Dificuldades Que a Igreja Teve de Enfrentar em Seu Estabelecimento em Utah
George A. Smith
Amo ouvir os ensinamentos dos servos de Deus, especialmente daqueles a quem Deus designou para presidir sobre o seu povo em todo o mundo. Amo também contribuir com meu testemunho, ou falar aos Santos por meio de encorajamento, ilustração e instrução. Por vinte e oito anos passados, tem sido o sentimento do meu coração que, se houvesse algo sobre a terra que eu pudesse fazer para promover a obra do Senhor nestes últimos dias, eu desejaria fazê-lo; e se deixei escapar algo que deveria ter feito, foi por falta de entendimento e de conhecimento apropriado das circunstâncias na época. Tenho hoje os mesmos sentimentos e determinação sobre este assunto que tenho tido por vinte e oito anos passados. ¶
Estou grato e me alegro sobremaneira em contemplar os rostos de meus irmãos e irmãs neste vale. Pela maneira como o povo aqui recebeu o Presidente e sua escolta, é evidente que estão bem despertos. Uma banda de música nos encontrou na encosta da montanha, e tocaram com boa vontade livre. O baterista parecia decidido a arrebentar o couro de seu tambor; e quando os irmãos se puseram a cantar na casa de reuniões em Wellsville, parecia que suas vozes unidas iriam despedaçar a casa, tão altos eram os seus regozijos. O espírito que havia neles os inspirou a fazer como fizeram. ¶
Não percebemos em toda a sua extensão o que estamos fazendo. Estamos realmente colonizando uma porção da terra que era considerada inabitável. Estamos reclamando-a de um deserto, e edificando sobre ela o alicerce para um Estado imenso; e esse Estado é composto de um povo unido, quase universalmente de sentimentos harmoniosos. A fundação deste povoamento do povo "mórmon" nas montanhas realmente chamou a atenção do Governo Federal. Fomos amotinados e perseguidos e expulsos de lugar em lugar, de cidade em cidade. Sob esse tipo de tratamento floresceu nosso número; nosso número aumentou, embora muitos de nossos irmãos tenham depositado seus ossos na sepultura prematuramente, e muitas de nossas esposas e filhos tenham perecido pela perseguição; contudo, das suas cinzas parecem ter brotado milhares. ¶
Quando fugimos para o deserto, nossos inimigos disseram: "Agora, deixem os mórmons em paz; enfrentarão tantas dificuldades e tantos obstáculos naturais ao seu crescimento, que hão de reduzir-se a nada; hão de brigar entre si, e logo se dissolverão, e não teremos mais problemas com eles." ¶
Quando disseram a James K. Polk, Presidente dos Estados Unidos, que os "mórmons" haviam ocupado a Grande Bacia, e estavam fazendo povoamentos nas margens do Grande Lago Salgado, "Ora", disse ele, "essa é a chave do continente." Quando a sabedoria do venerável Senador, o falecido Secretário Cass, foi requisitada sobre o assunto, "Que faremos com os mórmons?", disse ele. "Enviai um pequeno exército entre eles, sob o comando de um oficial inteligente; enviai oficiais de boa aparência, companheiros, sociáveis, e algumas mulheres de personalidade forte; sim, enviai homens que estejam preparados para conquistar suas mulheres, e assim civilizá-los, introduzindo entre eles hábitos da civilização cristã moderna; e em pouco tempo os reduzireis à necessidade de contentar-se com uma só esposa." O Coronel Steptoe foi enviado para cá para cumprir essa missão com os oficiais e soldados cavalheirescos que compunham o seu comando. O objetivo de sua incumbência, contudo, não foi cumprido. ¶
Pouco tempo depois chegaram à conclusão de que era necessário tomar uma medida que desse um fim absoluto ao "mormonismo" de uma vez, por um golpe decidido e ousado de nosso "galante pequeno exército." A nação se orgulhava de tão grande empreendimento. A imprensa louvava o projeto, e os membros do Governo se orgulhavam do zelo com que se empreendeu essa guerra empreendedora. A ilusão corria de que os "mórmons" agora seriam dissolvidos. Sua primeira esperança era que a fome nos reduzisse à destruição; mas isso havia falhado. ¶
