Governo de Deus—Caráter Progressivo do 'Mormonismo'—Concentração da Mente
Orson Hyde
Discurso do élder Orson Hyde, proferido no Tabernáculo, Great Salt Lake City, 12 de fevereiro de 1860. Relatado por G. D. Watt. ¶
Não esperava falar-vos nesta manhã, irmãos e irmãs, mas esperava ser apenas um ouvinte. Desde o meu regresso à cidade, tenho estado tão ocupado que não tive tempo [com humor] de preparar um sermão para esta manhã; e ainda que tivesse tido todo o tempo do mundo para esse propósito, provavelmente não estaria melhor preparado para me dirigir a vós do que estou neste momento. ¶
Jesus disse aos seus discípulos: "Não penseis de antemão no que haveis de dizer ou no que haveis de falar, pois vos será dado, naquela mesma hora, o que deveis dizer." Nesta doutrina deposito confiança implícita; e, sendo solicitado a falar-vos nesta ocasião, prontamente aceito, e passo desde já à obra que tenho diante de mim. ¶
A corrente da vida é composta de pequenas fontes, riachos e regatos, ou antes, de pequenos incidentes que, em conjunto, constituem o caráter do homem aqui na terra. Uma coisa tão pequena como uma palavra bondosa, dita a tempo aos tristes e aflitos, frequentemente resulta em grande bem, e granjeia a estima e a gratidão daqueles a quem é dirigida, ao passo que uma palavra má pode causar muito mal. O meu discurso desta manhã poderá ser composto de pequenos itens ou incidentes. ¶
Quero dizer algo sobre o governo de Deus -- sobre a maneira e o espírito de sua administração quando a sabedoria infinita guia a sua política. Não conheço melhor forma de ilustrar a administração deste governo do que remeter-vos ao governo dos pais sobre seus filhos, e à maneira de seu ensino e ao caráter de sua instrução para com eles. Quando o vosso filho começa a falar, tentais ensinar-lhe gramática, álgebra, astronomia, ou qualquer outra coisa totalmente além de sua compreensão ou entendimento? Não. Mas adaptais os vossos ensinamentos à capacidade da criança, usando palavras e frases da espécie mais simples para ensiná-la e diverti-la. Pouco a pouco, quando ele corre com certa destreza e começa a manusear as coisas, tenta, por exemplo, levantar um balde de água. Dizeis-lhe: "Não faças isso; é pesado demais para ti; mas pega o martelo, a boneca, o chocalho, ou o brinquedo." As vossas palavras são assim adaptadas à capacidade da criança e à sua apreciação das coisas que manuseia. À medida que os seus poderes mentais se desenvolvem, combinais um pouco de inteligência no que lhe dizeis; e então, quando a sua idade e força o permitirem, dizeis-lhe para trazer um balde de água da fonte ou do riacho. Assim exigis dele exatamente aquilo que uma vez lhe proibistes de tentar. Ora, se alguém vos acusasse de falsidade, porque as vossas instruções à criança não foram uniformes em todas as circunstâncias, considerarieis a acusação muito infundada. Falo assim para mostrar-vos que o que convém à criança num momento pode não lhe convir de modo algum noutro. ¶
Muitas pessoas que se uniram aos Santos dos Últimos Dias correram bem por uma temporada; mas, não compreendendo que o Evangelho é uma obra progressiva para os que o honram, afastaram-se da fé -- acusaram os Santos de inconsistência, mas ainda assim afirmam crer no que chamam de "mormonismo antigo." A veste feita para uma criança recém-nascida deve ser usada por um homem de trinta anos de idade, é a doutrina desses "mórmons" estereotipados. A Igreja tem agora quase trinta anos; contudo, esse tipo de "mórmons" quer que usemos agora as nossas babadeiras e fraldas, e sejamos alimentados com leite e papa como nos dias de Joseph. Paulo, porém, diz-nos que, quando era criança, falava como criança, sentia como criança, discorria como criança; mas, logo que chegou a ser homem, acabou com as coisas de criança. ¶
