessar o oceano para pregar o evangelho na Europa. Ora, disse a turba: "Havendo uma data fixada para esta revelação, se Joseph Smith nunca foi um falso profeta antes, agora o faremos ser," e viraram-se e expulsaram os Santos dos Últimos Dias do Missouri, e fizeram com que valesse a vida de um homem voltar para lá, se fosse mórmon. Expulsaram todos do Missouri, sob uma ordem de extermínio, no inverno anterior ao tempo marcado para o cumprimento desta revelação. Foi isso no inverno de 1838-9; e restavam bem poucos, e suas vidas estavam em perigo o tempo todo. Joseph, Hyrum e vários dos principais élderes estavam na prisão, e parecia que as palavras de Joseph cairiam por terra dessa vez, de qualquer maneira. O Presidente Young era então Presidente dos Doze Apóstolos; ele, com outros, teve de fugir para Quincy, e propôs a seus companheiros apóstolos que fossem ao Missouri, para cumprir aquela revelação. O Pai Joseph Smith, pai do Profeta, pensou que o Senhor tomaria a vontade pelo feito, e não seria necessário. Sentia que haveria grande perigo no empreendimento, e que as vidas dos irmãos estariam em risco. Muitos dos outros élderes sentiam o mesmo, mas o Espírito repousou sobre o Presidente Young e seus irmãos apóstolos, e eles decidiram ir, e foram, e, conforme a revelação, lançaram a pedra angular na cidade de Far West. Lançaram-na em meio a seus inimigos; cantaram seus hinos, ordenaram dois dos Doze, e, se me recordo bem, dois dos Setenta, e depois apertaram as mãos dos Santos ali, despediram-se, e partiram para a Europa, cumprindo assim a palavra de Deus dada quase um ano antes por meio do Profeta Joseph, e que os inimigos do Reino de Deus disseram que jamais se cumpriria. ¶
Aquela pedra fundamental foi lançada, e os Santos, como disse, fugiram para Illinois, e ali lançaram o alicerce de um templo em Nauvoo, Illinois, o edifício mais belo então no oeste do país, e a admiração de todos. Os Santos o ergueram em meio à pobreza, à miséria, à doença, à morte, e, posso dizer, com a espada ou o rifle numa mão e a colher de pedreiro na outra, seus inimigos os cercando por todos os lados. Haviam morto Joseph e Hyrum, e tentado destruir outros servos de Deus, e continuamente queimavam e destruíam as casas e propriedades dos Santos, e estavam determinados a expulsá-los do Estado. Mas, em meio a estas tribulações, os Santos continuaram seus trabalhos até que aquele templo ficou coberto, e até que, dentro de suas paredes, puderam atender às ordenanças pelos vivos e pelos mortos. ¶
De novo foram expulsos, e de novo se puseram em marcha, e vieram a este país deserto, e de novo lançamos o alicerce de outro templo, a poucas centenas de metros deste edifício; e neste inverno lançamos o alicerce de outro em St. George, na parte sul deste Território. Os pedreiros e trabalhadores estão lá, procurando levá-lo à conclusão o mais depressa possível. ¶
Por que estamos tão ansiosos por construir templos? É para que possamos atender às ordenanças necessárias à salvação dos vivos e dos mortos, para que possamos ser batizados por nossos antepassados que morreram sem terem tido o privilégio de ouvir e obedecer ao evangelho. Não apenas cremos que devemos ser batizados por eles, mas também cremos que, onde nossos pais e nossas mães morreram, tendo sido casados somente segundo a prática do mundo, devem ser casados por tempo e eternidade; e, nos templos erguidos pelos Santos ao nome do Altíssimo, agiremos por eles também a este respeito. Cremos, não apenas que devemos ser casados por tempo e eternidade, mas que eles também devem ser. Cremos na natureza eterna da relação matrimonial, que o homem e a mulher se destinam, como marido e mulher, a habitar juntos eternamente. Cremos que estamos organizados como estamos, com todas estas afeições, com todo este amor um pelo outro, para um propósito definido, algo bem mais duradouro do que se extinguir quando a morte nos alcançar. Cremos que, quando um homem e uma mulher se unem como marido e mulher, e se amam, seus corações e sentimentos são um só, que esse amor é tão duradouro quanto a própria eternidade, e que, quando a morte os alcançar, não extinguirá nem esfriará esse amor, mas o avivará e acenderá numa chama mais pura, e que perdurará por toda a