A História do Maometismo
George A. Smith
Levanto-me diante de vós nesta manhã, inesperadamente; mas, como sempre me sinto disposto a fazer uma tentativa de oferecer algumas reflexões à consideração de meus irmãos e irmãs, sinto certo grau de prazer. Ao observar a aparência melhorada de nossos bancos hoje, vejo que um bom número de assentos confortáveis foi trazido para cá, o que há de, em grande medida, dispensar a ocasional quebra de assentos temporários, que perturbava a congregação. ¶
O Senhor disse, numa revelação dada por meio de Joseph Smith, que é Seu propósito cuidar de Seus santos. Ele também prometeu a Seu povo, no início do lançamento dos alicerces desta Igreja, que os peneiraria como com uma peneira. Alguns dos antigos profetas, ao se referirem à obra dos últimos dias, falam da peneira da vaidade. A história deste povo, desde que a Igreja foi organizada, tem sido uma cena contínua de mudanças. ¶
Nos primeiros anos da Igreja, havia grande ansiedade entre os irmãos por viajar e pregar o Evangelho entre os lamanitas, mas as rígidas leis dos Estados Unidos, naquela época, impediam qualquer contato com eles. Os irmãos costumavam se sentir animados a respeito do assunto; falavam em línguas e profetizavam, e se regozijavam extremamente nas coisas que estavam prestes a acontecer, ou que criam que aconteceriam, quando lhes fosse permitido ir pregar o Evangelho aos lamanitas. ¶
Uma série de acontecimentos inesperados e imprevistos finalmente trouxe uma oportunidade, de nossa parte, de instruir estes remanescentes da casa de Israel no melhor conhecimento que nos é possível transmitir-lhes. ¶
Estamos agora há oito anos bem no meio deles, onde poderíamos ter a oportunidade de lhes ensinar a ler, se assim escolhêssemos; de lhes ensinar a trabalhar, ou qualquer outra coisa a que dedicássemos tempo, trabalho e despesa para lhes ensinar. Estamos agora familiarizados com seus hábitos, caráter e costumes, em considerável medida. ¶
Quando a maldição do Todo-Poderoso vem sobre um povo, certamente é obra de gerações removê-la. Quando Caim trouxe uma maldição sobre sua própria cabeça, e a de sua casa, suas gerações posteriores carregaram a mesma maldição. ¶
A maldição que veio sobre Canaã, filho de Cam, se estendeu a grande parte da raça humana, e tem continuado até o presente dia. ¶
Nos últimos cem anos, filantropos, que eram ignorantes da ordem de Deus — dos decretos irrevogáveis do Todo-Poderoso — têm se esforçado vigorosamente para frustrar os propósitos do Todo-Poderoso, tentando remover a maldição da servidão dos descendentes de Canaã; mas seus esforços são vãos e inúteis; é trabalho perdido, e não serve a nenhum fim, senão na medida em que serve para multiplicar as dificuldades e perplexidades que surgem nesta geração, para trazer a grande destruição da corrupção e da iniquidade da terra; desta maneira, tudo isso indiretamente serve a um propósito. ¶
Quando Deus decretou certa condição para que os homens estivessem em servidão, e determinou que ocupassem aquela posição, é pior que inútil que qualquer homem, ou grupo de homens, empreenda colocá-los numa posição de governar. ¶
O Senhor conferiu porções do sacerdócio a certas raças de homens, e, por meio de promessas feitas a seus pais, tinham direito aos direitos, bênçãos e privilégios daquele sacerdócio. Outras raças, em consequência de suas corrupções, seus assassinatos, sua iniquidade, ou a iniquidade de seus pais, tiveram o sacerdócio tirado delas, e a maldição que estava sobre elas foi decretada que descesse sobre sua posteridade depois delas; foi decretado que não haveriam de governar. ¶
Ao olhar amplamente pela terra, e ver os efeitos produzidos sobre diferentes raças de homens, claramente se descobrirá que há raças que nunca tiveram permissão de governar em grande medida. ¶
