Dívidas Ingratidão Confiança Nossa Religião
Brigham Young
Tenho algumas palavras a dizer aos Santos dos Últimos Dias a respeito de tomar dinheiro emprestado e não o restituir. O indivíduo mencionado pelo Irmão Carrington não é o único a fazer isto. Se lhes fizéssemos justiça, creio que deveríamos privá-los da comunhão dos Santos até que aprendessem a manter sua palavra e a agir honradamente com seus irmãos. Já é bastante ruim, muito ruim, tomar emprestado de um inimigo e não lhe restituir; fazer isto está abaixo do caráter de qualquer ser humano; mas todo aquele que toma emprestado de um amigo, e especialmente dos pobres, não merece a comunhão dos Santos se não restituir. Se alguém na congregação estiver disposto a apresentar uma moção nesse sentido, eu certamente a colocaria em votação. Mas, deixando isso de lado, há circunstâncias que são desanimadoras, e que naturalmente enfraquecem a fé e a confiança dos Santos, e poucas coisas o fazem mais do que enviar dinheiro para trazer os pobres para casa, a Sião, e, depois de lhes ensinar a cuidar de si mesmos, a acumular ao seu redor as necessidades da vida, quando se tornam confortáveis e têm um pouco de sobra, eles levantarem o calcanhar contra Deus e seu Ungido. E isto não raro acontece. ¶
Ao percorrer o Território, olho para as congregações dos Santos e vejo uma percentagem bem grande de pessoas que, eu sei, jamais em suas vidas possuíram uma casa, um palmo de terra, um cavalo, uma carroça, uma carruagem, um boi, uma vaca, uma ovelha, ou sequer uma ave. Mas reuni-os aqui, tornai-os confortáveis, ponde-os em circunstâncias felizes, e muitas vezes eles esquecem seu Deus, seus convênios e seus benfeitores. Não conheço, à exceção do pecado imperdoável, nenhum pecado maior do que o da ingratidão; e penso que muitos deste povo são culpados dele. Direi, contudo, que se há nesta congregação aqueles que ofereceram aos pobres Santos alguma perspectiva de ajudá-los a se reunir, mantende vossa palavra com eles. ¶
Uma questão muito séria frequentemente se apresenta em minha mente a respeito do caráter dos homens e das mulheres. É esta: "Nosso caráter nos pertence?" Poderíamos dizer: "Sim, nós formamos este caráter." Suponde que tivéssemos a sorte de formar um caráter bom e honesto na mente e na fé daqueles que nos conhecem--não pertencerá esse caráter também a nossos vizinhos, ainda que sejamos nós os seus formadores? E eu gostaria de perguntar: Temos nós o direito de destruí-lo? É uma questão séria para mim. Se temos confiança uns nos outros, e nossa conduta tem sido tal que criamos confiança nos sentimentos de nossos vizinhos para conosco, temos nós o direito de destruir essa confiança? Não é isso um sacrilégio? Responderei simplesmente dando minha opinião a respeito de mim mesmo. Segundo o conhecimento que possuo, é muito mais fácil para um indivíduo preservar um bom caráter do que formar e refazer um, uma vez perdido. É muito mais fácil manter um forte quando está bem armado e defendido do que entregá-lo às mãos do inimigo e depois recuperá-lo. Portanto, é melhor conservarmos nosso caráter, se é bom, do que permitir que o inimigo no-lo roube. ¶
Ora, aos Santos dos Últimos Dias direi que, quando recebestes o evangelho em terras estrangeiras, não recebestes, em comparação, mais do que uma criança recebe na escola quando aprende sua primeira lição. Se ela domina o alfabeto, pensa estar progredindo muito bem. Se os Santos recebem o alfabeto no estrangeiro, estão indo bem. Quando chegam aqui, têm mais a aprender. A escola em que estamos jamais cessará; as lições que temos de aprender jamais serão menores do que as que recebemos: elas jamais terão fim; portanto é importante que nos disciplinemos e treinemos até estarmos em sujeição à mente e à vontade do céu. ¶
Ao percorrer o mundo, vejo que a maioria dos pais está muito ansiosa por governar e controlar seus filhos. Pelo que tenho observado, tenho visto mais pais incapazes de se controlar a si mesmos do que jamais vi filhos incapazes de se controlar. Se uma mãe deseja controlar seu filho, que aprenda, em primeiro lugar, a controlar-se a si mesma; então poderá ter êxito em trazer o filho à perfeita sujeição de sua vontade. Mas, se ela não se controla, como pode esperar que uma criança--uma infante em entendimento--seja mais sábia, prudente e melhor do que alguém já crescido e amadurecido? Penso que seria pedir demais. Se nos disciplinarmos e trouxermos nosso próprio gênio e disposição à