Ajuntamento e Santificação do Povo de Deus
George A. Smith
Um Discurso do Élder George A. Smith, Proferido no Tabernáculo, Great Salt Lake City, 18 de março de 1855. Relatado por G. D. Watt. ¶
Irmãos e Irmãs—Devo expressar minha satisfação com o discurso que nos foi apresentado para nossa consideração na primeira parte do dia. Não me sinto tanto no espírito de pregar quanto no de ouvir; mas, como ainda resta um curto período de tempo a ocupar, a pedido dos irmãos, apresentarei para vossa consideração algumas observações. ¶
Segundo o exemplo já dado nesta tarde, começarei tomando um texto, que se encontra registrado no capítulo 23 do Evangelho segundo São Mateus—"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e vós não quisestes." ¶
Ao chamar vossa atenção para esta passagem da Escritura, tenho em mente os ricos assuntos que aqui foram apresentados hoje, a luz do Espírito que se manifestou ao nos revelar nosso dever, aquela pureza de vida, aquela submissão de conduta, aquele curso correto calculados, em todas as coisas, para iluminar os Santos, e prepará-los para a exaltação e as vidas eternas. Quantas vezes, diz o Salvador, quis eu ajuntar os teus filhos, ó Jerusalém, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e vos teria alimentado, mas não quisestes. ¶
Estas palavras foram proferidas pelo Salvador enquanto contemplava a vasta cidade e a região circundante, então habitada pelos judeus, que ali residiam em segurança, cercados de abundância, e ao mesmo tempo estavam quase universalmente em franca rebelião contra a lei do céu. ¶
Tem sido um dito muito comum no mundo que o Senhor era capaz de fazer tudo, que podia fazer qualquer coisa que quisesse, e realizar o que Lhe aprouvesse; que possuía poder universal, e podia realizar o que empreendesse. Mas que diz nosso texto? "Quantas vezes quis eu ajuntar-vos, mas não quisestes." Isto indica que Ele não podia fazê-lo, porque não estavam dispostos; é assim que entendemos a linguagem. É claro também, pelo texto, que se o povo de Jerusalém, os filhos de Israel, tivessem escutado, e se tivessem deixado ajuntar, Ele os teria alimentado, e lhes teria conferido os princípios da salvação, as leis da exaltação que era Seu desejo lhes dar. Permiti-me dizer, então, que desde a fundação do mundo, ou, em outras palavras, desde a queda do homem até o período da declaração das palavras de nosso texto, achamos claramente ilustrado, em toda a história contida no livro sagrado, o princípio de que o Senhor desejava revelar aos filhos dos homens coisas que estiveram ocultas desde antes da fundação do mundo, princípios que os exaltariam a tronos celestiais, mas eles não quiseram, ou, o que dá no mesmo, Ele jamais conseguiu encontrar um povo, jamais conseguiu se comunicar com uma geração ou um corpo muito numeroso de homens que obedecesse a Seus mandamentos, escutasse Seu conselho, e observasse Sua sabedoria, ou se deixasse guiar por Suas revelações. ¶
Alguns de meus amigos talvez pensem que estou sendo injusto, com estas observações, para com a Sião de Enoque. Estou ciente de que o Senhor, nos dias de Enoque, ajuntou o suficiente dos habitantes da terra para edificar uma cidade, mas, por causa da rebelião, da maldade e da opressão da grande massa da humanidade, Ele não pôde salvar aquela cidade da destruição, senão a tomando para Seu próprio seio; daí surgiu o antigo ditado, "Sião fugiu." Até onde mostram os registros revelados, foi esse o mais próximo que Ele já chegou de realizar plenamente o fim de Seu empreendimento, no que diz respeito à redenção da família humana, até os dias do Salvador. ¶