E enquanto esperavam notícias de que, no rigoroso inverno de 1856, todos os "mórmons" haviam perecido de fome, nossos Delegados apareceram subitamente no Capitólio, pedindo admissão à União como Estado. Isso os deixou atônitos. ¶
Não se lembram eles de que, desde o período mais remoto de nossa história, a nação e os diferentes Estados nos reconheceram como um povo separado? Em 1834, Daniel Dunklin, Governador do Missouri, disse num documento oficial que a constituição e as leis do Estado do Missouri faziam ampla provisão para a proteção dos mórmons; mas os preconceitos do povo do Missouri contra eles eram tão grandes que não podiam ser aplicados, e, consequentemente, os mórmons não podiam ser reintegrados na posse de suas terras nem protegidos em seus direitos. ¶
Se meu amigo, o Procurador-Geral Blair aqui presente, mo permitir, citarei Blackstone, que diz que "A lealdade é aquele ligamento ou fio que liga ou une o súdito ao soberano, e pelo qual o súdito tem direito à proteção do soberano." Ora, no exato momento em que o soberano, rei, ou governo, república, ou qualquer que seja a forma de governo, deixar de estender proteção a seus súditos, sejam eles muitos ou poucos, tornam-se necessariamente independentes, e são obrigados, para autopreservação, a proteger-se a si mesmos e a prover as suas próprias necessidades. Essa era a situação em que nos encontrávamos no Missouri quando o Governador Dunklin declarou que a constituição e as leis do Missouri não podiam ser aplicadas de modo a proteger este povo. Isso equivalia virtualmente a declarar-nos independentes daquele Estado, e a reconhecer o nosso direito de nos protegermos nessa condição. A verdade dessa posição foi ainda ilustrada pela imposição a nós de um tratado pelo Major-General Lucas no outono de 1838, tratado esse aprovado pelo Major-General Clark, e subsequentemente por L. W. Boggs, Governador do Estado; e assim, contra a nossa vontade, e à ponta de milhares de baionetas, fomos obrigados a ser uma das altas partes contratantes de um tratado — um exercício de poder que pertence unicamente à soberania independente. ¶
Desde aquele dia, e não sei quanto tempo antes, no que diz respeito à lealdade, fomos lançados para fora dos limites da jurisdição do Governo em que vivíamos. Não fomos nós que fizemos isso: foi imposto a nós. Éramos cidadãos obedientes à lei, e queríamos a proteção das leis, da constituição, e do Governo do Missouri: desejávamos permanecer tranquilamente em nossos lares, e ter o privilégio de comer o pão da indústria, e criar nossos filhos nos caminhos da virtude. Mas não, "essas instituições [a constituição e as leis] não são para vós, mórmons." ¶
Constatamos que a mesma doutrina prevalecia em Illinois, e o mesmo princípio tem sido aplicado precisamente pela ação do Governo Geral para conosco. ¶
Disseram-me em Washington que, se não fôssemos mórmons, seríamos saudados com generosidade e amizade; e o prestígio de termos subjugado esta terra e a termos posto em uso nos teria colocado na dianteira das fileiras dos Territórios. Mas éramos "mórmons." Esses são os sentimentos, o espírito e o sentir por todo o país e no Governo. ¶
Encaramos este assunto como ele é. O Governo Geral não vai nos doar terra, ao passo que estava pronto a dar aos colonos de Oregon seiscentos e quarenta acres de terra cada um, metade disso para suas esposas, e um quarto disso para cada um de seus filhos. Oregon está localizado no litoral, possuindo a vantagem de grandes rios navegáveis. Tem um comércio florescente em crescimento, provendo ao povo trocas a custo comparativamente pequeno. ¶
Utah está no coração do deserto. Requer pessoas da mais destemida coragem e energia para sequer possuí-lo. Então, por que não lhes dar a oportunidade de ocupar a terra? Por que não encorajar os colonos de Utah, recompensando-os por sua energia e labuta em reclamar um deserto, dando-lhes seiscentos e quarenta acres de terra cada um? Porque "são malditos mórmons!" Essa é a razão pela qual não lhes dão nem um acre. ¶