sujeição, então teremos influência para fazer o bem sobre as mentes de nossos conhecidos; mas, se não nos controlarmos, como poderemos ter influência sobre os outros? Suponde que dois homens se encontrem, por exemplo, dois vizinhos, entre os quais há uma desavença, e um deles está cheio de ira e cólera e pronto para resolver o assunto ali mesmo; mas o outro, calmo e tranquilo de sentimentos, diz: "Vizinho, parai um momento, examinemos e raciocinemos sobre este assunto; percebo que estais irritado esta manhã, não estais de bom humor, e não estais em condições de considerar este assunto com justiça agora. Esperai alguns momentos e vede se esta influência maligna se afastará de vós. Então procuraremos rever este assunto cuidadosamente e saber quem é o culpado." Ora, aquele que está calmo e cheio de juízo, discrição e paciência logo supera a influência oposta. Qual dos dois tem o domínio? O que está irado, ou o que está cheio de paciência? Ora, o que está irado logo se submete, em seus próprios sentimentos, ao seu superior. Quem é o superior? Aquele que possuiu sua própria alma. Se seguirmos este rumo, ganharemos influência. ¶
Mas sabemos, o cristão sabe, o pagão sabe, e todo o mundo da humanidade sabe, e é reconhecido por todos, que a confiança se perdeu; os membros da família humana não têm confiança uns nos outros, seja como nações, indivíduos, reis, potentados, homens de estado, ou como funcionários de governos; e lamento dizer que as pessoas não têm confiança umas nas outras nem mesmo como cristãos. A confiança está perdida. A obra em que vós e eu nos alistamos é restaurar a confiança na mente do povo; e quando ouço de circunstâncias em que irmãos quebram sua palavra, considero isto uma mácula sobre o caráter deste povo. Devemos manter nossa palavra uns com os outros. E se tivermos dificuldade ou mal-entendido uns com os outros, conversemos sobre isso, examinemos o assunto minuciosa, séria e discretamente, e descobriremos que todas as dificuldades se remediarão desta forma mais facilmente do que de qualquer outra; e descobriremos também que quase toda dificuldade que surge entre os habitantes da terra provém de mal-entendido; e se realmente existe um erro de intenção e propósito, se o assunto é examinado da maneira que aconselhei, quem errou geralmente está disposto a chegar a um acordo. ¶
Esta restauração da confiança recai sobre nós; façamos, então, o que pudermos em nossa humilde esfera para fazê-lo primeiro entre nós mesmos, e aos poucos isso alcançará os outros. Tenho a satisfação de dizer que aqueles que não são dos nossos têm muito mais confiança em nós, em muitos aspectos, refiro-me como homens de negócios e comerciantes, do que em qualquer outra comunidade neste continente; e não creio que haja, em toda a Cristandade, uma comunidade cujos membros paguem suas dívidas tão bem quanto os Santos dos Últimos Dias. Mas eles não estão à altura, e são inadimplentes em muitos aspectos; contudo talvez não sejam tão culpados quanto as aparências externas parecem indicar, pois há tantos homens que negociam com base em expectativas, crendo realmente que seus negócios são tão promissores e favoráveis que serão capazes de fechar as contas e cumprir todos os seus planos. Tais pessoas têm mais confiança em si mesmas e na fortuna futura do que deveriam ter; e por isso os Santos dos Últimos Dias frequentemente falham em suas transações e compromissos comerciais uns com os outros. Como é desejável que sejamos prontos uns com os outros em todos os aspectos! A falha nisto é, com frequência, a origem de má vontade e de má reputação. Quantas vezes tenho ouvido a expressão, desde a minha juventude, "Fulano é mau vizinho," ou "tal pessoa é mau vizinho!" Mas, na maioria dos casos que chegaram ao meu conhecimento, aprendi que o "mau vizinho" quer de volta aquilo que outros lhe tomaram emprestado, e na hora prometida; e se eles não são prontos e fiéis à sua palavra, ele fala palavras desagradáveis e se irrita. E, de modo geral, tenho notado que os "maus vizinhos" numa localidade são, em quase todos os casos, homens muito pontuais, e, porque os outros não o são, surgem as dificuldades; por exemplo, o Senhor A. vai ao Senhor B. e diz: "Posso tomar emprestada hoje a sua enxada, arado ou carroça?" Diz o Senhor B.: "Sim, senhor, pode levá-la, se a devolver esta noite, pois vou precisar dela cedo amanhã de manhã." Mas chega a manhã seguinte e o arado não foi devolvido, e ali está a parelha, o empregado