O Deus dos céus é o criador e proprietário da terra; havemos de admitir, contudo, que Seu direito a ela tem sido considerado, por muitas gerações de homens, muito fraco; Seu título tem sido, eu não diria disputado, mas tem sido absolutamente negado por muito tempo, tanto que, quando o Filho de Deus veio à terra, não tinha onde reclinar a cabeça; Ele mesmo disse: "As raposas têm seus covis, e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." ¶
Também lemos que, quando o Salvador foi levado pelo tentador a um monte muito alto, este Lhe mostrou os reinos do mundo, e a glória deles, dizendo: "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares," embora "o pobre diabo" não possuísse um único palmo dela. ¶
Isto prova que Satanás se considerava tão dono da terra, a ponto de de fato excluir inteiramente a supremacia do Salvador, e desejava colocá-lo numa posição em que jamais fosse reconhecido; mas o Salvador disse: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás." ¶
O domínio sobre porções da terra tem mudado de mãos frequentemente, e por vezes de maneira muito inesperada e miraculosa; os romanos a dominaram em grande extensão, e tudo o que era considerado habitável, ou que então era conhecido, ou foi reduzido à submissão ao domínio romano, obrigado a pagar tributo, ou pelo menos a reconhecer a supremacia romana, com muito poucas exceções; até aqui vai a história profana: por isso, diz Lucas: "E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse... E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade." — ii. 1, 3. Esta circunstância mostra a existência de vários imperadores que possuíam domínios e poder suficientes, no império romano, para exigir o alistamento de todo o mundo. ¶
Aquela nação tem sido comparada a uma nação de ferro, nas visões do profeta Daniel; tem sido considerado, pela maioria dos comentaristas da palavra de Deus, que o profeta Daniel considerava que o império romano era tipificado pelo sonho de Nabucodonosor, no qual é representado como sendo de ferro, na grande imagem que ele viu. ¶
Creio que ele chegou mais perto de exercer domínio universal do que qualquer outro império que já existiu. As nações da época presente obtiveram domínio sobre uma extensão maior da superfície da terra do que o império romano, contudo, ele parece ter sido habitado, cultivado, aperfeiçoado e explorado numa proporção muito maior. ¶
Alguns geógrafos disseram que o império da Rússia é o mais extenso que já existiu; outros, que o império de Carlos V da Alemanha, que incluía a Espanha, a Alemanha, os Países Baixos, e o México, a Guatemala, e quase toda a América do Sul, foi o maior. Outros dizem que os domínios atuais da Rainha Vitória são os mais extensos de todos. Seja como for, é apenas matéria de especulação. Roma, em seu tempo, era o único governo considerado todo-poderoso. Que este poder foi dado pelo Todo-Poderoso, nenhum homem que creia nos tratos de Deus com os homens há de disputar, embora muitos, céticos quanto a este assunto, possam apresentar ideias e opiniões diferentes. ¶
Desde o tempo em que Roma foi fundada — uma pequena cidade sobre as sete colinas do Tibre — até a extensão final de seu domínio, se passaram oitocentos anos, quando começou a se esfacelar, e assim continuou até se desfazer em pedaços. ¶
Cerca de seiscentos anos depois de Cristo, levantou-se na Arábia um profeta de nome Maomé, que nasceu em 569; era um menino órfão; tendo morrido seu pai (Abdallah), foi deixado na infância, e foi criado sob os cuidados de seu tio, cujo nome era Abu Taleb, e finalmente se tornou aprendiz para aprender o ofício mercantil; foi enviado por seu patrão, várias vezes, em expedições comerciais, como seu agente, para se encarregar de sua caravana de mercadorias. ¶
Posteriormente, casou-se com Cadija, a viúva de seu empregador, que lhe havia deixado, ao morrer, considerável riqueza. ¶
Maomé continuou lucrativamente o negócio que seu patrão deixara, até que professou e proclamou ao mundo ter recebido uma missão do céu. Levou cinco anos para fazer seu primeiro converso; foi um progresso bastante lento; e aquele converso, quando enfim feito, era apenas um menino de onze anos, cujo nome era Ali, filho de Abu Taleb. ¶