Se eu vos convidasse a entrar em meu jardim na estação apropriada e vos mostrasse uma planta recém-brotada da terra, poderíeis perguntar-me o seu nome, se não a conhecêsseis. Eu vos digo que é milho. Ao cabo de dois meses, vede-a novamente quando aparecem a seda e o pendão. Perguntai-me então o que é. Digo-vos que é milho. Podeis dizer que me enganei na primeira ou na última ocasião, pois as duas não se parecem em nada. Cerca de dois meses depois, passais por ali e vedes um cesto cheio de espigas douradas. Perguntai-me o que é. Digo-vos que é milho. Mas dizeis: "Não acredito, pois não se parece com nenhuma das outras coisas que me disseste ser milho. Já te contradisseste três vezes, e não acreditarei que qualquer delas seja milho; não acreditarei em ti de modo algum." A tais conclusões chegam muitas pessoas a respeito do "mormonismo," partindo de premissas muito semelhantes. Quão necessário é que aumentemos em inteligência numa proporção igual ao crescimento ou aumento do reino de Deus! Se não o fizermos, ficaremos para trás, e os nossos olhos serão cegados pelo deus deste mundo. Quando nos tornamos estereotipados em nossos sentimentos, chega-se ao fim das correções, das ampliações e dos melhoramentos. ¶
A que devemos olhar como nosso guia nesta nossa peregrinação terrena? Devemos olhar para a Bíblia, o Livro de Mórmon, ou para o Livro de Convênios? Resposta: Para nenhum deles. Esses registros sagrados e santos contêm a história, os ensinamentos e, em parte, os resultados das jornadas do povo antigo e moderno de Deus. São verdadeiros, mas não foram concebidos para guiar o povo. Lembrai-vos de que "a letra mata, mas o Espírito vivifica." Não queremos ser mortos; queremos vida. Deus estabeleceu em sua Igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres, etc., para guiar o seu povo -- os oráculos (ou, em outras palavras, o Espírito Santo), não em papel, encadernado em couro de bezerro, de ovelha, ou em qualquer outro material manufaturado, mas nos corações dos seus servos escolhidos. Paulo diz: "Temos este tesouro (não em um livro, mas) em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós." ¶
Vou apresentar um exemplo em que o espírito deu vida quando a letra teria matado. Havia, nos dias de Cristo, uma mulher apanhada em pleno ato de adultério. Os judeus autojustificados, pela letra da lei, prenderam-na e trouxeram-na perante o Salvador; e disseram-lhe: "Mestre, na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?" Jesus disse-lhes: "Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela." Mas eles, condenados pela própria consciência, saíram, deixando a mulher sozinha com Jesus. Ele perguntou-lhe se ninguém a havia condenado. Ela disse: "Ninguém, Senhor." Disse-lhe ele: "Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais." A letra da lei teria matado aquela mulher ali mesmo, naquele instante. Mas o Espírito de Deus, na pessoa de seu Filho, o oráculo vivo, abriu-lhe o caminho para a vida. São os oráculos vivos que guiam o povo de Deus. Neles há vida; mas na letra da lei há morte. ¶
Os primeiros mandamentos de Deus à sua Igreja e a maneira pela qual fomos guiados naquela época não se ajustam em todos os aspectos ao nosso caso agora. Precisamos de ensinamentos e revelações adaptados às nossas circunstâncias e condição atuais. Se nunca devêssemos avançar, mas permanecêssemos estacionários eternamente, então o mesmo código de leis e mandamentos poderia, com mais propriedade, servir. Mas neste mundo de mudança, onde somos chamados a avançar, precisamos de um aumento de inteligência para satisfazer o desenvolvimento ávido dos nossos próprios poderes mentais. Não há lugar de parada para um homem de Deus. ¶
Não sei se agora tomarei o meu texto. O meu sermão, porém, será breve. Jesus diz: "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." ¶
Sabeis que, quando queremos examinar algo muito de perto -- especialmente vós, atiradores e caçadores, que tendes o hábito de usar armas -- quando quereis fazer pontaria deliberada, e certificar-vos do objeto que desejais atingir, fechais um olho, e com o outro mirais ao longo do cano da arma até que o chumbo repouse sobre o objeto. Ora, diz o Salvador: "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." ¶
