Os Juízos de Deus sobre os Estados Unidos—Os Santos e o Mundo
Orson Hyde
Um Discurso do Élder Orson Hyde, Proferido no Tabernáculo, Great Salt Lake City, 18 de março de 1855. Relatado por G. D. Watt. ¶
Amados Irmãos e Amigos—Já que me coube a sorte de me dirigir a vós nesta tarde, espero que não apenas me concedais vossa atenção plena, mas também me favoreçais com um lugar em vossas orações, para que eu sempre fale segundo a mente e a vontade de Deus, sobre todos os assuntos que possam ocupar minha atenção. ¶
Tomarei um texto, segundo o modo e o costume do dia; contudo, não prometo me limitar a ele, ou assumir posição alguma calculada para antecipar os ditames do Espírito de Deus em mim. Podereis vos surpreender quando souberdes o nome do autor de meu texto. Se eu citasse Joseph Smith, ou Brigham Young, um sentimento como base, poderíeis ficar satisfeitos e lisonjeados; mas o mundo, ou os de fora, poderiam achar tolice, blasfêmia, absurdo, e confiança no homem. Não tomarei, portanto, meu texto de nenhum dos anteriores; mas de um distinto forasteiro, para que assim eu possa prestar tributo apropriado de respeito àquele departamento das criaturas dependentes de Deus. ¶
Na última Epístola Geral de Franklin Pierce, Apóstolo-Chefe dos Estados Unidos da América, escrita a seus irmãos do Senado e da Câmara dos Representantes reunidos em Conferência Geral, primeira cláusula do primeiro versículo, encontrareis estas notáveis palavras registradas: ¶
"O ano passado foi repleto de acontecimentos, e será doravante lembrado como uma época marcante na história do mundo. Embora tenhamos sido felizmente preservados das calamidades da guerra, nossa prosperidade doméstica não foi inteiramente sem interrupção. As colheitas, em partes do país, quase se perderam por completo. A doença prevaleceu em maior extensão do que o usual; e o sacrifício de vidas humanas por acidentes no mar e em terra é sem paralelo." ¶
Quando consideramos que o autor destas palavras foi escolhido pela vontade soberana do povo americano para presidir sobre os destinos de nossa pátria comum, que foi devidamente separado para essa posição, e regularmente investido de poder, é apenas razoável supor que suas palavras são impulsionadas pela convicção e fé da nação; e mal se pode esperar que ele profira uma ideia incorreta, se a fé da nação for correta. Ele, portanto, sendo a cabeça e o olho da República, descobriu que a terra se recusava a produzir com sua força habitual, que a doença marcara seu número crescente de vítimas com precisão infalível, e que o mar e a terra se haviam conspirado contra as vidas dos milhares que flutuam sobre o primeiro, e dos milhões que caminham sobre a segunda. ¶
Por que este aumento de manifestações providenciais na forma de flagelos e castigos? Será porque a nação se reformou e se tornou melhor? Será porque o verdadeiro Deus é adorado mais corretamente e devotamente? Ou será porque a presente é uma era menos esclarecida e científica; e, portanto, menos bem qualificada para se resguardar dos acidentes e males da vida do que eras anteriores e mais esclarecidas? Ou será porque os Profetas de Deus foram cruel e traiçoeiramente mortos, e seus irmãos e amigos banidos, por mãos violentas, de seus lares, para um país inexplorado e selvagem, onde muitos esperavam e criam que a ferocidade selvagem terminaria nossa existência como povo? ¶
Quando os Santos dos Últimos Dias fugiram diante do sopro ardente do ódio amargo da perseguição, deixaram, é verdade, seus bens e seus lares como prêmio, rico de maldições, para aqueles cujos corações culpados e mãos ensanguentadas os tornaram herdeiros legítimos de seu ganho mal adquirido. Trouxemos pouco conosco quando fugimos; contudo, levamos o que a nação jamais poderá recuperar até que puna aqueles assassinos segundo suas próprias leis, castigue os cúmplices culpados em atos de crueldade e rapina, e compense as vítimas pelas perdas que tão injustamente sofreram. Trouxemos conosco, da nação que permitiu que fôssemos expulsos, a boa vontade e a bênção de nosso Deus, mesmo o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Essa bênção e boa vontade não poderão retornar até que retornemos e as levemos de volta. ¶