Como aprendemos, pelo sermão do Élder Hyde nesta tarde, a mesma coisa está ilustrada na história de José; ele desejava revelar a vontade de Deus a seus irmãos, mas eles se rebelaram, e o venderam para o Egito. Moisés empreendeu dar aos filhos de Israel as leis do Sacerdócio, para fazer deles um povo santo, uma geração escolhida, um reino de Sacerdotes, mas qual foi o resultado? Não quiseram recebê-lo; e embora Deus os houvesse livrado das pragas do Egito, das mãos de Faraó, os houvesse conduzido através do Mar Vermelho, e os houvesse guiado por uma nuvem de dia e uma coluna de fogo de noite, contudo, quando Moisés entrou na presença de Deus para receber Sua lei, para receber aqueles princípios que os haveriam de engrandecer, e fazer deles um reino de Sacerdotes, um povo santo, eles, todo o povo, concluíram que era melhor adorar um bezerro. "Ora," disseram, "nossos vizinhos adoram bezerros, têm deuses, têm ídolos, e queremos adorar algo que possamos ver, pois não sabemos o que foi feito deste Moisés, e queremos um deus que possamos ver e tocar." ¶
Ao dar uma olhada rápida a este assunto, achamos que a mesma tentativa foi feita nos dias de Salomão, o sábio rei de Israel. O Senhor empreendeu preparar um lugar, uma casa, na qual pudesse revelar a Seu povo a lei da exaltação. Ele fez a tentativa, mas antes que aquela casa pudesse ser concluída, um dos próprios homens por meio de quem as ordenanças da exaltação haviam de ser reveladas teve de ser morto pela cruel traição de homens ímpios, incitados pelo adversário, o que frustrou o desígnio. As chaves do Sacerdócio, por consequência, tiveram de ser mantidas em segredo, e anos depois os Profetas lamentavam, choravam, se queixavam, e criticavam o povo, porque ao Senhor jamais se permitia revelar a plenitude de Sua vontade aos filhos dos homens. Miqueias, depois de refletir sobre quantas vezes o Senhor havia tentado revelar Sua lei, e ao passar seu olhar, pelo espírito de profecia, através da perspectiva do tempo até os últimos dias, exclama num arroubo de alegria: "Mas nos últimos dias acontecerá que o monte da casa do Senhor será estabelecido no cume dos montes, e se elevará sobre os outeiros; e concorrerão a ele os povos. E irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e nós andemos pelas suas veredas: porque a lei sairá de Sião, e a palavra do Senhor, de Jerusalém." ¶
Este foi apenas um vislumbre que o Profeta teve do estabelecimento dos propósitos de Jeová nos últimos dias. Viu as nações fluindo para o cume das montanhas para receber aquela lei de redenção que o mundo não quis receber no meridiano dos tempos, quando o Salvador apareceu, e se apresentou à casa de Israel, escolheu Seus Apóstolos, lhes conferiu as chaves do Sacerdócio, e os enviou a testificar aos filhos dos homens. O resultado de Sua missão divina se manifesta nas palavras de nosso texto: "Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes quis eu ajuntar-vos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, mas não quisestes." ¶
Diz João, ao falar de nosso Salvador: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus." Deu-se-lhes poder para se tornarem filhos de Deus, e coerdeiros com Cristo; assim, os princípios da exaltação foram claramente ilustrados por Jesus Cristo e Seus Apóstolos, contudo o povo não os quis receber. Poucos anos depois, achamos que toda pessoa que pregasse o puro Evangelho de Jesus Cristo estava condenada à destruição pelas mãos de homens ímpios, o poder do adversário aumentou, o Paganismo dominou a verdadeira Igreja, e instituições pagãs foram substituídas em seu lugar, e a religião cristã ou teve de se esconder nos covis e cavernas da terra, ou se curvar às mumificações sem sentido da antiga Roma pagã. Não obstante isto, o Senhor mantinha os olhos no grande ponto a ser alcançado, o grande objetivo a ser realizado, quando novamente tentaria ajuntar os filhos de Israel, alimentá-los, e ensiná-los de Seus caminhos, e fazer com que aprendessem a andar em Suas veredas. ¶
No exato primeiro momento após o anjo de Deus ter comunicado a Joseph Smith a revelação da plenitude do Evangelho, o que descobrimos? Descobrimos que todos os cães de caça da terra e do inferno foram soltos sobre ele. A primeiríssima tentativa que se pôde fazer de testificar do Evangelho havia de ser frustrada pela perseguição, o trovão editorial foi imediatamente solto, e, como disse o velho quaker ao cão que veio à sua loja, um tanto ofendido com o animal: "Não te matarei, mas te darei um mau nome," então o expulsou gritando "Cão ruim," julgando corretamente que alguém suporia que estivesse raivoso, e atiraria nele. Esse era o plano do diabo, quando este Evangelho foi introduzido pela primeira vez, o clamor era "falso profeta, impostor, ilusão, fornicação," misturado com toda sorte de calúnia. ¶
