Pulpit

O Reino de Deus

Brigham Young

1855-07-08

Um discurso do Presidente Brigham Young, proferido na Bowery, Great Salt Lake City, 8 de julho de 1855. Relatado por G. D. Watt.

Farei algumas observações sobre o mesmo assunto que foi apresentado nesta manhã, embora houvesse muitos pontos importantes naquelas observações que exigiriam bastante tempo para que eu desse minha opinião sobre eles, e explicasse plenamente o que entendo a respeito deles. Meus irmãos, que se levantam aqui para falar ao povo, também sabem que é impossível explicar plenamente à congregação todos os pontos que possam ser mencionados num discurso.

Por isso, pretendo dizer algumas palavras a respeito do Reino de Deus. Não que eu discorde, em nada, das observações feitas pelos irmãos Grant e Pratt, nem que discordemos em nossas opiniões sobre este assunto. É um assunto extenso, e o tempo habitual nunca permite a uma pessoa, num único e breve discurso, explicar plenamente assuntos como os que nos foram apresentados para nossa edificação nesta manhã. Notei, ao longo das observações de ambos os irmãos, que não fizeram distinção suficiente, nem tornaram claro à mente do povo, que o Reino de Deus seria diferente, em certo sentido, de todos os outros reinos e impérios sobre a terra: isto foi por falta de tempo. Ao falar em público, a mente de um homem é frequentemente conduzida de uma ideia a outra, ramificando-se para a direita e para a esquerda, sobre assuntos e pontos que precisam de explicação, e presumo que isso ocorre de modo mais particular a respeito do Reino do que de qualquer outro assunto.

Se vós e eu pudéssemos viver na carne até que aquele Reino esteja plenamente estabelecido, e realmente se espalhe para governar num sentido temporal, verificaríamos que ele há de sustentar e manter todo indivíduo naquilo que considere seus direitos individuais, na medida em que não infrinjam os direitos de seus semelhantes. Por exemplo, se o Reino de Deus estivesse agora estabelecido no continente da América do Norte e do Sul, e realmente exercesse governo e domínio sobre o que chamamos Estados Unidos, o metodista seria protegido tanto quanto os Santos dos Últimos Dias; os quacres amigos, os quacres tremedores, e os membros de toda denominação religiosa seriam mantidos naquilo que consideram seus direitos, na medida em que suas noções não fossem incompatíveis com as leis do Reino.

O calvinista seria igualmente preservado em seus direitos, quer cresse, desejasse crer, ou dissesse crer e não cresse, que Deus pré-ordenou tudo o que acontece, e ditou desde toda a eternidade os atos dos filhos dos homens até o fim dos tempos, abrangendo todo pecado e toda transgressão da lei que jamais tenha sido cometida sobre a terra, desde a primeira criação do homem sobre ela; o Reino de Deus o protegerá nessa crença, e lhe estenderá o privilégio e a liberdade de crer nisso, tão plenamente quanto nós teríamos a liberdade de crer no oposto.

Novamente, homens viriam e diriam: "Cremos na religião cristã, mas cremos firmemente que o Deus a quem desejamos servir não tem olhos, nem ouvidos, nem boca, nem cabeça, nem corpo, que ele não é composto de elementos, que não tem partes nem paixões, que seu centro está em toda parte, sua circunferência em parte alguma; cremos firmemente em servir a tal Deus." Aquele povo seria preservado em seus direitos tanto quanto o povo que crê que Deus vive, existe, e tem o poder de ver, ouvir, saber e entender, e que somos organizados e formados à Sua semelhança, ou, em outras palavras, feitos como Ele.

É isso que o Reino de Deus fará pelos habitantes da terra. Se surgisse uma seita e dissesse: "Não cremos em Deus algum, e somente naquilo que podemos ver, ouvir, provar e tocar, naquilo que podemos entender, ou em deuses que nossas próprias mãos fizeram, que esculpimos em madeira ou pedra, ou fundimos em metal; cremos em servir apenas a tal deus; temos muitos deuses, temos um deus para cada elemento que chegou ao alcance de nosso entendimento, um para o ar, a água, o sol, a lua, os diferentes planetas e as estrelas; temos um deus da guerra e um deus da paz, que esculpimos em madeira e pedra, ou fazemos de prata, ouro, ferro ou cobre, e colocamos em nossos templos. Estes são os deuses que adoramos, e não cremos em nenhum outro deus ou deuses" — mesmo estes seriam preservados em seus direitos e crenças individuais, tanto quanto os Santos dos Últimos Dias.

