Pulpit

As Relações Matrimoniais

Orson Hyde

1854 October General Conference·Friday Evening Session·1854-10-06

Amados amigos e irmãos — Parece ter-me cabido a sorte de ser o vosso orador nesta ocasião, e de chamar a vossa atenção para um assunto que foi proposto na parte anterior do dia.

Na ocasião em que anunciei a marcação para a reunião desta noite, os meus olhos estavam fixos em outra pessoa para proferir a palestra. Tentarei fazer justiça ao assunto tanto quanto as minhas habilidades, ajudadas pela fé dos santos e pelo Espírito de Deus, possam me permitir. Desejo não apenas a vossa atenção sincera e indivisa, mas confio que também terei as vossas orações, para que o Senhor me inspire com aqueles argumentos e razões que são bem agradáveis à Sua vista, para que eu possa desincumbir-me diante Dele, se não for a minha boa sorte desincumbir-me tão amplamente diante de vós quanto o meu coração desejaria.

Enquanto refletia sobre o assunto da palestra desta noite, ocorreram-me à mente aquelas palavras que o nosso Salvador falou aos judeus, que se consideravam justos, e olhavam para os outros com desconfiança e desdém — em suma, que olhavam para os outros como pecadores; para os repreender, ele disse: "Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração, porque, o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação."

Não sei se me restringirei particularmente a este texto. Ainda que tenha repetido estas palavras como texto, o texto não é um guia em todos os momentos para o servo de Deus. É a letra que mata, lemos, mas é o Espírito que dá vida. O Espírito do Todo-Poderoso é o agente pelo qual os Seus servos devem sempre ser conduzidos.

As palavras contidas nesta Bíblia são meramente uma história do que já passou; ela nunca foi dada para guiar o servo de Deus no curso que deveria seguir, mais do que as palavras e mandamentos de Deus, dados a uma geração sob um conjunto de circunstâncias, serviriam para outra geração sob outro conjunto de circunstâncias. Tem de haver algo que sugira, ou que faça surgir, o mandamento para responder à circunstância em que nos encontramos no momento.

Assim é com os servos de Deus. Há um Espírito que está sempre pronto, e indica, sob circunstâncias variadas e conflitantes, o próprio curso que os servos de Deus deveriam seguir. A Bíblia não é um guia suficiente; é apenas a história do povo que viveu 1.800 anos atrás. A história da nossa Igreja neste dia apresenta as cenas e transações deste povo — as revelações e palavras de Deus para eles; mas, se um indivíduo, vivendo daqui a cem, ou mil e oitocentos, anos, sob circunstâncias diferentes, adotasse a história deste povo como guia para tudo, não a acharia suficiente para responder às circunstâncias que o rodeiam.

Por isso, é a letra que mata, e o Espírito que dá vida. Espero caminhar sempre à luz daquele agente celestial. Espero que ele seja não apenas o meu leme e guia, mas também o vosso, através de todos os labirintos e voltas desta vida mortal, até alcançarmos uma posição sobre terreno celestial.

Já ouvi observar, algumas vezes, por indivíduos que não estavam identificados ou ligados à nossa Igreja, que, se apenas pudessem ser convencidos de que a poligamia era verdadeira, tornar-se-iam "mórmons" imediatamente.

Credes na Bíblia? "Certamente que sim," diz o indagador. Viveram o pai Abraão e os antigos patriarcas nesta relação, e praticaram esta doutrina? Dizeis que sim. Então, se o que praticaram é verdade, estais obrigados a tornar-vos "mórmons," segundo a vossa própria hipótese e razões. Mas, senhores, se eu soubesse que esse fosse o argumento inteiramente convincente, e se essa fosse a doutrina principal que sozinha vos influenciasse a se tornarem "mórmons," diria de imediato: nunca me deixeis batizar tal pessoa, nunca me deixeis ser o agente que traga tal pessoa para a Igreja e o reino de Deus.

Deus despreza todo indivíduo que entrasse em Sua Igreja sem outro propósito senão o de satisfazer criminosamente as suas propensões naturais. Então, senhores, não alimenteis a expectativa, se fordes convencidos pelos argumentos que eu possa aduzir em favor da doutrina da poligamia, como se chama, de que isso será um fundamento suficiente para a vossa fé. Mas onde está o fundamento sobre o qual basear a vossa fé? Aonde ireis para descobrir o "mormonismo" desde o alicerce até a pedra de fecho, desde a raiz até o mais alto ramo da árvore? Começai pelo começo. Se os homens desejam realizar qualquer obra, devem começar pelo começo dessa obra, não pelo meio, nem pelo fim. Devo começar pelo começo, e, se sei que a primeira pedra está assentada sobre um alicerce permanente, posso então, com segurança, acrescentar outra à já assentada; mas, se não consigo assentar a primeira pedra sobre terreno sólido — se não consigo assentá-la sobre uma rocha, posso desesperar de jamais erguer uma construção ou superestrutura que resista à chuva e aos ventos que possam ser lançados contra ela pelo poder da natureza. Devemos começar pelo começo, e não nos contentarmos em agarrar o que pode ser belo em ilustração e prender a nossa atenção, e começar a construir sobre isso como alicerce. Nesse caso, podemos ter ramos, mas não sustentamos a raiz.