eternidade; e que, se tivermos descendência, ela estará conosco, e nossa mútua associação será um dos principais gozos do céu para o qual caminhamos. Se tenho esposas e filhos amorosos, quem poderia contribuir tanto para nossa felicidade quanto poderíamos contribuir uns para os outros, eles para a minha, eu para a deles? Havemos de ser separados, e não ser eu mais nada para eles, nem eles mais nada para mim, do que estranhos? Que pensamento antinatural! Deus restaurou o sacerdócio eterno, pelo qual laços podem ser formados, consagrados e consumados, que hão de ser tão duradouros quanto nós mesmos, isto é, quanto nossa natureza espiritual; e maridos e esposas serão unidos, e eles e seus filhos habitarão e se associarão juntos eternamente, e isto, como já disse, constituirá um dos principais gozos do céu; e a isto olhamos com deliciosa expectativa. ¶
O irmão Woodruff, em suas observações desta manhã, falou da bênção que o Senhor prometeu a Abraão, que, como as areias na praia do mar, ou as estrelas que adornam o firmamento são inumeráveis, assim seria sua semente. Como há de se efetuar isto? Ora, pela união eterna dos sexos, pela união eterna de Abraão com aqueles que foram sua família em sua vida. Por estranha que esta doutrina pareça, é, contudo, amplamente sustentada por estas divinas Escrituras em que toda a cristandade professa crer. ¶
Ora, erguemos templos para que possamos ser batizados nas fontes que haverá naqueles templos, por nossos mortos, para que possamos adiantar-nos e agir vicariamente por eles na ordenança do batismo e na imposição de mãos para o Espírito Santo, e depois em outras ordenanças, que os hão de preparar para habitar conosco e nós com eles eternamente na presença de Deus. ¶
Se lerdes o capítulo 20 do Apocalipse, vereis que o Senhor revelou a João que haverá um descanso de mil anos, um milênio, ou era milenar, quando a terra descansará da maldade, e quando o conhecimento a cobrirá como as águas cobrem o mar, e quando um homem não terá de dizer a outro: "Conheces ao Senhor?" mas quando, conforme as palavras do profeta, "todos o conhecerão, desde o menor até o maior;" quando a vontade de Deus estará escrita no coração dos filhos dos homens, e eles compreenderão sua lei. Os profetas têm falado de tal dia, e no capítulo a que aludi, o 20 do Apocalipse, o Senhor fala dele com clareza a seu servo João, o Revelador, declarando que haverá um descanso de mil anos sobre a terra, durante o qual Cristo reinará no meio de seus Santos, e quando nada haverá que fira ou destrua em todo o santo monte do Senhor; quando o cordeiro se deitará com o leão, a vaca com o urso, e quando toda a criação animal habitará junta em paz, quando as espadas se transformarão em relhas de arado, as lanças em foices, e quando as nações não aprenderão mais a guerra, os homens plantarão e comerão o fruto disso, edificarão e habitarão, e ninguém os privará dos frutos de seu trabalho. ¶
Cito estas passagens tal como me ocorrem à mente. Todos as conheceis bem. Elas se cumprirão, e haverá um descanso de mil anos, durante o qual Satanás será preso, e a semente dos justos aumentará e cobrirá a terra. Nesse glorioso período, tudo na face da terra será belo; a doença e o crime, e todos os males que acompanham nosso presente estado de existência, serão banidos; e, durante esse período, como Deus revelou, a ocupação de seu povo será lançar um alicerce para a redenção dos mortos, os incontáveis milhões que viveram e morreram na terra sem ouvir e obedecer ao plano de salvação. ¶
Cremos, ainda, que todo homem que morre pertencendo a esta Igreja, e tendo o direito de oficiar no sacerdócio, estará ocupado, enquanto aguarda a ressurreição de seu corpo, num trabalho semelhante àquele em que Jesus se ocupava, a saber, pregando o evangelho àqueles que o ignoram. Ele proclamará o plano de salvação àqueles no mundo espiritual que morreram na ignorância do nome de Jesus e do caráter de sua redenção. Pois, deixai-me dizer, não há nome debaixo do céu pelo qual os homens possam ser salvos, exceto o nome de Jesus Cristo, e, se os mortos algum dia forem salvos, há de ser por meio do nome de Jesus e por meio da redenção que ele realizou. Este é o evangelho e o plano de salvação, tal como cremos. ¶