Toda pessoa bem familiarizada com a história desta Igreja sabe que, desde seu início, começaram as perseguições, e continuaram a aumentar até a morte do Profeta. Quarenta e sete vezes foi ele levado perante os tribunais da lei, e teve de suportar toda a despesa de se defender naqueles processos vexatórios, e foi absolvido em todas as vezes. Jamais foi considerado culpado, senão uma vez. Foi-me dito, pelo Patriarca Emer Harris, que, em certa ocasião, foi levado perante um magistrado no Estado de Nova York, e acusado de expulsar demônios; o magistrado, depois de ouvir as testemunhas, decidiu que era culpado, mas, como os estatutos de Nova York não previam punição para a expulsão de demônios, foi absolvido. ¶
O tempo limitado que posso usar nesta tarde me obriga a dar apenas um relance parcial a certos pontos que desejo observar em conexão com nosso texto. ¶
Entre os primeiros princípios revelados aos filhos dos homens nos últimos dias estava o ajuntamento; as primeiras revelações dadas à Igreja foram para lhes ordenar que se ajuntassem, e enviassem Élderes a procurar um lugar para o ajuntamento dos Santos. Para que é o ajuntamento? Por que desejava o Salvador que os filhos de Israel se ajuntassem? Era para que se pudessem tornar unidos e proverem um lugar em que Ele pudesse lhes revelar chaves que estiveram ocultas desde antes da fundação do mundo; para que pudesse lhes desdobrar as leis da exaltação, e fazer deles um reino de Sacerdotes, mesmo todo o povo, e exaltá-los a tronos e domínios no mundo celestial. ¶
Para este fim, em 1833, os Santos começaram a edificar um Templo em Kirtland, cujo custo não foi inferior a cem mil dólares. Um mero punhado de Santos começou aquela obra, mas estavam cheios de fé e energia, e dispostos, como supunham, a sacrificar tudo pela edificação de Sião. Em poucas semanas, alguns deles apostataram; as provações eram grandes demais, os problemas demasiado severos. Conheço pessoas que apostataram porque supunham ter razões; por exemplo, certa família, depois de uma longa jornada, chegou a Kirtland, e o Profeta lhes pediu que ficassem com ele até acharem um lugar. A irmã Emma, nesse ínterim, perguntou à velha senhora se gostaria de uma xícara de chá para se refazer das fadigas da jornada, ou uma xícara de café. Toda esta família apostatou porque foram convidados a tomar uma xícara de chá ou café, depois que a Palavra de Sabedoria foi dada. ¶
Outra família, por volta da mesma época, apostatou porque Joseph Smith desceu da sala de tradução, onde estivera traduzindo pelo dom e poder de Deus, e começou a brincar com seus filhinhos. Algumas provações como estas, sabeis, tiveram de ser enfrentadas. ¶
Recordo-me de um cavalheiro que veio do Canadá, e que havia sido metodista, e sempre tivera o hábito de orar a um Deus que não tinha ouvidos, e, portanto, tinha de gritar e berrar bem alto para se fazer ouvir. O Pai Johnson lhe pediu que orasse em sua adoração familiar à noite, e ele subiu tanto o tom, e berrou tão alto, que alarmou toda a vila. Entre outros, Joseph saiu correndo, dizendo: "Que houve? Pensei, pelo barulho, que os céus e a terra estavam se encontrando," e disse ao homem "que não deveria dar lugar a tal espírito entusiasmado, e zurrar tanto como um jumento." Por Joseph ter dito isso, o pobre homem voltou para o Canadá, e apostatou; achava que não oraria a um Deus que não queria ser gritado com toda a força. ¶