Permiti-me, neste ponto, dar-vos uma opinião legal. Nenhum de vós alberga dúvida alguma de que vossas reivindicações e títulos sobre as terras vendidas, sob coação, no Missouri e em Illinois, são tão bons e válidos agora aos olhos de Deus quanto sempre foram; mas digo-vos que são tão bons e seguros para vós neste exato momento, aos olhos das leis constitucionais da terra, quanto sempre foram. Nenhum ato de transferência de bem imóvel, executado por qualquer de vós no Missouri ou em Illinois, depois de terdes sido advertidos a partir, e ameaçados de violência se não partísseis, vale sequer um centavo. Nenhum tribunal de equidade na nação, com jurisdição, poderia legalmente evitar devolver-vos vossas terras, com juros e indenização. Mas será que o Governo sustentaria a decisão de tal tribunal? Aí está o busílis, e portanto a culpa? ¶
Mas vejamos se conseguimos explicar o temível aumento de pestilência, escassez e destruição de vidas humanas de que fala nosso texto. Diz-se que Deus está com Seus servos e Seu povo. "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." Se uma nação ou povo expulsa de seu meio os Santos e servos de Deus, Deus vai com eles e abandona aquela nação, e a deixa sob influências malignas e agentes aflitivos. ¶
Para ilustrar as afirmações anteriores, remeter-vos-ei à história da venda de José para o Egito. Este filho mais novo do velho Patriarca Jacó era um homem visionário, e um grande sonhador. Suas visões e sonhos incomodavam seriamente seus irmãos mais velhos, e despertavam grandemente seu ciúme. Certa vez, o rapaz sonhou que ele e seus irmãos estavam atando gavelas no campo; e as levantaram; e todas as suas gavelas se inclinaram diante da sua. Este sonho os irritou, e os deixou muito zangados, sob a convicção de que um dia o rapaz poderia governar sobre eles. O sonho parecia prenunciar o fato. Em outra ocasião, sonhou que o sol, a lua e onze estrelas se inclinavam diante dele. ¶
Este sonho despertou até mesmo o ressentimento do velho, e dele extraiu uma repreensão a seu filho; pois pensou que o sonho indicava que ele, e sua mãe, e seus irmãos deveriam se inclinar diante dele. Seus irmãos o invejavam grandemente; mas seu pai observou o sonho e refletiu sobre ele, apesar da repreensão. Ardendo o fogo do ciúme nos corações dos irmãos mais velhos contra o irmão mais novo, resolveram matá-lo, e conspiraram para perpetrar esse feito sangrento! Não que José os houvesse prejudicado, ou lhes feito mal algum. Era porque temiam que ele fizesse algo, como seus sonhos indicavam. Mas, vede a inconsistência de seus irmãos mais velhos! Se seus sonhos fossem de Deus, era causa suficiente de grande alegria para eles, poderem ter um governante de nomeação divina; e, portanto, pior que loucura opor-se a ele. Se seus sonhos não fossem de Deus, não teriam motivo para temer sua elevação ao poder governante. Mas seus sonhos eram de Deus, e os meios que adotaram para impedir seu cumprimento provaram, sob a mão supervisora da Providência, ser exatamente os meios para realizar as coisas por eles prenunciadas. ¶
Não raramente acontece que planos e medidas engendrados pela maior astúcia, engenhosidade e sabedoria dos ímpios contra os escolhidos de Deus provam ser os meios mais impressionantes e felizes para abençoar e exaltar aqueles contra quem tais planos são traçados. Em vez de matar seu irmão, concordaram em lançá-lo numa cova onde não havia água, para que ali perecesse. Mas, sentindo-se um pouco tocados na consciência por este espécime de crueldade para com seu irmão, concordaram em vendê-lo como escravo para o Egito, e assim se livrarem, a si mesmos e à região, deste sonhador incômodo. ¶
