A Verdade Deve Ser Recebida por Si Mesma—Impossibilidade de Perceber as Coisas de Deus de um Ponto de Vista Mundano—Influência Materna
George Q. Cannon
O Senhor concede Suas bênçãos aos filhos dos homens de acordo com sua fé e diligência. É verdade que há muitíssimas bênçãos que eles recebem e desfrutam independentemente de sua conduta, em grande medida. Eles têm esta vida, o uso da razão, as bênçãos do ar e da terra, e os elementos que estão incorporados ou ligados à terra; o sol os aquece com seus raios, e as chuvas do céu os revigoram. Muitas dessas bênçãos descem sobre os filhos dos homens em numerosas ocasiões independentemente de sua conduta, e aparentemente independentemente de suas ações. Mas há bênçãos que a humanidade não pode receber senão mediante a obediência aos mandamentos de Deus, nosso Pai Celestial; há privilégios e dons que não podem ser desfrutados senão mediante a diligência daqueles a quem são concedidos. Os dons que pertencem ao evangelho de Jesus Cristo só podem ser obtidos pela obediência à verdade; e só podem ser conservados pela fiel observância dos mandamentos de Deus; e para que sejam multiplicados sobre o povo, devem ser apreciados por aqueles a quem são concedidos. Quando nossos corações estão cheios de ação de graças, gratidão e louvor a Deus, estamos em condições próprias para receber bênçãos adicionais, e para ter mais do derramamento de Seu Santo Espírito. Quando vemos as libertações que Ele nos concede, e as apreciamos, estamos em condições próprias para receber força, poder e salvação adicionais, porque reconhecemos Sua mão em todas as bênçãos que recebemos, e em todas as circunstâncias que nos cercam. ¶
As coisas de Deus não são discernidas por aqueles que não são espiritualmente dispostos; pois é o Espírito Santo que revela as coisas de Deus àqueles sobre quem é derramado. Os homens do mundo, no momento presente, depositam a maior confiança na evidência que seus sentidos exteriores lhes proporcionam. Se conseguem ver, ouvir, provar ou tocar em algo com que entrem em contato, dão mais valor a essa evidência externa do que a qualquer evidência interna. Por isso, quando os élderes saem a pregar o evangelho às nações, há quase uma demanda constante, por parte daqueles a quem são enviados, por evidências de milagres. Desejam ouvir os élderes falarem em línguas, ou profetizarem; querem ver a vista dos cegos restaurada, os enfermos curados, os mortos ressuscitados, ou alguma manifestação miraculosa de poder, para que seus sentidos exteriores sejam satisfeitos. Muitos atribuem grande importância à evidência que recebem dessa maneira; e para essa classe de pessoas as coisas de Deus são, em grande medida, incompreensíveis, porque a evidência que buscam nem sempre recebem; ou, se a recebem, ela vem de tal forma que não lhes é inteiramente confiável. O homem ou a mulher que se convence da verdade do evangelho ao ver os ouvidos dos surdos abertos, ou a língua dos mudos solta, ou por sonhos ou visões, via de regra, precisa da continuação dessas manifestações dali em diante para se manter na fé do evangelho de Jesus Cristo. Isso nossa experiência confirma. Há outra classe que obedece à verdade porque é a verdade, e recebe o testemunho do Espírito sem nenhuma manifestação particular, mas em cujo coração o Espírito de Deus continua a arder e a aumentar, concedendo-lhes todos os seus dons e enchendo-os de alegria e paz inefáveis. Eles conservam sua fé na obra de Deus, e à medida que dias, semanas, meses e anos passam sobre suas cabeças, sua fé e confiança aumentam. ¶