Progredíamos desta maneira enquanto edificávamos o Templo de Kirtland. Os Santos tinham muitas tradições que herdaram de seus pais, e lançaram os alicerces, e edificaram aquele Templo com grande labuta e sofrimento, comparado com o que agora temos de suportar. Chegaram a concluir tanto do edifício que se pôde dedicá-lo; era isto o que o Senhor queria, desejava que provessem um lugar em que pudesse revelar aos filhos dos homens aqueles princípios que os exaltariam à glória eterna, e fariam deles salvadores no monte Sião. Quatrocentos e dezesseis Élderes, Sacerdotes, Mestres e Diáconos se reuniram no Templo de Kirtland na noite de sua dedicação. Consigo ver rostos aqui que estavam naquela assembleia. O Senhor derramou Seu Espírito sobre nós, e nos deu uma pequena ideia da lei da unção, e nos conferiu algumas bênçãos. Ensinou-nos a exclamar hosana, deu a Joseph as chaves do ajuntamento de Israel, e nos revelou o quê? Ora, o fato é que Ele ainda não ousava nos confiar a primeira chave do Sacerdócio. Disse-nos para nos lavarmos, e isso quase deixou as mulheres furiosas, e disseram, já que não foram admitidas no Templo enquanto essa lavagem se realizava, que algo maldoso estava acontecendo, e algumas delas ficaram bem ofendidas com isso. ¶
Fomos instruídos a lavar os pés uns dos outros, como evidência de que havíamos dado testemunho da verdade do Evangelho ao mundo. Fomos ensinados a ungir a cabeça uns dos outros com azeite em nome do Senhor, como ordenança de unção. Todas estas coisas deveriam ser feitas em seu tempo, lugar e estação. Tudo isto era claro e simples, contudo alguns apostataram porque não havia mais, e outros porque havia demais. ¶
Na noite após a dedicação do Templo, centenas dos irmãos receberam o ministério de anjos, viram a luz e a pessoa de anjos, e disso testificaram. Falaram em novas línguas, e tiveram uma manifestação maior do poder de Deus do que a descrita por Lucas no dia de Pentecoste. Contudo, boa parte das pessoas que viram estas manifestações, em poucos anos, e algumas em poucas semanas, apostataram. Se o Senhor, naquela ocasião, tivesse revelado um único sentimento a mais, ou dado um passo a mais para revelar mais plenamente a lei da redenção, creio que teria virado todos nós de cabeça para baixo. O fato é que Ele não se atrevia, exatamente por essa razão, a nos revelar um único princípio a mais do que já havia feito, pois tentara, uma vez após outra, fazê-lo. Tentou em Jerusalém; tentou muito antes do dilúvio; tentou nos dias de Moisés; e havia tentado, de tempos em tempos, encontrar um povo a quem pudesse revelar a lei da salvação, e jamais conseguiu realizá-lo plenamente; e Ele estava determinado, desta vez, a ser tão cuidadoso, e avançar a ideia tão lentamente, comunicá-la aos filhos dos homens com tão grande cautela que, a todo custo, alguns deles pudessem ser capazes de entender e obedecer. Pois, diz o Senhor, meus caminhos não são os vossos caminhos, nem meus pensamentos os vossos pensamentos; pois, como os céus são mais altos do que a terra, assim são meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. ¶
Por exemplo, dizeis a um homem que ele deve ser batizado para a remissão de seus pecados; então surge a pergunta: "De que adianta mergulhar um homem na água?" Dizeis a um homem que deveria se arrepender de seus pecados, cessar de fazer o mal, e aprender a fazer o bem, e a resposta é: "Bem, e qual é a razão de tudo isso?" Dizei-lhe que deveria receber a imposição das mãos sobre a cabeça para o recebimento do Espírito Santo, e ele se sentirá um pouco como se sentiu a velha senhora onde eu estava pregando e batizando na Inglaterra. Uma velha senhora veio para ser batizada; nós a batizamos, portanto. Quando chegou a hora de cuidar da ordenança da confirmação, comecei a confirmar o grupo de novos discípulos. Havia notado que lhe faltava sabão e água, coisas que evidentemente escasseavam em sua casa. Quando cheguei a impor minhas mãos sobre ela, disse ela: "Não me ponhas essas patas imundas na cabeça." O fato é que ela recebera toda a lei da redenção que podia receber, e a lei da imposição das mãos lhe parecia tão tola que não queria nada com ela. ¶
