O Delegado de Utah a Washington—O Governo e os Oficiais dos Estados Unidos
Brigham Young
Um Discurso do Presidente Brigham Young, Proferido no Bowery, Great Salt Lake City, 17 de junho de 1855. Relatado por G. D. Watt. ¶
Talvez se espere que eu faça algumas observações, depois de ouvir as declarações feitas por nosso Delegado, o Honorável J. M. Bernhisel. ¶
Presumo que poucos desta congregação, e posso dizer que poucos do povo deste Território, têm conhecimento completo, ou mesmo entendimento geral, das transações comerciais e responsabilidades de nosso Delegado no Congresso. É um assunto que este povo não tem imediatamente diante de si, não lhe diz respeito diretamente—portanto não indaga sobre isso. ¶
O irmão Bernhisel vos deu um esboço muito breve das ações do Congresso, necessariamente omitindo a maioria delas. Sem dúvida o povo deste Território estava perfeitamente satisfeito com os trabalhos de seu Delegado durante a última sessão do Congresso; ou, em outras palavras, seria difícil encontrar um indivíduo minimamente insatisfeito com ele, embora seja verdade que a maior parte do povo não entenda o que deveria constituir causa apropriada de aprovação ou desaprovação. Não estão insatisfeitos com ele, e eu não estou insatisfeito com ele, nem jamais estive. Ele esteve em Washington durante os últimos seis anos, a maior parte desse tempo passado ali por este povo. O governo geral lhe pagou pelos serviços de quatro anos, a verba pelos serviços dos dois primeiros anos outro a recebeu. ¶
Posso dizer livremente que estou perfeitamente satisfeito com os trabalhos do Dr. Bernhisel em Washington; e direi ainda mais, para satisfação das partes envolvidas, que duvido muito que pudéssemos encontrar outro homem, pertencente à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que pudesse ir a Washington e fazer tanto por este povo, na capacidade de representante, quanto aquele que enviamos por anos passados. Por que duvido disso? Em primeiro lugar, é um homem de integridade sólida, firme em sua fé, pontual, diligente, fervoroso, e sempre pronto a fazer tudo o que se pode fazer. Outra razão é que poucos dos homens talentosos pertencentes a esta Igreja poderiam ir à sede do Governo e suportar a gíria e as deturpações que o Doutor suportou. ¶
O Doutor é diferente dessa classe neste aspecto: consegue suportar seus insultos e abusos. É verdade que têm de ser proferidos, se tanto, pelas costas, pois não é fácil encontrar um homem que o abusará em sua face, sendo ele tão gentil em suas maneiras, tão cavalheiresco em sua aparência, e tão tranquilo em seu comportamento, tratando a todos com a devida cortesia e respeito. Quando um inimigo mortal a suas operações e aos interesses de seus constituintes está no campo, esse é o primeiro homem que o Doutor visita, e se esforça por torná-lo nosso amigo. ¶
Tendo diante de nós estas razões, com muitas outras igualmente importantes que se poderiam dar, duvido que haja outro homem no Território, ou pertencente à Igreja, dentro ou fora do Território, que pudesse ter realizado o que o irmão Bernhisel fez em Washington por este povo. Estou confiante de que eu mesmo não permaneceria lá por muito tempo, pois há demasiada briga em mim. ¶
Já vistes algumas pessoas que, quando enfurecidas, lutariam contra toda uma multidão com a mesma prontidão com que lutariam contra uma única pessoa. Sou um tanto desse temperamento; se eu me enfurecesse em Washington, lutaria com toda a multidão tão prontamente quanto com um só indivíduo, e me destruiriam. Há poucos homens de ânimo que suportariam os abusos e mentiras acumulados sobre este povo. ¶
Há uma declaração que já fiz nesta tribuna duas ou três vezes, mas farei novamente agora diante de nosso Delegado, pois lhe causou muito problema. Relatou-se nos Estados Unidos que Brigham teria dito que o Presidente dos Estados Unidos não poderia removê-lo de seu cargo. Repetirei o que de fato disse, tão próximo quanto minha memória me permitir. Exortando os irmãos e irmãs, disse: "Não vos alarmeis, nem deixeis vossos corações se afundarem dentro de vós, nem vos preocupeis em nada com relação à vinda de um novo Governador a este Território, pois o Senhor Todo-Poderoso preservará vosso atual Governador para vós enquanto Lhe aprouver, e nenhum poder pode impedi-lo. E se for Sua vontade remover o atual Governador, sabei que será para o melhor." ¶
