A Segunda Vinda de Cristo — A Obra Preparatória para Ela
Orson Pratt
Lerei algumas passagens das Escrituras, que se encontram no Salmo 50 — ¶
"O Deus poderoso, o Senhor, falou e chamou a terra desde o nascimento do sol até o seu ocaso. ¶
"Desde Sião, a perfeição da formosura, resplandeceu Deus. ¶
"Virá o nosso Deus, e não se calará; um fogo se irá consumindo diante dele, e haverá grande tormenta ao redor dele. ¶
"Chamará os céus lá do alto, e a terra, para julgar o seu povo. ¶
"Ajuntai-me os meus santos, aqueles que fizeram comigo um convênio com sacrifício." ¶
Esta congregação, cujos membros, de um modo geral, creem na Bíblia, não têm dúvida alguma em sua mente de que os antigos servos de Deus foram inspirados pelo dom do Espírito Santo para proferir muitas coisas a respeito do futuro, para dar muitas predições a respeito de acontecimentos que haviam de suceder entre a humanidade até as últimas gerações. Davi foi inspirado de maneira peculiar, e compôs os seus salmos pelo espírito de profecia; ele previu, por aquele espírito que tudo conhece, alguns dos grandes acontecimentos do futuro, pertencentes aos habitantes deste mundo, e os propósitos de Deus em relação a esta criação. Estas passagens que li têm relação com alguns desses grandes acontecimentos, uma parte dos quais já, em certa medida, se cumpriu; mas a maior parte ainda resta por se cumprir. "O Deus poderoso, o Senhor, falou," cumpriu-se literalmente no que diz respeito a esta geração presente. Também se cumpriu em relação a gerações passadas; mas é bem evidente, pelo sentido do contexto, que o falar do Senhor aqui referido era uma obra de tempos posteriores, quando Deus falasse de novo aos habitantes da terra; quando de novo convocasse todo o povo, longe e perto, "desde o nascimento do sol," como aqui se expressa, "até o seu ocaso." Para mostrar mais plenamente que esta era uma obra dos últimos dias, ele fala, ou prediz, que o "Senhor nosso Deus virá e não se calará." Isto não tinha relação com a sua primeira vinda; pois, embora então tenha vindo e proferido a sua doutrina, e não se tenha calado, contudo vereis, lendo um pouco mais adiante, que o Salmista se referia a outra vinda do Filho de Deus, muito diferente em caráter de seu primeiro advento. "Virá o nosso Deus, e não se calará." Ora, notai, de modo especial, a frase seguinte, e vereis que não tem relação com a sua primeira vinda — "Um fogo se irá consumindo diante dele, e haverá grande tormenta ao redor dele." Isso não foi uma característica de sua primeira vinda; não havia nada especialmente ligado àquele acontecimento que excitasse a atenção da humanidade em geral. Ele veio de maneira muito mansa e humilde; o seu nascimento e advento a este mundo foram na posição mais humilde. Nascido, por assim dizer, num estábulo, deitado numa manjedoura. Não nascido em palácio de rei — não nascido entre os grandes e os nobres, mas de maneira bem obscura. Cresceu, da infância à idade adulta, ocupado no ofício de carpinteiro. Uns trinta anos de sua vida foram passados em casa, com o seu suposto pai, e com sua mãe Maria, vivendo comparativamente na obscuridade, ocasionalmente destacando-se e argumentando com os sábios e os grandes. Nada o caracterizava como o Grande Criador deste mundo, ou como seu Redentor, senão para aqueles que estavam bem familiarizados com as predições dos profetas. Mas esta última vinda, ou a vinda aqui mencionada pelo Salmista, o representa como vindo com poder — "Um fogo se irá consumindo diante dele, e haverá grande tormenta ao redor dele. Chamará os céus lá do alto," diz a passagem seguinte, "e a terra debaixo." Que objetivo tinha ele em vista, ao convocar os céus lá do alto e a terra debaixo? Que fim tinha em vista ao falar de novo e romper o silêncio dos séculos, e ao dar uma revelação aos céus e depois à terra? Era a fim de realizar uma obra preparatória antes da sua vinda pela segunda vez, quando viesse em fogo flamejante. Era necessária uma preparação, e esta preparação é mencionada em parte no último versículo que li, que declara que ele chamaria os céus lá do alto e a terra debaixo. ¶
