Tempos Agitados a Obra dos Últimos Dias
George Q. Cannon
Ao levantar-me para dirigir-me a vocês esta tarde, irmãos e irmãs, imploro parte em sua fé e orações, para que eu seja guiado a falar sobre aqueles assuntos e a expor aquelas ideias que hão de ser instrutivas para vocês e adaptadas às suas circunstâncias e condição. ¶
Tenho atuado no ministério desde a minha meninice, mas sempre que sou chamado a falar, faço-o com grande timidez e temor. Não sei se esse sentimento pode algum dia ser inteiramente vencido; de fato, não sei se desejaria que fosse, pois se um homem pudesse levantar-se e sentir-se perfeitamente capaz, por si mesmo, de falar para a edificação do povo, julgando pela minha própria experiência no assunto, imagino que teria muito pouco auxílio do Senhor. Mas se ele se levanta dependendo do Senhor, e não de sua própria força, o Senhor prometeu conceder a seus servos o auxílio necessário para habilitá-los a testificar da verdade, e a purificar suas vestes do sangue desta geração. ¶
Não há falta de temas ou de matéria ao tratar da obra em que estamos empenhados; o alcance é extenso; mas é preciso o Espírito de Deus para selecionar, dentre a variedade de assuntos que ele apresenta, aqueles pontos, doutrinas e conselhos que devem ser abordados para edificar o povo nas circunstâncias que o cercam. Quanto mais avanço em idade, mais convencido fico de que nós, como povo e como indivíduos, precisamos de instruções práticas naquilo que se pode chamar nossos deveres de cada dia. É deleitoso refletir e falar sobre, e ter diante de nossa mente, o rumo seguido por aqueles que foram nossos predecessores no Evangelho. É igualmente deleitoso, quando inspirado pelo Espírito de Deus, contemplar o futuro com seus grandes acontecimentos, que os profetas previram, e sobre os quais escreveram tanto. ¶
Como geração, vivemos num tempo agitado e cheio de atividade -- um tempo repleto de acontecimentos importantes, um pisando nos calcanhares do outro tão rapidamente que mal temos tempo de contemplar o passado -- até mesmo o passado de nossa própria história; e temos pouco tempo de olhar para o futuro, senão na medida em que é necessário para nos confortar e animar. A obra de Deus avança com extraordinária rapidez, e o Senhor opera de maneira das mais notáveis para levar a cabo seus grandes e maravilhosos desígnios e propósitos; e a nenhuns olhos essas coisas são mais claras do que aos dos Santos dos Últimos Dias, especialmente aqueles cujas mentes são iluminadas pelo Espírito de Deus, e que buscam a inspiração dele para guiá-los em seus afazeres diários. ¶
Tem-se observado com frequência que nós, como povo, somos demasiadamente egoístas; que imaginamos que Deus, em suas operações e tratos com os filhos dos homens, nos escolheu e nos fez os recipientes peculiares de suas bênçãos, com exclusão do restante da família humana. Tenho ouvido com bastante frequência, ao conversar com pessoas a respeito de nossas opiniões e doutrinas, que confinamos demasiadamente nossa atenção a nós mesmos e à pequena obra com que nos identificamos, esquecendo que não somos senão um pequeno punhado da grande família humana. Também já ouvi dizer que era demasiado esperar que um povo tão insignificante quanto o nosso, numericamente, pudesse antecipar os grandes resultados de que falamos com tanta frequência, e que, pelos escritos dos antigos profetas e daqueles que viveram contemporaneamente conosco, somos levados a esperar que se cumprirão em nosso caso. Dizem os homens, falando de nós: "Vocês, Santos dos Últimos Dias, que em Utah e nos territórios vizinhos são provavelmente cento e cinquenta ou duzentos mil, e talvez algumas centenas de milhares em outros lugares, lembram-se; ou já consideraram, que a nação da qual fazem parte integrante conta quarenta milhões, e que há centenas de milhões de seres humanos espalhados pela face da terra que não são de seu credo? Lembram-se de que são muito desprezíveis em número, influência, riqueza e tudo o que constitui grandeza na terra?" Se estivéssemos dispostos a esquecer essas coisas, há aqueles em nosso redor, com quem estamos em contato frequente, que se dão ao grande e especial trabalho de nos lembrar de nossa insignificância, de modo que penso não haver perigo real