Quando o Reino de Deus estiver plenamente instituído e estabelecido sobre a face da terra, e tomar a preeminência sobre todas as outras nações e reinos, ele protegerá o povo no gozo de todos os seus direitos, não importa no que creiam, o que professem, ou o que adorem. Se desejarem adorar um deus de sua própria feitura, em vez do Deus verdadeiro e vivo, tudo bem, contanto que cuidem de sua própria vida e deixem as outras pessoas em paz.

Como foi observado pelo irmão Pratt, aquele Reino já está de fato organizado, e os habitantes da terra não o sabem. Se este povo sabe algo a respeito disso, tudo bem; ele está organizado preparatoriamente para entrar em vigor no devido tempo do Senhor, e da maneira que Lhe agradar. Como observou um dos oradores nesta manhã, aquele Reino brota da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mas não é a Igreja, pois um homem pode ser legislador naquele corpo que há de promulgar leis para sustentar os habitantes da terra em seus direitos individuais, e ainda assim não pertencer de forma alguma à Igreja de Jesus Cristo.

E, além disso, embora um homem talvez nem creia em religião alguma, seria perfeitamente correto, quando necessário, dar-lhe o privilégio de ocupar um assento naquele corpo que fará as leis para governar todas as nações da terra e controlar aqueles que não professam religião alguma; pois aquele corpo seria governado, controlado e instruído a reconhecer nos outros aqueles direitos que desejam gozar para si mesmos. Então os Santos dos Últimos Dias seriam protegidos, se um Reino desta natureza estivesse sobre a terra, da mesma forma que todo o resto do povo.

Foi observado nesta manhã que o governo dos Estados Unidos era o melhor, ou o mais saudável, sobre a terra, e o mais adequado à nossa condição. Isso é muito verdadeiro. E se a Constituição dos Estados Unidos, e as leis dos Estados Unidos, e dos vários Estados, fossem honradas pelos funcionários, por aqueles que se assentam em julgamento e dispensam as leis ao povo — sim, se tivesse sido honrada até mesmo a letra da lei, para não falar do espírito dela, do espírito da retidão — isso teria enforcado governadores, juízes, generais, magistrados, etc., pois eles violaram as leis de seus próprios Estados.

Assim tem sido o caso com nossos inimigos, em todas as ocasiões em que este povo foi perseguido. Se uma pessoa pertencente à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias fosse culpada de furto enquanto vivia nos Estados, ou se algum membro daquela Igreja fosse considerado culpado de assassinato, ou de qualquer outra transgressão da lei civil, deveria ter sido julgado pela lei, e ter recebido o castigo correspondente ao crime. Objetou algum dos Santos dos Últimos Dias a isso? Não, nenhum. Joseph, o Profeta, nunca objetou a isso; pelo contrário, ele insistia nisso, orava por isso, e desejava que a Igreja fosse liberta de todos os transgressores.

Enquanto estávamos em Illinois, se todo transgressor da lei daquele Estado, em nossa comunidade, tivesse sido detido, julgado e punido, todo santo teria dito: "Amém, estamos melhor sem eles do que com eles." Assim dizemos aqui: estamos muito melhor sem homens perversos do que com eles. Prefiro estar no meio destas montanhas com mil, ou mesmo quinhentos homens que sejam Santos dos Últimos Dias, do que com quinhentos mil homens perversos, caso todas as forças da terra viessem contra nós para a batalha, pois Deus lutará as batalhas dos santos, mas Ele não Se comprometeu a lutar as batalhas de homens perversos.

Repito que a Constituição, e as leis dos Estados Unidos, e as leis dos diferentes Estados, de modo geral, são tão boas quanto queremos, contanto que fossem honradas. Mas encontramos juízes que não honram as leis; sim, funcionários da lei desonram a lei. Legisladores e fazedores de leis são frequentemente os primeiros a violar as leis que fazem. "Quando os ímpios governam, o povo geme," e quando a corrupção de um povo faz pender a balança em favor da iniquidade, aquele povo está próximo da destruição.