Recordar-se-á que o clima da Arábia leva as pessoas à maturidade de corpo e mente muito mais cedo do que climas mais frios. Maomé e Ali começaram a pregar, e finalmente conseguiram reunir a seu redor um número considerável de adeptos. ¶
Maomé descendia de uma das mais nobres famílias dos coraixitas; vinha em linha direta de descendência de Ismael, filho de Abraão. ¶
Foi hostilizado por aquela poderosa e popular tribo, os coraixitas, que estavam determinados a destruí-lo, pois ele proclamava que seus deuses ídolos eram todos uma fraude, e apresentava um único Deus verdadeiro e vivo para adorarem. A perseguição continuou a aumentar, até que foi obrigado a deixar Meca, e fugir para salvar a vida, para Medina, em 15 de julho de 622, o que é a grande Hégira, ou era maometana. Ao deixar sua cidade natal, Al Abbas, seu tio, um dos mais poderosos chefes dos coraixitas, fez os Ansars, como eram chamados seus amigos em Medina, prometerem e jurarem que não o enganariam, mas protegeriam seu sobrinho à custa de suas vidas, embora o próprio Al Abbas não cresse, então, em sua missão divina. ¶
Maomé continuou pregando; não havia nada em sua religião que licenciasse a iniquidade ou a corrupção; ele pregava as doutrinas morais que o Salvador ensinou; a saber, fazer aos outros como gostariam que lhes fizessem; e não fazer violência a nenhum homem, nem retribuir mal com mal; e adorar um único Deus. ¶
Continuou assim a pregar até ser expulso de sua terra. Depois de ter começado a pregar amplamente sua doutrina, em diferentes partes da Arábia, e muitos terem crido nela, seus perseguidores em Meca reuniram uma grande força, e o seguiram, com a determinação de exterminá-lo, a ele e a seus amigos. Seguiram-no com suas perseguições, até que ele ficou tão irado que não pôde mais suportar; sua religião cedeu, ele empunhou sua espada, reuniu seus seguidores, e deu a seus inimigos tamanha surra que foram embora envergonhados. Esta foi a batalha de Bedr. ¶
Reuniram uma força superior, de 3.000 homens, e travaram um segundo combate com o profeta (em 626), que mal conseguia reunir 1.200 homens; suas ordens não sendo obedecidas, seus seguidores abandonaram o campo, mas o profeta estava decidido a não se deixar tirar do rumo, e resolveu lutar a batalha sozinho; sua intrepidez e ousadia, na ocasião, converteu um líder do exército infiel, de nome Khaled, e ele posteriormente o fez seu general, e lhe deu o sobrenome de espada de Deus. Isto é chamado a batalha de Ohud. ¶
Em cem anos, o poder maometano se estendeu sobre mais território do que os romanos ganharam em oitocentos anos; em muito pouco tempo, toda a Arábia se curvou a seu cetro, e ele foi confirmado em seu poder real, e assumiu as insígnias da realeza em 628. ¶
Então enviou seus embaixadores para visitar as nações vizinhas, pois já era o monarca da Arábia, e pediu que aceitassem sua religião. Visitaram Khosroes, o Grande, rei dos persas, um dos soberanos mais belicosos de sua época. Os ministros de Maomé apresentaram suas cartas, mas o rei persa, arrogantemente, as rasgou em pedaços, ordenou que os embaixadores fossem açoitados, e os mandou de volta desonrados. Retornaram a Medina e encontraram Maomé consertando seus sapatos, e relataram como haviam sido tratados; com lágrimas, ele respondeu: "Não precisais vos alarmar, rapazes, pois muitos de vós hão de viver para banquetear no palácio branco de Khosroes." ¶