e o menino esperando por ele, e assim se cria a irritação. Estas pequenas barreiras deveriam ser postas. É difícil desfrutarmos daquele espírito de paz que deveríamos desfrutar, a menos que sejamos muito pontuais em nossas relações uns com os outros. Às vezes dizemos aos irmãos: "Não vemos nem compreendemos como no mundo podeis desfrutar de vossa religião sem uma boa cerca ao redor do vosso jardim; tendes um belo jardim, com boas hortaliças e frutas crescendo, mas sem cerca ao redor." "Bem, é lei aqui que as pessoas cuidem de seu gado." "Sim, mas não o fazem." Neste jardim pode haver um canteiro de feijões crescendo bem, ou algumas árvores frutíferas jovens se desenvolvendo vigorosamente. O dono do jardim se ajoelha para a oração matinal, e logo ouve um alvoroço ao redor da casa. "O que é isso?" "Ora, o gado está no jardim." Penso que ele não consegue orar muito. Isso destrói o espírito de oração e lhe tira a paz. Mas que ele ponha uma boa cerca ao redor de seu jardim, pomar ou campo, e poderá ajoelhar-se e orar em paz, e pedir a seu Pai Celestial as bênçãos que deseja, sem ser interrompido, e o diabo fica do lado de fora da cerca. Bem, em todas estas coisas, guardai-vos contra a tentação, contra esta vida desregrada, e sede pontuais em tudo, e especialmente em pagar vossas dívidas. ¶
O Fundo Perpétuo de Emigração não está fazendo nada nesta temporada. ¶
Mas é penoso ouvir os clamores, os desejos, as necessidades e as súplicas dos pobres Santos. Se agirmos corretamente, teremos abundância para reunir os pobres. Todos devem ter uma chance, ainda que muitos deles abandonem seu Deus, neguem seu Salvador, abandonem seus irmãos e se voltem e se tornem traidores; contudo devem ter sua chance. Reuni-os, dai-lhes toda a chance possível para a vida e a salvação, e se a recebem bem, bem-aventurados são eles; se a rejeitam, seu sangue caia sobre suas próprias vestes. ¶
Quero dizer algumas palavras a respeito de nossa religião, nossa fé e crença espiritual, a meus amigos que aqui se encontram. Frequentemente sou abordado com a expressão: "Penso que fizestes maravilhas aqui, mas não creio em nada de vossa religião." Ora, certamente credes. Não há um infiel no mundo que não creia em nossa religião, mais ou menos; e o mesmo é verdade quanto aos pagãos, e também quanto aos cristãos professos e seus ministros; mas eles não sabem como defini-la. Creem num Deus, mas não sabem como definir esse Deus. Se recorrerem à Bíblia e lerem, ela dirá o que é Deus; descreverá o caráter e a forma do próprio Deus a quem os cristãos servem. Ele tem corpo, partes e paixões; tem sentimentos, sensibilidade, princípio, atributos e poderes, e esta Bíblia o comprova definitivamente a toda pessoa que realmente crê que a Bíblia é verdadeira. ¶
Crê o mundo cristão no Filho de Deus--o Salvador do mundo? Dizem que sim, e nós certamente também; e também cremos que ele veio e morreu pelos pecadores--morreu para salvar o mundo. Crê o mundo cristão nisso? Sim, dizem que sim. Não cremos nós da mesma forma? Sim. Eles não sabem como defini-lo, mas nós sabemos. Creem eles nos dons e nas graças de Deus? Certamente creem. Já ouvi ministros começarem a pregar e a ler das escrituras e a dar suas interpretações do que o Senhor quis dizer. Já lhes disse: "deve haver mais revelação no mundo do que nunca, pois como podeis dizer o que o Senhor quer dizer, se não o lestes, a menos que ele vo-lo diga?" Aqui está a palavra de homens inspirados, mas dizeis que ela não significa o que diz. Eu creio que ela significa o que diz, onde é traduzida corretamente. Creio que homens inspirados disseram o que queriam dizer, e quiseram dizer o que disseram. Creio que Jesus disse precisamente o que quis dizer, e quis dizer precisamente o que disse. Creem os cristãos nisto? Dizem que sim, e já ouvi ministros do evangelho declararem que criam que cada palavra da Bíblia era a palavra de Deus. Já lhes disse: "credes mais do que eu." Creio que as palavras de Deus estão ali; creio que as palavras do diabo estão ali; creio que as palavras dos homens e as palavras dos anjos estão ali; e não é só isso--creio que as palavras de um bruto mudo estão ali. Recordo-me de um dos profetas cavalgando, e profetizando contra Israel, e o animal em que montava repreendeu sua loucura. ¶