Isto serve para ilustrar o dito de que nossos caminhos não são os caminhos do Senhor, nem nossos pensamentos os Seus; nem os planos que o Senhor concebeu para o bem do homem correspondem aos planos e pontos de vista que os homens concebem para seu próprio bem. Ora, se o Senhor tivesse considerado sábio, no dia da investidura de Kirtland e da grande assembleia solene, adiantar-se e revelar aos filhos dos homens os fatos claramente expostos na Bíblia, e lhes tivesse dito que, sem a lei do selamento, homem algum poderia ser exaltado a um trono no reino celestial, isto é, a menos que tivesse uma mulher a seu lado; e que mulher alguma poderia ser exaltada no mundo celestial, a menos que fosse exaltada com um homem à sua cabeça; que o homem não existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor; se Ele tivesse revelado este simples sentimento, algum homem teria se levantado, dizendo: "O quê! Tenho de ter uma mulher selada a mim para ser salvo, para ser exaltado a tronos, domínios, e aumento eterno?" "Sim." "Não creio numa só palavra disso, não posso suportar isso, pois jamais pretendi me casar, não creio em nada deste disparate." Ao mesmo tempo, talvez outra pessoa tivesse fé para recebê-lo. De novo se levanta outro: "Irmão Joseph, tive duas esposas em minha vida, não posso tê-las ambas na eternidade?" "Não." Se tivesse dito sim, talvez todos nós tivéssemos apostatado. Ora, ilustrarei isto ainda mais. O Senhor de fato nos revelou ali um princípio, e aquele princípio era aparentemente tão simples, e tão tolo a seus olhos, que muitos apostataram por causa dele, porque era tão contrário a suas noções e pontos de vista. Foi este: depois que o povo jejuara o dia todo, mandaram buscar vinho e pão, e os abençoaram, e os distribuíram à multidão, isto é, a toda a assembleia dos irmãos, e comeram, e beberam, e profetizaram, e testificaram, e continuaram assim até que alguns do Alto Conselho do Missouri subiram à tribuna, e, como o justo Noé fez quando acordou de seu vinho, começaram a amaldiçoar seus inimigos. Jamais sentistes um choque tal percorrer casa ou companhia alguma no mundo quanto o que percorreu aquela. Houve quase uma rebelião porque homens se levantavam e amaldiçoavam seus inimigos; embora pudessem lembrar-se bem de que está escrito que Noé amaldiçoou seu próprio neto, e que Deus reconheceu essa maldição a tal ponto que, ainda hoje, milhões de sua posteridade estão relegados à servidão perpétua. ¶
Muitos homens são tolos o bastante para pensar que podem frustrar o poder de Deus, e podem libertar os filhos de Cão daquela maldição antes que seu tempo tenha expirado. Alguns dos irmãos pensaram que era melhor apostatar, porque o espírito de amaldiçoar estava com homens que haviam sido expulsos do Missouri pela violência da turba. Contudo, cada palavra que profetizaram se cumpriu. Profetizaram que os ossos de muitos daqueles assassinos branqueariam na pradaria, e que as aves lhes arrancariam os olhos, e os animais devorariam sua carne. Homens que atravessaram as planícies do México, da Califórnia, de Nebraska e do Kansas frequentemente viram o cumprimento dessa profecia da maneira mais maravilhosa. Vimos seus nomes em árvores, nas cabeceiras de velhos troncos, e em pedaços de tábuas; os nomes de homens que conheci, e sabia, tão certamente quanto no Templo de Kirtland, qual seria seu destino, quanto sei agora. Mas aquilo nos experimentou, alguns de nós fomos terrivelmente experimentados quanto a isso. O Senhor não ousava então revelar mais nada; havia nos dado tudo o que podíamos engolir; e a perseguição se enfurecia ao nosso redor a tal ponto que fomos obrigados a abandonar nosso belo Templo, e fugir para o Estado do Missouri. ¶
Ali Ele nos pôs noutra peneira, e nos peneirou bem, e fomos então expulsos do Estado do Missouri, deixando o Profeta e muitos de seus irmãos na prisão. Assim passamos do ano de 1837 até o ano de 1843, quando o Senhor concluiu que o povo que fora ajuntado, desde a dispersão do Missouri, estivera familiarizado com os princípios de Seu reino por tempo suficiente para que se tivessem tornado fortes o bastante para que Ele lhes revelasse um sentimento a mais. ¶