de o esquecermos por completo. Mas, embora sejamos poucos em número, declaramos que os oráculos de Deus estão conosco, e que ele escolheu os Santos dos Últimos Dias para serem seu povo adquirido e pôs sobre eles seu nome, ou o nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos chamou para sermos ministros de vida e salvação, fundadores de uma nova ordem de coisas na terra, e o meio em suas mãos, como firmemente cremos e testificamos, de efetuar uma maravilhosa revolução nos negócios humanos. Contudo, mesmo crendo nisso, os Santos dos Últimos Dias não são tão pouco caridosos a ponto de imaginar que são os únicos com quem Deus trata, ou o único povo sobre e para quem suas providências se exercem. Tal pensamento jamais entrou no coração daqueles que são inteligentes e ponderados na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. É verdade que cremos e testificamos que fomos chamados a proclamar o Evangelho eterno em sua pureza e simplicidade antigas, com a plenitude de seus dons e graças tal como desfrutados nos dias antigos; e que fomos chamados a lançar o fundamento daquela obra que está destinada a crescer, aumentar e espalhar-se até encher toda a terra, de norte a sul, de leste a oeste. Contudo, não arrogamos a nós mesmos, por isso, toda a bondade, misericórdia, cuidado e benevolência que Deus dispensa a suas criaturas na terra; mas cremos firmemente que em cada nação, e entre toda tribo, língua e povo, e, de fato, em cada credo sobre a face desta ampla terra, há aqueles sobre quem Deus vela com cuidado peculiar e a quem suas bênçãos são estendidas; e cremos que suas providências pairam sobre todas as obras de suas mãos, e que ninguém está tão remoto, desamparado e isolado que não seja objeto de seu cuidado, misericórdia e bondade. Esta é a nossa crença; e quando vemos os acontecimentos que se dão atualmente na Europa, quando ouvimos falar de revoluções e guerras, de nação se levantando contra nação, dos diversos juízos e calamidades, bem como das diversas bondades e misericórdias que são concedidas e estendidas aos habitantes da terra e às várias nacionalidades em que se dividem, vemos em todas essas coisas a mão de nosso bondoso e beneficente Criador; vemos suas providências, contemplamos seu agir, e reconhecemos sua bondade; e também pensamos poder discernir seu cuidado e providência supremos para levar a cabo os grandes acontecimentos de que ele falou, os quais, por fim, resultarão na emancipação de nossa raça do jugo do mal sob o qual geme. ¶
É verdade, como já observei, que Deus nos chamou dentre as nações para sermos seu povo adquirido; mas não somos os únicos que assim serão chamados. A mensagem que nos veio, e que recebemos, e pela qual nos alegramos, é enviada a toda tribo, língua e povo sobre a face de toda a terra. Ela nos reuniu para sermos os pioneiros nesta grande obra; mas o chamado não terminou, nem chegou o período em que deixará de ser proclamado por meio de nosso ajuntamento. Continua em vigor, e há de ser levado por todo o vasto domínio da terra, até que sua repercussão seja ouvida em toda a terra, e homens de toda nacionalidade, língua e credo tenham ouvido e tido a oportunidade de aceitar ou rejeitar as boas novas de salvação que nos foram confiadas. ¶
Os tratos de Deus com nossa própria nação, os acontecimentos singulares que se desenrolam atualmente no continente europeu, as revoluções que ocorrem na Ásia, e as guerras e comoções que parecem convulsionar a maior parte das nações da terra, têm todos por objetivo, cremos, preparar o caminho pelo qual esta grande mensagem possa ser levada mais livremente, e seus princípios declarados mais completamente a todos os habitantes da terra. Os profetas olharam para os dias do futuro e viram em visão que Deus realizaria uma grande e poderosa obra no meio dos habitantes da terra. Escreveram sobre isso, e alguns dos mais belos trechos da Bíblia contêm gloriosas alusões aos últimos dias, quando Deus estenderia seu braço com grande poder no meio de seu povo e realizaria uma obra grande e maravilhosa -- uma obra que seria motivo de espanto aos olhos de todo o povo. As seitas religiosas da Cristandade, por centenas de anos, aguardaram o cumprimento dessas predições, e a esperança disso as animou em