Sei que esta doutrina é tornada objeto de muito ridículo. Sei que o mundo em geral, que professa ser piedoso, ou, se não piedoso, moralmente reto, olha para ela como um pecado condenável, como uma mancha sobre o brilhante brasão do seu país, aqui no próprio coração do território dos Estados Unidos, cercado de altas montanhas; consideram-na um ponto obscuro na história do país. Muitos dos grandes políticos de hoje a veem sob esta luz. Os religiosos são ainda mais escrupulosos — consideram-na um pecado hediondo e condenável.

Sempre considero meu dever, nas circunstâncias apropriadas, dar razão da esperança que há em mim, com mansidão e temor; e, se absorvi um princípio, e sou incapaz de defendê-lo pelos princípios da verdade, da justiça, da equidade e da verdadeira filosofia, consideraria que estava andando às escuras.

Sempre que a verdade é manifestada por revelação aos servos de Deus, ela nunca vem sem uma razão para isso. Quando a luz da revelação irrompe na mente, ela não desvenda apenas um princípio, mas muitos. Por exemplo, para ilustrar esta ideia, suponde que este recinto estivesse em total escuridão, e estivéssemos sentados como agora estamos; se uma luz brilhante fosse introduzida no meio do recinto, ela nos permitiria ver não apenas uma pessoa, mas a multidão inteira.

Assim é com a luz da revelação. Quando irrompe na mente humana, não revela apenas um princípio, mas lança um halo de luz sobre tudo o que está ligado a ele. Um indivíduo assim favorecido caminha à luz do semblante de Jeová. Tenho o desejo de que caminhemos nesta luz; e aquele cujo olho é sadio, diz o Salvador, terá todo o seu corpo cheio de luz, e não haverá trevas nele, nem ocasião de tropeço.

Qual é a condição do mundo em geral, tanto religioso quanto político, que nos considera nas profundezas do pecado, da iniquidade e da transgressão? Quais são os seus costumes? Ide, se quiserdes, às grandes cidades de toda nação e clima. Já visitei muitas delas nos quatro cantos da terra, e nas ilhas do mar. Tenho tido alguma pequena experiência a respeito destas coisas, tanto quanto a observação comum pôde me dar, e compreendo bastante bem o modo de vida do mundo em geral.

Um homem, por exemplo, que tem as maiores riquezas, o homem que pode comandar a maior fortuna, não digo que seja o caso de todos, mas é o caso da maioria — não apenas têm as suas esposas e famílias com quem publicamente vivem e convivem, mas também têm, em lugares secretos, as suas amantes, que sustentam não honradamente, mas sob um manto, por assim dizer. Quando, por suas ligações ilegítimas, é provável que aumentem a sua descendência, a que meios recorrem, para salvar o seu crédito, para manter a sua honra imaculada aos olhos da multidão, para encobrir a sua iniquidade, esconder os seus crimes, e sufocar a sua vergonha? Emprega-se um praticante habilidoso para destruir a prole embrionária. Isto é assassinato.

Nem é este o único meio usado para esconder a sua vergonha, e se salvarem da reprovação. Podem ser bem-sucedidos em esconder a sua iniquidade dos olhos do homem, mas não podem escondê-la dos olhos do Onipotente Jeová. Não há um dia vindouro em que estes atos serão investigados, e proclamados por toda parte, e isso, além disso, por uma mente que penetra os pensamentos e intenções secretos dos corações dos filhos dos homens? "O quê! Há de fato tal dia se aproximando?" Sim. Pode estar escondido por um curto período da vista dos ímpios, mas se aproxima firmemente, e virá como ladrão de noite; e aquelas mesmas pessoas, tanto homens quanto mulheres, que frequentemente lançam os seus anátemas contra os "mórmons," contra o seu curso e modo de vida, ficarão dominadas por isso.