Diante disso, o Profeta sobe à tribuna, e, depois de pregar sobre tudo o mais em que conseguia pensar no mundo, finalmente insinua a ideia da lei da redenção, faz uma insinuação superficial da lei do selamento, e isso produziu tal excitação tremenda que, assim que mal terminara de comer metade do jantar, teve de voltar à tribuna, e desdizer tudo o que havia pregado, e deixou o povo tentando adivinhar o assunto. Enquanto assim pregava, voltou-se para os homens sentados na tribuna, os quais deveriam tê-lo apoiado, por exemplo, para nosso bom e velho Presidente Marks, William e Wilson Law, e o Pai Cowles, e vários outros indivíduos em Nauvoo, pois isso ocorreu quando os Doze estavam nas porções orientais dos Estados Unidos, e disse: "Se eu revelasse as coisas que Deus me revelou, se eu revelasse a este povo as doutrinas que sei serem para sua exaltação, estes homens derramariam meu sangue." Isto mostra o avanço que houvera, o progresso realizado, e a luz alcançada. Disse também que havia homens e mulheres naquela congregação que se imaginavam quase perfeitos, e que se oporiam e rejeitariam os princípios da exaltação, e jamais compreenderiam plenamente seu erro até a manhã da ressurreição. Eu não estava lá, e não ouvi o discurso; mas havia pessoas ali que conseguiam escrever duas ou três palavras de uma frase, e me considero bom o bastante em adivinhar para dizer qual era o resto. ¶
Ao traçar a história desta Igreja através dos registros, familiarizo-me com as circunstâncias, e não posso deixar de ver ilustrado diante dos olhos de todo o povo o cuidado paternal que Deus teve de tomar ao revelar a este povo a lei da exaltação. Por fim, revelou tanto dela que William Law, um dos membros da Primeira Presidência, e um dos homens mais santarrões de Israel, se alarmou com medo de que Joseph fosse matá-lo, e chamou toda a Polícia perante o Conselho da Cidade, e os fez todos jurar, e os interrogou, para descobrir se Joseph havia instruído algum deles a matá-lo. Disse a alguns dos rapazes naquela época que ele sabia que havia feito algo pelo qual merecia morrer, ou não estaria tão amedrontado por seus melhores amigos. Joseph disse ao Conselho e à Polícia: "Eu poderia viver, como César poderia ter vivido, não fosse um Brutus à mão direita;" e a ilustração desse dito se mostra mais claramente nas operações de William Law para realizar o assassinato do Profeta. Os homens que estavam em seu seio, compartilhavam sua confiança, e professavam ser seus mais calorosos e melhores amigos, foram os homens que traiçoeiramente derramaram seu sangue. ¶
Por quê? Porque ele havia revelado um princípio adicional da lei da redenção, isto é, que o homem não existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor; que, se um homem fosse para o mundo eterno sem obedecer à lei do selamento, permaneceria para sempre sozinho, para sempre servo, e jamais poderia ter aumento algum; que, se uma mulher entrasse no mundo celestial sem ter cumprido a lei do selamento, confiada pelo Salvador a Seus Apóstolos, permaneceria para sempre sozinha, e sem aumento algum; e se homem ou mulher rejeitasse os princípios daquela lei, lamentariam e chorariam para sempre por poderem ter sido exaltados a um aumento eterno, e a um domínio eterno, mas não os teriam. ¶
Havia um grau muito alto de hipocrisia manifesto nas maneiras deste Presidente William Law que sempre me espantou. Aprendi, ao escrever a história, um ou dois casos muito singulares. ¶
Em 1843, Joseph Smith foi preso duzentas e cinquenta milhas de casa; os Santos sentiram grande ansiedade por sua segurança; centenas de indivíduos saíram de Nauvoo a cavalo, e tomaram posse de todas as estradas entre os rios Mississippi e Illinois, e alguns partiram num barco a vapor, com a determinação de examinar todo barco nos rios, e atacar qualquer um que o tivesse a bordo; e algumas das marchas mais rápidas de que se tem registro foram realizadas naquela ocasião. Entre outros, William Law partiu com um grupo; quando encontrou Joseph, correu até ele e o tomou em seus braços, e o abraçou, e o beijou diante de umas cinquenta ou cem testemunhas. Deve tê-lo amado maravilhosamente, pois, cerca de meia hora antes de encontrar Joseph, tivera a ideia de que ele fora embarcado num barco a vapor para o Missouri, e estava terrivelmente agitado. O irmão A. P. Rockwood, ou John Butler, podem contar-vos como ele falava. "Oh!" dizia ele, "não gostaria que Joseph fosse levado ao Missouri e morto por nada neste mundo, pois a propriedade cairia mais da metade de seu valor em Nauvoo." Eis o dito de um homem que, como Judas, podia beijar o Profeta, quando provavelmente não havia muitos homens em toda a cidade que se importassem um tostão sequer com toda a propriedade do mundo, comparada com salvar a vida de Joseph. ¶
