Salvação Temporal e Espiritual — Autossuficiência — Civilização
Brigham Young
Discurso do Presidente Brigham Young, proferido no Novo Tabernáculo, Salt Lake City, 8 de outubro de 1868. Relatado por David W. Evans. ¶
Desejo dizer algumas palavras à congregação, mas, se não estiverem perfeitamente quietos, será muito difícil para eles ouvirem, como de costume. Desejo falar ao povo sobre a salvação, e ensiná-los, como meus irmãos têm feito, a se preservarem. O objetivo dos ensinamentos nesta Conferência, e posso dizer que já há anos, tem sido ensinar o povo a se salvar diariamente, de um ponto de vista temporal, e também espiritualmente, para que, quando chegar o amanhã, sejam salvos naquele dia, e no dia seguinte, e assim continuem num estado de salvação todos os dias de sua vida. Segundo as tradições de nossos pais, a salvação do corpo e a salvação da alma não têm conexão uma com a outra. Isto não está de acordo com a doutrina que nos foi revelada em nossos dias. O reino que o Senhor está prestes a estabelecer e já começou na terra será, em toda parte e porção, um reino literal, um reino temporal e um reino espiritual; mas, enquanto estivermos num estado temporal, e possuirmos nossas coisas temporais, nossas capacidades devem corresponder ao reino espiritual em que cremos. Por conseguinte, temos um reino que é de fato espiritual, e que, aos olhos naturais, parece um reino temporal. Ainda assim, é o reino onde Deus habita, mesmo nestes tabernáculos terrenos; por conseguinte, estes tabernáculos devem ser preservados na verdade, na retidão, na pureza e na santidade, ou o Senhor não habitará neles. ¶
Somos chamados, como indivíduos, cada um de nós que formamos esta comunidade, a sair do mundo ímpio, de Babilônia. Todos os que creem na história dada por João, o "discípulo amado", sabem que viria o tempo em que o Senhor chamaria todas as pessoas, que creem Nele, se deleitam em fazer Sua vontade, e buscam compreender as exigências do céu, a se reunirem, saindo do meio de Babilônia. João escreveu claramente a respeito deste ajuntamento, e temos crido nisso. Somos chamados a sair do meio dos ímpios, como está escrito: "Sai dela, povo meu," isto é, saí de Babilônia. O que é Babilônia? Ora, é o mundo confuso: saí dela, pois, e cessai de participar de seus pecados, pois, se não o fizerdes, sereis participantes de suas pragas. ¶
Este povo, quer desejasse ou não se separar do restante da humanidade, foi forçado a fazê-lo. Perguntai aos Santos dos Últimos Dias se, depois de abraçarem o Evangelho, tiveram o privilégio de se associar com antigos amigos e vizinhos nos mesmos termos em que o faziam antes de receber o Evangelho, e suas respostas serão que o fio de afeto que antes existia pareceu se romper, que antigos amigos os abandonaram, passaram por eles e desviaram os olhos para outro lado, e mal falavam mesmo quando se encontravam em companhia. Não é este o fato? Assim tem sido, tanto quanto vai a minha experiência, e tive uma oportunidade razoável de testar o assunto. Fomos forçados a nos separar, estivemos sob a necessidade de deixar a sociedade daqueles que não criam como nós críamos. Fomos expulsos de nossos lares uma vez e outra sem o privilégio de dispor de nossa propriedade, e recebemos com alegria repetidas vezes o espólio de nossos bens, até que estivemos sob a necessidade de fugir para alguma terra onde não houvesse ninguém a quem pudéssemos incomodar. ¶