Credes que tudo isto é a palavra de Deus? Se credes, certamente credes mais do que eu. As palavras do Senhor são as palavras do Senhor, e as revelações que Deus deu a respeito de si mesmo são verdadeiras. Quando Moisés escreveu e disse que o homem foi formado precisamente à imagem de Deus, ele escreveu a verdade. Somos os filhos de nosso Pai--sua prole, da mesma família; pertencemos a ele por direito de nascimento, e somos seus filhos, e Jesus é nosso irmão. Diz a Bíblia tudo isto? Tão claramente quanto as palavras podem dizer qualquer coisa. O mundo cristão crê no "mormonismo", e o "mormonismo" é a verdade. ¶
"Onde está o vosso código, o vosso credo particular?" pergunta alguém. Ele preenche a eternidade; é toda a verdade no céu, na terra ou no inferno. Isto é o "mormonismo". Ele abrange toda ciência verdadeira e toda filosofia verdadeira. É assim? Certamente que sim; mas a filosofia vã é o resultado de vãs conjecturas do cérebro dos homens. Quantas vezes ouvimos os homens filosofarem sobre o que teria sido se não estivéssemos aqui, e se a terra não tivesse sido feita, e se Adão não tivesse entrado no jardim do Éden, e se ele não tivesse pecado, qual teria sido a condição do mundo! Sempre argumentando a partir de premissas falsas, e sobre um fundamento falso. Fatos são fatos, e poderíamos igualmente argumentar que não há uma estrada de ferro atravessando este continente para transportar pessoas e mercadorias, quanto argumentar que Adão não esteve no jardim do Éden, que ele não caiu, que o pecado não está no mundo, ou que Jesus não é o Cristo. O negativo destas proposições é difícil de provar, mas o afirmativo é fácil de provar e compreender, e fácil de entender e viver segundo ele. ¶
Bem, direi que nossa religião não é nada mais nem nada menos do que a verdadeira ordem do céu--o sistema de leis pelo qual os Deuses e os anjos são governados. São eles governados por lei? Certamente. Não há ser em toda a eternidade que não seja governado por lei. Quem é que deseja ter liberdade e nenhuma lei? Os que são de baixo. Foi isto que Lúcifer, o Filho da Manhã, quis. Ele quis salvar o mundo sem lei, redimir o mundo sem ordem. Deve haver lei, ordem, regras e regulamentos; deve haver um sistema de governo; e, para haver um reino de Deus na terra, deve haver um rei, e súditos para governar, e território para que esses súditos habitem. Estas coisas compõem o reino de Deus, cujo embrião está agora sendo formado pelos Santos dos Últimos Dias, pela vontade do Pai, pelo poder de Deus; e eles perdurarão, e a verdade prevalecerá, e não precisamos temer quanto ao resultado. ¶
A verdadeira ciência, a verdadeira arte e o verdadeiro conhecimento abrangem tudo o que há no céu ou na terra, ou em toda a eternidade. Por eles todos os seres existem, sejam celestiais, terrestres ou telestiais; ou sejam os de baixo, que habitam com os diabos entre os condenados. Toda a verdade é nossa. Ora, se alguém quiser fazer uma troca, que venha! Se tendes verdades, e eu tenho erros, darei dez erros por uma verdade. Já disse muitas vezes a meus amigos: "se tenho erros, trazei-me vossa verdade." Abracei o evangelho do Filho de Deus, chamado pelo mundo de "mormonismo", simplesmente porque é verdadeiro; e não há poder, nem argumento, nem filosofia verdadeira, nem princípio de ciência, não há verdade do céu, nem palavra de Deus ou de anjos que diga o contrário; mas todos concordam que esta é a palavra de Deus, este é o poder de Deus, esta é a vida eterna; e podemos dizer, como se disse antigamente, "Esta é a vida eterna, conhecer a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste," e graças a Deus estamos razoavelmente bem familiarizados com ele, e com os princípios que ele revelou para a orientação e salvação dos filhos dos homens. Ele estende vida e salvação a todos, e diz: "Vinde a mim, todos vós, confins da terra, e sede salvos." Há alguma pessoa dispensada, alguma deixada de fora, a quem nenhum convite é enviado? Nenhuma. Foi para mim uma maravilha, quando cri pela primeira vez, como era que os cristãos professos do mundo precisavam se arrepender. Mas tomei esta posição em minha própria mente, e a segui até o fim. Disse eu: "Se não tenho pecados de que me arrepender, que eu me arrependa daquela religião que abracei e que não é verdadeira." Assim dizemos a todos os outros. Se fostes justos desde o vosso nascimento, e jamais cometestes pecados e transgressões conhecidos, sede batizados para cumprir toda a justiça, como o foi Jesus. Se podeis dizer que não tendes pecados de que vos arrepender, abandonai vossas falsas teorias, e amai e servi a Deus de coração indiviso. ¶
Deus vos abençoe. Amém. ¶