Temos a prova em mãos de que, em vez de as leis serem honradas, elas foram violadas em toda ocasião de perseguição contra este povo; em vez de as leis serem tornadas honradas, elas foram pisoteadas sob os pés de advogados, juízes, xerifes, governadores, legisladores, e quase todos os funcionários do governo; tais pessoas são as mais culpadas de infringir as leis.

Para me desviar um pouco, no que se refere àqueles que perseguiram este povo e o expulsaram para as montanhas, pretendo enfrentá-los em seu próprio terreno. Perguntou-se nesta manhã como poderíamos obter reparação por nossos agravos; eu vos direi como isso poderia ser feito: poderíamos tomar a mesma lei que eles tomaram, a saber, a lei da turba, e, se alguns miseráveis canalhas vierem para cá, cortar-lhes a garganta. (Todo o povo disse: Amém.)

Isto seria retribuir a homens perversos o mesmo tratamento que mediram a pessoas inocentes. Poderíamos enfrentá-los em seu próprio terreno, quando eles se recusam a honrar a lei, mas matam os profetas e destroem os inocentes. Eles puderam expulsar os inocentes de seus lares, tomar suas casas e fazendas, gado e bens, e destruir homens, mulheres e crianças, calcando aos pés as leis dos Estados Unidos, e não honrando uma única lei.

Suponde que eu seguisse o exemplo que eles nos mostraram, e dissesse: "Santos dos Últimos Dias, fazei o mesmo, e desafiai todo aquele bando de tais homens!" Alguns que são tímidos poderiam dizer: "Oh! Nossos bens serão destruídos, e seremos mortos." Se algum homem aqui é covarde, há belos refúgios nas montanhas para aqueles que sentem o coração bater a cada pequeno alarido dos ímpios, como se lhes fossem quebrar as costelas.

Depois deste ano, provavelmente teremos novamente estações fartas. Ora, vós, covardes, se houver algum, procurai nestas montanhas até encontrardes alguma caverna onde ninguém possa vos encontrar, e ide para lá e armazenai grãos suficientes para vos sustentar, a vós e a vossas famílias, por sete anos; então, quando a turba vier, tomai vossas esposas e vossos filhos, e entrai rastejando em vossa toca, e ali permanecei até que a guerra termine.

Não apostateis para salvar vossas vidas, pois, se o fizerdes, certamente as perdereis. Podeis fazer algum bem armazenando um pouco mais de grão do que precisais, e oferecendo um biscoito a um soldado de coração valente que passe, faminto e fatigado. Eu poderia esconder-me nestas montanhas, e desafiar quinhentos mil homens a me encontrarem. Isso não é tudo; eu poderia esconder este povo todo, e cinquenta vezes mais, no meio destas montanhas, e nossos inimigos poderiam procurar até morrerem de velhice, e não nos encontrariam. Vós, que sois covardes, armazenai vossas colheitas de outro ano e escondei-as.

Sabeis que, quase todas as vezes que os gentios se dirigem a nós em público, eles têm o cuidado de advertir os Santos dos Últimos Dias a "não lutar, agora não lutem." Já quisemos lutar contra eles alguma vez? Não; mas quisemos pregar-lhes o Evangelho da paz.

Novamente, dizem eles: "Tememos que vós, Santos dos Últimos Dias, estejais vos tornando estranhos aos Estados Unidos; tememos que vosso coração esteja se afastando da irmandade lá longe." Não falai em desmame agora, pois já fomos desmamados há muito tempo, isto é, estamos ou deveríamos estar desmamados de toda iniquidade e de todos os homens perversos. Estou tão perfeitamente desmamado que, quando abracei o "mormonismo," eu poderia ter deixado pai, mãe, esposa, filhos, e todo parente que eu tivesse, e estou desmamado de todo aquele que voltar ouvidos surdos à voz da revelação. Já estamos desmamados, mas lembrai-vos, não estamos desmamados da Constituição dos Estados Unidos, mas apenas da iniquidade, ou, pelo menos, deveríamos estar. Que cada homem e cada mulher se ergam na força de seu Deus, e em seus corações não peçam favor algum aos ímpios; essa é a maneira de viver, e então que os ímpios persigam, se assim escolherem.