Se incomodamos tanto assim os nossos vizinhos, surge naturalmente a pergunta: de onde procedia esse incômodo? Era de beber e farrear, ou de gritar nas ruas à noite? Era de festejar de dia ou de noite? Era de invadir os direitos de nossos vizinhos? Não, de modo algum, nenhuma dessas causas. O que era, então? Este povo crê na revelação. Este povo cria, e crê, que o Senhor tem falado dos céus. Cria, e crê, que Deus enviou anjos para proclamar o Evangelho eterno, de acordo com o testemunho de João. Foi isto que deu origem à malícia, ao ódio e aos sentimentos vingativos que tão frequentemente têm se manifestado contra eles. Alguns podem dizer que foi o mundo político. Não foi bem assim, embora este tenha tido sua parte nisso. Pode-se dizer que foi o mundo moral, mas por que teriam eles esses sentimentos para conosco? São os Santos dos Últimos Dias imorais? Oh, não; sua fé ensina homens, mulheres e crianças a serem tão morais quanto as pessoas podem ser. Esta não pode ser, então, a razão. Não foi nem o mundo político nem o mundo moral; de onde, então, procedeu esse ódio? Do mundo fanaticamente religioso. Ali estava a origem e o fundamento daquele ódio e malícia que finalmente nos forçaram a nos separar do resto da humanidade. ¶
Quais são os ensinamentos do mundo cristão? Muitos de vós tiveram experiência entre eles, e podeis responder muito bem a esta pergunta. Tive experiência em seu meio, embora nunca tenha me curvado a seus credos. Nunca pude me submeter às suas doutrinas, pois ensinavam o que não estava na Bíblia, e negavam o que se encontrava na Bíblia; por conseguinte, não pude me converter ao seu fanatismo. Não o sou hoje. Quando posso ouvir um homem, de joelhos diante de uma congregação, orar para que Deus desça ao meio deles e seja um com eles — "Vem, ó Senhor, e habita conosco, abre-nos os céus, dá-nos o Espírito Santo, envia Teus anjos e ministra-nos" — e depois se levanta e prega ao povo que não existe tal coisa como revelações, nenhum dom do Espírito Santo, nenhuma tal coisa como o Senhor falando dos céus, ou os homens sabendo algo a respeito do Céu, não posso aceitar nem me curvar em obediência a tais absurdos. Perguntei ao mundo cristão: "Onde está o céu, onde habita o Senhor? Que tipo de Ser é Ele, e é Ele um Ser com tabernáculo?" A tudo isso a resposta deles seria "Não sabemos"; e eles têm mistificado o caráter da Deidade — nosso Pai e nosso Deus — a tal ponto que toda pessoa é deixada nas trevas, tateando seu caminho até a sepultura por um mundo escuro, frio, hostil e obscurecido, tão bem quanto puder. É este o estado da cristandade? Sim, verdadeiramente é. Mistificaram tudo a respeito de Deus, do céu e da eternidade, até que não há homem algum na terra, à parte dos Santos dos Últimos Dias, capaz de ensinar ao povo o caminho da vida e da salvação. Esta é a grande dificuldade, isto é o que agita o povo. Os sacerdotes estão na raiz do assunto. Em toda a história deste povo não podeis encontrar um único caso de uma turba jamais liderada senão por um sacerdote; e então o mundo político tirava proveito disso e vinha reclamar sua parte do despojo. ¶
Ora, embora seja tão comum clamar delusão ao se referir a este Evangelho dos Últimos Dias, frequentemente me pergunto se ele não circunscreve tudo o que é bom e verdadeiro, possuído seja pelo mundo infiel, seja pelo mundo cristão, por nossa Igreja Mãe, ou por qualquer uma de suas filhas? Se o mundo abraçasse o Evangelho que ensinamos, creriam em tudo o que é verdadeiro na fé católica? Sim, cada iota. Creriam em tudo o que é verdadeiro na fé episcopal, ou nas fés de todo o mundo cristão? Sim, cada partícula, cada excelência, cada boa palavra e obra que possuem está circunscrita e contida no Evangelho tal como ensinado pelos Santos dos Últimos Dias. Ide então ao mundo científico ou filosófico, e esta obra dos Últimos Dias circunscreve toda a verdade que eles possuem. Pois bem, então, perguntamos: por que somos piores que outras pessoas? Ensinamos nosso povo a jurar ou a tomar o nome de Deus em vão? Oh, não, pelo contrário; o proibimos. O Senhor diz: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão." Isto é bom em si mesmo? É. Somos piores que outros cristãos? Se assim é, em quê? Eles oram? Nós também. O mundo cristão crê em ser estritamente honesto? Os Santos dos Últimos Dias também. O mundo cristão crê em invadir os direitos de seus vizinhos? Não; nem os Santos dos Últimos Dias. O mundo cristão professa crer