Ele nos dá alguma noção da natureza desse chamado. O seu chamado aos seus servos foi: "Ajuntai-me os meus santos, aqueles que fizeram comigo um convênio com sacrifício." ¶
Isto parece, então, ser uma obra preparatória para a vinda do Senhor em fogo flamejante. A natureza do fogo que se manifestará em sua segunda vinda nas nuvens do céu será tal que consumirá os ímpios e os perversos, e aqueles que não se arrependem e não se santificam diante do Senhor. O nosso Deus, naquele dia, será um fogo consumidor; a intensidade deste fogo será tão grande que as próprias colinas, informa-nos o Salmista Davi em outro lugar, "se derreterão como cera diante da sua presença." O Profeta Isaías, ao falar do fogo ou do calor que acompanhará o segundo advento do Filho de Deus, declara que os montes escorrerão diante da sua presença. Os elementos que agora constituem estas montanhas escarpadas que vemos aqui neste continente e em todas as partes da terra por onde viajamos se derreterão com calor ardente, e escorrerão diante da presença do Senhor. O brilho deste fogo será maior do que o do sol em sua glória. Refiro-me ao nosso sol temporal e literal, de que recebemos luz e calor, como encontrareis registrado no último versículo do capítulo 24 de Isaías, que diz que, "quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião, e em Jerusalém, e perante os seus anciãos em glória, a lua será humilhada, e o sol se envergonhará." Com todo o brilho daquele luminar que ilumina esta criação, ele esconderá o seu rosto de vergonha; e os brilhantes luminares do céu ficarão, por assim dizer, confundidos, tão grande será a glória de sua presença — um fogo se consumindo diante dele, e toda a natureza sentindo o poder do Todo-Poderoso, que será exercido naquela grande ocasião. ¶
Poderão os ímpios suportar este calor intenso e não serem consumidos? Refiro-me agora aos seus tabernáculos físicos, os seus corpos temporais. Ouvi o que a profecia declarou a este respeito. Lede o último capítulo contido no Antigo Testamento; isso responderá à pergunta. ¶
"Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de modo que não lhes deixará nem raiz nem ramo." ¶
Notai, agora, quão completamente varrerá os soberbos e os que cometem impiedade da face desta criação. O fogo que procede da presença de Deus, na sua segunda vinda, arderá como fornalha, e não apenas afetará os montes e os elementos, de modo a derretê-los, mas também consumirá os soberbos e os que cometem impiedade da face do globo. Que efeito terá este calor intenso sobre os justos? Não mais do que a fornalha aquecida de Nabucodonosor teve sobre os hebreus que ali foram lançados; e, ainda que estivesse aquecida sete vezes mais do que costumava ser aquecida, e matasse aqueles que lançavam os seus companheiros nela, contudo os que foram lançados dentro não receberam dano algum, nem mesmo o cheiro do fogo em suas vestes. Foram protegidos por um milagre, e o fogo que matou os seus inimigos foi a sua preservação. Do mesmo modo, quando o Filho de Deus queimar os ímpios e reduzir os seus corpos a cinzas, tanto raiz quanto ramo, sem deixar remanescentes deles entre todo povo, nações e línguas, os justos estarão preparados para entrar no meio deste fogo flamejante sem receber dano algum; de fato, serão arrebatados até à própria presença de Deus, e serão rodeados por uma coluna de fogo, como o foi Moisés quando desceu do Monte Sinai, só que em medida muito maior; mas ele não terá poder algum sobre eles, na verdade será a sua proteção e salvação, a sua glória, felicidade e alegria. ¶