Depois da morte do Profeta, o mundo e o diabo pensaram que haviam novamente destruído a tentativa do Todo-Poderoso de revelar a lei da exaltação, pois apenas parte da obra de erguer o Templo estava então concluída. As notícias se espalharam por todos os Estados Unidos de que o Governador de Illinois traiçoeiramente empenhara a fé do Estado pela segurança de Joseph Smith, e também de quão honradamente o Profeta havia agido em tudo, sob essas circunstâncias difíceis, estando bem ciente de que sua morte era pretendida, e o povo ficou realmente chocado com tamanha traição vil, mas geralmente exclamava: "Que vergonhoso! Que vergonhoso!! Assassiná-lo tão traiçoeiramente!!! Mas, pensando melhor, é bom que esteja morto." ¶
Com o tempo, o diabo descobriu que o sangue do irmão Joseph não fora derramado antes que o Senhor houvesse dito: "Fizeste o bastante, podes descansar de teus trabalhos." Ele conferira a outros o conhecimento do Sacerdócio; e Deus levantou outro homem para ser Profeta de Israel, para ser Presidente, Governante, e Instrutor. Certa vez ouvi alguém dizer: "Ah! Bem quisera que o irmão Brigham fosse tão bom homem quanto Joseph era." Ora, deixai-me dizer-vos, irmãos, que se o irmão Brigham fosse uma partícula melhor do que é, não poderia permanecer entre nós, teria de nos deixar; é exatamente tão bom homem quanto no presente somos dignos de ter em nosso meio. O Senhor, em misericórdia para conosco, nos deu um grande Profeta e um sábio Governante em Israel, para que possamos exercer nossos poderes, influência e sabedoria, sob sua direção, para nos prepararmos para a revelação da lei da exaltação, tão longamente prometida. ¶
Fomos trabalhar em Nauvoo e concluímos o Templo, e mal o havíamos terminado quando tivemos de deixá-lo para que fosse queimado por nossos inimigos; e então pensaram que, se apenas fôssemos expulsos para o deserto, nossos sofrimentos seriam tão grandes no ermo que todos pereceríamos, e esse seria o fim do assunto. O diabo sabiamente elaborou um novo sistema de tratamento; depois de nos terem roubado tudo o que tínhamos, e expulsado de todos os confortos e necessidades da vida para o deserto, começou a adotar conosco o "sistema de nos deixar em paz," sob a impressão de que morreríamos por conta própria. Começaram isto sob auspícios gloriosos, quando não tínhamos nada para comer, nada para vestir, nem uma gota de chuva para regar a terra, e um deserto ao nosso redor, cuja aparente fertilidade podeis avaliar quando os montanheses disseram que dariam mil dólares pelo primeiro alqueire de trigo ou milho que fosse cultivado no Vale. Enquanto nos deixavam em paz, uma mudança considerável se deu; mas era difícil nos deixarem em paz por muito tempo, tinham de nos dar uma cutucada ocasional, para que soubéssemos que ainda estavam vivos. ¶
Enquanto nos deixavam em paz, o Evangelho foi introduzido nas Ilhas Sandwich, e na Dinamarca, e começou a derramar suas bênçãos na Suécia, na Noruega, na Itália, na França, na Alemanha, na Suíça, na África, na Austrália, em Malta, em Gibraltar, na Crimeia, e nas Índias Orientais, e está se espalhando por todo o mundo dez vezes mais rapidamente do que nunca. Tudo isso veio por "nos deixarem em paz." Não sei se não concluirão que o melhor é nos dar outro golpe; se o fizerem, será exatamente como com o homem que não gostava do pé de mostarda em seu jardim, que cresceu, e se tornou grande e cheio de sementes. O dono viu que havia dado sementes no jardim, e ficou terrivelmente irritado com o jardineiro, e pegou a enxada, e despedaçou os pés a golpes em sua ira, e espalhou as sementes por todo o jardim. É assim que nossos inimigos operaram o tempo todo, portanto bem podem adotar o "sistema de nos deixar em paz" tanto quanto qualquer outro. Joseph profetizou que, se nos deixassem em paz, espalharíamos o Evangelho por todo o mundo, e se não nos deixassem em paz, o espalharíamos de qualquer maneira, só que um pouco mais depressa. ¶