Que encontramos na administração do Sr. Buchanan? O primeiríssimo passo que ele deu foi reunir a flor do exército americano — o exército mais fino e mais bem equipado que os Estados Unidos já organizaram. Essa foi a declaração dos membros do Gabinete e da imprensa por todo o país. O exército sob Washington que capturou Lorde Cornwallis mal chegava a doze mil homens; o exército que foi enviado a Utah e efetivamente marchou para este Território somava mais de treze mil soldados; mas ao todo, com os attachés que empregavam, chegava a mais de dezessete mil homens. Mesmo esse vasto exército não foi autorizado a passar pelas partes habitadas do Território até que os Altos Comissários enviados pelo Presidente dos Estados Unidos, exercendo, embora negando, a autoridade do poder de fazer tratados, negociassem sua passagem para os povoados. Muitas tentativas foram feitas para violar esse pacto, e em muitos casos o fizeram em medida limitada, mas descobriram que perigos os cercavam. Um velho francês disse que amaldiçoariam os "mórmons" quando se levantassem, e quando fossem deitar-se, quando bebessem, fumassem e jogassem, e diriam: "Por que não vamos e os destruímos?" Então raciocinariam: "Estamos aqui bem no meio dos mórmons: somos apenas alguns milhares; e se começarmos o jogo, todos seremos derrotados: então o povo virá dos Estados e matará todos os mórmons; mas que bem nos faria isso se todos estivéssemos mortos?" Deus lutou nossas batalhas. ¶
Para concluir o argumento de que somos um povo independente, reconhecido pelos Estados Unidos, e de que o nosso Território já não era sustentável para os seus exércitos, mas devia ser evacuado, foram dadas ordens pelo Presidente para destruir tudo o que pudesse ser de utilidade para nós aqui. "Estourai vossos canhões, explodi vossos paióis, e destruí tudo o que não puderdes levar convosco e que seja de qualquer utilidade ao povo mórmon; pois, ao evacuar um Território que não podemos conquistar, nada devemos deixar cair nas mãos de nossos inimigos que de algum modo os beneficie." A destruição de propriedade dessa maneira é evidência de hostilidades. Essa é a prática das nações que estão em guerra umas com as outras, destruir aquilo que não podem levar consigo. ¶
Tivemos de nos proteger e sustentar a despesa das guerras indígenas, fazer nossas próprias leis, regular-nos à nossa própria maneira, e nenhuma nação, parentela, língua, ou povo tem o direito de dizer: Por que fazeis assim? Esse direito até agora tem sido concedido; o exército foi retirado de nosso país, e se foi, de certo modo reconhecendo sua derrota. É certo que muitos dos oficiais partiram dizendo: "Voltaremos com o tempo e vos aniquilaremos." Mas, como Deus o quis, estão ocupados em prestar uns aos outros os mesmos cumprimentos que haviam planejado infligir sobre nós. ¶
Tenho amigos naquilo que agora se chama as Confederações do Norte e do Sul, pois agora a União Federal é uma das coisas que deixaram de existir. Uma coisa como o Governo dos Estados Unidos tal como organizado por nossos pais deixou de existir. O Norte reivindica sê-lo; mas os Estados Unidos como Governo, como nação, tal como organizados por nossos pais, estão entre as coisas que foram. Fragmentos dele, na forma de governos ou combinações separadas, podem ser capazes de infligir castigo nacional uns aos outros, ou fazer guerra com nações estrangeiras; mas é apenas como fração, e não como um todo. O Estado de Kentucky declara que nem o Norte nem o Sul marcharão exércitos em seu Território. Encontrais na história das guerras da Europa que uma neutralidade armada não é coisa incomum. Kentucky está observando o mesmo. É um Estado poderoso; pode ser arrastado para o grande vórtice da guerra; pode tomar partido com o Norte ou com o Sul, ou, mais provavelmente, dividir-se entre ambos os lados; mas não está mais ligado ao Governo Geral, como é chamado, do que a Tennessee ou a Virgínia. ¶