Mas Deus estava com José no Egito, na casa de Potifar, e abençoou a casa de Potifar por causa de José. Potifar, pobre pagão ignorante, viu que Deus estava com José, e que fazia prosperar tudo o que estava em suas mãos; e, portanto, confiou sua casa e tudo o que possuía aos cuidados de José. Passo a passo foi ganhando influência e consideração no Egito; e o favor e a bênção de Deus se manifestavam sobre ele, e sobre tudo o que fazia. Deus até abençoou todo o reino por causa dele. Ao interpretar o sonho de Faraó, avisou-o da fome que se aproximava, e multiplicou grandemente os frutos da terra, para que fossem guardados em depósito contra o tempo de necessidade. Assim, a terra para onde o escolhido de Deus foi banido pôde alimentar os milhões famintos que ali fugiram por sete longos anos, e José era primeiro-ministro da coroa, e superintendente geral de todos os negócios do Egito. Controlava todo o alimento que fora guardado em depósito. A fome se agravou na terra de onde foi expulso, e não tinham nada guardado em depósito; pois não tinham um José para lhes advertir da aflição que se aproximava. Haviam-no expulsado, e Deus abençoou grandemente a terra para onde fugira. ¶
Logo aconteceu que os irmãos de José tiveram de descer ao Egito para comprar trigo. "Suas gavelas começaram a se inclinar diante da sua." De novo desceram, sendo duramente pressionados pela fome em sua própria terra; e José se deu a conhecer a eles. Príncipe como era, Profeta e ministro de Deus como era, não consigo pensar que a conveniência de uma união entre Igreja e Estado tenha sido discutida em seu encontro, absolutamente nem um pouco; especialmente não antes de terem jantado juntos. Graças ao Deus de Israel, tinham muito o que comer! ¶
Depois, o próprio velho desceu a José, e toda a família—"o sol, a lua e as estrelas se inclinaram diante dele," de fato! Seus irmãos não sentem por ele agora o que sentiam quando o venderam! Ó integridade! como o ímã que sempre atrai o que lhe pertence, tu comandas e atrais ao teu redor todas as tuas hostes aparentadas! Ó egoísmo, e ciúme de mente estreita! sois humilhados no pó—sois prostrados aos pés daquele cuja vida e liberdade foram o divertimento de vossos dias prósperos. Como mudou a cena? Contudo, seja Deus louvado. ¶
Pode alguém, familiarizado com a história dos Santos dos Últimos Dias, ver alguma semelhança entre sua expulsão dos Estados, e as causas dessa expulsão, e o banimento de José para o Egito, e as causas desse banimento? Nenhum dos dois havia feito mal algum, mas temia-se que o fizessem. Ambos sonhavam, e contavam seus sonhos. Ambos foram supremamente odiados e invejados por seus irmãos—ambos foram enviados para longe, entre pagãos, para perecer, e ambos foram sustentados pelo favor de Deus. Ambos tivemos túnicas de muitas cores: as nossas, remendo sobre remendo! Tivemos ao menos uma túnica diferente da dele, provavelmente porque tais túnicas não estavam na moda em seus dias, uma túnica de piche e penas. Nenhum de nós partiu por escolha própria; mas fomos forçados a partir, contra nossa vontade, e contra as leis existentes. Ambos fomos para terras onde há pouca chuva. A principal diferença que consigo ver é esta. Suas gavelas se inclinaram diante da sua. O sol, a lua e as estrelas se inclinaram diante dele quando vieram a ele por pão. Isso ainda não nos aconteceu. Mas quando a escassez aumentar na terra de onde viemos, quando a peste e a praga abundarem, os canais de negócio e comércio completamente rompidos, guerra civil e "know-nothing" por dentro, as rodas da diplomacia atoladas na lama por fora, e inimigos estrangeiros pressionarem duramente nossas costas, então a nação poderá começar a perguntar—Era Joseph Smith um Profeta? Estará Deus irado conosco porque apenas fechamos os olhos a seu assassinato traiçoeiro? Estará irado porque permitimos tranquilamente que Seu povo escolhido fosse roubado, saqueado, assassinado, e expulso como pragana ao vento, sem intervirmos de forma alguma para impedi-lo? Será porque fizemos ouvidos surdos a suas petições e clamores por reparação? ¶