Então como se aplicarão as palavras do nosso texto — "Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração, porque, o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação"? Que é bem agradável aos olhos dos homens mundanos — homens desprovidos de princípio, e destituídos da retidão de Deus? É agradável a eles esconder e sufocar tudo o que tendesse a lançar reprovação e infâmia sobre o seu nome. A negrura do seu caráter buscam esconder do olhar público, e parecer bons cristãos, e homens honrados na sociedade, homens de princípio, virtude e integridade. Se puderem esconder a sua vergonha, não importa o custo nem o sofrimento causado ao destruir o embrião que vem à existência. Não se importam em arriscar a vida daquela que se tornaria mãe. Tudo isto é bem agradável aos olhos dos homens sem princípios, e que a sua iniquidade não venha à luz.

Mas o que é bem agradável aos olhos dos homens é abominação aos olhos de Deus. Ouso dizer que podeis ir às cidades mais populosas do mundo, e encontrareis uma parte considerável daqueles que dão o tom ao cristianismo tal como existe no mundo, sustentando estas relações miseráveis, encobertas, em segredo. Estas coisas são verdadeiras, e é o bastante para doer o coração do filantropo, e ferir os sentimentos de qualquer homem que seja amigo da humanidade sofredora, ler a sua história, e observar o seu curso. Eu não os seguiria por todas as suas voltas imundas, ainda que pudesse. Tivesse eu o olho discernidor de um anjo, ou de um Deus, não desejaria segui-los, e vos revelar as corrupções praticadas no mundo, todas sob o manto da popularidade, encobertas pela alta posição e autoridade mundana; e assim ficam protegidos em suas relações ilícitas.

Não estou disposto a acusar diretamente os legisladores do nosso país de coisas deste tipo; não presumirei fazê-lo; ainda assim, ao mesmo tempo, se posso dar crédito às suas próprias declarações a respeito dos atos uns dos outros que dizem respeito a estes assuntos, é o bastante para fazer as nações corarem e esconderem a cabeça de vergonha, diante de procedimentos tão miseráveis, MISERÁVEIS, corruptos.

Mas não desejamos sustentar a nossa própria posição sobre as corrupções dos outros — a nossa própria posição está na mente e nas revelações de Deus. Deus não permita que a nossa fé se funde sobre as corrupções do mundo. A nossa fé se funda na pureza da palavra de vida, e ali fique fundamentada.

Pois bem, agora, amigos e irmãos, ouvir-me-eis por um curto tempo, e deixai-me conduzir-vos, tanto quanto eu for capaz esta noite, através do volume de inspiração que é universalmente reconhecido por toda a cristandade como sendo a palavra de Deus, a verdade do céu? Ouvireis alguns dos ditos contidos naquele livro? E então dizei se possuímos agora o mesmo espírito que inspirou o peito dos antigos, cuja história está escrita nestas páginas. Julgai por vós mesmos se assim é ou não.

Em primeiro lugar, então, olhemos para Abraão, nosso pai, e para Sara, que nos gerou, pois, se somos de Cristo, então somos descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa. Que se conte qualquer história a respeito do meu pai pela qual se lhe impute desonra, ou que se lance qualquer reprovação sobre a minha mãe, e, se os sentimentos de lealdade de um filho para com os seus pais habitam em meu peito, resistirei a toda tal reprovação. Não importa quão pecadores possam ter sido, os seus pecados não devem ser retratados diante de mim. Olho, então, para Abraão como meu pai, e para Sara como minha mãe, que me gerou. Como foi, então, com Abraão? Diz-se que ele é o pai dos fiéis, e o grande cabeça da Igreja nos dias dos patriarcas, e o cabeça daqueles que foram adotados no convênio de Jeová por meio do sangue de Seu Unigênito; pois, se somos de Cristo, então somos descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa. Se, pela virtude do sangue do Salvador, os nossos pecados são lavados, somos os filhos de Abraão; saudamo-lo como nosso pai, e Sara como nossa mãe; ele é o pai dos fiéis, é o pai de muitas nações. Como foi com Abraão? Agradou ele a Deus, andou diante Dele retamente, e obteve este testemunho de que agradava a Deus, e obteve promessas que nenhum outro homem obteve desde os dias de Abraão, exceto o Filho de Deus? Jeová prometeu que nele e em sua descendência todas as nações da terra seriam abençoadas, como padrão de piedade, e como o grande cabeça da Igreja. Por causa de sua fidelidade em guardar os mandamentos de Jeová na terra, ele atraiu do alto esta grande promessa. Quem viveu desde aquele tempo que tenha sido assim abençoado? Ouso dizer que ninguém. Então, se somos seus filhos, não faremos as obras do fiel Abraão? Assim disse o Salvador, que falava a verdade, que declarava a mente e a vontade de seu Pai no céu. Somos nós descendência de Abraão, ou somos bastardos e não filhos? Essa é a questão.