suas operações, labores, gastos e em todo esforço que fizeram pela redenção da raça e por sua iluminação nos princípios do cristianismo. Para efetuar o cumprimento das predições contidas na Bíblia, usaram todos os meios ao seu alcance; mas não obtiveram o êxito que desejavam. Ainda assim, tão firme tem sido sua fé nessas predições, que perseveraram, embora o resultado de seus labores, via de regra, não tenha sido de natureza animadora. Sociedades de tratados, sociedades bíblicas, sociedades missionárias, e sociedades de quase todo tipo e descrição foram organizadas com os melhores motivos, e com vastos gastos de meios, com o propósito de cumprir as predições dos profetas a respeito dos habitantes da terra. Mas faltou um poder, faltou uma influência; não houve aquela união, aquela bênção do céu e aquela combinação providencial de circunstâncias necessária para produzir os resultados desejados. O homem pode labutar, trabalhar e gastar seus meios e forças, e pode trazer em seu auxílio toda a sabedoria de que dispõe para produzir resultados divinos; mas, a menos que Deus dê o crescimento, como dizem as Escrituras, seus labores serão infrutíferos. Isso se cumpriu de maneira notável nos resultados que vemos ao nosso redor atualmente na Cristandade, pois seus esforços não foram coroados de êxito. Percorram as nações mais cristãs de hoje, e não há como disfarçar o fato de que são as mais profundamente mergulhadas na miséria e na maldade. É verdade que os homens vivem no meio dessas coisas até se acostumarem tanto com elas a ponto de aceitá-las como condição necessária dos negócios humanos. Podem dizer que sempre foi assim desde o princípio e assim será até o fim, e que tentar mudar isso e introduzir um estado de sociedade sem mal é utópico, jamais poderá ser efetuado. Aceitam a miséria, a degradação, a pobreza, a prostituição, e todos os numerosos males que abundam nas nações de que são membros, como algo que não pode ser removido -- como consequência necessária de nossa existência aqui na terra. Mas os profetas predisseram que virá um tempo em que nossa raça será emancipada desses males, e em que nada haverá que fira ou destrua em todo o santo monte do Senhor; quando as espadas serão transformadas em relhas de arado e as lanças em foices; quando nação não mais se levantará contra nação, nem se aprenderá mais a guerra. Os profetas predisseram que virá o tempo em que o conhecimento de Deus cobrirá a terra como as águas cobrem o mar profundo; e quando o homem não precisará mais dizer a seu vizinho: "Conhece ao Senhor", mas quando todos o conhecerão, do menor até o maior. Não há dúvida de que, se há algo verdadeiro nas Escrituras, essas predições o são, e que se cumprirão à letra. Mas o homem, em seus esforços para trazer esse tempo, tem trabalhado sem o concurso do céu, sem a bênção divina repousando sobre seus labores. Correu antes de ser enviado; em seu zelo, empreendeu medidas para as quais não tinha autorização. Que remédio, então, curará ou trará os meios de cura para nossa raça? Que amenizará a condição da família humana? Que plano será adotado para trazer à terra as bênçãos que nos dizem ser nosso privilégio desfrutar, em algum período ou outro? Buscará o homem realizar isso sem o auxílio divino? Empreenderá ele efetuar essas grandes mudanças e levar a cabo esta grande libertação sem buscar o auxílio do Ser Supremo, que criou a terra e seus habitantes? Ou se inclinará ele, em humildade, no pó, e aguardará a dispensação da verdade vinda do céu, aguardará a concessão da luz e do conhecimento necessários para habilitá-lo a realizar essas obras poderosas; e então, em fé, plantará, regará e esperará em Deus para dar o crescimento? ¶