Sem dúvida há muitos santos presentes esta tarde que já viram exemplos deste tipo. Provavelmente podem deixar suas mentes voltarem à sua experiência inicial na Igreja, nos ramos a que pertenciam quando abraçaram o evangelho. Provavelmente havia muitos de seus companheiros que abraçaram o evangelho mais ou menos ao mesmo tempo que eles, que receberam grandes manifestações, e cujas mentes nunca pareciam contentar-se com o que chamariam de pequenas coisas do evangelho; mas buscavam constantemente visões e sonhos, e manifestações extraordinárias do poder de Deus; e, em nove casos de cada dez, com o desejo de consumir essas manifestações em suas próprias concupiscências, para terem um testemunho maravilhoso a dar, para estarem um pouco à frente, e superarem seus irmãos e irmãs nas coisas de Deus. Provavelmente muitos dos presentes podem lembrar-se de casos deste tipo, e observaram o percurso de tais indivíduos até perderem a fé e saírem da Igreja. Por outro lado, há homens e mulheres que não foram favorecidos nesses aspectos, e, em consequência, provavelmente sentiram ter cometido algum pecado quase imperdoável aos olhos do Céu; contudo, por meio de sua humildade e do exercício constante da fé, continuaram a crescer em sabedoria e força, e em todos os dons do Espírito necessários para o aperfeiçoamento dos Santos; e hoje podem olhar para trás, por toda a sua trajetória na Igreja, e ver que Deus lhes deu a melhor evidência possível para lhes permitir manter sua condição na Igreja. Provavelmente há milhares de pessoas, no tempo presente, entre as nações da terra, que diriam que, se pudessem ver os enfermos curados, ou os cegos terem a vista restaurada, ver uma pessoa à beira da sepultura ser arrancada das garras da morte e restaurada à perfeita saúde, ou ouvir um homem falar em línguas ou interpretar um idioma que lhe fosse totalmente desconhecido, estariam perfeitamente dispostos a abraçar o evangelho e a se tornarem Santos dos Últimos Dias pelo resto de suas vidas. Não tenho dúvida de que há homens em nosso meio que diriam que, se pudessem ter evidências deste tipo, seriam Santos dos Últimos Dias; e, ao fazer tal afirmação, imaginariam estar perfeitamente seguros, e que seria coerente com o plano de Deus esperarem tal evidência. A experiência nesta obra tem provado que essa não é a melhor espécie de evidência, mas que há uma de ordem superior, destinada a preservar aqueles que a recebem de todas as armadilhas e tentações do adversário com que possam ser assaltados. Deus, nosso Pai Celestial, prometeu o Espírito Santo, com todos os seus dons, àqueles que recebem Seu evangelho. Ele disse que aqueles que saem em humildade e mansidão, abandonando seus pecados e verdadeiramente se arrependendo, receberão para si mesmos um conhecimento dos princípios que abraçaram; que receberão o Consolador, que tomará as coisas de Deus e lhas mostrará; e a história deste povo inteiro tem provado que assim é, e que o Espírito de Deus, com seus dons concomitantes, é derramado abundantemente sobre aqueles que vivem de maneira a recebê-lo. ¶
O evangelho de Jesus Cristo reivindica nossa obediência, quer recebamos os dons do Espírito, quer não. O Senhor, em Sua misericórdia, nos prometeu esses dons; mas quando Ele faz exigências a Seus filhos, não cabe a eles ficarem parados e imporem condições a Ele quanto aos princípios que vão receber; e aqueles que assim procedem cometem pecado logo de início. Eles entristecem o Espírito de Deus ao manifestarem tal falta de confiança; ao passo que aqueles que saem em humildade, confiando em Deus, e que recebem a verdade porque Deus a revelou, e porque ela lhes é doce, não têm motivo para lamentar que Ele não lhes tenha concedido tudo o que prometeu. Pelo contrário, suas almas transbordam com o derramamento do Espírito de Deus, e com os dons desse Espírito que lhes são concedidos. Isso sempre foi assim; é assim hoje, e será assim enquanto A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias existir em pureza na terra, ou enquanto houver na terra um homem para administrar as ordenanças do santo sacerdócio do Filho de Deus. ¶