Para preparar o povo para aquele grande dia, é necessário que os santos sejam recolhidos, como predito no versículo 5, quando ele desse esta grande e magnífica revelação nos últimos dias, quando o Deus poderoso, o Senhor, falasse. Ele chamará os céus para auxiliar na grande obra dos últimos dias; e todos os anjos e as hostes celestiais, que cumprem as suas ordens, sairão como mensageiros velozes para executar os seus decretos e cumprir os seus propósitos, ao realizar este grande recolhimento de seus eleitos dos quatro cantos da terra. Quem serão eles? Aqueles que fizeram um convênio com ele por meio do sacrifício. Que tipo de sacrifício? O sacrifício de tudo o que é terreno que se exige, os seus países natais, os seus pais e mães, pois, em muitos casos, os que obedecem ao Evangelho são obrigados a romper os laços terrenos mais próximos — pais de seus filhos, filhos de seus pais, e parentes de seus parentes, para que possam vir e ser recolhidos num só grande corpo, em preparação para a vinda do Filho de Deus em fogo flamejante. ¶
Há muita gente que tem crido que a vinda do nosso Senhor estava próxima. Poderíamos referir muitas pessoas pelo nome que chegaram até a marcar datas para a sua vinda — certos dias, meses e anos particulares em que o Senhor se revelaria do céu. Mas essas pessoas negligenciaram completamente as profecias a respeito da grande obra preparatória para a sua vinda. Se tivessem lido com atenção, e, em vez de estudar datas, tivessem procurado cuidadosamente os grandes propósitos que devem ser cumpridos antes de ele vir, teriam sabido que as suas predições eram falsas. Há de haver um grande recolhimento de todo o seu povo dos quatro cantos da terra num só corpo, uma só família, por assim dizer; um só povo consolidado numa única região do país, antes que ele venha. ¶
Permiti-me referir-me a este grande recolhimento dos santos de toda terra e nação; encontramo-lo predito em várias partes dos escritos proféticos. Referir-me-ei primeiro à predição registrada, se bem me lembro, no capítulo 43 de Isaías. Há uma predição de que, antes do grande dia de descanso, o Senhor falará de novo e dirá ao norte: dá; e ao sul: não retenhas! Trazei os meus filhos de longe e as minhas filhas das extremidades da terra — a mesma coisa a que Davi se refere. ¶
Esta não é uma obra a ser realizada pela sabedoria do homem, ou por uma combinação dos homens mais sábios, mas não inspirados, entre as nações; mas é o Senhor quem há de falar, e dirá ao norte: dá. Uma nova revelação há de ser dada: ele dirá ao sul: não retenhas, e ordenará que os seus filhos e as suas filhas sejam trazidos das extremidades da terra. ¶
Já aconteceu algo assim em nossos dias? Falou o Deus poderoso, o Senhor, em nossos dias? Sim, e ligado a esta proclamação, somos informados de que os eleitos de Deus hão de ser recolhidos dos quatro ventos do céu; e temos sido chamados a realizar esta obra. Quanto temos realizado durante os quarenta anos que se passaram desde que o Senhor falou? Nos anos de 1827, 28, 29 e 30, o Senhor falou e deu muitas revelações, entre as quais este registro chamado o Livro de Mórmon, desvendando-nos não apenas o Evangelho eterno em toda a sua clareza, simplicidade e pureza antiga, tal como foi ensinado aos habitantes deste continente há mil e oitocentos anos; mas também muitas predições sagradas relativas à grande obra que Deus realizaria quando trouxesse este registro à luz nos últimos dias. Este livro foi traduzido por um poderoso profeta que foi inspirado por Deus para este propósito; e, desde que veio à luz — no curto espaço de quarenta anos — tem sido publicado em muitas das línguas da terra. Saiu em alemão, italiano, francês, galês e nas línguas escandinavas, e também na língua falada pelos habitantes das Ilhas Sandwich; e tem sido proclamado, por assim dizer, dos telhados, nas ruas e estradas, sobre as colinas e montanhas, e em todos os lugares públicos, tanto quanto os missionários e élderes desta Igreja puderam encontrar acesso e liberdade para o proclamar; e onde quer que o povo se tenha arrependido e se voltado de seus pecados, e tenha desejado receber o Evangelho eterno, tem continuado a se recolher em um só. Este recolhimento tem prosseguido por quase quarenta anos, até que os seus efeitos possam agora ser vistos