em caridade? Sim; e os Santos dos Últimos Dias mais abundantemente. Creem em Deus o Pai e em Deus o Filho? Sim, os Santos dos Últimos Dias também. Creem no Espírito Santo? Dizem que sim; os Santos dos Últimos Dias também. Em que, então, diferimos? Ora, os Santos dos Últimos Dias creem que Deus tem falado dos céus. O mundo cristão não crê nisso. Não creem que o Senhor tenha chamado Seu povo para sair do meio do mundo ímpio; mas os Santos dos Últimos Dias assim creem. Há algum mal em crerem assim? Frequentemente me pergunto se há algum mal num homem ter sua própria família ao seu redor, ou em se associar com seus amigos e vizinhos? Não, não há mal algum nisso; o mundo cristão crê que é privilégio do homem fazer isso. Há algum mal nos Santos dos Últimos Dias fazerem a mesma coisa? Nem um pouco. Não há lei alguma contra isso, no céu ou na terra, que saibamos. Em que, então, somos piores que nossos amigos cristãos, isto é, o chamado mundo cristão? São eles semelhantes a Cristo, ou não são? Este é um assunto que podemos testar lendo a Bíblia, se assim escolhermos fazer. Faltam-lhes sabedoria? Aparentemente sim. Se eles, como indivíduos, não o reconhecem, seus vizinhos o reconhecem. Pedem a Deus? Se pedem, não recebem. Onde há hoje na terra uma seita cristã, à parte dos Santos dos Últimos Dias, que pregue o Evangelho que Jesus ensinou — fé, arrependimento, batismo para a remissão dos pecados, a imposição de mãos para o dom do Espírito Santo, o dom de línguas, o dom de curar e o discernimento de espíritos? Quem, em todo o mundo cristão, crê em tal doutrina? Nenhum que saibamos, à parte dos Santos dos Últimos Dias. É isto que nos separa e traça a linha divisória. Pois bem, há algum mal em nos reunirmos e vivermos de acordo com as revelações que nos foram dadas? Nem um pouco. Prejudicamos alguém ao fazê-lo? Não, não prejudicamos. ¶
Este povo precisa se tornar autossuficiente, se crê nas revelações que lhe foram dadas. Verificareis, com o tempo, que esta mesma Babilônia, que os Santos de Deus são obrigados a deixar, cairá. Restará alguém na face da terra? Sim, provavelmente milhões. Quem serão eles? Ora, os servos e as servas do Todo-Poderoso, aqueles que O amam e O servem. Agora, farei a pergunta: supondo que isto seja verdade a respeito do ajuntamento dos Santos, e que Babilônia, ou um mundo confuso e ímpio, cesse suas operações tal como agora estão indo, e chegue o tempo de que se falou, quando os mercadores chorarão e lamentarão porque não há quem compre suas mercadorias, descerão os habitantes de Sião para comprar suas sedas e cetins e manterem seu comércio? Não. Com o tempo haverá um abismo entre os justos e os ímpios, de modo que não poderão negociar uns com os outros, e o intercâmbio nacional cessará. Não é assim agora, pois podem passar de um lado ao outro com facilidade. Mas, se este é o Reino de Deus, e se somos os Santos de Deus — deixo que julgueis por vós mesmos a este respeito — não nos é exigido que nos sustentemos e manufaturemos aquilo que consumimos, que cessemos nosso escambo, nosso comércio, nossa mistura, nossa bebida, nosso fumar, nosso mascar e nosso associar-nos com toda a imundície de Babilônia? Podeis julgar por vós mesmos quanto a isso. Mas posso dizer que temos nos empenhado por vinte e um anos nestes vales, e antes de virmos para cá, em trazer este povo a este ponto. Quando olhamos para senhoras e senhores, podemos ver que seus desejos são muitos, mas suas necessidades reais são muito poucas. Que os Santos dos Últimos Dias vejam agora que suas necessidades sejam supridas, e deixem de lado seus desejos por ora, e até que possamos manufaturar o que desejamos. Queremos que doravante sejais um povo autossuficiente. Ouvi isso, ó Israel! Ouvi isso, vizinhos, amigos e inimigos, isto é o que o Senhor exige deste povo. ¶