A grande dificuldade da humanidade é que ela organizou em sua própria mente planos para a salvação da raça humana. Dificilmente se encontra um homem no mundo — embora possa reconhecer que Deus não fala aos filhos dos homens há quase 1.800 anos, e que nunca viu um servo de Deus divinamente inspirado, com o direito de exercer o sacerdócio do Filho de Deus como os antigos servos de Deus o exerciam — que não tenha um plano organizado em sua própria mente a respeito do rumo que julga que Deus deveria tomar para salvar Seus filhos. Comece a conversar com eles, e as tradições que receberam de seus pais, pregadores ou mestres de escola logo se levantam, e se o que se afirma entra em contato com essas tradições, por mais puro, celestial e atraente que seja de outra forma, eles o rejeitarão. Esta é a pedra em que as nações da terra estão naufragando, porque, em vez de receberem a verdade quando lhes é apresentada com humildade e mansidão como crianças pequenas, sentem-se no direito de ditar e prescrever as leis e exigências do evangelho, e a maneira como ele deve ser pregado. Onde quer que exista esse espírito, não há lugar para que o espírito manso e humilde de Jesus se estabeleça; outro espírito toma posse deles e os controla. ¶
Quantos homens há que vêm de longe e veem Sião sendo edificada, e veem a obra de Deus progredindo nesta terra, que reconhecem as características que os profetas disseram que deveriam distinguir e acompanhar Sião e a obra de Deus nos últimos dias? Ora, é tudo o que os Santos dos Últimos Dias vindos das nações da terra conseguem fazer, reconhecer na obra de Deus que agora progride neste Território a Sião de Deus. Eles têm suas tradições e noções e ideias preconcebidas a respeito da obra de Deus, e do que ela deveria ser; e quando vêm aqui e veem a obra em plena operação, muitos deles não conseguem reconhecê-la nem ver o poder de Deus manifestado. Por que isso? É por causa dessas noções preconcebidas; é porque traçaram e adotaram em sua própria mente um plano segundo o qual esperam que Sião seja edificada, e ao qual esperam que Sião se conforme. Isso é ainda mais o caso com aqueles que não têm conhecimento da verdade, e que não receberam o Espírito de Deus por meio do batismo, da imposição de mãos e da obediência às demais ordenanças da casa de Deus. Mas se viessem aqui despojados de preconceito e tradição, e observassem a obra de Deus tal como agora progride por esta terra, seriam capazes de apreciá-la, e de reconhecer que há um poder e um espírito manifestados entre este povo que não pertencem a homens e mulheres em circunstâncias ordinárias. Quem compreende a obra que o Senhor está realizando com tal rapidez? Ora, não há um Santo dos Últimos Dias ao alcance de minha voz, por mais jovem, humilde, ignorante ou desprovido de entendimento que seja, que saiba algo a respeito do Espírito ou das coisas de Deus, que não possa ver a divindade e o poder de Deus manifestados em cada passo dado, e em tudo o que foi feito em conexão com esta obra, desde o início de sua experiência até o tempo presente. Eles veem Deus e reconhecem Sua mão nesta obra; e também entendem que o homem não poderia lhes conceder as bênçãos de paz e alegria que têm no Espírito Santo. Embora um homem possa ser muito versado nas ciências antigas e modernas, possa ter viajado extensamente, possa compreender as várias facetas da natureza humana, e estar profundamente familiarizado com a história de nossa raça tal como nos foi transmitida, ainda assim, se não tiver o Espírito de Deus, seu conhecimento se desvanece quando colocado ao lado do de um Santo aparentemente ignorante, pois se revela insuficiente para lhe revelar que esta é a obra de Deus. Ele a observa de um ponto de vista mundano e não vê nela nem Deus nem divindade; tampouco consegue reconhecer qualquer manifestação do poder de Deus nesta obra, e em sua mente tudo não passa de ilusão. Mas aquele homem ou mulher tido como ignorante, que está a seu lado, que talvez não saiba um quinquagésimo do que ele sabe a respeito da terra, de seus habitantes e de suas ciências, reconhece Deus em tudo isso. Ele sabe que aquela é a Sião de Deus; sua fé se baseia na rocha eterna; ele sabe e pode testificar que esta é a obra de Deus, e pode ver a mão de Deus em tudo isso. O poder de Deus está em sua alma; ele está em comunhão com Deus; e os dons do Espírito se manifestam nele e por meio dele; e ele se regozija neste conhecimento que o homem do mundo não tem como compreender. ¶