Penso que o rumo que nós, como povo, temos tomado é o rumo que todos deveriam tomar; penso que é o único curso próprio e legítimo para qualquer indivíduo ou povo tomar. Os homens podem dizer que somos iludidos e que enganamos a nós mesmos; podem dizer que nosso sistema é uma impostura. Se isso é assim ou não pouco importa para a questão em pauta; o rumo que temos tomado, seja divino ou não o nosso sistema, é o rumo que todos deveriam tomar. O que fizemos, afirmamos ter feito sob a inspiração e a orientação direta do céu. Todo passo que demos desde que nossa Igreja foi organizada, em 6 de abril de 1830, afirmamos ter sido por inspiração e sob a orientação do Todo-Poderoso. No dia que mencionei, nossa Igreja foi organizada por revelação. Naquele dia a Igreja foi organizada e ministros escolhidos; Élderes foram investidos, ou ordenados, ao Sacerdócio. Foram enviados por revelação, e ordenados a irem a este e àquele lugar, a esta e àquela terra, por revelação do Senhor. Foi-lhes dada uma mensagem, não da Bíblia, ou do Livro de Mórmon; não de nenhum registro escrito, não uma cópia ou transcrição de alguma mensagem levada por alguma geração anterior de homens; mas uma mensagem original, diretamente a eles, para ser transmitida por eles a seus semelhantes; uma mensagem perfeitamente original, no que dizia respeito a esta geração, entregue a eles pelo Todo-Poderoso; e foram enviados a proclamá-la aos habitantes da terra. ¶
Foram ordenados, por revelação, a se reunirem. Um lugar foi designado como lugar de ajuntamento. As circunstâncias favoreceram a obtenção daquele lugar; mas não lhes foi permitido nele permanecer. Foram expulsos, e novamente guiados por revelação a outro lugar, e novamente foram expulsos e compelidos a abandonar seus lares; e novamente outro lugar foi designado para onde deveriam ir; novamente foram expulsos, e novamente foram orientados sobre o que fazer, e vieram para esta terra, guiados por revelação, inspirados pelo Todo-Poderoso, sem saber para onde iam. Milhares partiram pelas planícies sem a menor ideia de onde parariam; lançaram-se pelas pradarias sem trilhas, sem nenhum local à frente sobre o qual soubessem algo; e, quando chegaram aqui, estabeleceram-se por revelação; e desde então, em nossos movimentos, em nosso povoamento de várias localidades, em todo o nosso trabalho no lar, indo às nações da terra ou delas retornando; em nossas migrações, no envio de colônias, e em toda variedade de trabalho que realizamos, afirmamos ter sido guiados pelo espírito de revelação; e observem, meus irmãos e irmãs, os resultados maravilhosos. ¶
Tivemos riqueza? Tivemos sociedades organizadas para nos auxiliar? Tivemos popularidade ou apoio popular da nação? Não, não tivemos nada disso. Ficamos sós, sem ninguém para auxiliar, sustentar ou confortar senão Deus. Em vez de auxílio de nossos semelhantes, tivemos perseguição; em vez de conforto, tivemos injúria; em vez de palavras de encorajamento, tivemos, por assim dizer, profunda condenação derramada sobre nossas cabeças. Tivemos circunstâncias adversas a enfrentar, mas também tivemos aquilo que é melhor do que tudo o que o mundo pode conceder -- o auxílio do céu, o concurso divino; tivemos uma combinação de circunstâncias que nos auxiliaram a realizar os objetivos com que partimos. O resultado é que hoje estamos nestes vales -- um povo de nacionalidade variada, de credos e formas de educação variados, e um povo tão totalmente diverso em suas tradições e hábitos originais quanto homens e mulheres de nossa raça poderiam ser. E, contudo, o que vemos? Ora, por toda esta extensão de vales, um povo homogêneo, habitando junto em paz, amor e união, e desfrutando de todas as bênçãos prometidas ao povo de Deus nos últimos dias. Digo todas as bênçãos, mas não em sua plenitude. Ainda somos imperfeitos; ainda não estamos preparados para essas bênçãos em sua plenitude; mas na medida em que progredimos e estamos preparados, elas nos foram concedidas; e hoje apresentamos aos olhos do mundo um dos mais notáveis espetáculos que se pode ver. ¶
Os homens podem dizer: "Ora, ora, vocês, Santos dos Últimos Dias, não são nada! São desprezíveis demais para se notar!" Mas nossos atos mostram que há em nós um poder e uma influência que os habitantes da terra em outros lugares não possuem. Somos vistos como um fenômeno social na terra; somos diversos de todo outro povo; e nossa comunidade é objeto de atenção, e ouso dizer de respeito, que seu número não justificaria. Homens de longe não conseguem atravessar o continente sem virem visitar os Santos dos Últimos Dias. Por que é isso? É porque há, por toda a terra, um sentimento de que há algo notável ligado a nós, de que não somos como as outras pessoas. O que é que nos distingue de nossos semelhantes? O que é que nos distingue do americano médio, do inglês, do escandinavo, do alemão, do suíço, do italiano, ou do francês, ou do asiático médio? Há algo; eles sentem isso e nós sentimos isso; e essa distinção é que cremos em revelação, professamos ser guiados por revelação. Somos peculiares em comparação com o resto do mundo, porque todos os nossos movimentos são feitos sob orientação divina. Afirmamos isso, e agimos de acordo; buscamos por isso, e Deus no-lo concede. É pelo menos nosso testemunho de que ele no-lo concede, pois vemos os resultados. Vemos o que não se testemunha em nenhum outro lugar da terra. ¶