Pensou-se que a morte de Maomé poria fim definitivo ao progresso de sua religião; algumas pessoas lhe deram veneno, para ver se era ou não profeta, e era sua crença que o veneno foi a causa de sua morte. Morreu aos sessenta e três anos, em 632, e foi sucedido por seu sogro, Abu Bukker, que fora muito fiel em sustentar o profeta durante sua vida, e que foi reconhecido como o primeiro califa após a morte do profeta. Este homem prosseguiu a guerra que Maomé havia começado, pois, quando o profeta constatou que o povo não deixaria seus ídolos apenas por lhe ser pregado, concluiu que a espada era o melhor argumento; decidiu, portanto, tomar o caminho de marcha até sua cidade natal, sustentado por um poderoso exército. Destruiu os ídolos na Caaba, o templo de Meca, e o dedicou a ser o grande templo de Maomé, e o centro da adoração maometana, posição que manteve até o presente. Maomé deu seus exemplos, promulgou suas leis a respeito de peregrinação, oração e matrimônio, e adotou muitas regras rígidas, que ele mesmo guardava estritamente, e que seus seguidores têm observado por muitas gerações; e, em sua última peregrinação, em 632, 114.000 mulçumanos convertidos marcharam sob sua bandeira. ¶
Ora, este homem descendia de Abraão, e sem dúvida foi levantado por Deus com o propósito de açoitar o mundo por sua idolatria. Imediatamente após sua morte, seus sucessores iniciaram uma série de campanhas contra o império romano, ou grego, sob o comando de Khaled, o Grande, apelidado a espada de Deus, e Abu Obeidah. Durante os dois anos do reinado de Abu Bukker, que ascendeu ao trono em 632, ele determinou impor a nova religião aos habitantes da Pérsia. Esta expedição, contudo, fracassou, por ser fraca demais; mas as expedições contra os gregos foram mais bem-sucedidas; batalha após batalha foi travada, província após província se rendeu, e milhões foram convertidos à nova fé; e, à morte de Abu Bukker, Omar Ebu Al Khattab ascendeu ao trono em 634, e a guerra prosseguiu. ¶
Durante o reinado de Omar, conquistaram a Síria e o Egito, derrubaram a monarquia persa, a velha dinastia dos Sassânidas cedeu seu estandarte (o avental de couro do ferreiro), que havia flutuado por várias centenas de anos, triunfante, sobre a monarquia persa, ao domínio sarraceno, e muitos que cercavam a pessoa de Maomé nos tempos de seu maior perigo banquetearam no palácio branco de Khosroes, que foi tomado pelos árabes em 637, e onde dividiram entre si um espólio de sessenta milhões de libras esterlinas, e muitos dos companheiros do profeta choraram ao ver aquela profecia tão literalmente cumprida. ¶
Sua maneira de conduzir os negócios era singular; tinham um modo próprio de fazer as coisas. Quando entraram no império persa, liderados por Saud-e-Wekkauss, receberam uma mensagem do rei Zezdejird, de que eram um bando de pobres coitados, que vinham de um país que era um deserto, e não tinham muito o que comer, e que, se fossem para casa e cuidassem de seus próprios assuntos, ele carregaria seus camelos de tâmaras. Responderam que não vinham por suas riquezas, nem pelos frutos de seu país; sabiam que eram pobres, e tinham vivido de lagartos verdes e caracóis, mas isso nada tinha a ver com o assunto; seu negócio era apresentar ao rei e a seu povo a religião pura que Deus lhes havia revelado, e, se a aceitassem, e obedecessem a seus preceitos, nem um fio de cabelo de suas cabeças seria tocado; se não a aceitassem, se não lhe obedecessem, exigiriam de todos eles que pagassem tributo, e, se não pagassem tributo, cortariam suas cabeças. Estava tudo dito em três palavras: o Corão, o tributo, ou a espada. ¶
O orgulhoso monarca não pôde se curvar a isso, mas convocou seus imensos exércitos, e os colocou sob o comando de Rustum, filho de Furrukh-zaud, e Ameir ul Omra do império. E uma batalha decisiva foi travada em Kaudsiah; isso abriu toda a monarquia persa ao domínio sarraceno. Saud-e-Wekkauss foi afligido por uma doença chamada ciática, que deixou suas articulações tão rígidas que não podia montar a cavalo; ele proclamou o Tekbair (Alá é grande) de um terraço do palácio em Kaudsiah, que era o sinal de batalha. ¶
O rei persa alinhou suas hostes, num total de cento e vinte mil homens, enquanto o exército maometano somava apenas trinta mil homens. A batalha começou pela manhã, às oito horas, e durou até escurecer, quando cada sarraceno se deitou no chão onde terminara seu trabalho do dia. ¶