neste Território, por qualquer pessoa que o percorra, nas cidades e vilas que foram construídas, nos povoados que foram formados, nas casas de reunião, escolas e salões públicos que foram erguidos; e nas cercas das fazendas, e na abertura de canais de água e valas para irrigar o solo. Digo que aqueles que percorrerem este Território poderão ver alguns dos efeitos do recolhimento dos santos que fizeram um convênio com o Senhor por sacrifício. Se nos tivéssemos reunido num país bem arborizado, onde pudéssemos sair e conseguir uma carga de estacas para cercas ou lenha antes do café da manhã; se nos tivéssemos estabelecido num país que não fosse, comparativamente, um deserto, e que fosse abençoado com as chuvas do céu, sem dúvida teríamos realizado muito mais do que agora vemos. Mas o Senhor propositalmente nos conduziu a este deserto para cumprir a profecia. Muita gente, talvez, reflita e se admire de termos vindo para um distrito estéril e árido, habitado por selvagens hostis, e que, a toda aparência natural, não sustentaria uma população agrícola. Mas o Senhor nos trouxe a um país desta descrição, a fim de cumprir profecias que devem se realizar antes que "o nosso Deus venha em fogo flamejante." ¶
Em prova disso, permiti-me referir-me à natureza do país, à redenção do deserto, e assim por diante, que há de acontecer antes que o Senhor venha. Referir-me-ei agora a alguns dos ditos do Profeta Isaías. Nos dois últimos versículos de seu capítulo 34, ele diz: ¶
"Buscai no livro do Senhor, e lede; nenhuma dessas coisas falhará, nem uma nem outra faltará, porque a minha própria boca o ordenou, e o seu espírito mesmo as juntará. ¶
"Porque ele mesmo lançou as sortes por eles, e a sua mão lha repartiu com o cordel; para sempre a possuirão, de geração em geração habitarão nela." ¶
No capítulo 35, versículos primeiro e segundo, encontrareis estas palavras: ¶
"O deserto e os lugares secos se alegrarão disso, e o ermo exultará e florescerá como a rosa. ¶
"Abundantemente florescerá, e também se rejubilará de alegria e exultará; a glória do Líbano se lhe deu, o esplendor do Carmelo e Sarom; eles verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus." ¶
Notai agora que o Senhor, por seu Espírito, há de realizar um grande recolhimento de seu povo nos últimos dias, e somos aconselhados a buscar no livro do Senhor e aprender a respeito deste recolhimento, e de como os seus santos deveriam habitar a terra. Ela deveria ser dividida a eles por sorteio, o mesmo que muita gente recebeu as suas heranças quando vieram a este deserto. Lançaram sortes, e tiraram os seus quinhões e heranças. "E o deserto e os lugares solitários se alegrarão por causa deles." Se conseguirdes encontrar um país que responda melhor a esta descrição em qualquer dos quatro cantos da terra, gostaria de sabê-lo. Quando chegamos aqui, o país, a toda aparência natural, era tão árido que parecia impossível estabelecer nele um povo. Mas vedes o que temos realizado. Não pela nossa própria sabedoria, nem pela nossa própria força, mas por termos sido recolhidos pela voz do Senhor e por seu mandamento, e por termos sido guiados e dirigidos pelo espírito de inspiração. ¶
Depois de recolhidos, o deserto há de se alegrar e florescer como a rosa. Quantas vezes já pensei nisso na primavera, quando toda esta cidade, cobrindo umas quatro, ou talvez cinco milhas quadradas, de pomares e jardins, está em flor! É então a hora de perceber quão literalmente esta profecia se cumpriu. Todos sabem que, por mais fértil que agora seja, quando aqui chegamos era chamado um deserto. Se não me credes, ide aos mapas antigos, e encontrareis esta seção do país registrada como "O Grande Deserto Americano." Esse era o nome que se lhe dava então. As pessoas, mesmo reunidas em grande companhia, e bem armadas, dificilmente se aventurariam a atravessar este país desértico, era tão inóspito e proibitivo, não tendo, aparentemente, as chuvas do céu jamais caído sobre ele. Quando chegamos, podíamos cavar cerca de dezoito polegadas, ou dois pés, e em outros lugares não havia umidade alguma, e parecia que nunca tinha chovido aqui. Mas "o deserto e o lugar solitário serão alegrados por causa deles, e o deserto florescerá abundantemente, com alegria e cânticos." ¶