Fomos expulsos de nossos lares uma vez e outra vez. Fui expulso de uma boa e formosa propriedade e lar cinco vezes sem ter o privilégio de vendê-la, ou de tirar dela cinquenta centavos, e por quê? Porque eu era ladrão? Não. Porque meus irmãos eram ladrões? Não. Porque eram mentirosos? Não. Porque juravam em falso? Não. Porque eram vigaristas? Não. Porque eram adúlteros ou fornicadores? Não. Porque amavam e faziam mentiras? Não; mas porque criam que Deus tinha falado dos céus e conferido a Seu servo Joseph as chaves do santo sacerdócio de Seu Filho. Os Santos dos Últimos Dias criam nisso, e por assim crerem o mundo cristão disse: "Levantai-vos, saí deste lugar, queremos vossas casas e possessões." E as tomaram; mas juro a eles que jamais as tomarão novamente. (A congregação disse: Amém.) ¶
Quando o Coronel Kane esteve aqui, eu e outros lhe dissemos: "Coronel, vereis que isto será a cunha que abrirá a divisão de nosso governo." Dissemos: "Se o Governo dos Estados Unidos consentir em dispersar este povo novamente, e tomar em suas próprias mãos despedaçar-nos, eles próprios se despedaçarão." Despedaçaram-se? Tiveram guerra? Respondei vós mesmos à pergunta. Já fizeram a paz? Respondei por vós mesmos. Existe hoje ainda tal coisa como os trinta e quatro Estados Unidos que outrora compunham a União Federal, ou não existe? Respondei esta pergunta por vós mesmos, e então eu a responderei, dizendo que jamais voltará a existir, a menos que sejam reunidos e cimentados pelo poder de Deus. ¶
Pois bem, pergunto novamente, em que são os Santos dos Últimos Dias piores que outras pessoas? Temos o privilégio de plantar e comer dos seus frutos como os outros? Sim, política, moral, religiosa e financeiramente. Temos o privilégio de construir e habitar nossas casas? Sim, temos, e não há lei alguma contra isso. Mas esta não é de modo algum a questão. Direi a meus irmãos que têm falado à congregação, a questão não é se temos o direito de ser autossuficientes ou não, mas seremos autossuficientes? Esta é a questão, e dizemos que seremos. Que dizeis, irmãos e irmãs? Todos vós que dizeis que seremos um povo autossuficiente, manifestai-o levantando a mão direita. ¶
[A moção foi posta em votação e aprovada por unanimidade.] ¶
Isto é o que aterroriza o mundo cristão, não a parte moral nem a política dele; mas são os fanáticos, os sacerdotes que têm medo, e continuamente buscam incitar contenda e malefício. Nem todos são assim; mas nossa experiência passada nos deu boa razão para chegar a esta conclusão. ¶
O Irmão George A. relatou algo no discurso histórico proferido por ele ontem e hoje, a respeito dos irmãos irem solicitar donativos. A este respeito direi que, quando verificamos que éramos obrigados a deixar Nauvoo, para privar esta nação de toda desculpa, e para nos isentarmos de seu sangue, escrevemos a todos os governadores dos Estados e Territórios, e também ao Presidente, solicitando auxílio e reparação. Fizemos isto para privá-los da oportunidade de dizer, no dia do juízo, "poderíeis ter tido asilo conosco se o tivésseis pedido." O resultado de nosso apelo já ouvistes; não houve reparação nem simpatia alguma, apenas "vós, mórmons, podeis buscar um lar em solo mexicano ou em algum outro." ¶
Quanto aos donativos, eis aqui os Irmãos Benson e Little, que foram com o Coronel, agora General Thomas L. Kane, a Filadélfia, Boston, Nova York e outros lugares, e solicitaram auxílio dos prefeitos e conselhos municipais dos vários lugares que visitaram, para este povo que fora roubado, saqueado e expulso, e que, em resposta a uma requisição do Governo, enviara 503 homens, a flor de sua força, à guerra do México, deixando seus pais, mães, esposas e filhos destituídos, doentes e morrendo na pradaria desprotegida. O resultado do apelo por donativos foi a arrecadação de uma soma insignificante. Ousarei dizer que lhes demos centenas de dólares onde eles nos deram um, por conseguinte não estamos em dívida com eles, nem estamos em dívida com nossos comerciantes, nem um pouco. Não lhes pedimos que viessem para cá; não lhes pedimos que fiquem, nem lhes pedimos que se vão. Não lhes pedimos que nos deem seus bens, nem lhes pedimos que os levem embora. Estão em plena liberdade de abrir suas lojas e exibir suas mercadorias para venda, e temos o privilégio de deixá-los em paz; e não é só isso, quero dizer que é o que faremos. ¶