As mulheres dos sarracenos lhes traziam comida, e curavam suas feridas, e carregavam os feridos e os mortos, mas os soldados, homens e oficiais, jamais deixaram sua posição, até que o chamado fosse dado pela manhã, "Deus é grande." Por causa da posição que cada exército ocupava, nenhum dos exércitos podia apresentar frente maior do que o outro; lutaram o segundo dia, o terceiro, e o quarto, até que dezenas de milhares foram mortos. No segundo dia, os sarracenos receberam um reforço de dois mil homens, que haviam marchado quinhentas milhas em marchas forçadas; os persas também receberam um reforço de 30.000 homens, e, no quarto dia, ao meio-dia, o conflito foi decidido, depois que cerca de cem mil homens haviam sido massacrados no campo. ¶
Relato isto para vos mostrar o que o zelo religioso pode realizar. Maomé, em seus dias, advertiu seu povo a não beber vinho, ou, em outras palavras, deu-lhes uma "palavra de sabedoria," mostrando que não era apropriado beber vinho. Havia um guerreiro chamado Abu Mohudjen, de considerável reputação na época, que havia quebrado esta lei de Maomé; tomara de um bom vinho da Pérsia, em consequência do que fora posto em correntes, por ordem de Saud, e confinado no palácio de Kaudsiah, enquanto a batalha se travava tão duramente. O general não havia deixado sequer um único oficial de estado-maior para comunicar a palavra de comando, do ponto que o general maometano ocupava, a seus oficiais no campo, então tinha de enviá-las por suas esposas, ou seus servos. O único homem que restava na casa era o general, e este oficial em correntes, que rogava às mulheres que suplicassem ao general que o dispensasse, e o deixasse ir lutar, mas elas não ousavam fazê-lo, por medo da ira de seu marido. Ele as importunou tão sinceramente, quando lhe traziam suas provisões, declarando que, se não morresse no campo, voltaria novamente para pôr as correntes, que resolveram deixá-lo ir; assim, deram-lhe a égua malhada do general e um conjunto de sua armadura, e ele partiu para o campo de batalha. ¶
Saud não demorou a observar as ações do guerreiro disfarçado, cuja extraordinária proeza excitou sua admiração. Perguntou a seus assistentes quem ele era, mas não puderam lhe dar informação alguma. Concluiu que, se fosse possível supor que Deus enviasse auxílio em tais ocasiões, devia ser o imortal Kezzer, palavra que significa Enoque, Elias, São João Evangelista, ou São Jorge. ¶
Os árabes, sofrendo severamente com o incômodo dos elefantes dos persas, e com a firme e resoluta resistência das tropas de Rustum, onde comandava em pessoa, foram repelidos e lançados na desordem, e só se recuperaram pelos extraordinários e inesperados esforços de Abu Mohudjen, disfarçado na armadura de Saud. ¶
Depois da batalha, o oficial aprisionado retornou a seus aposentos, e as mulheres novamente lhe puseram as correntes, e nada foi dito ao general a respeito de ele ter sido posto em liberdade. Enquanto o general exultava com sua vitória, e o imenso espólio que tomara, disse a suas esposas que o imortal Kezzer havia lutado por ele; diz ele: "O profeta sabia que eu não podia cavalgar, e vi um poderoso guerreiro sobre minha égua malhada, conduzindo o caminho onde quer que a batalha fosse mais intensa." ¶
Suas esposas então lhe disseram quem era aquele que vira; Saud diz: "Trazei-o aqui, tirai-lhe as correntes, dai-lhe a égua malhada e a armadura, e deixai-o beber todo o vinho que quiser por todos os dias de sua vida." "Mas," diz o velho oficial, "se beber vinho agora, estarei fazendo o que é contrário à lei de Deus, o que, se pudesse expiar com a prisão, eu beberia, mas, como não posso, não beberei mais vinho"; e cumpriu sua palavra. ¶
Relato isto para vos mostrar o que a união e o entusiasmo religioso podem realizar: o império grego, na Ásia, foi esmagado até virar pó, e, em cem anos, o domínio maometano era mais extenso do que o do império romano, em oitocentos anos, desde sua fundação. ¶