Como já disse, foram formadas sociedades de tratados, bíblicas e missionárias, e a riqueza das nações foi derramada nas mãos de pessoas religiosas, e gasta profusamente e sem limites, para a salvação da família humana; mas onde, na face da terra, se pode encontrar os frutos que se testemunham diante de mim hoje, e que se podem ver por todo o Território de Utah? Por que é isso? Porque, como disse, eles trabalharam sem o concurso do céu; correram antes de serem enviados. Mas a nós, indivíduos dispersos e isolados, veio esta mensagem de Deus, e, havendo uma centelha de divindade em nós, nós a recebemos e a abraçamos, e nos esforçamos por viver de acordo com ela, e Deus abençoou a nós e nossos labores. Mas, afinal, o que fizemos é muito pouco. ¶
Já disse a vocês o que aqui se tem observado, vez após vez, provavelmente já ouviram, a respeito de nossa insignificância. Sinto muito sensivelmente que, no que diz respeito a números, somos um povo muito insignificante. Mas vou contar-lhes uma observação, que creio ser atribuída tanto ao falecido Sr. Stephen Girard quanto ao Comodoro Vanderbilt, ambos grandes financistas, de que o dinheiro mais difícil que ganharam foram os primeiros quinhentos dólares que pouparam. Ora, a coisa mais difícil ao se construir um povo é ganhar um ponto de apoio. Nós já o conquistamos; conquistamos e organizamos as primeiras cem mil pessoas. Alcançamos uma posição que tornará nosso progresso futuro mais rápido do que nos anos que se passaram. Espero plenamente ver o progresso desta obra, no futuro, muito mais rápido do que foi no passado. Vejo a providência de Deus operando para trazer isso a efeito. Não para construir um povo distinto de todo o resto da terra; não para construir alguma seita ou denominação pequena e estreita; mas esta obra e este Evangelho devem abraçar em seu seio todos os filhos da Terra, todo filho e filha de Deus sobre a terra. Essa é sua missão, e ele a cumprirá. Mas se espalhará com rapidez crescente daqui em diante. O fundamento e as pedras angulares foram lançados em lágrimas, sangue e muita tristeza, mas estão firmemente assentados, cimentados pelos sofrimentos, labores, fé e perseverança deste povo nos últimos quarenta anos; e confio que estão assentados tão profundamente que nunca serão arrancados, abalados ou perturbados; e que sobre eles se erguerá uma superestrutura de tal força, beleza e simetria que será a alegria e o orgulho de toda a terra. ¶
Os labores dos Élderes desta Igreja não se limitaram a esta terra, mas se estenderam à Inglaterra, à Escandinávia, um pouco à França, muito pouco à Prússia, um pouco à Suíça; mas vastos campos ainda se estendem diante de nós, que ainda não tocamos, e aos quais esta mensagem deve ir. As convulsões da revolução que a Europa atualmente atravessa, considero-as sinais premonitórios daquela liberdade que em breve há de despontar naquele continente. Então os Élderes desta Igreja passarão pela Alemanha, pela França, pela Itália e pela Espanha, e por toda terra na Europa; pois o "homem doente" ainda abrirá suas portas para ouvir os Élderes de Israel, e a Rússia abrirá seus portões e lhes dará livre entrada, e eles sairão declarando as boas novas que Deus nos deu aos oprimidos de todas as nações, proclamando-lhes que Deus estabeleceu um governo que será o meio de restaurar à terra as bênçãos pelas quais a humanidade suspirou, anelou e labutou em vão por séculos. ¶