A desordem e o poder das turbas reinam. Estão se destruindo mutuamente, demolindo melhoramentos públicos: prelos de impressão foram destruídos no Missouri e na maioria dos outros Estados. Blackstone diz que um prelo que publica falsidade e licenciosidade é um incômodo público, e que todas as corporações deveriam ter o poder de suprimi-lo. Suprimimos o Expositor em Nauvoo de acordo com a lei, nesse fundamento. Tanto o Norte quanto o Sul têm feito a mesma coisa: centenas de jornais foram suprimidos. O Governador Ford disse que era certo suprimir o Expositor, mas teria sido melhor por meio de turba do que por autoridade municipal; e agora a lei da turba governa todo o país e destrói prelos de impressão sem impedimento nem obstáculo. ¶
Falaremos agora de nosso lar nas montanhas. O Senhor tem sorrido para estes vales. O Coronel Frémont esteve no Vale de Bear River em agosto de 1843, quando o mercúrio marcava 29 graus, mostrando conclusivamente que o grão não podia amadurecer aqui. As pessoas nos Estados apanhavam esse relatório e diziam: "Tudo vai congelar até a morte ali." Passaram-se alguns anos, e encontrais oitocentas ou novecentas famílias de Santos no Vale de Cache, e podem cultivar o mais fino trigo, linho e lã. Vi ontem uma amostra de tabaco tão fina quanto se pode cultivar na Virgínia. Toda nação sente que é sua melhor política e seu dever adotar tal sistema de economia política que proveja para suas próprias necessidades, e se proteja contra as exigências de outras nações. ¶
Não precisamos esperar obter algodão dos Estados do Sul, pois estão lutando com o Norte, e não têm tempo para cultivá-lo, e a comunicação está cortada por um bloqueio. Não precisamos esperar obter tabaco do Sul, pois os negros estão ocupados cavando trincheiras e cultivando milho para o exército do Sul. ¶
Temos de prover para nós mesmos como uma grande família e como uma nação. Todas as nações esclarecidas têm-se esforçado por obter controle de um clima setentrional e meridional. O Deus do céu, em sua abundante misericórdia, nos deu o controle, nestes vales elevados, de um clima setentrional e meridional. ¶
Há uma grande quantidade de pessoas entre nós que usam tabaco, e há algumas razões pelas quais o usam. Por exemplo, nossos jovens veem um gentio com uma cartola em pé, um par de grandes suíças, e um charuto na boca. Ah, que bonito parece, pensam nossos jovens; e se não podem conseguir um charuto, precisam de um cachimbo. Muitos de nossos rapazes veem um homem velho que foi educado entre os gentios, e contraiu, infelizmente, o hábito de mascar tabaco. Enquanto caminha, ele cospe na neve; isso colore a neve virgem como se um bezerro ali tivesse estado. O rapaz olha para aquilo, e diz: "Isso parece bonito"; então pega o seu tabaco, e cospe na neve também. "Aí está", diz ele, "isso parece que um homem passou por aqui." Esse hábito se tornou obstinado em muita gente. Podeis ficar surpresos quando vos digo que se tiram cerca de sessenta mil dólares em dinheiro de nosso Território todo ano para o artigo do tabaco. Nos últimos dez anos, pagamos algo em torno de seiscentos mil dólares só por este artigo. ¶
É inteiramente contra o nosso interesse pagar essa soma anual por um artigo que podemos cultivar em nosso próprio país, e uma violação dos verdadeiros princípios da economia política. Apelarei aos nossos bolsos individuais. Direi que tenho de pagar, por mim e meus rapazes, vinte e cinco libras de tabaco por ano. Suponde que venha um cobrador de impostos, e meu imposto seja de vinte e cinco dólares; digo que não tenho um tostão furado, e não posso pagá-lo. Não pode ser conseguido; não posso arranjá-lo; mas os vinte e cinco dólares em tabaco têm de ser arranjados: não há duas maneiras quanto a isso. ¶
Ora, como Estado, neste item de economia política, cultivemos e fabriquemos o nosso próprio tabaco, e aprendamos a pensar e a crer que o tabaco de nosso próprio cultivo é tão bom, e um pouco melhor, do que o trazido do estrangeiro. ¶