A Pérsia, o Egito, a Mauritânia, e quase toda a África do Norte, Chipre e Rodes, foram subjugados antes de 637, junto com a Síria, a Ásia Menor, e os países hoje conhecidos como Turquistão, Afeganistão, Beluchistão, Circássia, e a Ásia Menor, e parte da Tartária Chinesa. Tarick e Musa completaram sua conquista da Espanha em 714; e, não fossem as dissensões entre eles mesmos, é provável que o crescente estivesse agora no alto da Catedral de São Paulo, em Londres, em vez da cruz. ¶
O cristianismo se tornara tão corrupto e dividido, que nenhum dos príncipes cristãos estava disposto a unir seu poder ao do imperador grego, para se defenderem do poder maometano, ou para impedir que dominassem uma nação cristã após outra, pois assim continuaram a fazer, até que a divisão entre eles mesmos impediu seu crescimento; e agora sua existência nacional vai minguando pouco a pouco, até se tornar muito fraca. ¶
A batalha de Tours, na qual 370.000 mulçumanos foram mortos, e que impediu os sarracenos não apenas de dominar a França, mas toda a Europa, foi travada no ano de 732, pelos franceses, sob Carlos Martel, que era chamado em sua época "o martelador," porque desferia golpes tão duros na batalha. Ele se apoderou de uma quantidade das rendas eclesiásticas para pagar suas tropas, e, por isso, os católicos o condenaram ao purgatório, e exigiram que seus filhos, por gerações, pagassem por orações para seu alívio, mas ele foi o grande chefe, no que diz respeito ao homem, que impediu a total aniquilação da religião da cruz, e sua substituição pela do crescente. ¶
A história é para mim um tema natural, e, ainda que tenha tomado tanta liberdade com vosso tempo ao traçar o progresso da história das nações, ainda vos direi que esta raça maometana, este poder dominante dos séculos VII e VIII, eram os descendentes de Abraão, o que os registros maometanos mostram numa genealogia direta, da família de Maomé até a de Abraão, pelos lombos de Ismael, filho de Abraão; e neste domínio certamente havia um reconhecimento do domínio dos filhos de Abraão, e, contanto que permanecessem nos ensinamentos que Maomé lhes deu, e andassem em estrita conformidade com eles, eram unidos, e prosperavam; mas, quando deixaram de fazê-lo, perderam seu poder e influência, em grande medida. ¶
Estou ciente de que é uma questão difícil obter uma história honesta do maometismo traduzida para qualquer das línguas cristãs. Uma das melhores obras que já li sobre o assunto, e na qual posso depositar mais confiança, é a História dos Sarracenos, de Simon Ockley; era uma tradução de um historiador maometano, de nome Abu Abdollah Mahommed Ebu Omar Al Wakidi, que escreveu oitenta anos depois da fuga de Maomé de Meca. Ockley se orgulhava de verter o árabe num bom estilo, embora seus preconceitos religiosos fossem tão fortes que não ousava verter os sentimentos que traduzia em toda sua força, sem antes obscurecê-los um pouco. Frequentemente traduzia como deveria ser, o mais próximo que podia, e então punha uma nota na margem, dizendo: "Isso foi feito apenas por hipocrisia." É um dos melhores autores, ou aquele que eu preferiria ler. ¶
É coisa difícil, como já disse, obter uma história honesta de qualquer nação ou povo por meio de seus inimigos. Por exemplo, lede a História de Illinois, do governador Ford, e vereis que ele se contradiz meia dúzia de vezes numa única declaração, por medo de não lisonjear os preconceitos que o povo tinha contra os "mórmons." Num lugar afirmaria que jamais fizera algo para favorecer os anti-mórmons, e, imediatamente depois, declararia que não conseguia entender por que os anti-mórmons pudessem ter algum sentimento contra ele, quando fizera tanto por eles; e então passaria a enumerar como impediu Backenstos de prender os incendiários de casas; ainda assim, declara que jamais fez nada para favorecê-los, e se admira por que aquele partido nutriria algum ressentimento contra ele. Este é o temperamento de quase todos os homens que empreendem escrever a história de seus inimigos. ¶