Quando a mente, inspirada pelo Espírito de Deus, contempla o futuro, e vê o imenso campo que se amplia diante dos Élderes desta Igreja, sinto, por mim, que isso deveria despertar em cada um de nós a mais enérgica e resoluta preparação para a grande obra que rapidamente recai sobre nós, e que vivemos para desempenhar. Nossa própria terra ainda será convulsionada pela revolução, pois traz em si mesma as sementes de desventuras funestas, que ainda hão de recair sobre a infeliz República. Podemos deplorar, lamentar e lastimar que tais coisas existam; mas existem, apesar disso, e seríamos verdadeiramente cegos se fechássemos os olhos a esse fato, e deixássemos de nos preparar para sua realização. Há diante deste povo, ligado a nosso próprio país, um destino tão glorioso, quando o contemplamos no futuro, que basta para deslumbrar e oprimir a mente do homem ante a imensidão do labor que se estende diante de nós. ¶
Pode-se dizer que é tolice pensar nisso ou falar disso; mas não é mais tolo do que teria sido, quando, expulsos, despojados e dispersos, saíamos de Illinois, dizer que ainda lançaríamos o fundamento de um grande Estado, tal como agora contemplamos nestas montanhas. Digo-lhes, meus irmãos e irmãs, que Deus concedeu a este povo qualidades que, na disputa entre as raças, hão de contar. Há qualidades ligadas aos Santos dos Últimos Dias, e princípios ligados a seu sistema, que, por mais que os persigam e esmaguem, enquanto viverem os homens que detêm a autoridade, e enquanto os princípios tiverem um crente e praticante no mundo, hão de viver, sobreviver e ter influência no meio da terra e sobre suas populações. Não há como disfarçar este fato! Pequenos conspiradores, tais como, por exemplo, o "anel" desta cidade, podem armar laços e redes, e preparar armadilhas, e pensar que vão deter a obra de Deus, enredar os pés dos servos de Deus, e fazer coisas maravilhosas! Miseráveis tagarelas! Levantariam suas mãos ímpias e derrubariam o trono de Jeová, e tentariam impedir o progresso de sua obra; mas, como outros que os precederam, serão cobertos de vergonha e confusão e descerão a sepulturas desonradas, enquanto o povo que buscam oprimir continuará a se levantar e a crescer em força e poder pela prática daquelas qualidades que Deus nos concedeu por meio da revelação, até que sua influência seja sentida, não apenas no Território de Utah, mas de mar a mar, e, dando-lhes tempo suficiente, será sentida por toda a extensão e largura da terra, e assim se cumprirão as palavras dos profetas. ¶
Como mais poderiam se cumprir? Podem vocês imaginar plano melhor do que este que começamos a ver desdobrar-se diante de nós? Podem pensar em outra forma pela qual essas predições se cumprirão? Eu não posso. É simples, natural e bíblico, e perfeitamente digno de Deus a meus olhos, e segundo minhas limitadas ideias. ¶
Mas, como povo, devemos nos esforçar, em meio a todas as nossas tribulações, dificuldades, provações e tentações, por lembrar que somos o povo de Deus; que ele nos chamou para sermos seus, e devemos depositar nossa firme fé e confiança nele e deixá-lo trabalhar os resultados. E, meus irmãos e irmãs, se formos fiéis à verdade que ele nos revelou, ele nos trará maior salvação do que jamais concebemos, e realizará meios de libertação com os quais nunca sonhamos; pois sua palavra, que não pode ser revogada, saiu por meio de seus antigos servos; e ele está comprometido com seus servos nos dias em que vivemos; e está comprometido conosco, para sustentar esta obra e dar-lhe poder e influência, e um ponto de apoio na terra. E nunca houve povo que orasse com maior unanimidade por uma só coisa do que os Santos dos Últimos Dias oram para que Deus livre seu povo das mãos de seus inimigos e lhe dê a vitória. Essas orações serão ouvidas e respondidas sobre nossas cabeças, e, como já disse, veremos libertação e salvação como nunca sonhamos. ¶