Esta é a diferença, meus irmãos e irmãs, entre ver as coisas de Deus de um ponto de vista natural ou mundano, e vê-las do ponto de vista que Deus estabeleceu para nós. Isso é peculiar à obra de Deus nos últimos dias? Não; é uma peculiaridade que caracterizou todas as eras e dispensações em que Deus teve um povo na terra. Nos dias de Jesus, quem descobriu a divindade nele? Quem viu no humilde filho de um carpinteiro os traços de sua origem divina, e ali reconheceu a Divindade? Ora, alguns humildes pescadores, homens ignorantes e iletrados, que, como aprendemos em "Atos dos Apóstolos", não conseguiam falar corretamente sua própria língua materna. Mas será que os sumos sacerdotes, ou os sábios entre os judeus, ou aqueles educados nas escolas, compreenderam isso? Embora fosse uma era de iluminismo, como se dizia, eles não conseguiram reconhecer Deus em Jesus, nem a divindade na obra que ele realizava; tampouco conseguiram reconhecer qualquer poder do apostolado em seus Apóstolos. Quem, então, o viu? Ora, aqueles que se curvaram em submissão ao plano que Deus revelou por meio de Seu Filho Jesus Cristo; eles compreendiam essas coisas, e eram capazes de distinguir entre o homem de Deus e o homem do mundo; eram capazes de distinguir entre a verdade do céu quando vinha pura e não adulterada do trono de Jeová, e os sistemas dos homens proclamados por toda parte. Portanto, o fato de homens espiritualmente não iluminados serem incapazes de compreender as coisas de Deus não é peculiar à dispensação em que vivemos, mas assim tem sido em toda época em que Deus deu a conhecer Sua vontade aos filhos dos homens. Tais indivíduos podem entrar em contato com os maiores dentre os filhos do Céu e podem conviver com eles dia após dia, e ainda assim, por não terem aquele Espírito, deixarão de reconhecer a nobreza de seu caráter, e que são divinamente inspirados. Alguns dos próprios membros da família de Jesus, como aprendemos no registro sagrado, zombaram dele; não conseguiram reconhecer que seu próprio irmão, filho de sua mãe, era o Filho de Deus, que haveria de morrer pelos pecados do mundo; embora tivessem sido criados com Jesus desde a infância, deixaram de reconhecê-lo pela mesma razão pela qual Joseph Smith, e Brigham Young, e todo profeta e apóstolo que já viveu sobre a face da terra não foram reconhecidos por muitos de seus companheiros. Se suas mentes tivessem sido iluminadas pelo Espírito de Deus, teriam reconhecido os homens de Deus, e poderiam ter compreendido as coisas de Deus e o plano de salvação; poderiam ter visto Deus em tudo isso; cada aspecto teria resplandecido com a divindade; teriam reconhecido aquilo como uma emanação do céu e teriam sustentado o Filho de Deus como o ser que ele professava ser, e que de fato era; e seus Apóstolos não teriam tido ocasião de andar como andaram — perseguidos e odiados, e depois cruelmente mortos pelo testemunho de Jesus que davam à humanidade. Noé não teria tido uma obra tão difícil ao tentar convencer os habitantes da terra em seus dias da mensagem que Deus lhe havia dado, nem todos os profetas desde seus dias em diante teriam tido a dificuldade que tiveram. Nenhum homem, com sua sabedoria natural, pode compreender as coisas de Deus; o homem nunca o fez e nunca poderá fazê-lo. Os sacerdotes podem estudar todas as artes e ciências, e finalmente formar-se em um colégio teológico; e depois de passarem por tudo isso, não têm mais concepção de Deus e das coisas de Deus do que se tal Ser jamais tivesse existido. Um homem cheio do poder de Deus poderia ir até eles, e eles não o entenderiam; se ele lhes dissesse as coisas mais preciosas jamais proferidas por lábios mortais, eles não as compreenderiam, e seria muito mais provável que o rejeitassem do que não, porque estão imbuídos de preconceitos e ideias preconcebidas a respeito de Deus e de Suas obras. ¶