Enviamos irmãos para o sul para cultivar algodão em 1857. Cerca de trinta e três deles foram, e no ano seguinte muitos mais foram, de modo que, em 1858, o voto do Condado de Washington somava cem eleitores. Muitos deles eram homens do Sul, que haviam sido reunidos do Texas, Alabama, Mississippi, e outras partes dos Estados do Sul. Estavam acostumados a cultivar algodão. O Presidente os aconselhou a irem para lá e suprirem o Território com algodão. Tinha, em geral, aparência de terra estéril. As montanhas eram estéreis e desoladas em sua aparência; arenito vermelho, e rocha vulcânica negra, e uma variedade de argila de cor cinzenta predominando, dando ao todo uma espécie de aparência sombria e mortiça. Os irmãos passaram a cultivar algodão em pequenas parcelas conforme podiam encontrar terra, e a cada ano que o cultivavam, achavam que o algodão melhorava em qualidade. Cultivaram algodão melhor no ano passado do que no ano anterior, e assim continuaram até que se tornou certeza que o algodão pode ser cultivado ali. ¶
Já vi homens carregarem o seu algodão e partirem para cá para negociá-lo. Dizem eles: "Quero conseguir alguns alqueires de trigo, e pagarei em algodão." A resposta tem sido: "Não posso fazer nada com o teu algodão; mas se estivesse fiado, eu o compraria." Assim, o cultivador de algodão tem considerado de pouca utilidade cultivar algodão, e passou a cultivar trigo. Não sabiam o que fazer com o algodão depois de cultivado. Podeis ir àquelas mesmas pessoas que não comprariam do cultivador de algodão, e suas mulheres dizem — "Marido, preciso de um pouco de enchimento de algodão da loja, para fazer umas colchas. Ora, marido, não tentes fugir; o enchimento tem de vir." Custa cinquenta centavos a libra, e um terço é papel quando o obtendes. Irmã, por que não compraste o algodão daquele irmão outro dia: terias conseguido dois dólares pelo teu trigo que vendes na loja por um? "Ah, o algodão dele foi cultivado em casa, e o que se compra nas lojas é feito em belos lençóis, prontos para estender na colcha." Podeis pegar um par de cardas manuais e preparar o nosso algodão caseiro para a colcha com pouco trabalho, e teríeis o algodão limpo em vez de um terço de papel pardo. Pelo vosso alqueire de trigo, depois de transportá-lo até a loja, obtendes libra e meia de algodão; ao passo que, se vendêsseis o vosso trigo ao produtor local por algodão, teríeis à vossa porta quatro libras de algodão por um alqueire de trigo. ¶
Comprar o algodão estrangeiro dessa maneira, e desencorajar a produção local, está muito longe de ser boa economia política. Uma quantidade considerável de algodão bruto é necessária neste Território para encher colchas e outros propósitos em cada família. A lã serve a um bom propósito, mas não é suficientemente abundante; e mesmo que fosse, há muitos tipos de colchas e cobertores para os quais o algodão é muito preferível. Se apenas encorajássemos essa produção local de algodão nessa medida limitada, isso pouparia milhares de dólares de dinheiro que agora é lançado desnecessariamente nos bolsos dos mercadores para suprir este artigo do estrangeiro. Cessemos essa prática suicida de enviar para fora o nosso dinheiro. Seria melhor trançar nossa coberta de cama com palha de aveia, até que possamos suprir nossas necessidades a partir dos elementos e do solo de nossos próprios vales montanhosos. ¶
Em 1857, os irmãos haviam começado a cultivar linho. Falo particularmente de Provo. Em 1858, veio o exército, e havia oportunidade de um homem ganhar alguns dólares lambendo o pó de seus pés e curvando-se diante deles; então o linho foi deixado a apodrecer. Posso encontrar talvez uma centena de lugares agora na cidade de Provo onde se permite que o linho volte para a terra, enquanto os donos consideravam que deveriam ir fazer algo para os gentios para conseguir dinheiro para comprar roupas. ¶
Algum homem diz: "Trabalhei um pouco de linho, e não valia nada — estava podre." Sabe-se em todos os países produtores de linho que, se o linho ficar podre demais por guardá-lo por um ano ou dois, ele recuperará sua força. Na Pensilvânia, que é um bom país produtor de linho, alguns fazendeiros guardam linho de cinco ou seis anos, e a cada ano selecionam dele o que faz a melhor linha. Quando encontrais o vosso linho um pouco podre demais, ficais logo desencorajados, e imediatamente decidis ir trabalhar para os gentios para conseguir alguns de seus trapos podres. ¶