Isso se referia não apenas ao olho natural, mas também a todos os poderes morais do homem. Tomai por certo que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Ora, deixai-me perguntar: não nutrimos a esperança, se formos fiéis nesta vida, de sermos governantes sobre reinos e povos, e nações e línguas? Jesus diz: "Aquele que for fiel sobre o pouco será constituído governante sobre o muito." ¶
Deixai-me perguntar-vos como é convosco quando ides orar. Tendes esse controle e domínio sobre as vossas próprias mentes, de modo que não possam ser arrebatadas por algo estranho ao propósito ou objeto que ocupa a vossa atenção? Por exemplo, enquanto invocamos o Senhor por suas bênçãos, não é às vezes o caso de pensarmos que o velho boi pode estar no curral? Não pensamos às vezes que seremos enganados aqui, e perderemos tal quantia ali? Se nunca notastes isso, quando fordes para casa e orardes novamente, vede se tendes poder para controlar a vossa mente e impedi-la de vaguear para outra coisa. Até que disciplinemos as nossas mentes, e tenhamos completo controle sobre elas, não podemos fazer o avanço que devemos. ¶
Se não podemos disciplinar e controlar as nossas próprias mentes, como poderemos disciplinar e controlar reinos, nações, línguas e povos? ¶
Suponde que alguns de vós, mecânicos, erguem um moinho, e a corrente é pequena -- embora, se aplicada corretamente e com economia, fosse bastante suficiente para acionar a maquinaria que desejais; mas, em vez de a água ser devidamente confinada para exercer a maior quantidade de força, ela se espalha por toda a superfície da terra -- tem ela aquela quantidade de força para acionar a maquinaria que de outro modo teria? Não. Mas conduzi a água por um canal estreito, e aplicai-a devidamente sobre a roda, e a vossa maquinaria se movimenta. É exatamente assim com as nossas mentes: quando estão dispersas em diferentes objetos, quando invocamos o nome do Senhor, não há poder naquela mente. Por quê? Porque o olho não é bom. "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." Novamente: o vapor, como agente, possui grande poder quando confinado e devidamente aplicado a eixos e rodas. Mas deixai a caldeira explodir e o vapor passar para a atmosfera, que poder há então nesse agente? Nenhum. Confinai-o, e ele é como que um poder onipotente, ou é uma porção do poder onipotente extraída dos elementos que nos rodeiam. Assim é com a mente: que seja concentrada e aplicada a qualquer assunto, e terá grande poder. "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." Tenho-me perguntado muitas vezes o que o nosso Salvador poderia querer dizer quando disse: "Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e vos obedeceria." Novamente, ele diz: "Porque em verdade vos digo que, se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este monte: Passa daqui para acolá; e haveria de passar; e nada vos seria impossível." O que significa isso? Tenho exercido, ao que parece, toda a fé que está ao meu alcance, e mal consegui curar um enfermo, quanto mais remover um monte, ou desarraigar uma amoreira, ou qualquer outra árvore. O que significa isso? Começo a perceber que o Diabo aparece quando fixo a minha mente, e lança algum objeto à vista para desviá-la daquilo que tenho diante de mim. ¶
"Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." Tenho a ideia de que o Diabo vem e arrebata a palavra que é semeada em nossos corações, para frustrar os desígnios que o Senhor tem ao semeá-la. Ao passo que, se pudéssemos controlar as nossas mentes, e não permitir que fossem arrebatadas, então os nossos olhos seriam bons, e todo o corpo estaria cheio de luz. ¶