Havia, portanto, necessidade de Jesus dizer que deveriam receber Seu reino como crianças pequenas. Há essa mesma necessidade, meus irmãos e irmãs, hoje, da nossa parte, de que assim recebamos o reino de Deus. O que qualquer um de nós sabia a respeito da verdade até que o Profeta a revelasse? O que sabemos hoje? Ora, muitos de nós pensam saber muitas coisas. É algo extremamente difícil para um Bispo nos ensinar, ou para um Apóstolo impressionar nossa mente com a verdade de que está cheio, ou para o Presidente Young e seus conselheiros transmitirem a nossa mente e nos fazerem compreender a verdade que Deus lhes revelou. Por que isso? É porque estamos cheios de nossas tradições e noções preconcebidas a respeito do que é certo e do que é errado. Renunciamos e nos desfazemos dessas noções e tradições muito lentamente; aparentemente não conseguimos descartá-las sem grande esforço, e é necessário o trabalho de anos para nos emancipar desse jugo. Mas há, ainda assim, grande necessidade de que nos esforcemos ao máximo de nossa capacidade nesta labuta. Devemos procurar ter nossa mente ampliada e expandida, de modo que, quando as coisas de Deus nos forem ditas, possamos adotá-las, e descartar tudo o que entre em contato com elas. Há uma grande obra diante de nós, e o progresso que a Igreja fez durante os últimos trinta e sete anos apenas nos permite vislumbrar um pequeno lampejo da imensidão que se estende diante de nós. A distância entre nós e o reino celestial de nosso Deus é inconcebivelmente grande para nós no tempo presente; nossa mente não consegue abarcar a distância que temos de percorrer antes de chegarmos à presença de Deus e estarmos preparados para habitar com Ele eternamente. Pelo Espírito de Deus podemos compreender um pouco disso; podemos compreender a distância que ainda temos de percorrer pensando na distância que já percorremos. ¶
Saímos e viemos da Babilônia, de acordo com o mandamento de Deus, para que nos tornássemos um povo diretamente oposto a tudo o que existe na Babilônia. Esta foi a proclamação que nos foi feita; e o objetivo da proclamação era que fôssemos completamente emancipados das coisas do mundo, para que estivéssemos preparados para habitar com Deus eternamente nos céus. ¶
Ora, pensem na distância que há entre nós e o povo da Babilônia hoje. A distância que percorremos é quase imperceptível para alguns; e em alguns pontos estamos tão próximos que podemos alcançá-los e apertar-lhes a mão, tão pouco progresso fizemos. Contudo, nada é mais verdadeiro do que isto: antes de estarmos preparados para habitar na presença de Deus, devemos ser diretamente opostos a eles em quase todos os aspectos. A moralidade é ensinada e as verdades morais são impostas entre eles; mas, à parte a teoria, tudo é podre e corrupto da base ao mais alto pináculo. Deus assim o disse, e nós mesmos já tivemos alguma experiência nisso; e, até onde chegamos, podemos dizer que assim é. A sociedade precisa ser organizada de maneira diferente sob o governo da Igreja de Deus. Já demos um grande passo nesse sentido. A única grande instituição que Deus revelou fez mais para nos emancipar, e criar uma diferença entre nós e o mundo, do que qualquer outra coisa que eu possa conceber; essa é a ordem do matrimônio. Ela cria uma distinção completa entre nós e o povo do mundo. Podemos ver o quanto estamos progredindo nessa direção, e aqueles que estão vivendo sua religião estão fazendo rápido progresso. Havia necessidade da revelação