Este é o espírito do que disse, senão as palavras exatas; e assim o digo agora. O Presidente Pierce esteve no poder tempo suficiente para tentar a experiência, e houve muitos a influenciá-lo a remover o Governador deste Território do cargo. Foi feito? Não foi; embora quase pensássemos que sim, quando o Coronel Steptoe recebeu a nomeação; mas o Senhor operou sobre o Coronel para que continuasse sua marcha até a Califórnia. Recebeu sua comissão, mas não quis se qualificar. Havia muitos candidatos ao cargo, mas ainda não o obtiveram, e o Senhor pode frustrá-los enquanto Lhe aprouver. Ele volta os corações dos homens quando estes não o sabem, e as misteriosas operações de Sua providência entre o povo eles não entendem. Ele reina em seu meio, e controla as nações da terra segundo Sua vontade e prazer; assim faz neste caso, e continuará a fazer, tanto quanto Lhe pareça bem. Quando Ele desejar outro Governador aqui, a pessoa apropriada estará à mão; até então, não há poder debaixo dos céus que possa simplesmente remover o atual Governador de Utah, muito menos o povo leal que habita estas montanhas. ¶
O povo lá fora está em inimizade conosco; esperamos isto, pois têm sido nossos inimigos desde que fomos Santos, ou professamos ser. Estão eles se opondo a nós em consequência da doutrina a que o irmão Bernhisel aludiu, refiro-me à poligamia? Não. Que os metodistas, a Igreja da Inglaterra, os presbiterianos, ou qualquer outra igreja popular, adotem esse princípio, e seria aplaudido às nuvens. Não se opõem a nós em consequência da doutrina da poligamia. ¶
Tornou-se a ira do inimigo mais enfurecida desde que essa doutrina foi publicada do que era antes? Não, nem uma partícula. Cristo e Belial não podem se tornar amigos; o diabo está em guerra com o Reino de Deus sobre a terra, e sempre esteve, e continuará a estar, até ser amarrado. Não vos odeiam pessoalmente, nem a mim, mais do que odiavam a Joseph Smith, a quem mataram; não odeiam os Santos dos Últimos Dias mais agora do que há vinte anos. O mesmo ódio mortal estava então no coração de todos os que tiveram o privilégio de ouvir as doutrinas desta Igreja e se recusaram a abraçá-las, que vemos exibido neste dia. Se tivessem tido poder vinte ou vinte e cinco anos atrás, teriam matado o Profeta Joseph tão prontamente e com tanto regozijo quanto o fizeram quando o massacraram na prisão de Carthage, no Estado de Illinois. Não é a alguma doutrina ou homens e mulheres particulares que se opõem, mas se opõem a Cristo e ao Reino de Deus sobre a terra. Observei aqui no último sábado: "Que os ímpios se enfureçam e o povo escarneça, pois agora é seu dia, e logo terminará." Que façam tudo o que puderem, e se têm poder de destruir mais deste povo, amém a isso; que fará isso? Apenas aumentará a causa de Sião, espalhará o Evangelho da Salvação, e aumentará o Reino de Deus sobre a terra. Suas perseguições jamais destruirão este povo, nem o Evangelho eterno. Cada vez que mataram alguém deste povo e se opuseram ao Evangelho, ambos aumentaram dez vezes, e a obra se espalhou ainda mais; sim, mais do que teria feito se os tivessem deixado em paz, e não tivessem vindo contra os Santos para expulsá-los de suas posses. Se for sábio que os Santos sejam novamente expulsos, seria a maior bênção que poderia vir a este povo, pois daria maior permanência ao Reino de Deus sobre a terra. ¶
Como disse quando comecei a pregar, vinte e três anos atrás, e vi o mesmo espírito de perseguição exibido então como posteriormente: "Deixai-nos em paz, perseguidores, não desejamos lutar convosco, pois não viemos destruir vidas de homens, ou tirar a paz da terra, mas viemos pregar o Evangelho, e vos fazer conhecer as coisas do Reino de Deus. Se vossa doutrina é melhor que a nossa, fazei-nos saber, pois buscamos as verdadeiras riquezas, desejamos que a luz do céu nos acompanhe, buscamos a salvação, e se tendes algo melhor que isto, dai-nos, e se temos algo melhor que vós, sois bem-vindos a isso. Mas apenas nos deixai em paz, pois estamos determinados, em nome do Deus de Israel, a não descansar até termos revolucionado o mundo com a verdade; e se nos perseguirdes, o faremos mais depressa." ¶