Novamente: quando Moisés conduzia os filhos de Israel para fora do Egito, eles murmuraram porque não tinham água para beber. Ele se afligiu com eles, mas tinha o poder de concentrar a sua mente. E que poder havia naquela mente? Ele feriu a rocha, e dela jorrou água. Tinha a sua vara poder para fender a rocha? Não; mas a concentração da sua mente sobre aquela rocha o tinha. Havia nela um poder para fender a rocha e fazer sair água para os milhares sedentos. A mente está armada de poder onipotente; e se pudéssemos concentrar os seus poderes, e vencer o poder do Diabo, poderíamos remover aquele monte com a mesma facilidade com que curamos um enfermo. Isso requer apenas fé como um grão de mostarda, ou um esforço concentrado da mente. Salomão foi certa vez procurado por duas mulheres que reivindicavam um mesmo filho, para que ele decidisse o caso. Disse Salomão: "Trazei-me uma espada. E trouxeram uma espada diante do rei. E disse o rei: Dividi em duas partes o menino vivo; e dai metade a uma, e metade a outra. Então a mulher, cujo filho era o vivo, falou ao rei (porque as suas entranhas se lhe enterneceram por seu filho), e disse: Ah! senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; antes dividi-o. Então respondeu o rei, e disse: Dai à primeira o menino vivo, e de maneira nenhuma o mateis, porque esta é sua mãe." Dividir aquela criança a teria destruído, assim como dividir a mente: isso destrói o seu poder e a sua eficácia. Que a mente seja concentrada, e ela possuirá poder onipotente. Ela é o agente do Onipotente revestido de tabernáculos mortais, e devemos aprender a disciplina-la, e a levá-la a incidir sobre um só ponto, e não permitir que o Diabo interfira e a confunda, nem a desvie do grande objeto que temos em vista. ¶
É um bom trabalho presidir sobre nossas próprias famílias e manter ali tudo em ordem. Mas, posto um homem sozinho, é tanto quanto ele consegue fazer governar a sua própria mente. Ele tem grande necessidade de vigiar e orar; e, enquanto vigia, deve atentar e não ver outro objeto além daquele pelo qual ora. O que não poderíamos fazer, se as nossas mentes fossem devidamente disciplinadas? "Pois, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." Se os teus olhos fossem bons, poderias por vezes ver através do véu. Lemos algo sobre a remoção do véu, a cobertura que está lançada sobre todos os povos. ¶
Às vezes vemos o sol coberto por uma nuvem fina e algodoada; contudo, podemos ver aquele luminar o tempo todo através daquele véu. Depois, vem uma nuvem escura e trovejante, e encobre todo o céu, de modo que não podemos ver onde está o sol. Assim, se os nossos olhos não forem bons, não vemos claramente; mas o véu se torna espesso, e ficamos nas trevas; não podemos ver o sol da justiça; não podemos dizer o lugar onde ele está. Mas, se os teus olhos forem bons, ainda que haja um véu fino e algodoado sobre o sol, podemos vê-lo. Se não pudermos ver claramente, poderemos, ao menos, ser capazes de "ver os homens como árvores que andam." O fato é que, se os nossos olhos forem bons, e os treinarmos para isso, não sei por que o homem mortal, aqui nos tabernáculos terrenos, não possa olhar através do véu, e ver como é visto, e conhecer como é conhecido. ¶
Temos de aprender a disciplinar as nossas mentes. Às vezes, porque os nossos filhos não fazem o que queremos, quando estão fora de nossa vista, sentimo-nos aflitos por isso; mas aqui temos as nossas próprias mentes só para nós. Ora, a questão é: não são elas tão difíceis de controlar e governar quanto os nossos filhos, que correm de um lado para outro? Se pudéssemos controlar as nossas próprias mentes, poderíamos controlar os nossos filhos, as nossas famílias e o reino de Deus, e ver que tudo corresse bem, e com muito mais facilidade do que conseguimos agora. ¶
Que seja, então, o trabalho das nossas mentes treiná-las quando estivermos em casa, e quando nos ajoelharmos em nossas famílias, ou em particular. ¶
Recordo-me de estar certa vez a bordo de um navio; o vento soprava-lhe pelo través, e o navio navegava muito bem. O capitão olhou para a bússola, e proferiu algo que não é incomum entre marinheiros, dizendo ao homem do leme: "Por que a deixas cair a sotavento? Mantém-na no rumo." Não deixeis que a mente se desvie, mas mantende-a no ponto certo; então chegaremos ao porto: mas, se a deixardes sair do rumo, ela se encontrará à deriva em alguma costa a sotavento. Temos de mantê-la no rumo, e não deixá-la balançar para fora. Não devemos deixar que a mente se afaste, mas mantê-la no verdadeiro curso. "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz." ¶
Que Deus o conceda, por amor de Cristo! Amém. ¶