Basta ler os relatos dos diferentes generais nos campos de batalha da Crimeia, e vereis que cada um tem um lado diferente da história. Estes relatos têm de ser recebidos com muita reserva, de modo geral. ¶
Todas as traduções cristãs da história maometana, assim como do Corão, devem ser recebidas com bastante reserva. Recomendaria a leitura da "História do Império Maometano," do major David Price. Ele foi educado e formado para ser um homem da Igreja da Inglaterra, mas não tinha muitos escrúpulos de consciência sobre religião; ainda assim, tinha preconceitos contra os maometanos, de modo que, ao lê-lo, deveis prestar ouvido com certa reserva. Considero a "Vida de Maomé," de Bush, escrita sob a influência de um violento preconceito cristão. Prefiro o relato de "Arábia," de Crichton, ao de Bush. ¶
Gostaria de inspirar na mente dos jovens a disposição de estudar a história oriental, porque muito da natureza humana se aprende ali: como domínios poderosos cresceram em pouco tempo, e como, por meio da violação dos princípios da união, aquelas nações tão rapidamente vieram a nada. Muitas lições úteis são ensinadas nas páginas da história. ¶
Nos últimos oitenta anos, nosso próprio governo republicano triplicou aproximadamente seus limites territoriais, e está constantemente em crescimento. ¶
O fato é que, se um homem que tem o hábito de cultivar árvores faz sua copa crescer maior, em proporção às raízes e ao tronco principal da árvore, ela se romperá ou será desarraigada. O poder americano corre o risco de perder seu equilíbrio, ao estender seus limites mais rápido do que acumula força para consolidá-los. ¶
Explicarei um termo que usei. Na época em que Maomé fugiu de Meca (15 de julho, 622), era lua nova: os mulçumanos, portanto, adotaram o crescente como seu emblema religioso. ¶
Quando os maometanos conquistavam uma igreja cristã, e a transformavam em mesquita, colocavam o crescente sobre a cruz. A velha catedral grega de Santa Sofia, em Constantinopla, é hoje uma mesquita: a cruz é sobreposta por um crescente. Os russos conquistaram e dominaram vários países que eram detidos pelo poder maometano, onde agora se pode encontrar a cruz grega sobreposta ao crescente, transformando muitas mesquitas maometanas em igrejas cristãs. Dou esta explicação, pensando que talvez seja informação nova para alguns de nossos jovens presentes. ¶
Muito se tem dito sobre alguns dos imperadores religiosos que tiveram domínio na terra serem homens extraordinariamente bons; mas, se seus caracteres fossem examinados imparcialmente com algum grau de crítica, descobrir-se-ia que muitos deles usavam sua religião como uma questão de política; como o atual pretendente ao trono da França, da casa de Bourbon, que é tão piedoso que se diz ir à igreja seis vezes ao dia, e que o Papa Pio IX o batizou como seu próprio querido filho; suponho que ele sinta ser honesto de coração, mas gostaria do trono da França, e provavelmente há uma chance melhor de o obter fazendo grande demonstração de religião do que por qualquer outro processo; e, se o obtiver, pensa que terá uma chance um pouco melhor de o manter. ¶
Tais especulações têm a tendência de tornar os homens religiosos. Como os homens que escrevem ao Presidente Young, dizendo: "Sou médico, e me formei em tal e tal lugar, e gostaria que me escrevesses, e me fizesses saber se não há uma boa chance para eu ganhar a vida confortavelmente em vosso lugar, caso eu abraçasse vossa religião, e me estabelecesse entre vós." Frequentemente recebemos comunicações exatamente assim. Estes são os princípios que fermentam no peito de homens egoístas e ambiciosos. Digo eu, desde que Adão comeu a maçã, isso tem sido, mais ou menos, o caso. ¶