Vamos cortar toda comunicação e negociar com os forasteiros? Não. Se quiserem uma casa construída, nós a construiremos para eles, se nos pagarem o dinheiro. Se quiserem nosso grão, são bem-vindos a ele, se nos pagarem o dinheiro por ele. E tomaremos esse dinheiro, e faremos a porcentagem que eles fizeram. Temos tanto direito a isso quanto eles. Forneceremos a este pequeno corpo de homens dos Estados Unidos, aqui no morro, todo o feno, farinha, aveia e cevada, e tudo o que quiserem; mas precisamos ter o dinheiro deles em troca. Não queremos que ponham seu comércio nas mãos de nossos inimigos, e assim lhes forneçam dinheiro para usar contra nós, enquanto nos pagam por nossos produtos em trapos a um preço exorbitante acima do custo. Não queremos isso, e não o teremos. Ora, quão apertadas ireis puxar as rédeas? Quero dizer a meus irmãos, meus amigos e meus inimigos, que vamos puxar as rédeas tão apertadas a ponto de não deixar nenhum Santo dos Últimos Dias negociar com um forasteiro. Negociaremos convosco, se nos derdes vosso dinheiro; temos direito a ele. Fizemos e abrimos a estrada de Nauvoo até este lugar. Por vezes seguimos trilhas indígenas; por vezes seguimos pela bússola; quando deixamos o rio Missouri, seguimos o Platte. E matamos cascavéis às braçadas em alguns lugares; e fizemos estradas e construímos pontes até nossas costas doerem. Onde não podíamos construir pontes sobre os rios, transportamos nosso povo em balsas, até chegarmos aqui, onde encontramos alguns índios nus, alguns lobos e coelhos, e qualquer quantidade de grilos; mas quanto a uma árvore verde ou uma árvore frutífera, ou quaisquer campos verdes, não encontramos nada disso, com exceção de alguns choupos e salgueiros à beira do Riacho da Cidade. Por umas 1.200 ou 1.300 milhas, carregamos cada partícula de provisão que tínhamos quando chegamos aqui. Quando deixamos nossos lares, recolhemos o que a turba não roubou de nossos cavalos, bois e bezerros, e algumas mulheres conduziram seus próprios comboios até aqui. Em vez das 365 libras de trigo com que deveriam partir do rio Missouri, não chegava à metade quem tinha metade disso. Tivemos de trazer nosso grão de semente, nossos utensílios de lavoura, cômodas, escrivaninhas, aparadores, sofás, pianos, grandes espelhos, belas cadeiras, tapetes, boas pás e tenazes, e outros belos móveis, com todos os fogões de cozinha e de sala, etc.; e tivemos de trazer estas coisas empilhadas junto com as mulheres e as crianças, numa confusão desordenada, de pernas para o ar, com cavalos arruinados, com osteíte, com espavana, com mal de cernelha, com fístula e com quadril deslocado; bois com três pernas, e vacas com um só teto. Este foi nosso único meio de transporte, e se não tivéssemos trazido nossos bens desta maneira, não os teríamos, pois não havia nada aqui. Podeis dizer que isto é um exagero burlesco. Pois bem, é assim que pretendo, pois nós, comparativamente falando, realmente chegamos aqui nus e descalços. ¶
Em vez de chorar por nossos sofrimentos, como alguns parecem inclinados a fazer, prefiro contar uma boa história, e deixar o choro para outros. Não sei se algum dia sofri; não me dou conta disso. Não fiquei eu sem comer, e não meio vestido? Sim, mas aquilo não era sofrimento. Estava acostumado com isso na minha juventude. Costumava trabalhar nos bosques cortando madeira e conduzindo juntas de bois, verão e inverno, meio vestido, e com alimento insuficiente até meu estômago doer, de modo que estou acostumado com tudo isso, e não tive sofrimento algum. Como disse aos irmãos outra noite, o único sofrimento que jamais senti nesta Igreja foi preservar minha