Digo o mesmo agora. Deixai-nos em paz, e enviaremos Élderes às extremidades da terra, e ajuntaremos Israel, onde quer que estejam; e se nos perseguirdes, o faremos mais depressa, porque somos naturalmente lentos quando deixados em paz, e dispostos a tirar um pouco de sono, um pouco de cochilo, e um pouco de descanso. Se nos deixardes em paz, o faremos com um pouco mais de vagar; mas se nos perseguirdes, ficaremos acordados noite adentro para pregar o Evangelho. ¶
Voltemos a nosso Delegado. Não é minha intenção nesta reunião mencionar quem penso que devêssemos enviar a Washington, como fiz há dois verões, quando o irmão Bernhisel se levantou para falar aqui, ocasião em que o indicamos para nosso próximo Delegado. Antes de ser reeleito, desejo saber se está disposto a voltar. O cargo é laborioso, e é uma missão que não é desejável para Élder algum neste Reino; mas se puder saber que aceitará a missão, não tenho dúvida de que terá de arregaçar os ombros e ir de novo. Se declinar aceitar, e desejar ser dispensado, escolheremos outra pessoa. Quem? Ora, o homem que fará o menor mal de todos que pudermos encontrar; quanto a fazer muito ali, na questão de obter nossa justa parte das verbas, pouco nos importa se consegue ou não, pois pouco nos importa se as concedem ou não. ¶
É verdade, os membros da Legislatura de Utah recebem seu subsídio diário, e algum dinheiro foi concedido a este Território, mas é pago ao Território? Não, apenas uma pequena parte, e se soube que determinaram em Washington jamais pagar outro dólar a Utah, até poderem preencher todos os cargos federais neste Território com pessoas de sua própria escolha. ¶
Alguns dos irmãos receberam algum dinheiro pelo trabalho que fizeram na estrada militar, mas penso que poderia levar homens àquela rota, para a qual se destinaram $25.000 e se disse terem sido gastos, e fazer mais e melhor trabalho com $6.000 ou $8.000 do que foi feito com os $25.000. ¶
Desejam que jogadores políticos tenham o dinheiro, a fim de trabalhar a corrupção, e fazer com que a influência do dinheiro afete as urnas, como nos Estados Unidos, e assim usar as verbas para este Território para servir a propósitos partidários e satisfazer o favoritismo corrupto. Melhor manterem o dinheiro fora do Território, do que trazê-lo aqui com tais objetivos em vista. ¶
Se o governo dos Estados Unidos jamais pagar outro centavo a este Território, garanto que em dez anos estaremos dez vezes melhor do que se recebêssemos cem mil dólares por ano deles, e isso também sobre princípios naturais. ¶
Usarei uma comparação familiar para ilustrar isto. Suponde que um pai tenha vários filhos, e um deles deseje se estabelecer por si mesmo; ao que o velho lhe fornece uma fazenda, compra-lhe uma junta de animais, constrói-lhe uma casa, e coloca pão na casa para sua família; compra-lhe sementes de milho, um arado e uma grade; mostra-lhe como arar, e talvez envie um de seus empregados para arar por ele. Na grande maioria de tais casos, o filho permanecerá inativo em sua plantação, dependendo do pai para o sustento até se tornar indolente, e dizer: "Se quero trigo, posso ir buscá-lo com meu pai; ou se quero uma junta de animais, um celeiro, uma casa, ou qualquer outra coisa, o velho os proverá; nada tenho a fazer senão recorrer a meu pai." ¶
Ora, para que serve aquele rapaz? Não vale um só tostão; jogai-o sozinho no mundo, e morrerá de fome. Mas primeiro ensinai-o a ir ganhar sua fazenda, suas juntas de animais, e seu pão; a entender o valor de tudo sabendo como o ganhar; e ele se tornará independente como o pai, e saberá cuidar de si mesmo. ¶
Assim é com os Estados e Territórios. Deixai-os serem indevidamente amparados e sustentados pelo Governo Geral, e isso os levará à ociosidade, à inatividade, e à corrupção; não serão tão enérgicos e ativos quanto quando são levados a depender de seus próprios recursos. ¶
Que mais faz isso? Distribuís dinheiro aqui, e o que veríeis, se homens viessem para cá neste outono dispostos a pagar preço alto em dinheiro pelo pouco grão que se cultivará aqui nesta estação? Digo-vos, estes pobres homens e mulheres teriam de sofrer por sua falta, pois aqueles que o têm, pelo menos muitos deles, venderão o último bocado por dinheiro, como já foi feito. Homens tomaram o grão de suas esposas e filhos, e os fizeram viver de carne de lobo, para conseguir dinheiro. O amor ao dinheiro suscita problemas entre um povo e o envia ao diabo. ¶