Muitos "mórmons", quando enriquecem, querem voltar para mostrar a seus antigos camaradas e amigos que quantidade de bens conseguiram. Mas, com toda essa ostentação e vã aparência, na verdade não possuímos nada. Um homem diz: "Vim para o Vale de Cache há dois anos, consegui quarenta acres de terra, e cultivei bastante trigo com trabalho muito árduo, e aquele trigo é meu." Araste a terra e a regaste; mas quem fez crescer a semente que lançastes na terra? O Senhor. Então é dele: ele te deixou ter um pouco dela, para ver o que farias com ela. Tens tu direito de abusar dos meios do Senhor que ele te permite usar? Não. Mas, como membro do reino de Deus nestes últimos dias, tens o direito de usá-lo para o progresso daquele reino, e o triunfo da retidão, e para fazer o bem de todas as maneiras possíveis. ¶
Já ouvi homens dizerem que têm o direito de fazer o mal. Em certo sentido, um homem tem tal direito; e, em outro sentido, não tem tal direito. Possuímos, na realidade, muito pouco; e esse pouco o Senhor nos deu, e é o poder de escolha. Podemos escolher fazer o bem, e, se fazemos o bem, recebemos a recompensa do bem; podemos também escolher fazer o mal e colher a penalidade. Um homem pode derrubar outro porque tem o direito de fazê-lo, e ter de pagar uma multa de cinquenta dólares porque é obrigado a isso. Nego que um homem tenha o direito de fazer ladrões de seus filhos e prostituir sua família. Se ele fizer isso, o Senhor se justifica em amaldiçoá-lo, e ele será obrigado a suportá-lo. Esse poder de escolha vai muito longe. Um jovem diz: tenho vontade de ir pela estrada e trabalhar para os gentios, carregar o correio, ou qualquer outra coisa. Está bem. Mas seu amigo sugere que seria melhor para ele fazer uma fazenda, construir uma casa, cultivar um pouco de linho, etc. "Mas tenho o direito de trabalhar para os gentios, se assim escolher, e vou fazê-lo." Vai e os enriquece com o seu trabalho. Esse jovem volta para casa depois de um tempo, exibe um charuto na boca entre seus camaradas, ganhou trinta dólares por mês, tem alguns dólares em dinheiro no bolso; pareceu vir com facilidade, e sua alma está contaminada pela iniquidade. Em pouco tempo o seu dinheiro se foi, e ele não tem nada. Então precisa ir novamente entre os gentios e conseguir dinheiro. Espero que as moças "mórmons" saibam avaliar tais sujeitos. Uma moça sensata preferiria muito mais casar-se com um jovem, vestido de tecido caseiro, que ficará em casa e cuidará de seus próprios negócios, e nunca deixará um charuto se aproximar de sua boca, mas buscará com todas as suas forças, em todo aspecto, ser um bom e fiel Santo dos Últimos Dias. ¶
Falar de fumar charutos me faz lembrar de uma anedota de um homem doente e seu médico. O médico lhe perguntou quantos charutos ele fumava por dia; a resposta foi: Seis. Isso é demais; precisas parar de fumar. Permitirás que eu fume um pouco. Sim, podes fumar dois por dia para começar, e finalmente parar de vez. No dia seguinte, o médico foi ver seu paciente, e o encontrou fumando um charuto de dois pés de comprimento. Que estás fazendo, indagou o médico? Só fazendo como me disseste; fui até o fabricante de charutos e mandei fazer dois com dois pés de comprimento, e eles servem perfeitamente. ¶
Quando um homem começa a adotar hábitos gentios, um charuto de dois pés de comprimento é apenas um remendo para a extravagância a que ele se tornará viciado. ¶
Vejo neste vale grandes campos cercados. Em alguns lugares, foram arados quatro ou cinco acres; em alguns, dez acres: passai um pouco mais adiante, e há mais alguns acres. Como é isso, irmão Maughan? Os homens cercam mais do que podem cultivar, irrigar e melhorar, e uma porção muito grande deve necessariamente ficar vazia, pois era difícil trazer água até ela. Muitos acres de grão perecem, e os gafanhotos devoraram muito do que restou da seca. Aconselho-vos, irmãos, a cessardes esse método disperso de cultivo, e reunirdes vossas fazendas, e fazerdes campos bem cercados, arardes, e plantardes bem o vosso grão, e lhe derdes uma quantidade suficiente de água, e tereis três vezes mais trigo do que tivestes no início de vossos povoamentos neste vale. ¶