Vamos lutar? Não, a menos que venham sobre nós e nos obriguem a lutar ou a ser mortos.

No outono passado, fomos visitados por alguns da irmandade vindos do leste, e eu disse: "Entrai, meu irmão, entrai em minha casa; esta é a senhora Young, esta é minha filha, e esta é a irmã fulana. Wilford, Joseph e William, abri vossas casas e deixai estes irmãos do leste ficarem conosco em aposentos confortáveis neste inverno." Wilford tira sua família de uma casa boa e a leva a uma cabana de toras, para deixar entrar a irmandade. Ninguém, com uma única exceção, abriu sua casa para acomodá-los, sem primeiro pedir meu conselho. Eu disse: "Sim, abri vossas casas, tirai vossas esposas e filhos, e deixai a irmandade entrar, e provai à velha estirpe que somos seus amigos, se eles fizerem algo minimamente decente"; e lhes proporcionamos aposentos confortáveis para o inverno.

Logo a irmandade começou a circular, e, como disse o irmão Grant hoje, com uma luva meio calçada nos dedos, aparentemente tão virtuosos à luz do dia que não ousavam tocar a mão de uma mulher com a sua, a não ser enluvada, mas sob as sombras da noite iam esgueirando-se de um lado a outro, dizendo: "Não queres dar um passeio de trenó comigo esta noite? Sobe na minha carruagem, e vamos dar um passeio."

Estes procedimentos ocorriam bem diante dos olhos deste povo. O que fizeram quando eu os apresentava a uma esposa, uma filha, ou uma irmã, com toda a graça, cortesia e bondade que se poderia esperar de qualquer homem? Assim que eu virava as costas, era: "Senhorita, ou senhora, quero deitar-me convosco. Olhe aqui, venha ao meu escritório, sim? Tenho lá uma boa cama."

Encurtarei o assunto, e perguntarei, de uma vez por todas: retribuíram eles o elogio, e, sem exceção, reciprocaram a bondade e a cortesia com que invariavelmente foram recebidos? Não, não o fizeram, ao menos não todos, pois vários retribuíram o bem com o mal, e introduziram iniquidade e corrupção em nosso meio, e o Senhor sabe que já tínhamos o suficiente disso para enfrentar.

A experiência passada ensinou aos irmãos que, no futuro, provavelmente será a melhor política deixar a soldadesca aquartelar-se por si mesma, e estou perfeitamente disposto a isso.

Se pessoas vierem para cá e se comportarem como cavalheiros, gozarão de seus direitos, e nós gozaremos dos nossos, ou lutaremos até a morte. Que se honrem as leis dos Estados Unidos, e as leis dos Estados particulares, e faremos como fará o Reino de Deus — proteger a todos em seus direitos.

A experiência do último inverno nos ensinou uma boa lição, e esperamos que tenha ensinado uma lição ao povo em geral. Sou incomodado o tempo todo com "Irmão Brigham," e "Presidente Young, eu vos amo, Presidente Young," quando, ao mesmo tempo, alguns que usam tais expressões terão um braço em volta do meu pescoço, amando-me ternamente, e o outro em volta do pescoço de um canalha, tentando reunir Cristo e Belial; isto não posso suportar.

Se um homem mantiver uma taberna e permitir que a iniquidade se apodreça ao seu redor, ou fizer qualquer outra coisa contrária à religião cristã ensinada no Novo Testamento, digo a todos eles: ou parem com isso, ou tomem seus bens e partam, pois nossas leis não toleram isso, e as faremos valer contra vós. Quanto a permitir novamente a iniquidade e o desgoverno de espíritos imundos que entram em nosso meio, e são por nós tratados como cavalheiros, não o farei.

Direi a tais senhores oficiais que dizem e se gabam do "que o Governo Geral vai fazer," ou "o que eles mesmos farão," ou "o que querem fazer," pensando aterrorizar os Santos dos Últimos Dias, que bem poderiam tentar aterrorizar o Todo-Poderoso em Seu trono, quanto tentar aterrorizar um Santo dos Últimos Dias da verdadeira estirpe — um que tenha o verdadeiro sangue nele.