Mas, voltando a meu texto, "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e vós não quisestes!" Deixai-me dizer-vos, meus amigos, que o alicerce de outro Templo está lançado, e no exato momento em que a primeira pedra foi colocada, naquele momento o diabo começou de novo a se enfurecer; e se este povo se unir, será exatamente o povo que "aprenderá os caminhos do Senhor," e o Senhor lhe revelará coisas que estiveram ocultas desde antes da fundação do mundo. Nos encontramos aqui, não por nossa própria vontade, mas forçados por nossos inimigos, no meio do cume das montanhas, cerca de uma milha acima do mundo cristão, cercados por montanhas cujos cumes estão cobertos de neves perpétuas; e achamos também o cumprimento da profecia de que muitos povos de todas as nações estão dizendo: "Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e nós andemos pelas suas veredas." ¶
Estamos aqui, e o Senhor está determinado, se puder realizá-lo, se O deixarmos, a nos revelar as leis da exaltação. Está determinado a fazer deste povo "Reis e Sacerdotes de Deus e de Seu Pai;" a lhes dar as chaves da exaltação para a redenção de si mesmos, e de todos os seus mortos, até o tempo em que o convênio foi quebrado. Se este povo for submisso e obediente às leis e instruções de Seu Profeta e Seus Apóstolos, obedecer aos ensinamentos que lhes são dados, e se mantiver puro, Ele lhes revelará todas essas bênçãos; e não nos dirá, como disse a Jerusalém, "Quantas vezes quis eu ajuntar-vos, mas não quisestes." Se formos submissos e escutarmos as revelações do Altíssimo, lembrando-nos de que Seus caminhos não são os nossos caminhos, e Seus pensamentos os nossos pensamentos, pois, como os céus são mais altos do que a terra, assim são Seus caminhos mais altos do que os nossos caminhos, e Seus pensamentos mais altos do que os nossos pensamentos; se nos lembrarmos disso, e agirmos de acordo, estaremos a caminho de obter aquelas chaves de poder, e lucrar com elas; isto é, estaremos exatamente na grande estrada real para a exaltação. ¶
Lembro-me de uma história que ouvi Joseph contar certa vez a um ministro sectário; ele lhe pregara alguns dos primeiros princípios do Evangelho; o ministro reconheceu que as doutrinas eram estritamente conformes ao Novo Testamento, mas soltou uma espécie de suspiro pio, e disse: "Temo que haja algo errado no fundo disso." Joseph respondeu: "Sinto-me bastante como o honesto irlandês que desembarcou na América, e partiu para o interior, para ver como era aquilo. Enquanto caminhava pela estrada, deparou com um ministro muito pio da ordem metodista, que se aproximou do irlandês, e, pensando que devia dizer algo sobre religião, sentado em sua carruagem de duas rodas, disse: 'Patrick, fizeste tua paz com teu Deus?' 'Ah, com fé, senhor, e certamente nunca brigamos.' Isso um tanto chocou o pastor, que soltou um grunhido de outro mundo, e disse: 'Estás perdido, perdido.' 'Com fé, senhor, como posso estar perdido no meio da grande estrada real?'" Digo-vos que estamos no meio da "grande estrada real," e se nela continuarmos, as chaves da exaltação estão conosco, e a grande obra de Deus desvendará a este povo coisas que estiveram ocultas desde antes da fundação do mundo. Sejamos como barro nas mãos do oleiro, e esforcemo-nos com todas as nossas forças para edificar esta obra, e não se dirá de nós, como se disse de Jerusalém, "Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes quis eu ajuntar-vos, mas não quisestes." ¶
Que Deus vos abençoe, e nos capacite a cumprir e levar a cabo Seus grandes e gloriosos desígnios, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