O Presidente Young é reconhecido por todos nós como o mestre-construtor em Sião, ou, se preferirdes, o mestre-operário. Se o mestre-operário entra entre a madeira aqui disposta para o vosso grande Tabernáculo como o grande arquiteto, planejando e classificando as diferentes peças de madeira para certos lugares e propósitos, não espera encontrar oposição do material do qual planeja fazer um templo de adoração. Chega a uma peça de madeira, e diz: farei um poste desta; e a peça se ergue na dignidade de sua força e não quer ser feita poste, mas quer ser uma dormente, e assim por diante com toda a madeira do edifício: não estão sujeitas à vontade do mestre-construtor. Não representará essa comparação uma grande porção deste povo? O mestre-construtor aponta para o Sul e diz: Ide e cultivai algodão; mas muitos respondem: Não é terra de algodão; é a terra mais miserável, estéril, abandonada por Deus do mundo. Isso não é submeter-se à vontade do mestre-construtor. ¶
Isso me faz lembrar de Jefferson Thompson, agora um Brigadeiro-General no exército secessionista no Missouri. Depois de ter estado neste país, seus camaradas se reuniram e perguntaram: Bem, Sr. Thompson, como gostou daquela terra? Há boa terra lá? Ele respondeu: É o país mais abandonado por Deus em toda a criação. Como encontrou os mórmons vivendo ali? Como vivem eles? Ora, cultivam bastante trigo, e o melhor trigo que já vi em minha vida. Podem cultivar mais alguma coisa? Sim. As melhores batatas (nunca vi melhores), e todo tipo de hortaliça, e milho muito bom. Alguma fruta? Estão começando a cultivar bons pêssegos e outros tipos de frutas. Mas o senhor disse que era o país mais desolado, estéril, abandonado por Deus da criação: como é, então, que conseguem cultivar coisas tão boas? Bem, não consigo explicar isso de nenhuma forma, a não ser que seja um maldito milagre mórmon? ¶
Essa é a ideia correta: é o Senhor quem o está fazendo. Soube que no condado de Harrison, na Virgínia Ocidental, não colheram nem dez alqueires de maçãs, pêssegos, ameixas, nem uma pinta de morangos em todo o país, embora eu ouse dizer que há mil pomares nele, e suas colheitas fracassaram; sua glória partiu. O Senhor abençoa a terra na proporção em que estão dispostos a fazer o bem. No ano passado, a palavra do Senhor veio a este povo: Enviai duzentas juntas para trazer para casa os Santos. As juntas foram enviadas. Alguns disseram que não podíamos passar sem elas em casa; se tantas juntas fossem, não poderíamos cultivar colheitas suficientes. Mas não houve tal colheita em todo o Território quanto a que se colheu este ano. O próprio envio das juntas pareceu ser a garantia das generosas bênçãos de Deus sobre as nossas colheitas. Como o Presidente observou esta manhã, dizemos que tudo o que temos está sobre o altar: mas deixai que comece a queimar, e logo começam a tirá-lo dali. Estamos todos unidos em nossa fé; mas, quando vem a palavra: Irmão, tens uma boa fazenda aqui; mas os interesses de Sião parecem exigir que vás a Santa Clara cultivar algodão. Mas, diz ele, não é terra de algodão, e fica terrivelmente desanimado. Que importa em que parte do edifício o mestre-construtor nos coloca? Cada pessoa é colocada numa posição para a qual está mais bem qualificada, e na qual mais promoverá os interesses do reino de Deus. ¶
Enquanto o Presidente e sua comitiva desciam para o sul, um irmão quis que fôssemos tomar o desjejum com ele: disse que não podia nos receber muito bem, pois havia sido enviado numa missão, e não era tão rico quanto algumas pessoas. Quando fomos ao desjejum, não estava pronto. Fez-se uma desculpa de que as mulheres tinham de ordenhar vinte vacas: ele tinha mais dez nas Planícies andando com seus bezerros, e não tivera tempo de trazê-las. Disse que queria acompanhar o Presidente, mas só tinha dois animais prontos; mas tinha duas parelhas de mulas nas Planícies que pensava conseguiriam acompanhar o Presidente. Tive um tempo difícil nesta temporada, e tive pouco tempo. Tive de fazer toda a minha lavoura com animais de três e quatro anos. Enviei quatro juntas de bois para os Estados nesta temporada; contudo tenho trinta acres de trigo — o melhor trigo que já vistes. Que homem pobre! Mas estava numa missão, e a ideia de estar numa missão o fazia pensar que era pobre. ¶