Lembro-me muito bem dos sentimentos manifestados aqui, creio que foi o penúltimo verão, por um cavalheiro cientista que veio à nossa cidade e, pela primeira vez, entrou em contato conosco. Ele nos conhecera quando menino em Illinois; agora ele mesmo era professor em uma das faculdades de Illinois, e homem de certa reputação no mundo científico. Ele vira ou ouvira algo sobre nossas perseguições, e, em conversa comigo, observou: "Sr. Cannon, quando olhei para este belo vale e vi estes lares agradáveis, e o seu povo vivendo em contentamento e paz, meu coração se encheu de tristeza inexprimível; não pude reprimir minhas emoções, meus olhos se encheram de lágrimas, e desejei do fundo do coração que estivessem em outro lugar, e não dentro das fronteiras dos Estados Unidos, algum lugar onde não estivessem sujeitos à perseguição; pois conheço o intenso fanatismo e ódio de sentimento que se nutre contra vocês, e sei que só aguarda uma oportunidade favorável para reencenar as cenas que suportaram no passado." Apreciei a bondade de sentimento que motivou as observações, mas disse-lhe que via as coisas de modo diferente dele. Estava plenamente ciente do sentimento de que falava, e sabia que existia em certos setores; mas também estava ciente de uma coisa, que ele, sendo incrédulo, provavelmente não compreendia, e era esta -- havia um Deus nos céus que governava, sobregovernava e controlava todas as circunstâncias para a realização de seus próprios desígnios. Observei ainda: "Suponha que estivéssemos longe daqui, fora das fronteiras dos Estados Unidos, acha que poderíamos viver em algum lugar da terra sem atrair atenção? Acha que um povo como o nosso poderia ir a qualquer terra, ou ao maior deserto da terra, e ali viver por qualquer período sem atrair a atenção do mundo tanto quanto atraímos agora? Ora, a coisa é impossível. Quando viemos a esta região, ela era tão isolada quanto qualquer lugar da terra poderia ser. Mas, depois de virmos para cá, demonstramos que o solo destes vales, sendo irrigado artificialmente, produziria colheitas; e o resultado de nossa experiência, pois experiência se pode chamar, é que toda esta bacia interior, antes vista como deserto irrecuperável, é terra escolhida. O mundo, uma vez convencido disso, a população veio a nós, e a ferrovia atravessou o continente, e nos encontramos bem no centro da grande estrada transcontinental. Se fôssemos para qualquer outra terra, seria o mesmo -- atrairíamos população e riqueza, e os olhos da humanidade se voltariam para nós; e se saíssemos daqui, não encontraríamos lugar onde estivéssemos mais isolados do que aqui estivemos; mas", disse eu, "não pretendemos sair daqui; pensamos que chegamos ao lugar certo, e pretendemos permanecer, e o Senhor tratará com aqueles que procurarem tratar conosco." Ele sentiu que talvez houvesse algum destino nisso, mas, sendo descrente em Deus, nada sabia a respeito, e não se permitia ter fé alguma quanto a isso. Ainda assim, viu que éramos um povo notável, e disse que talvez houvesse um grande futuro reservado para nós, algum destino, do qual ele e outros, que apenas observavam, poderiam estar bastante ignorantes. ¶
É verdade, meus irmãos e irmãs, há um grande destino reservado para os Santos dos Últimos Dias. Os homens podem combater esta obra e perseguir o povo que a sustenta; mataram José, e pensaram ter destruído as pedras angulares, por assim dizer, do edifício; e, como os homens mencionados na parábola, tendo matado o herdeiro, pensaram poder possuir a vinha, mas logo descobriram seu engano; e assim será com todo movimento feito contra a obra de Deus -- aqueles de quem se originam descobrirão que cometeram um grande erro. Ficarão desapontados com os resultados de seus labores e operações, pois Deus falou e sua palavra se cumprirá, e esta obra crescerá e progredirá. E o dia virá, embora, como já disse, possamos lamentá-lo e deplorá-lo, o dia virá, e eu gostaria que este pensamento se fixasse, se possível, tão profundamente em cada coração que, quando a perseguição e o aborrecimento vierem sobre nós, vocês não o esqueçam -- quando os Santos dos Últimos Dias serão o único povo bem governado neste continente, e no meio deles se encontrará o único lugar onde o governo constitucional será preservado em sua antiga pureza e integridade. Sei que isso soa estranho, porque a ideia é que os "mórmons" são o povo mais despoticamente governado na face da terra. Mas sei que não há hoje, sob a luz do sol, do Atlântico ao Pacífico, ou do Golfo do México ao Canadá, outro povo tão livre em todo sentido da palavra, homens e mulheres, quanto os Santos dos Últimos Dias, e que tenha maior liberdade de fazer o que é certo a seus próprios olhos. ¶
Vejo o relógio, e sou lembrado de que é hora de terminar. Que Deus os abençoe, meus irmãos e irmãs, e que sua paz e cuidado preservador estejam sobre vocês, em nome de Jesus. Amém. ¶