Dizem os homens que os Santos dos Últimos Dias são exclusivistas e sem caridade; mas nada sabem das doutrinas em que cremos. Nossos corações se enchem de imenso desejo pela salvação de nossas criaturas semelhantes: queremos que todos sejam salvos. Se tivéssemos braços suficientemente longos, os abraçaríamos a todos, e derramaríamos sobre eles o halo do amor. Desejamos e anelamos por sua salvação; oramos por isso, e esperamos passar nossos dias, tanto aqui quanto no além, realizando-a. É o principal trabalho que ocupa nossa atenção, e esperamos erguer templos nos quais possamos atender às ordenanças necessárias para realizá-lo. Já há homens que passam a maior parte de seu tempo atendendo a estas ordenanças, esquecidos de seus interesses mundanos, dedicando-se quase exclusivamente a estes trabalhos, e esperamos salvar todos os que aceitarem o plano de salvação. Digo "nós," quero dizer Deus e a autoridade que ele estabeleceu e restaurou à terra. ¶
Podeis admirar-vos de crermos no matrimônio plural quando temos estas opiniões? Ora, por exemplo, há um homem que teve uma esposa, e filhos dessa esposa. Ela morreu, e ele se casou de novo, e teve uma família da segunda esposa. Em alguns casos, ela morreu, e ele se casou pela terceira vez. Ora, cremos que esse homem, se for bom homem, terá direito a essas esposas na ressurreição. Pode haver homens desta classe aqui hoje, homens que perderam suas primeiras esposas, das quais tiveram filhos, e que fizeram de seu pequeno lar um céu, prodigalizando sobre elas toda a riqueza de sua afeição; e, tendo aquela mulher falecido, tomaram outra esposa, e ela foi igualmente fiel. Fez o melhor que pôde. Ora, na ressurreição, qual esposa ele há de repudiar? Há de dizer à primeira esposa: "Tenho uma segunda esposa, não quero que vivas comigo"? Ou há de dizer à segunda esposa: "Aqui está a esposa de minha juventude; aquela que ganhou as primeiras afeições de meu coração, e eu a amo, e tu deves ir"? "Oh," diz alguém, "não haverá esposas ali, nem necessidade de um homem dizer tais coisas nem à primeira nem à segunda esposa." Vedes o dilema em que a crença da cristandade os coloca. São obrigados, por suas tradições, a rejeitar a ideia da relação conjugal, e de marido e mulher habitarem juntos por toda a eternidade. Qual é sua opinião? Ora, pelo que ouvi, e colhi dos melhores dentre eles, a ideia que têm do céu para o qual a humanidade caminha é a de estar vestido de branco e com harpa na mão, cantando louvores a Deus e ao Cordeiro eternamente. Isto é, sem dúvida, uma ocupação muito boa, mas pensar em estarmos assim ocupados para sempre e sempre não satisfaz a mente inquiridora. Eu não poderia ser feliz, tal como sou constituído, nem vós poderíeis, sem ocupação ativa — um campo para o exercício de toda faculdade da mente e do corpo que Deus vos deu. Não me admiro de que os homens temam a morte quando têm tais ideias do céu e da felicidade futura. Minha ideia do céu me apresenta uma condição de sociedade tão superior a esta quanto o céu é superior à terra. Imagino um estado de sociedade livre de todo pecado, onde o adversário não pode entrar, onde não haverá tristeza, dor, sofrimento ou morte, e onde me associarei com aqueles a quem amei; cujas vidas foram passadas comigo procurando fazer o bem; com a esposa ou esposas e filhos que tive aqui, vivendo com eles eternamente na presença de Deus. E como se disse de Jesus: "Ao aumento de sua semente não haverá fim," assim espero eu, depois de partir daqui, quanto à bênção selada sobre o Pai Abraão, de cuja semente sou, que, assim como não haverá fim a seu aumento, não haverá também ao meu. ¶
É por isto que trabalho e a isto aspiro. O céu se me afigura brilhante; a morte é despojada de seu terror — não tem aguilhão, e, como um antigo, posso dizer: "Ó sepultura, onde está a tua vitória; ó morte, onde está o teu aguilhão!" Não há aguilhão na morte, não há vitória na sepultura, pois todos nós esperamos, os que pertencemos à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ressuscitar em glória, com toda faculdade do corpo e da mente ampliada, purificada, engrandecida, até que sejamos como nosso Pai e Deus. Este é o céu que buscamos, e ao qual rogo que todos nós alcancemos, em nome de Jesus, Amém. ¶