calma para com meus inimigos. Mas até isso já superei bastante. Fazei o que quiserdes, e não nos zangaremos; não convém aos Santos serem assim. Façamos nós mesmos o que é certo, e encontraremos honra. Que os Santos dos Últimos Dias vivam sua religião, e serão os mais honrados de todo o povo do mundo, tanto pelo santo quanto pelo pecador. Nos associaremos com forasteiros? Sim, nós os convidaremos a nossas casas, e iremos às deles, se assim o desejarmos. Trataremos os cavalheiros como cavalheiros, os amigos como amigos, os especuladores como especuladores, e trataremos nossos inimigos como inimigos, deixando-os em paz. ¶
Agora, suponho que algumas pessoas pensarão que nunca mais terão o privilégio de negociar ou fazer qualquer coisa com forasteiros. Vou vos dizer o que sinto a respeito de tais pessoas — são exatamente aquelas que queremos que apostatem. Todos os homens e mulheres que anseiam por pecado e pecadores, iniquidade e corrupção, queremos que apostatem imediatamente e sigam seu próprio caminho, que vão com os que são corruptos. ¶
Nossos amigos de fora dizem que querem nos civilizar aqui. O que entendem por civilização? Ora, entendem por isso estabelecer casas de jogo — chamadas de antros de jogo —, tabernas e casas de má fama em cada esquina de cada quarteirão da cidade; também praguejar, beber, atirar e devassar uns aos outros. Depois enviariam seus missionários para cá, com rostos tão compridos quanto orelhas de jumento, que iriam chorando e gemendo pelas ruas: "Oh, que mundo pobre, miserável e pecaminoso!" É isto o que se entende por civilização. É isto o que sacerdotes e diáconos querem introduzir aqui; comerciantes o querem, advogados e médicos o querem, e todo o inferno o quer. Mas os Santos não o querem, e não o teremos. (A congregação disse: AMÉM.) Ora, com todas as suas alardeadas realizações em arte e ciência, estão tão longe de ser realmente civilizados quanto os nossos índios aqui, e na realidade mais longe ainda. Um verdadeiro sistema de civilização não encorajará a existência de toda abominação e crime numa comunidade, mas os levará a observar as leis que o Céu estabeleceu para reger a vida do homem. Não há outra civilização. Uma pessoa verdadeiramente civilizada é aquela que é um verdadeiro cavalheiro ou uma verdadeira dama; em linguagem e maneiras é verdadeiramente refinada, e não cede a nenhuma prática ímpia ou indecorosa. É isto o que buscamos, e o que tentamos alcançar. ¶
Fomos expulsos para cá, para estas montanhas, e temos sido perseguidos. Queremos ser seguidos por cavalheiros; queremos cavalheiros com quem nos associar. Queremos nos associar com homens que aspiram ao conhecimento puro, à sabedoria e ao progresso, e que estão a favor de introduzir toda melhoria no meio do povo, como a companhia que está construindo esta estrada de ferro. Agradecemos a eles e ao governo por isso. Toda vez que penso nisso sinto: Deus os abençoe, aleluia! Querem nos esfolar? Espero que não. Querem nos destruir? Penso que não. Querem nos encontrar como amigos, e nós queremos encontrá-los como amigos, e compartilhar igualmente com eles nos negócios do país. Cremos em comércio e negócios? Sim. E com o tempo enviaremos nossos produtos para o leste e para o oeste. E quanto tempo passará até que mandem buscar nossos pêssegos e maçãs secos? Como está agora o cultivo de frutas na terra em que Joseph obteve as placas das quais foi traduzido o Livro de Mórmon? Lembro-me de quando era a nata do mundo a este respeito. Mas podem eles cultivar ali agora uma maçã ou um pêssego que seja são e bom? Não, não podem. E onde costumávamos colher com foice e ceifadeira sessenta alqueires de trigo por acre, agora não conseguem mais que cinco a dez. A terra é árida, devastada e desolada; a maldição de Deus está sobre ela, e assim será onde quer que os Santos dos Últimos Dias tenham de deixar. Falai sobre estes ricos vales; ora, não há outro povo na terra que pudesse ter vindo