Com todo o respeito devido de um humilde cidadão às palavras do chefe governante de uma grande e poderosa nação, e com toda a modéstia que o pudor e a delicadeza podem inspirar, sinto ser meu dever dizer, em nome daquele Deus a quem pertenço, e a quem sirvo, que aqui estão as causas dos males crescentes na terra, de que fala nosso texto. Pois assim falou o Senhor. As nações serão eliminadas quando estiverem maduras em iniquidade. Mas não estão maduras em iniquidade até matarem meus servos, e expulsarem meu povo;—então as visitarei em minha ira, e as afligirei em meu desagrado, e cortarei seus ramos amargos. Um flagelo assolador cobrirá a terra (Vede o Livro de Convênios). A fome as oprimirá duramente—a confusão e a guerra farão desfalecer seus corações, e tremer seus joelhos. Prouvera a Deus que nossa nação jamais tivesse dado causa à aflição que agora apenas começam a sofrer! Prouvera a Deus que eles, principalmente por seu próprio bem, jamais tivessem provocado a ira do Todo-Poderoso ao matar nossos Profetas, e expulsar nosso povo. Contudo, para nós, é tudo melhor! Pois se não tivéssemos sido expulsos, poderíamos ter permanecido ali para sofrer como eles estão sofrendo e sofrerão. "A ira do homem redundará em teu louvor," como neste caso; e honras eternas sejam a Ele atribuídas por Sua misericórdia, Sua justiça, e Sua verdade. ¶
Em vista da crise que se aproxima, sobre a qual temos pregado, escrito e profetizado nestes últimos vinte anos, exorto o povo de Utah, tanto Santo quanto pecador, judeu e gentio, homem branco e vermelho, a abandonar seu vão e improdutivo comércio e especulação, e se dedicar com todas as suas forças a cultivar trigo, milho e gado. Não vos apresseis em levar vosso gado para a Califórnia. Guardai todo vosso grão, e semeai tudo o que puderdes. Ricos depósitos de neve estão agora se formando nas montanhas, segundo vossas orações, que anunciam um ano frutífero. Pedi a Deus que abençoe vosso trabalho, e cada semente que semeardes na terra. Preparai celeiros nos quais possa ser guardado. Lembrai-vos de José no Egito! O próprio velho, e todos os rapazes, tiveram de ir a ele, pois tinha trigo em tempo de fome. Os políticos se opõem a nosso ajuntamento. Mas se tiverdes abundância de trigo, carne de porco e de boi à mão, todo o inferno não poderá impedi-los de virem para cá. Ficai à espreita do velho e de todos os rapazes virem se inclinando diante de vós, e aposto que não discutirão convosco sobre a união de Igreja e Estado, ao menos não antes de terem tomado seu café da manhã. Poderemos então dizer-lhes que, enquanto estivemos com eles, queimaram nosso trigo empilhado, em molhos, e o que estava espalhado no campo. Queimaram nosso feno e nossas casas; e deixaram nossos enfermos, nossas mulheres e crianças ao sol escaldante e à chuva torrencial, sem alimento nem abrigo. ¶