"Mas," diz um, "talvez isto tivesse relação com algum outro período, e não com a obra preparatória para a vinda do Senhor." Leiamos alguns versículos mais adiante neste capítulo 35 das profecias de Isaías. Os versículos terceiro e quarto dizem: ¶
"Fortalecei as mãos fracas, e firmai os joelhos que vacilam. ¶
"Dizei aos turbados de coração: Sede fortes, não temais; eis que o vosso Deus virá com vingança, com recompensa de Deus; ele virá, e vos salvará." ¶
Ora, notai, esta não é a primeira vinda. Ele não veio com vingança então; veio para ser cuspido, para ser manso e humilde, para ser ridicularizado pela turba, se assim o quisesse, e finalmente para ser levantado na cruz e crucificado pelos pecados do mundo. Mas o povo que há de ser recolhido, e por quem o deserto há de se alegrar, é chamado a não temer — "Não sejais desanimados, não vos desalenteis." Diz o Profeta: "Sede fortes, não temais, pois eis que o vosso Deus virá com vingança; ele virá com recompensa e vos salvará," isto é, vós que estais no deserto. Então operar-se-ão de novo esplêndidos milagres, como nos dias antigos. Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão; então "os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará, porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros, no ermo." ¶
Santos dos Últimos Dias, e o que peço de vós poderia pedir de todo o povo do Território, tendes visto um cumprimento deste dito do Profeta Isaías desde que vos estabelecestes aqui no deserto? Houve algo como nascentes brotando no ermo e ribeiros de água no deserto? Sim, não em um ou dois casos isolados, mas em quase todo povoado por todo este Território. Muitos lugares em que, nos primeiros dias, não havia água suficiente para um povoado de vinte indivíduos, agora sustentam centenas deles. De que modo? Pelo grande aumento das águas. Como era Salt Lake quando aqui chegamos pela primeira vez? Nós, isto é, alguns dos Pioneiros, fomos, em julho de 1847, até as margens do Salt Lake, ao que se chama Black Rock. Alguns de nós fomos nos banhar, e podíamos caminhar até Black Rock, e olhar para a água de cada lado. Mas como é agora? As águas estão uns dez pés acima daquela terra em que pisávamos então. Que se passa? Não deveriam as águas do Lago ter diminuído, visto que as águas dos diversos riachos que, antes de nossa chegada, despejavam o seu conteúdo nele, são agora dirigidas amplamente sobre milhares e dezenas de milhares de acres de terra? Certamente se pensaria que sim, pois, quando toda esta água é lançada sobre a terra, evapora em vez de ir aumentar o volume do Grande Lago Salgado; mas, em vez de diminuir, as águas do Lago subiram cerca de dez ou doze pés acima do nível em que existiam em 1847, quando o vi pela primeira vez. Assim, ribeiros brotaram no deserto, e águas no ermo, como está profetizado, não apenas neste capítulo, mas também em várias partes dos Salmos. ¶
Ao falar do grande dia da vinda do Senhor, quão frequentemente Isaías e Davi falam do deserto, e das águas, rios e fontes que hão de brotar para regar a terra árida e sedenta! "E a terra seca se tornará em tanques, e a terra sedenta, em mananciais de águas." ¶