para cá e vivido. Oramos sobre a terra, e a dedicamos, junto com a água, o ar e tudo o que a eles pertence, ao Senhor, e os sorrisos do Céu repousaram sobre a terra, e ela se tornou produtiva, e hoje nos dá o melhor de grãos, frutas e hortaliças. Mas, se os Santos dos Últimos Dias fossem obrigados a deixar este lugar, não passariam cinco anos até que o solo deixasse de produzir para sustentar uma comunidade como agora produz. Credes nisso, forasteiros? Não, não credes. Não importa, eu o digo, e nós o sabemos, e, se o sabemos, isso nos é satisfatório, sem que interrompa a fé ou as opiniões de pessoa alguma no mundo. ¶
Há uma ideia corrente de que os "mórmons" vão ceder; mas não há por que temer que o reino de Deus — o "mormonismo" — jamais ceda. A única coisa que vós e eu temos a temer é se edificaremos o reino, se nossas almas estão no reino ou não. Aqui está o temor; não diz respeito ao reino, que permanecerá para todo o sempre; mas vós e eu talvez não. O reino é puro; vós e eu não somos puros. A doutrina que pregamos é pura e santa, e, se a obedecermos, ela nos tornará puros e santos. Somos agora tão bons quanto o resto do mundo cristão? Dizem que somos tolos por crer na revelação. Mas pergunto: que mal causa tal crença? Ela conduz homens e mulheres à verdade e à retidão, e conduz todo indivíduo que a acolhe à pureza e à santidade de caráter na terra. Também nos ensina a agir com justiça, a amar a misericórdia, a alimentar os famintos, a vestir os nus, a visitar a viúva e o órfão, o pobre e o desabrigado, e a tratar com bondade todos os habitantes da terra. Tomar a mente jovem e tenra e ensiná-la tudo o que ela puder captar, até que possa compreender toda a ciência e filosofia do dia, e então as revelações do Senhor Jesus repousando sobre ela ensinam aquilo que não se pode aprender pela sabedoria do homem. Que mal há numa fé como esta? Se o Universalismo for verdadeiro, e o Senhor for salvar a todos, certamente Ele salvaria os que assim creem tão prontamente quanto salvaria um assassino ou um infiel. Perguntai ao mundo de fora, a um infiel ou a um universalista, e eles dirão que estamos tão bem quanto eles. Então pergunto, que mal há em um homem ou uma mulher ser cristão? Há algum mal nisso? Se há, não no-lo apontareis? Dizemos ao sacerdote e ao povo, se tendes algo melhor do que temos, entregai-o, é nosso. Se temos erros aos milhares, e vós tendes a verdade, dar-vos-emos todos os nossos erros por uma verdade. Há algum mal em sermos Santos, ou em produzirmos o que precisamos? Não. Olho para o povo, e posso dizer que nossos desejos são muitos, mas nossas necessidades reais são muito poucas. Governemos nossos desejos por nossas necessidades, e descobriremos que não somos obrigados a gastar nosso dinheiro à toa. Poupemos nosso dinheiro para requerer e pagar por nossa terra, para comprar rebanhos de ovelhas e melhorá-los, e para comprar maquinário e iniciar mais fábricas de lã. Já temos bastantes agora, e o povo as sustentará. Podeis chamar isto de tirania, e dizer que restringe os privilégios dos Santos dos Últimos Dias. Não, não é; Deus o exige, os anjos o exigem; os antigos apóstolos e profetas o exigiram, e por que não o exigiríamos nós? Isto não me afeta em nada, por que haveria de vos afetar? Fabricaremos nossa lã e nosso linho, e manufaturaremos nossa seda, faremos isso aqui. Não há mal nisso, nenhuma lei contra isso, e temos o direito indiscutível de fazê-lo. ¶
Vou vos dizer o que sinto: Deus abençoe todo homem bom. Deus abençoe as obras da natureza, Deus abençoe Sua própria obra, derrube os ímpios e os iníquos e aqueles que destruiriam seus semelhantes, para que a guerra e as contendas cessem na terra. Ó Senhor, remove estes de seus cargos e coloca homens bons à frente das nações, para que não aprendam mais a guerra, mas para que, como seres racionais e civilizados, sustentem a paz na terra e façam o bem uns aos outros. Que o Senhor nos ajude. Amém. ¶