Dissemos-lhes, quando o fizeram, que teríamos trigo quando eles não tivessem nenhum. Quando estes pobres milhares famintos afluírem para cá em busca de alimento, não será glória suficiente para começar, alimentá-los, dar-lhes abrigo, e cuidar de seus enfermos? Não serão tais brasas amontoadas sobre suas cabeças quentes o bastante para satisfazer vossa justa indignação? Se fizerdes o que vos digo, vossos olhos hão de testemunhar exatamente tais cenas! Podereis perguntar: "Quando serão essas coisas?" Resposta: Tão logo quanto puderdes guardar o trigo. Se os Estados Unidos não fizerem Brigham Young Governador, o trigo o fará. Os irmãos de José jamais votaram para fazê-lo Governador sobre eles; mas foi eleito para esse cargo por votação conjunta do trigo e do milho. Há mais salvação e segurança no trigo do que em todos os esquemas políticos do mundo, e também mais poder nele do que em todos os exércitos contendores das nações. Cultivai trigo e guardai-o em depósito até que traga bom preço; não dólares e centavos, mas reinos, países, povos, tribos e línguas. "Venderam-se a si mesmos por nada, e devem ser redimidos sem dinheiro!" Será preciso trigo para os redimir! Cultivai trigo e guardai-o em segurança e ele há de pregar o "ajuntamento" mais eloquente, bem-sucedida e amplamente do que todos os missionários que pudermos enviar a varrer as nações, com a proclamação dos juízos de Deus por toda a terra! ¶
Se me sentir em nossa próxima Conferência como me sinto agora, proporei que nossas missões domésticas não sejam diminuídas, mas aumentadas, se possível; e que todos se dediquem a cultivar trigo, e façam de Sião uma casa e cidade de refúgio para os Santos e para os filhos dos estranhos, para que venham e edifiquem nossos muros, como o velho Profeta falou. Muitos de vós talvez já tenhais terminado vossa semeadura por esta estação; mas suponde que acrescentásseis outra edição, ampliada, se não revisada. Confiai em Deus! e se vossas obras forem boas, e em abundância, vossa fé não será questionada! ¶
Chamarei agora vossa atenção, por um curto período, a alguns acontecimentos que se passaram em nossa cidade. ¶
No domingo, dia 4 de fevereiro, os irmãos Kimball e Grant falaram muito claramente e diretamente a respeito do relacionamento dos Santos com o mundo; e se opuseram seriamente a esse relacionamento quando tendia a rebaixar e corromper os Santos. Estavam razoavelmente bem informados sobre alguns assuntos de que trataram. Não direi por que meios foram informados, se por confissão privada de algum participante culpado cuja consciência o remordia por coisas não corretas, ou pelos meios comuns ou ordinários de conhecimento. Basta dizer que se referiam a eles, e apenas a eles, que eram culpados de impropriedades, que não podem ser vistas com complacência por este povo. A linha entre o vício e a virtude foi traçada tão clara e nitidamente que ninguém precisava se enganar quanto a ela. Várias pessoas fizeram sérias objeções aos ensinamentos então dados, e se sentiram insultadas, excluídas da sociedade, e, como dizem os índios, "descartadas." ¶
No dia seguinte, segunda-feira, chegou o Correio do Leste, e trouxe um artigo muito beligerante do Charleston Mercury. Diz-se que foi motivado pelo Gabinete em Washington, com o desígnio de criar problemas com os "mórmons." O artigo demonstra sentimento profundamente arraigado e exaltado contra os Santos, e toma por certo que todo mal que se possa dizer de nós é verdadeiro. O seguinte é uma breve citação do artigo— ¶
"Não pode haver comunhão entre mórmon e cristão. Não podem existir sob o mesmo sistema social. Não podem ser sócios no poder político." ¶
Aqui a linha é traçada! Toda comunhão nos é negada. Nenhuma relação social é permitida. Disseram os irmãos Grant e Kimball algo mais do que isto? Não fizeram tantas exceções honrosas quanto as que se fazem no que precede? Somos obrigados a engolir todos esses ditos, e prosseguir com nossos assuntos. ¶
Os irmãos Grant e Kimball foram apenas espelhos de Deus, a refletir o sentimento por nós nutrido, que, como alguns outros acontecimentos vindouros, projetou sua sombra um dia antes do correio, e foi parcialmente confirmado e respondido antes que chegasse. Se os de fora não gostam que confirmemos seu jornal, não deveriam apresentá-lo; e quando o confirmamos em medida limitada, mal lhes assenta objetar à sua própria doutrina quando a mesa se inverte. ¶