deste princípio para que o povo de Deus pudesse ser inteiramente distinto do povo da Babilônia. Enquanto vivêssemos sob aquelas antigas instituições, tão cheias de podridão e corrupção, estávamos suscetíveis o tempo todo a nos assimilarmos ao mundo. Mas Deus lançou o alicerce dessa grande distinção que há de resultar no triunfo completo da verdade e no estabelecimento de Seu reino sobre a terra. Ele lançou o alicerce onde começa o alicerce de todos os governos — na família; e isso continuará e aumentará até permear cada instituição e organização, tornando-nos inteiramente diferentes e distintos do povo do mundo. Podem deixar sua mente estender-se, se assim o desejarem, ao máximo de sua capacidade, e ela nem começará a compreender a diferença que será criada pela operação desses princípios que Deus já revelou. Como o seixo que é lançado no lago do moinho, cada círculo continua a aumentar e a alargar-se até cobrir todo o lago. Assim é com a verdade que Deus revelou; ela se espalhará até que as instituições do reino de Deus revolucionem tudo o que existe sobre a terra. ¶
Temos esta obra diante de nós, ela nos pertence; não pertence somente à Primeira Presidência, ou somente aos Doze, ou aos Bispos das alas, ou aos Presidentes dos povoados ou estacas de Sião; mas pertence a todo homem, mulher e criança que tem condição nesta Igreja. Deus a impôs a todos nós, individual e coletivamente, e a espera de nossas mãos. É verdade que a obra de Deus há de progredir de triunfo em triunfo até que a vitória completa coroe os esforços dos servos de Deus. Mas nós somos os membros desta Igreja, e cabe a nós dizer se seremos diligentes, ou se recuaremos e permitiremos que nossos lugares sejam preenchidos por outros mais diligentes e mais capazes de compreender a grandeza da obra, e a grandeza e as facilidades que Deus nos deu, do que nós; se combateremos e lutaremos contra os males que existem por toda parte, governaremos nossas casas em retidão, e criaremos nossos filhos no temor de Deus, ou se negligenciaremos essas coisas, e deixaremos passar sem aproveitá-las as gloriosas oportunidades que Deus nos deu, para serem aproveitadas por outros mais zelosos, diligentes e sábios em sua geração do que nós. Não há um único indivíduo em Sião que não possa fazer muito bem, se apenas permitir que sua mente se expanda, e buscar oportunidades para realizar a obra de Deus. Podem corrigir-se e preparar-se para levar adiante a obra de Deus, e, ao fazê-lo, ajudarão a preparar outra pessoa; pois ninguém pode levar adiante a obra da perfeição sem ser um benefício para todos com quem convive. ¶
Falamos em voltar para edificar a Estaca Central de Sião; é o peso de nossas orações diárias. As aspirações de milhares do povo sobem aos ouvidos do Senhor dos Exércitos em favor da redenção de Sião, e para que os propósitos de Deus sejam levados adiante, e para que logo chegue o tempo em que a Estaca Central de Sião seja edificada e o povo esteja preparado para voltar e habitar aquela terra. Por que desejamos isso? Porque antecipamos que, quando esse dia chegar, estaremos tanto mais próximos do dia do triunfo, o dia em que Jesus virá e reinará entre Seus Santos. Estamos, por assim dizer, numa escola onde havemos de ser ensinados por Deus, e preparados para os grandes acontecimentos que estão para vir sobre a terra. Não desejamos deixar esta terra porque não é fértil, ou porque não é uma terra favorecida. Apreciamos o lar que Deus nos deu aqui, tão fecundo em bênçãos para os Santos; mas aguardamos aquela terra com sentimentos indescritíveis, porque é o lugar onde Deus disse que Sua Cidade será edificada. É a terra onde Adão, o Ancião de Dias, reunirá novamente sua posteridade, e onde as bênçãos de Deus descerão sobre eles. É a terra que os sábios e eruditos percorreram e buscaram em vão. A Ásia tem sido vasculhada na tentativa de localizar o Jardim do Éden. Os homens