É verdade que há muitas pessoas tímidas: a timidez ou o medo é uma fraqueza da carne; mas para aquela pessoa que já obteve tal vitória sobre a carne a ponto de saber como Deus está tratando com o povo, não há terror algum, pois ela está tão pronta para morrer quanto para viver, exatamente como aprouver ao Senhor; seu objetivo é fazer o que é certo, e ela não teme.

O reino dos céus está próximo. Jesus ensinou Seus discípulos a orar para que o reino dos céus viesse sobre a terra, e, quando ele vier, achareis que será muito diferente do que muitos imaginam ou esperam que seja. Seu espírito será o de preservar sagrados os direitos individuais dos habitantes da terra.

Qual é o fundamento dos direitos do homem? O Senhor Todo-Poderoso organizou o homem com o propósito expresso de ele se tornar um ser independente à semelhança dEle mesmo, e lhe deu seu arbítrio individual. O homem é feito à semelhança de seu Criador, o grande arquétipo da espécie humana, que lhe conferiu os princípios da eternidade, plantando a imortalidade dentro dele, e deixando-o em liberdade para agir da maneira que lhe pareça boa, para escolher ou recusar por si mesmo; para ser um Santo dos Últimos Dias ou um metodista wesleyano, para pertencer à Igreja da Inglaterra, a filha mais antiga da Igreja-Mãe, à própria velha Mãe, à sua irmã, a Igreja Grega, ou para ser um infiel e não pertencer a igreja alguma.

Como acabo de afirmar, o Senhor Todo-Poderoso organizou toda criatura humana com o propósito expresso de tornar-se independente, e determinou que ela fosse capaz de receber os princípios da eternidade em plenitude; e quando os tiver recebido em plenitude, será feita perfeita, à semelhança do Filho do Homem, e se tornará deuses, isto é, filhos de Deus.

Estou tão longe de crer que qualquer governo sobre esta terra tenha constituições e leis perfeitas, que nem sequer creio que exista uma única revelação, entre as muitas que Deus deu à Igreja, que seja perfeita em sua plenitude. As revelações de Deus contêm doutrina e princípio corretos, até onde vão; mas é impossível que os pobres, fracos, humildes, rasteiros e pecaminosos habitantes da terra recebam uma revelação do Todo-Poderoso em toda a sua perfeição. Ele tem de nos falar de maneira a atender à extensão de nossa capacidade, assim como temos de fazer com estes lamanitas obscurecidos; de nada adiantaria falar-lhes como agora vos falo. Antes de poderdes entrar em conversação com eles e dar-lhes vossas ideias, sois obrigados a condescender ao seu estado inferior, no que se refere à comunicação, a fim de exaltá-los.

Tendes de usar as palavras que eles usam, e dirigir-vos a eles de maneira a atender às suas capacidades, a fim de lhes dar o conhecimento que tendes a conceder. Se um anjo viesse a esta congregação, ou visitasse algum indivíduo dela, e usasse a linguagem que usa no céu, de que nos beneficiaríamos? De nada, porque não poderíamos entender uma palavra do que ele dissesse. Quando anjos vêm visitar os mortais, eles têm de condescender e assumir, mais ou menos, a condição dos mortais; têm de descer às nossas capacidades a fim de se comunicarem conosco. Faço estas observações para vos mostrar que o reino dos céus ainda não está completo sobre a terra. Por quê? Porque o povo não está preparado para recebê-lo em sua completude, pois eles próprios não são completos nem perfeitos.

As leis que o Senhor deu não são plenamente perfeitas, porque o povo não poderia recebê-las em sua perfeita plenitude; mas pode receber um pouco aqui e um pouco ali, um pouco hoje e um pouco amanhã, um pouco mais na próxima semana, e um pouco mais adiante no próximo ano, se fizer sábio proveito de cada pouco que receber; se não o fizer, ficará deixado na sombra, e a luz que o Senhor revela lhe parecerá trevas, e o reino dos céus há de prosseguir e deixá-lo tateando. Por isso, se desejamos agir sobre a plenitude do conhecimento que o Senhor pretende revelar, pouco a pouco, aos habitantes da terra, devemos aproveitar cada pouco à medida que for revelado.