À parte toda contenda ou preconceito de qualquer lado, até que ponto devem os Santos se unir com o mundo? São eles criaturas de Deus tanto quanto nós. Ele os sustenta e tem consideração por eles. Nós mesmos já fomos do mundo, e não deveríamos esquecer a rocha de onde fomos cortados, nem o poço de onde fomos cavados. Até que ponto, então, é nosso dever estender-lhes nossa comunhão e consideração, para que sejamos justificados aos olhos do Deus que preside sobre todos nós? Lembrai-vos, ó Élderes de Israel, que deveis ir a todas as nações, e pregar o Evangelho a toda criatura. Enquanto estiverdes fora, em vossas missões, no desempenho de vossos deveres oficiais, que favores tendes o direito de pedir ao mundo? Se estiverdes com fome, tendes o direito de lhes pedir alimento. Se estiverdes em aflição ou necessidade, e não puderdes vos socorrer, tendes o direito de lhes pedir socorro e ajuda. Se alguém, bondosa e generosamente, vos der alimento, roupa ou dinheiro, por amor a Cristo, e porque vos respeita e ama como homem bom, que vossa paz e bênção repousem sobre essa pessoa, e sobre todos os demais que bondosamente atendem a vossas necessidades; e então, quando todos comparecerdes diante do Deus da verdade, não vos esqueçais de prestar boa conta daqueles que vos favoreceram em vossas missões por este mundo, e dizer: "Tive fome, e me deram de comer; era estrangeiro, e me acolheram; estava nu, e me vestiram; e tive sede, e me deram um copo de água fria." Lembrai-vos de que vosso conforto e felicidade nesta vida dependeram, em certa medida, de seus bondosos ofícios para convosco; e, por sua vez, seu futuro conforto e felicidade dependerão de vosso testemunho, e por vosso relato favorável se lhes dirá: "Na medida em que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Entra tu no gozo de teu Senhor!" ¶
Mas quando estiverdes fora a negócios de natureza mundana ou temporal, não tereis esse direito à hospitalidade do mundo; mas deveríeis pagar vosso caminho como faria qualquer pessoa do mundo. Mas quer estejais fora em negócios ordinários, quer como ministro de Deus, não tendes o direito de vos tomardes maiores liberdades com as esposas, irmãs ou filhas de outros homens do que com os próprios homens; e quanto mais alta for vossa posição na Igreja, mais hediondo e criminoso seria tal ofensa. Sempre que um "mórmon" fizer tal coisa, podeis saber que está em transgressão, que o espírito da verdade, da honra, da integridade, ou de Deus, não está com ele. Mas se algum de vós, de fora, tem uma esposa "mórmon," que se tornou "mórmon" antes de vos casardes com ela, e casastes com ela com os olhos abertos para esse fato, não posso prometer que vossa felicidade com ela será sempre ininterrupta. Digo o mesmo em relação a um "mórmon," se casar fora desta Igreja (circunstância que, ao que eu saiba, jamais ocorreu). Qualquer "mórmon" que buscar a companhia de uma mulher lasciva, seja em casa, seja fora, ou que tentar seduzir uma mulher virtuosa, é visto exatamente da mesma maneira, e com sentimento semelhante àquele com que veríamos o conteúdo de um estômago bilioso expelido com o auxílio de lobélia, ou tártaro emético. Cuspimos tais pessoas de nossa boca. Não podemos ver tal personagem como cristão ou cavalheiro, ainda que seja o mais alto oficial "mórmon," um oficial civil ou militar, o rei em seu trono, ou o Presidente em sua cadeira. Quanto mais alta a posição, mais pecaminoso e repugnante o ato. ¶