Não queremos nada de seu dinheiro, e se não estão dispostos a enviá-lo para cá, não me importo se seu dinheiro vem ou não; e isso me prova, e deveria vos provar, que não me importo se um homem consegue um só tostão destinado a este Território. Mas enviaremos um Delegado que não fará mal algum; e não fosse pelo clamor de "Traição contra o Governo Geral" que se levantaria, não enviaríamos Delegado algum; ou não fosse porque diriam: "Ora, tendes prova suficiente de que os mórmons pretendem se separar da União, já que não enviaram Delegado"; e assim tramar um pretexto para começar novas hostilidades contra nós. ¶
Observou-se que o povo onde reside o Juiz Douglass lhe diz: "Que fareis com Utah? Esperamos que façais algo para derrubar essa odiosa doutrina, pois terão mais de uma mulher, e o reconhecerão abertamente." Falo agora de acordo com sua prática. "Queremos contratar nossas mulheres na escuridão, e pagar-lhes alguns tostões ou dólares, usá-las enquanto desejarmos, e depois expulsá-las porta afora. Mas os mórmons as possuirão, dar-lhes-ão seu nome, reconhecerão seus filhos e os educarão." ¶
Essa é uma grande diferença entre os "mórmons" e os gentios, e, sobre princípios naturais, isto é, à aparência externa, na realidade toda a diferença que há, embora estejamos lançando o fundamento para outro estado de existência. São eles homens de caráter virtuoso que assim falam sobre os "mórmons" terem mais de uma esposa? Quão odioso parecia, no último inverno, aos olhos de certos homens que aqui estiveram, pensar que tínhamos mais de uma esposa legítima; contudo se insinuavam em vossas casas, e tentavam persuadir vossas esposas e filhas a se afastarem de vós. Para quê? Era para torná-las mais honradas, para lhes dar melhor caráter entre os habitantes da terra, sustentá-las melhor, e torná-las mais confortáveis, e reconhecê-las? Não—queriam prostituí-las, arruiná-las, e enviá-las à sepultura, ou ao diabo, quando tivessem terminado com elas. ¶
Não sei o que direi no próximo inverno, se tais homens aparecerem aqui, como alguns fizeram no último inverno. Sei o que penso que direi, se jogarem o mesmo jogo de novo, sejam as mulheres tão más quanto forem, assim Deus me ajude, hão de morrer. ¶
Se alguma desejar ir à Califórnia para se prostituir, enviaremos uma companhia delas para lá; essa é minha opinião, e talvez algumas devessem ir, pois de fato são bastante más. ¶
Há algumas coisas que soube, quando estive recentemente no país do sul, que não desejo mencionar, por causa dos amigos daquelas moças que se foram; mas quando atravessaram as povoações do sul, choravam o tempo todo, e talvez estejam agora em suas sepulturas. Os homens que as persuadiram a partir não pretendiam levá-las à Califórnia. Se alguém oferecer fazer o mesmo de novo, nestas montanhas, "o juízo será posto ao cordel, e a justiça ao prumo"; e dizem que Brigham não mente. ¶
Se desejam mulheres para irem à Califórnia com eles, enviaremos uma companhia do mesmo tipo, se puderem ser encontradas, e então ambas as partes se convirão uma à outra. Preferiria segui-la até a sepultura, e enviá-la para casa pura, do que permitir que minha filha seja prostituída. Não permitirei que membro feminino algum de minha família seja poluído pelas corrupções de homens ímpios. ¶
Escrevei isto aos Estados, se desejardes. Se há aqui gentios ou "mórmons" de nogueira, e assim dispostos, escrevei-o e enviai-o a Washington, que se enviarem seus oficiais e soldados para cá, para se comportarem como fizeram no último inverno, hão de receber, no ato, a devida recompensa de seus crimes. ¶
Embora eu talvez não seja Governador aqui, meu poder não será diminuído. Nenhum homem que possam enviar aqui terá muita influência sobre esta comunidade, a menos que seja o homem de sua escolha. Que enviem quem quiserem, e isso não diminui minha influência nem um pouco. Como disse, a primeira vez em que falei nesta tribuna, meu Governismo e todo outro "ismo" sob meu controle são auxiliados e derivam vantagens diretas de minha posição no Sacerdócio. ¶
O cargo de Governador não é necessariamente, em grau algum, incompatível com o curso reto de pessoa alguma revestida do Sacerdócio; pelo contrário, tal pessoa deveria estar muito mais bem qualificada para administrar sábia e retamente qualquer cargo civil, e desta maneira o canal da verdadeira inteligência se abriria, e a luz e a verdade fluiriam livremente por toda avenida da vida social. ¶
Há mais coisas de que poderia falar, mas não importa agora, pois a reunião já durou o bastante. Digo, Deus vos abençoe. Amém. ¶