Quando Ele vos disser como purificar vossos corações, purificai-os. Ele diz às nações: "Envio a vós meus servos, levanto para vós um Profeta, e clamo a vós, ó habitantes da terra, por meio dele, que vos arrependais de vossos pecados." Crê o povo que é certo arrepender-se de seus pecados? Sim. Como hão de se arrepender deles? Abandonando-os. Se assim fizerem, o Senhor lhes ensinará como se tornarem santos. De que maneira? Chamando-os, por meio de Seus servos, a serem batizados para a remissão dos pecados, se desejarem ter seus pecados remidos, se desejarem ser lavados e purificados.

Mas, antes de entrarem nas águas do batismo, devem abandonar todas as suas práticas ímpias, e fazer convênio perante o Senhor de deixá-las para sempre para trás, dizendo: "Agora iremos servir ao Senhor, nosso Criador." Chamou o Senhor os habitantes da terra desta maneira? Não vos ensinou Ele, a mim e a vós, a nos tornarmos Santos dos Últimos Dias desta maneira? Sim, Ele o fez. Somos ainda santos? Quando primeiro recebemos o espírito do Evangelho, que era para nós o mundo, com sua grandeza, suas riquezas, sua elegância, seus adornos, sua ostentação vistosa, sua reluzente fileira de honrarias mesquinhas, seus títulos vazios, e tudo o que a ele pertence? Nada além de uma sombra, quando o Senhor abriu nossas mentes e, pelas visões de Seu Espírito, nos revelou algumas das coisas que Ele tinha reservadas para os fiéis, que eram apenas, por assim dizer, uma gota no balde, em comparação com o oceano ainda por revelar. Contudo, aquele pouco fez nossos corações saltarem de alegria, e sentimos que poderíamos abandonar tudo pelo conhecimento de Jesus Cristo e pelas perfeições que víamos em seu caráter.

Sois ainda santos? Se não sois, arrependei-vos de vossos pecados e fazei vossas primeiras obras. Ensinou-vos o Senhor a vos consagrardes a Seu serviço, a edificardes Seu reino, e a enviardes o Evangelho às partes mais remotas da terra, para que outros se regozijem no mesmo Espírito que recebestes, e desfrutem das mesmas coisas que desfrutais? Sim, Ele o fez; e mais? Muito mais. Ele vos ensinou como vos purificardes, e vos tornardes santos, e estardes preparados para entrar em Seu reino, como podeis avançar de um grau a outro, e crescer em graça e no conhecimento da verdade, até estardes preparados para entrar no reino celestial; como passar por toda sentinela, vigia e guardião do portão.

Então, ide em frente e edificai os Templos do Senhor, para que possais receber as investiduras reservadas para vós, e possuir as chaves do Sacerdócio eterno, para que possais receber toda palavra, sinal e símbolo, e vos familiarizardes com as leis dos anjos, e do reino de nosso Pai e nosso Deus, e saber como passar de um grau a outro, e entrar plenamente no gozo de vosso Senhor. Santos dos Últimos Dias, viveis para isto, buscais isto de todo o coração? Sabeis que o Senhor é capaz de revelar tudo isso num só dia, mas não poderíeis entendê-lo. Os Élderes que têm pregado no estrangeiro, e as irmãs que têm ensinado suas vizinhas em casa, sabem por experiência que isto é verdade.

Quando vossas mentes forem iluminadas pela vela do Senhor, e puderdes proclamar as grandes coisas de Deus, coisas que estavam além da capacidade do povo de receber, tereis sentido vossas ideias aparentemente ricochetearem ou voltarem para vós de novo. Assim é com o Senhor; Ele teria prazer em enviar anjos para comunicar mais a este povo, mas não há espaço para recebê-lo, consequentemente Ele não pode vir e habitar convosco. Há ainda outra razão — não estamos capacitados a nos livrarmos, num só dia, de todas as nossas tradições, e de nossos sentimentos e noções preconcebidos, mas temos de fazê-lo pouco a pouco. É um processo gradual, avançando de um passo a outro; e, à medida que deixamos de lado nossas falsas tradições e noções tolas, recebemos cada vez mais luz, e assim crescemos em graça; e, se continuarmos assim a crescer, estaremos por fim preparados para receber o Filho do Homem, e é isso que buscamos.