Mas se um homem, de boa fé e integridade, com a retidão como cinto de seus lombos, toma para si muitas esposas, as reconhece e sustenta, e honradamente cuida e provê para sua prole, está tudo bem comigo, e com Deus, no que sei e entendo de Sua lei, com os Profetas e Apóstolos antigos, com os Patriarcas e sábios do Oriente, para cuja direção olhamos em busca de luz natural e espiritual. Mas ai daquele que, apenas por prazer culpado, se corrompe—que, para satisfazer as paixões inferiores, derruba o belo templo da virtude, e desvia os pés da mulher incauta e leviana, por palavras suaves e lisonjeiras, da estrada real da honra, da vida, e da imortalidade, para as sombras da miséria, da vergonha, da corrupção, e da morte. Uma criatura (não um cavalheiro) certa vez me disse: "Descobri que ela era corrupta, e, portanto, não havia pecado em pagar-lhe; pois, com o preço de sua vergonha e devassidão, poderia sustentar-se com os meios de vida." "Ah!" pensei eu, "melhor morrer do que viver por tais meios. Se lhe tivésseis dado ajuda com uma palavra de bondosa repreensão, e vos mantivésseis livres de sua armadilha, não a teríeis apoiado nem encorajado em seu pecado. Vosso comportamento teria sido o de um Deus e Salvador; mas, como está, representastes o papel de um demônio—unistes mãos com a corrupção, e vos identificastes com a prostituta, e com a meretriz." Que qualquer homem, por mais alto ou honrado que deseje ser considerado, dê evidência a esta comunidade de que tal é seu calibre moral, será repelido dos domicílios e lares dos Santos (que são Santos) com aquela justa indignação que Deus e os anjos aprovarão. Mas aquele homem cuja mente não é fortificada por influência religiosa, mas que, pela força do princípio moral e da bondade e virtude naturais, se mantém livre e sem mácula de tais vícios, é mais precioso do que o fino ouro de Ofir, ou o diamante que reluz na coroa do monarca. É como a sombra de uma grande rocha em terra cansativa, ou como o oásis no deserto, que atrai o viajante fatigado a repousar seus membros musculosos em seu leito verdejante. Atrai a seu redor todos os que veneram o genuíno valor moral, e detém uma influência que não lhe permite, como certo Juiz, fugir da trilha e gritar "Cão danado," quando o vírus hidrofóbico está oculto sob sua própria língua. ¶
É nosso costume receber todos os estranhos, que vêm a nós sob o nome e a aparência de respeitabilidade, com bondade e cordialidade, e ainda assim com cautelosa reserva. Procuramos torná-los confortáveis e felizes. Mas se descobrirmos que se busca tirar vantagem de nosso generoso bom sentimento, para praticar aquilo a que nossa religião, nossas leis, e nossos preconceitos vitais se opõem energicamente, refiro-me àquela prática tão comum e popular no mundo, o comércio sexual sem respeito ou consideração pelas solenidades do voto matrimonial, então a linha se cortará de imediato, e tais personagens serão descartados e desprezados pelos virtuosos e bons. Os exércitos do mundo não podem nos forçar nem nos amedrontar a honrar ou respeitar tais pessoas. Elas então questionarão nosso patriotismo, e enviarão toda sorte de relatos, prejudiciais a nossa posição religiosa e política. Mas terão o cuidado de não relatar o que elas mesmas fizeram. São, é claro, as inocentes! É minha opinião franca e incondicional que poucas, ou nenhumas, pessoas vivendo entre nós, e não de nossa Igreja, jamais enviaram ou levaram relatos maldosos a nosso respeito, sem elas mesmas terem encontrado algum obstáculo inesperado em seu caminho ao vício e ao prazer e indulgência criminosos, ou à ambição e ascensão política. Isto pode servir de chave para muitas coisas. Porque se usa linguagem forte a respeito de tais práticas vis, pode-se inferir que muita corrupção existe aqui. Mas o contrário é verdadeiro. Se a licenciosidade ou o comércio ilícito tivessem ganhado aqui o terreno e a reputação que têm em Londres, Nova York, Boston, Filadélfia, ou Washington, então poderíamos ficar comparativamente calados enquanto tais vícios exercessem o predomínio popular. Mas qualquer coisa incomum, e de caráter corruptor em nosso meio, excita em nós uma indignação que frequentemente encontra vazão em maldições sobre as cabeças dos demônios que tentam introduzi-la. ¶