Poderíamos continuar e falar sobre a estrada real que o Senhor ali teria, que também foi levantada desde que aqui chegamos. Até o mundo, que nada sabe destas profecias, a chama de estrada real. Creio que direi, de passagem, algo sobre a estrada real, pois o mesmo profeta que prediz esta alteração no deserto também diz que ali haverá uma estrada real. Permiti-me referir-me a outra profecia sobre esta estrada real, do mesmo profeta. Diz assim: "E o Senhor fez ouvir até as extremidades da terra: Dizei à filha de Sião: Eis que a tua salvação vem; eis que vem com ele o seu galardão, e a sua obra, diante dele." Mas na frase que precede esta, o Profeta diz: "Aplainai, aplainai a estrada, limpai-a das pedras; preparai o caminho ao povo; arvorai a bandeira aos povos." Vêm então as palavras que citei. Como foi construída a grande estrada real que atravessa este continente? Deveríeis sabê-lo, pois fostes vós que a construístes através destas montanhas; fostes vós que construístes umas quatrocentas milhas desta ferrovia, portanto sabeis como foi feito. Limpastes as pedras? Preparastes os lugares nivelados para esta grande estrada real que o Profeta havia predito? Aplanastes onde havia depressões? Preenchestes as depressões e limpastes as pedras a fim de a tornar nivelada e conveniente? Ah, sim. Fizestes túneis e portões? Não suponho que o antigo profeta soubesse o que era um túnel, por isso diz: "passai, passai pelas portas; aplainai, aplainai a estrada." Sem dúvida ele viu em visão como era a ferrovia, viu as carruagens correndo com velocidade quase de relâmpago, mergulhando nas montanhas de um lado, e, pouco depois, viu-as saindo do outro lado; e não soube como representar isso melhor do que falar disso como um portão — "passai, passai pelas portas," etc. "Preparai o caminho ao povo, aplainai, aplainai a estrada, e arvorai a bandeira aos povos;" e então vêm aquelas palavras notáveis, mostrando que era uma estrada real a ser aplainada antes da vinda do Filho de Deus. "O Senhor fez ouvir até as extremidades da terra: Dizei à filha de Sião: Eis que a tua salvação vem; eis que vem com ele o seu galardão, e a sua obra, diante dele." ¶
Não vedes, por estas passagens, que esta é uma obra dos últimos dias? Que há uma proclamação ligada ao aplainamento desta estrada real? E que é uma proclamação que se refere a toda nação, tribo, língua e povo? Deus haveria de falar, dar uma mensagem, enviar os seus servos como missionários; estes haveriam de publicar aquela mensagem até as extremidades do mundo, e declarar a todo o povo que o Senhor haveria de vir, "Eis que a tua salvação vem, e vem com ele o seu galardão, e a sua obra diante dele." O Profeta diz ainda que "os chamarão," aqueles para quem esta estrada real foi construída para que o seu caminho fosse preparado, e para quem uma bandeira deveria ser erguida, "povo santo, remidos do Senhor; e tu serás chamada: Buscada, a cidade não desamparada." Ah, quão diferente da velha Jerusalém, uma cidade que tem sido desamparada! Já passam quase dois mil anos desde que o Senhor a desamparou, e os judeus têm sido desamparados, e espalhados entre todo o povo. ¶
Mas, quando o Senhor levantar esta estrada real, limpar as pedras, enviar a sua proclamação e recolher os seus santos que fizeram um convênio por sacrifício, eles construirão uma cidade, uma que há de ser buscada. A velha Jerusalém não foi buscada; foi construída antes de os judeus irem habitá-la. Foi uma das primeiras cidades das antigas nações de Canaã. Mas esta cidade dos últimos dias, chamada Sião, há de ser buscada, e o povo que a havia de procurar havia de ser um povo muito bom. "Chamá-los-ão: Povo santo, remidos do Senhor; e tu serás chamada: Buscada, a cidade não desamparada." ¶
Ora, com todas as dificuldades que aqui enfrentamos, e com todas as imaginações dos nossos inimigos a nosso respeito, confio e espero humildemente que tenha chegado o tempo para que esta profecia se cumpra literalmente; quando esta cidade do Senhor, que é edificada segundo esta profecia, não será desamparada. Espero que o Senhor nosso Deus proteja o seu povo e lhe garanta os direitos já garantidos pela Constituição do nosso País a toda denominação religiosa na terra. ¶
Há algumas outras profecias a respeito do recolhimento dos santos. Creio que lerei uma que tem relação com a nossa vinda a este lugar. Encontrar-se-á no Salmo 107, e é muito aplicável à jornada que realizamos quando aqui viemos. ¶
"Louvai ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre. ¶
"Digam-no os remidos do Senhor, os que redimiu da mão do inimigo, ¶