Desejo prosseguir um pouco mais a respeito do Reino de Deus. Os princípios, a doutrina, o germe, e, eu diria, a essência daquele Reino já estão de fato plantados na terra, mas cresce ele à perfeição de uma só vez? Não. Quando o trigo é plantado e germina, primeiro vedes a folha, e depois a espiga se formando na bainha, de onde, no devido tempo, ela irrompe e aparece. Quando este Reino for estabelecido sobre a terra e se espalhar, sua condição é feliz e bem expressa no brinde que foi feito aqui no dia quatro, a saber — "Que as asas da Águia Americana se estendam sobre as nações, e sua penugem caia sobre a América." Suponde que o Reino de Deus seja comparado à Águia Americana; quando ela se estender sobre as nações, o que fará? Destruirá ela toda outra ave que agora voa, ou que voará? Não, mas elas continuarão a existir do mesmo modo que agora. Quando o Reino dos Céus se estender por toda a terra, esperais que todas as pessoas que compõem as diferentes nações se tornem Santos dos Últimos Dias? Se esperais isso, estareis muito enganados.

Esperais que toda pessoa seja destruída da face da terra, salvo os Santos dos Últimos Dias? Se esperais isso, estareis enganados. Muitos de nossos Élderes labutam sob essas expectativas errôneas ao lerem as palavras dos apóstolos e profetas a respeito da vinda do Filho do Homem. Num versículo, o profeta estará descrevendo a segunda vinda, anterior ao início do Milênio, e talvez no mesmo versículo descreva uma cena que ocorrerá depois do Milênio, e quando a terra estiver limpa de toda iniquidade, depois que Satanás tiver sido solto por um curto período, e feito outra rodada sobre ela, e depois que ela for renovada e se tornar santificada, e for como um mar de vidro, tal como João a descreve. Será isso no Milênio? Não. Mas a ordem da sociedade será como é quando Cristo vier reinar por mil anos; haverá toda espécie de seita e partido, e cada indivíduo seguindo o que supõe ser o melhor em religião, e em tudo o mais, semelhante ao que é agora.

Haverá então iniquidade, como agora? Não. Como fazeis isso parecer certo? Quando Jesus vier governar e reinar como Rei das Nações, assim como já é Rei dos Santos, o véu que cobre será tirado de todas as nações, para que toda carne veja juntamente Sua glória, mas isso não fará de todos santos. Ver o Senhor não faz de um homem um santo; ver um anjo não faz de um homem um santo, de modo algum. Um homem pode ver o dedo do Senhor, e não se tornar por isso um santo; o véu pode ser tirado de diante das nações, e toda carne ver Sua glória juntamente, e ao mesmo tempo declarar que não O servirão. Talvez sintam algo como sentiu certa mulher no Missouri, que havia sido expulsa quatro vezes, e quando estava prestes a ser expulsa novamente, disse: "Serei condenada se suportar isso por mais tempo; se Deus quer que eu passe por tal rotina de coisas, Ele pode me levar para onde Lhe aprouver, e fazer de mim o que Lhe aprouver; não vou suportar isso por mais tempo."

Quando as nações virem juntamente a glória de Deus, o espírito de seus sentimentos talvez se resuma nestas palavras: "Serei condenado se Vos servir." Naqueles dias, os metodistas e presbiterianos, liderados por seus sacerdotes, não terão permissão para se organizar em turba para expulsar, matar e roubar os Santos dos Últimos Dias; nem tampouco será permitido aos Santos dos Últimos Dias erguerem-se e dizerem: "Nós vos mataremos, metodistas, presbiterianos, etc."; nem será permitido a nenhuma das diferentes seitas da cristandade perseguirem umas às outras.

O que farão então? Ouvirão falar da sabedoria de Sião, e os reis e potentados das nações virão a Sião indagar sobre os caminhos do Senhor, e buscar o grande conhecimento, a sabedoria e o entendimento manifestados por meio dos santos do Altíssimo. Informarão ao povo de Deus que pertencem a tal ou tal Igreja, e não desejam mudar de religião.