Se não houvesse senão Santos dos Últimos Dias vivendo em Utah, não teríamos ocasião de falar sobre este assunto como falamos; mas, estando infestados por aqueles "que professam a pura moralidade da religião de Jesus," tais como os que o Charleston Mercury endossa e elogia, somos constrangidos a falar com grande clareza. Deixarei agora este assunto, sabendo que aquele ou aquela que é justo continuará justo; e os que são imundos continuarão imundos. ¶
Descubro que alguns dos jornais orientais me representam como grande blasfemo, porque disse, em minha palestra sobre o Casamento, em nossa última Conferência, que Jesus Cristo se casou em Caná da Galileia, que Maria, Marta e outras eram suas esposas, e que ele gerou filhos. ¶
Tudo o que tenho a dizer em resposta a essa acusação é isto—eles adoram um Salvador puro e santo demais para cumprir os mandamentos de Seu Pai. Eu adoro um que é justamente puro e santo o bastante "para cumprir toda a justiça;" não apenas a justa lei do batismo, mas a ainda mais justa e importante lei "de multiplicar e encher a terra." Não vos assusteis com isto! pois até mesmo o próprio Pai honrou essa lei ao descer a Maria, sem corpo natural, e gerar um filho; e se Jesus gerou filhos, apenas "fez aquilo que vira Seu Pai fazer." ¶
Mas voltemos a nosso assunto—a comunhão com o mundo. Uni-vos a eles exatamente na medida em que exigirdes que eles se unam a vós, e sobre o mesmo princípio. Se estiverem com fome, alimentai-os quando estiver em vosso poder. Se estiverem em aflição, dificuldade, ou apuro, socorrei-os. Acolhei-os quando estranhos, se vos pedirem. Sede bondosos e corteses com eles; contudo, lembrai-vos de que Deus vos deu Seu Espírito Santo como padrão, ao qual o mundo deveria vir. É vosso dever honrar esse padrão, e mantê-lo erguido. Se o mundo tiver comunhão e união convosco, que seja no Espírito do Senhor. Mas se permitirdes que esse padrão caia em vossos próprios corações, ou se torne recumbente, e deslizardes de volta ao espírito do mundo e vos unirdes a ele, tereis virtualmente arriado vossas cores diante do inimigo, e passado para seu lado! O sal perdeu seu sabor, e se tornou impotente para salvar. Só serve para ser lançado fora e pisoteado pelos homens. ¶
Se amais e respeitais o bem-estar do mundo, jamais vos permitais absorver seu espírito, ou tornar-vos um com ele. Pois se o fizerdes, não podereis ser um salvador, mas precisareis de um tanto quanto eles; pois ambos estareis sobre um único e mesmo nível. O mundo odiou o Salvador antes de nos odiar, e O mataram porque Ele jamais se uniria, de coração e espírito, com eles. Matarão a alguns de nós pela mesma causa. Mas bem-aventurados o homem e a mulher que são odiados pelo mundo porque não se unirão a ele. "Fazei-lhes todo o bem que puderdes, e o menor mal possível." ¶
Em conclusão, o presente é uma era importante, uma era em que as nações estão se enfurecendo. Têm sede do sangue umas das outras; e quem sabe se todas as nações não hão de se alinhar, respectivamente, sob a bandeira de gregos e romanos, ou de "Gogue e Magogue," para travar as terríveis batalhas de que fala a escritura sagrada? ¶
Ó Santos dos últimos dias, mantende vossas lâmpadas aparadas e acesas, para que não andeis em trevas. Ó virgens, sábias e insensatas, despertai, pois, eis que o dia está próximo, e a hora se aproxima rapidamente, quando se dirá—"Eis que vem o Noivo, saí ao seu encontro!" ¶
Permiti-me encerrar aqui, dando-vos a tradução de uma estrofe de um célebre poeta alemão— ¶
"Suportai calmamente os cenhos da fortuna, Consolai o coração oprimido pela dor; Guardai sagrada a promessa empenhada, Fiel igualmente a amigo e a inimigo. Mostrai varonil orgulho diante dos Príncipes, Dai ao mérito modesto o que lhe é devido, Estimai a verdade com todos os seus devotos, Reprovai a súcia infiel." ¶