Se um homem se sente rico, e não tem um tostão no bolso, se é justo, é realmente rico; mas se tem uma disposição sovina e é mesquinho, embora suas mãos estejam cheias de riquezas, não as aproveita bem, e em pouco tempo é como a criança que segura uma maçã em cada mão, mas tenta segurar outra; é provável que deixe cair as duas para agarrar a terceira. ¶
Quando cultivardes linho, cânhamo, trigo, gado, lã, etc., que tudo seja colocado na melhor posição para aumentar os confortos materiais da vida. Buscai os meios de transformar as produções têxteis em vestuário, etc., para que nada se perca nem se desperdice, e assim aprendei a passar sem aquelas coisas que têm de vir do estrangeiro. Façamos a nossa própria louça. Estejamos dispostos a beber de uma caneca de barro, ou a passar sem. Queremos ver todo homem e mulher prontos a fazer aquilo que é para o bem-estar geral mais do que para o interesse individual. ¶
Vangloriamo-nos de sermos um, oramos por isso, e nos alegramos com isso a todo momento; mas, quando os servos do Senhor tentam nos dizer como administrar nossa propriedade da melhor maneira possível para o bem geral e o crescimento acelerado da riqueza e influência deste grande povo, declaramos por nossas obras que eles não tocarão num dólar sequer. Sião vai ser um grande império, e, visto que Deus nos confiou como mordomos da propriedade que possuímos, devemos usá-la para edificar o seu reino e a sua causa. E quando as autoridades nos aconselham a colocar essa propriedade num moinho ou máquina de cardar, nisto ou naquilo, pelo bem-estar de Israel, fazei-o com alegria, de bom coração e mão pronta, e não com medo e lamúrias. ¶
Rogo continuamente ao Senhor que inspire o Presidente Young com sabedoria e conhecimento, e juízo acima de todos os homens sobre a terra, para dirigir os assuntos de Sião de uma maneira que seja a mais aprovada por seu Mestre celestial. Quero realmente ver um sentimento de contentamento manifestado pelos irmãos que são enviados ao Condado de Washington para lá cultivar algodão, e tornar honrosa a missão, e conquistar para si mesmos o mérito e as bênçãos de Deus e de seus servos. Se um homem é instruído a cultivar linho, e introduzir maquinário para fabricá-lo, gosto de vê-lo fazer isso com alegria. Em todas as nossas obras e labuta, nosso primeiro grande interesse deve ser a edificação do reino de Deus, e ser tão resolutos que efetivamente prescindiremos de comprar uma touca de papelão ou um par de sapatos de papel, quando podemos ter algo que nós mesmos podemos produzir e que servirá ao propósito. Todos esses artigos são produzidos pelo trabalho e pela engenhosidade. Que o conhecimento dessas artes seja comunicado de uns para outros, e seja propriedade de todos para benefício de todos. Há um homem em Pinto, Condado de Washington, que faz queijo tão habilmente que nunca tem problema com ele no verão; só precisa virá-lo de vez em quando. Bem, irmão, como fazes esse queijo? "Isso é segredo." ¶
Ora, irmãos, se sabeis algo que seja para o bem-estar de Israel, instruí outros. Se uma irmã sabe como fazer uma toalha de mesa, que a mostre à sua irmã, e que o conhecimento circule. Se ela entende o processo de fiar algodão e linho, comunique esse conhecimento a outras. Aprendamos a sabedoria de nossos líderes. ¶
O poder do Todo-Poderoso tem sido manifestado no ajuntamento deste povo do meio de muitas nações. Nunca existiu maior milagre. Isso tem sido feito por seu sábio conselho e cuidado paternal, e uma nação foi estabelecida sem derramamento de sangue. Sião esteve em trabalho de parto e deu à luz. Viajei nesta temporada para pregar aos Santos duas mil e quinhentas milhas, e me hospedei com os Santos todas as noites. Preguei a centenas de congregações, grandes e pequenas, em casas e ao ar livre. ¶
Que a bênção do Deus de Israel vos acompanhe, a vós e às vossas colheitas, e rebanhos e manadas; e tudo o que vos pertence, que seja continuamente abençoado. Amém. ¶