"E os que congregou das terras do oriente e do ocidente, do norte e do sul. ¶
"Andaram desgarrados pelo deserto, por caminhos solitários; não acharam cidade para habitar. ¶
"Famintos e sedentos, a sua alma neles desfalecia. ¶
"E clamaram ao Senhor na sua angústia, e ele os livrou das suas dificuldades. ¶
"E os levou por caminho direito, para irem a uma cidade em que habitassem. ¶
"Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens!" ¶
Isto tem se cumprido desde o dia em que Davi o proferiu. "Digam-no os remidos do Senhor!" Que remidos do Senhor? Não aqueles que foram recolhidos da terra do Egito antes dos dias de Davi, mas os que são recolhidos de todas as terras, diz o profeta, "do oriente e do ocidente, e do norte e do sul." Dos quatro pontos cardeais, de toda nação e todo clima. "Que louvem ao Senhor e dêem graças ao seu santo nome, por causa de sua misericórdia e de sua bondade para com eles." Não haviam de achar tudo, a princípio, ao seu inteiro agrado; a sua jornada havia de ser por caminho solitário; não haviam de encontrar cidade para habitar. Posso dar o meu testemunho disto, pois estive entre os pioneiros, e, quando aqui chegamos, não encontramos cidade grande alguma, com casas já construídas para nelas entrar. Tivemos de viver em nossas carroças, e tivemos de construir um pequeno forte para nos defendermos dos índios semidesnudos. E assim nos estabelecemos no meio de uma terra ressequida e sedenta — um deserto; e aqui, nesta região, onde a solidão era tão grande que só era quebrada pelos gritos dos selvagens e o uivar das feras, tivemos de nos pôr a trabalhar para preparar uma cidade para habitação. Tivemos algumas aflições — fome e sede; "e a sua alma neles desfalecia," diz Davi, "mas clamaram ao Senhor em suas aflições, e ele teve misericórdia deles, e os livrou de suas angústias." ¶
Nos versículos 31 e 32, o Salmista diz — ¶
"Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens! ¶
"Exaltem-no na congregação do povo, e glorifiquem-no na assembleia dos anciãos." ¶
Por que haveriam de estar tão contentes para o louvar? Ele nos diz nos versículos seguintes — ¶
"Ele converte os rios em um deserto, e as fontes, em terra sedenta, ¶
"A terra frutífera em estéril, pela maldade dos que nela habitam." ¶
Isto tem relação com o que há de suceder nas terras férteis dos gentios, com o tempo; mas ele há de inverter isso no que diz respeito ao seu povo no deserto, pois converte o deserto em lagoa, e a terra seca, em fontes; e "ali faz habitar os famintos, para que edifiquem cidade para habitação." Tal como fizestes, irmãos e irmãs. "E semeiam os campos e plantam vinhas, que produzem fruto abundante. Também os abençoa, de modo que se multiplicam muito; e o seu gado não diminui." ¶
Ter-se-á isto cumprido? Estive ausente muitos anos, e não sei tanto a respeito disso quanto alguns destes velhos fazendeiros; mas penso que, se percorrermos este Território, descobriremos que o nosso gado não diminuiu desde que aqui chegamos. ¶
Há outra profecia neste Salmo para a qual chamarei a vossa atenção, ligada a este povo que havia de ser recolhido de todas as terras para um ermo e lugar solitário. O Profeta diz — "Porém livra o necessitado da opressão, pondo-o em um lugar alto, e multiplica as famílias como rebanhos." Ora, é isto verdade? Perguntaria a alguns dos meus irmãos aqui, já que estive tanto tempo ausente, há algum homem aqui que tenha famílias como rebanhos? Se tendes, estais cumprindo esta profecia do Salmista. Creio ter ouvido falar e ter visto, em minhas viagens pelo Território, um bom número de tais homens, homens bastante pobres, exatamente como os que Davi menciona. Que coisas maravilhosas acontecem nos últimos dias, para cumprir a profecia! "Os retos o verão, e se alegrarão, e toda a iniquidade tapará a boca." Esta última cláusula ainda está por se cumprir, ainda não aconteceu. "Quem é sábio observará essas coisas, e eles compreenderão as benignidades do Senhor." Amém. ¶