Serão atraídos a Sião pela grande sabedoria ali manifestada, e a atribuirão à astúcia e à esperteza dos homens. Será perguntado: "Que quereis fazer, ó estranhos vindos de longe?" "Queremos viver nossa própria religião." "Dobrareis os joelhos diante de Deus conosco?" "Oh, sim, faríamos isso tão prontamente quanto não fazê-lo"; e naquele tempo todo joelho se dobrará, e toda língua confessará aquele Deus que é o formador e criador de todas as coisas, o governador e controlador do universo. Terão de dobrar os joelhos e confessar que Ele é Deus, e que Jesus Cristo, que sofreu pelos pecados do mundo, é de fato seu Redentor; que, pelo derramamento de Seu sangue, Ele redimiu homens, mulheres, crianças, animais, aves, peixes, a própria terra, e tudo o que João viu e ouviu louvar no céu.

Perguntarão: "Se dobro os joelhos e confesso que ele é aquele Salvador, o Cristo, para a glória do Pai, deixareis que eu vá para casa e seja presbiteriano?" "Sim." "E não me perseguireis?" "Nunca." "Não me deixareis ir para casa e pertencer à Igreja Grega?" "Sim." "Permitireis que eu seja um quacre amigo, ou um quacre tremedor?" "Oh, sim, seja o que quiseres ser, mas lembra-te de que não deves perseguir teus vizinhos, mas cuidar da tua própria vida, e deixar teus vizinhos em paz, e deixá-los adorar o sol, a lua, um cão branco, ou o que mais lhes aprouver, tendo em mente que todo joelho terá de se dobrar e toda língua confessar. Quando tiveres pago este tributo ao Altíssimo, que te criou e te preserva, poderás então ir adorar o que quiseres, ou fazer o que quiseres, se não infringires os direitos de teu vizinho."

Os irmãos que falaram nesta manhã não tiveram tempo de explicar estes pontos, e eu apenas os toquei de leve.

A Igreja de Jesus Cristo produzirá este governo, e o fará crescer e se espalhar, e ele será um escudo ao redor da Igreja. E, sob a influência e o poder do Reino de Deus, a Igreja de Deus repousará segura e habitará em segurança, sem se dar ao trabalho de governar e controlar a terra inteira. O Reino de Deus fará isso, ele controlará os reinos do mundo.

Quando chegar o dia em que o Reino de Deus há de governar, a bandeira dos Estados Unidos tremulará orgulhosamente, imaculada, no mastro da liberdade e dos direitos iguais, sem mancha alguma a manchar sua bela superfície; a gloriosa bandeira que nossos pais nos legaram será então desfraldada ao vento por aqueles que tiverem poder para erguê-la ao alto e defender sua santidade.

Até agora, temos carregado o mundo nas costas. Joseph o fez em seus dias, além de carregar todo este povo, e agora tudo isso está sobre as minhas costas, tendo eu também a minha família para sustentar ao mesmo tempo, e nós haveremos de carregar tudo isso, e levar avante o Reino de Deus. E podeis empilhar Estado sobre Estado, e reino sobre reino, e todo o inferno por cima, e nós faremos rolar o Reino de nosso Deus, reunir a semente de Abraão, edificar as cidades e templos de Sião, e estabelecer o Reino de Deus para governar sobre toda a terra, e libertar os oprimidos de todas as nações.

Nunca falei tão duramente nestas montanhas quanto falei nos Estados Unidos quando mataram Joseph. Ali eu disse, ousada e sonoramente: "Se algum dia um homem me puser as mãos e disser, por causa de minha religião, 'Tu és meu prisioneiro,' com a ajuda do Senhor Todo-Poderoso, eu enviaria aquele homem para o inferno atalhando caminho." Sinto o mesmo agora. Que os arruaceiros mantenham as mãos longe de mim, ou eu os enviarei para onde pertencem; estou sempre preparado para tal emergência.

Já ocupei tempo suficiente; que Deus vos abençoe. Amém.

Como citar este discursoBrigham Young, “O Reino de Deus”, (1855-07-08). Pulpit Vault, 1855-07-08-young-the-kingdom-of-god. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).