têm suposto que, por a Arca ter pousado no Ararate, foi ali que o dilúvio começou, ou antes, que foi dali que a Arca partiu a navegar. Mas Deus, em Suas revelações, nos informou que foi nesta terra escolhida de José que Adão foi colocado e onde o Jardim do Éden foi estabelecido. O local foi designado, e aguardamos com sentimentos peculiares a retomada dessa terra. Esperamos que, quando esse dia chegar, sejamos um povo bem diferente do que somos hoje. Estaremos preparados para comungar com seres celestiais; de qualquer forma, a preparação estará avançando muito rapidamente para que Jesus seja revelado. Esperamos que ali se organize uma sociedade que seja um modelo da sociedade celestial, de modo que, quando Jesus e os seres celestiais que vierem com ele forem revelados nas nuvens do céu, seus sentimentos não sejam abalados pela mudança, pois se organizará na terra uma sociedade cujos membros estarão preparados, por meio das revelações de Deus, para encontrá-los e conviver com eles, se não em termos de perfeita igualdade, ao menos com algum grau de igualdade. ¶
Quanta preparação já fizemos para isso? Já fizemos progresso considerável em algumas direções. Desde os dias de Joseph, a autoridade do santo sacerdócio aumentou. Bispos que cumprem seu dever têm mais autoridade em suas alas do que o Irmão Joseph tinha, outrora, em toda a Igreja. O povo entende as exigências que lhes são feitas e as cumpre com entendimento e inteligência. Isso é muito bom, mas ainda há uma grande mudança a ser feita; temos muito mais progresso a fazer. ¶
Nossos inimigos se queixam desse poder de um só homem; querem tramar algum plano que destrua o poder do santo sacerdócio. Têm afirmado que, se algo acontecesse ao Irmão Brigham, este reino se desfaria em pedaços. Iludem-se com as mesmas ideias que os ímpios tinham antes da morte de Joseph. Pensam que somos um povo severamente oprimido, e gostariam de nos emancipar do jugo que suportamos. Sabem eles algo a nosso respeito? Não. Somos livres, e vivemos vidas de felicidade e contentamento. Nunca fomos tão felizes em nossa vida quanto somos hoje, se formos fiéis. Nossas esposas nunca se sentiram tão livres em sua vida quanto se sentem hoje. Como, nem mesmo quando seus maridos tinham apenas uma esposa? Não, nem mesmo então; e pode-se sustentar a afirmação de que não há mulheres na terra tão plena e completamente livres quanto as mulheres entre os Santos dos Últimos Dias. Vocês que podem duvidar disso podem deixar sua mente voltar-se à condição da sociedade em outros lugares. Vejam a servidão em que as mulheres são colocadas, e as vidas de tristeza que têm de arrastar, até que, exaustas, caiam em suas sepulturas — sendo a sepultura o único refúgio das aflições que as oprimem. Esse não é o nosso caso, somos um povo livre, embora nossos inimigos digam que somos oprimidos. ¶
Podemos imaginar, em nosso presente estado de conhecimento, que, ao alcançarmos o ponto para o qual estou tentando dirigir a mente do povo, não nos sentiremos tão bem quanto nos sentimos hoje. Digo-lhes que nos sentiremos muito melhor, pois quanto maior o progresso, maior a liberdade que desfrutaremos. Embora todo ser no céu obedeça implicitamente aos mandados de Jeová, todos admitiremos que são muito mais felizes do que nós na terra. Temos de progredir até alcançarmos aquele estado em que todos os nossos trabalhos estarão sob o ditame, a orientação e a direção daqueles que Deus designou para presidir sobre nós. E, à medida que nos aproximarmos dessa condição, eles crescerão em sabedoria e capacidade de dirigir, de modo que a harmonia seja mantida. À medida que o povo cresce em obediência, Deus derramará sabedoria sobre Seus servos na medida dessa obediência. ¶