Houve Constantino, o Grande, que foi o primeiro imperador cristão; seu domínio era chamado domínio cristão, ou, em outras palavras, era um domínio católico, e se estendia por toda parte, e tudo o que ousava a ele se opor era feito sofrer a mais cruel tirania. As verdades do Evangelho, sendo absorvidas e engolidas pelo paganismo, e restando o cristianismo apenas no nome, surgiu de sua administração a divisão, a disputa, a guerra e a distração cristãs, que continuam até o presente. ¶
Olhai na história das revoluções e conspirações da Europa, e vereis que a religião sempre tem um dedo no assunto, mesmo na presente grande guerra: resume-se, aproximadamente, a isto — se o poder católico há de controlar exclusivamente os lugares sagrados, ou se há de ser o poder grego. É provável que os maometanos tenham de os entregar em breve aos poderes cristãos; até mesmo a mesquita de Omar, que está sobre o local do templo do rei Salomão, em Jerusalém, em breve será entregue a algum poder cristão; a única coisa que atrasa isso é a contenda cristã entre as nações grega e católica. ¶
Não considero que a Grã-Bretanha tenha travado esta guerra tanto por causa da religião, mas para controlar o comércio da Índia, e o caminho até ele: a Inglaterra vai atrás da bolsa. Mas todos os poderes católicos que de algum modo estão envolvidos no assunto são a influência principal, no negócio, para conter o crescente poder da Igreja Grega; por isso, é uma guerra religiosa. Mas os homens a cujos antepassados Deus deu o sacerdócio, e a quem, nos últimos dias, foi conferido o privilégio de o receber, têm estado no exterior, e publicado os princípios da salvação, e a voz do profeta de Deus ao mundo, e agora as nações são deixadas para brigar e se destruir mutuamente. É um velho provérbio, e de longa data, que "a quem os deuses hão de destruir, primeiro enlouquecem." A paz é tirada da terra, e a ira e a indignação entre o povo são o resultado: nada lhes importa, senão brigar e se destruir mutuamente. ¶
O mesmo espírito que habitava no peito dos nefitas, durante as últimas batalhas que travaram neste continente, quando continuaram a lutar até serem exterminados, está novamente sobre a terra, e está aumentando. ¶
Diverti-me outro dia, ouvindo o relato de uma visita do irmão Barlow a seu Estado natal, Kentucky. Disse ele: "O povo está tão unido em conspirações secretas que tudo o que não escolhem apoiar, proscrevem de toda maneira." Diz ele: "Se eu tivesse consertado um relógio ou uma peça de joalheria, teria sido profanado, e o homem que ousasse me empregar ou me alimentar teria sido proscrito pela comunidade, por meio de suas organizações secretas." Este é o espírito que anda pela terra, e um partido se unirá contra outro, e assim por diante, até a total destruição de todo princípio único de liberdade, felicidade humana e direito humano sobre a face da terra, e trazer sobre as cabeças dos ímpios uma terrível destruição, que foi predita pelos profetas. ¶
Já vi o mesmo espírito operar no meio destas montanhas. Já vi indivíduos aqui cheios do espírito de contenda — cheios do espírito de iniquidade; já os ouvi reclamar, murmurar e criticar, até que, aos poucos, concluem que Brigham está errado, a Igreja está errada, e tudo está errado, e que iriam para a Califórnia, e ali ficariam até o grande dia, quando o profeta viesse e colocasse as coisas em ordem. ¶
Este espírito, no final, há de levar um homem à destruição; e tudo o que preservará os santos, nos últimos dias, da destruição geral, no turbilhão de ruína para o qual o mundo se precipita, será sua unidade uns com os outros, seu apego, com toda sua força, mente e vigor, à edificação deste reino, e fazer dela seu único interesse, para que permaneçam unidos como um só; sabendo o texto do qual partimos, que é negócio do Senhor prover para Seus santos. ¶
Se me perdoais por minha narrativa maometana, encerrarei minhas observações, orando para que o Senhor vos abençoe, e vos conduza em paz a herdar, no fim, o reino celestial. Amém. ¶