Tem-se dito que estamos muito dispostos a sair em missões quando somos instruídos a fazê-lo, e no que diz respeito aos nossos trabalhos espirituais, estamos muito dispostos a ser dirigidos. Nesses aspectos, não há povo tão facilmente administrado e dirigido quanto nós. Essa obediência que nos caracteriza nas coisas espirituais terá de se manifestar também nas coisas temporais. Muitos do povo pensam: "Eu sei mais sobre este assunto do que meu bispo", quando algum assunto temporal é discutido. Esse sentimento perpassa a mente de muitos do povo; e, enquanto isso for assim, seus bispos provavelmente não serão tão sábios quanto poderiam ser; eles não têm a fé de vocês para sustentá-los. Mas quando chegar o tempo em que vocês tiverem fé e confiança implícitas em Deus, e naqueles que Ele designa para presidir sobre vocês, tanto nas coisas temporais quanto nas espirituais, seus bispos terão toda a sabedoria necessária para lhes dar o conselho de que precisam. ¶
Esse tempo há de chegar; e não apenas deve ser assim com os irmãos, mas também com suas famílias, pois, como eu disse, o governo familiar é o alicerce de todo governo. Mostrem-me uma comunidade onde as crianças são criadas em santidade e pureza, e instruídas no temor e no conhecimento de Deus, e eu posso profetizar grandeza e prosperidade futuras para aquele povo. Se vejo uma família onde os filhos são obedientes a seus pais, e escutam sua voz como a voz de um anjo; e onde as esposas são obedientes a seus maridos, atendendo aos seus desejos e procurando satisfazê-los em tudo no Senhor, sei que há grandeza diante daquela família. Assim é com todo este povo. Se nossos filhos forem instruídos no temor de Deus, se em sua mente forem incutidos os princípios da verdade, da retidão, da fé e da piedade, podemos dispensar todo temor a respeito do crescimento, desenvolvimento e prosperidade futuros do reino de nosso Pai na terra. Quando vemos nossos filhos crescerem na incredulidade e na dureza de coração, então temos motivo para temer e tremer. Cada uma de vocês, minhas irmãs, pode fazer muito para edificar este reino. Uma grande glória é conferida à mulher, pois lhe é permitido trazer ao mundo as almas dos homens. Vocês têm a oportunidade de instruir filhos que hão de portar o santo sacerdócio, e sair e magnificá-lo no meio da terra. É uma missão gloriosa que Deus atribuiu a Suas filhas, e elas devem sentir-se correspondentemente orgulhosas dela, e devem perceber sua importância e procurar ser missionárias em suas próprias famílias, instruindo seus filhos no temor de Deus. É um fato estabelecido, ou ao menos assim é considerado no mundo, que dificilmente algum grande homem já teve uma mãe pobre e de mente fraca. Se vocês lerem sobre os grandes homens da Antiguidade, ou dos tempos modernos, verão que, em quase todos os casos, tiveram grandes mães, que moldaram e formaram a mente maleável de seus filhos de acordo com suas próprias noções de grandeza, e os enviaram a enfrentar as circunstâncias da vida, quase como deuses. Grandes interesses estão nas mãos das mães. Deus depositou nelas grande poder; se exercerem esse poder para o bem, ele produzirá paz, felicidade e exaltação para elas. Serão abençoadas ao ver a grandeza de sua posteridade. Seus corações se sentirão gratificados por terem uma posteridade que se levantará e as chamará de bem-aventuradas. ¶
É algo glorioso de se contemplar, mas quão poucos são os que percebem as grandes bênçãos que Deus lhes concedeu. Deus nos abençoou com esses privilégios para que possamos lançar, em nossos próprios lares, o alicerce da futura grandeza do reino de Deus, incutindo na mente de nossos filhos aquelas lições e preceitos de piedade que os tornarão poderosos nos dias vindouros, e os prepararão, ao atingirem a idade adulta, para levar adiante a obra de Deus e magnificar a verdade, sendo exemplos do evangelho de Jesus Cristo entre as nações da terra. ¶
Deus os abençoe, irmãos e irmãs; e que Ele nos capacite a todos a sermos fiéis à verdade e a compreendermos a grandeza da era em que vivemos, por amor de Cristo. Amém. ¶