Vejamos quais foram as obras de Abraão. Abraão obteve promessas. Que promessa obtivestes vós? Que promessa obteve o mundo cristão? "Ora," diz um, "a Bíblia está cheia de promessas feitas ao povo de Deus há muito tempo." Mas que têm as promessas ao povo de Deus de há muito a ver conosco? Obtivemos promessas para nós mesmos? Aí está o ponto. Se os nossos pais obtiveram promessas de que seriam alimentados, e foram alimentados, o seu comer e beber não satisfaz o meu apetite. Satisfez a eles, mas isso não tem nada a ver comigo, quero eu mesmo o mesmo tipo de alimento substancial. Se Abraão obteve promessas, quero obter promessas também. "O quê! Um homem que tem mais de uma esposa obter promessas de Deus?" Digo-vos que houve poucos, nos tempos antigos, que obtiveram promessas de Deus, que não tivessem mais de uma esposa, se a Bíblia for verdadeira. Havia Davi, e havia Salomão; havia toda a linhagem dos reis de Israel. Diz um: "Aquela velha Bíblia era para os judeus, e nada tem a ver conosco; isso é o Antigo Testamento; e ter mais esposas era conforme a sua lei, e conforme o seu costume, mas não se aplica a nós; o Salvador do mundo é o nosso grande padrão, ele é o nosso grande legislador."

E como é com ele? Indaguemos. Considerou o Salvador do mundo que era seu dever cumprir toda a retidão? Respondeis que sim. Nem mesmo a simples ordenança do batismo ele deixaria passar, pois o Senhor a ordenou, e, portanto, era retidão obedecer ao que o Senhor tinha ordenado, e ele havia de cumprir toda a retidão. Sobre esta hipótese, voltarei ao princípio, e observarei o mandamento que foi dado aos nossos primeiros pais no jardim do Éden. O Senhor lhes disse: "Multiplicai-vos e enchei a terra" [no original inglês, "replenish the earth"]. Vou aqui me desviar por um momento do fio do assunto, e trazer uma ideia que talvez tenha relação com ele.

A terra, lembrai-vos, estava vazia e vácua, até que os nossos primeiros pais começaram no jardim do Éden. Que significa o termo "replenish" [em português, "reencher"]? Esta palavra deriva do latim; "re" e "plenus"; "re" denota repetição, reiteração; e "plenus" significa cheio, completo; então o significado da palavra "replenish" é reencher, recompletar. Se eu fosse à loja de um comerciante, e o encontrasse com um novo estoque de mercadorias, eu diria — "Vós reabastecestes o vosso estoque," isto é, encheu de novo o vosso estabelecimento, pois parece como era antes. "Agora ide," diz o Senhor, "e reenchei a terra;" pois estava coberta de nuvens sombrias de trevas, excluída da luz do céu, e as trevas pairavam sobre a face do abismo. O mundo estava povoado antes dos dias de Adão, tanto quanto estava antes dos dias de Noé. Disse-se que Noé se tornou o pai de um mundo novo, mas era ainda o mesmo velho mundo, e continuará a sê-lo, embora possa passar por muitas mudanças.

Quando Deus disse: Ide e reenchei a terra; era para reencher os habitantes da espécie humana, e torná-la como era antes. Os nossos primeiros pais, então, foram ordenados a multiplicar-se e a reencher a terra; e, se o Salvador considerou seu dever ser batizado para cumprir toda a retidão, um mandamento de muito menos importância do que o de multiplicar a sua raça (se é que há alguma diferença nos mandamentos de Jeová, pois todos são importantes, e todos essenciais), não consideraria ele seu dever unir-se ao restante dos fiéis em reencher a terra? "Sr. Hyde, quer o senhor realmente dar a entender que o imaculado Salvador gerou filhos? É uma afirmação blasfema contra a pureza da vida do Salvador, para dizer o mínimo. As santas aspirações que sempre ascenderam dele a seu Pai jamais lhe permitiriam ter tais ligações carnais e da carne, nunca, jamais." Esta é a ideia geral; mas o Salvador jamais considerou abaixo de si obedecer ao mandato de seu Pai; jamais considerou isso um rebaixamento de sua dignidade; jamais desprezou o que Deus fizera; pois são osso de seus ossos, e carne de sua carne; espíritos aparentados, que outrora se banhavam nos raios da imortalidade e da vida eterna. Quando os encontrou revestidos e cercados das fraquezas da carne mortal, os desprezaria ele? Não. É assim, já vi homens que se tornaram pobres e miseráveis de repente, e então aqueles que eram seus amigos nos dias de sua prosperidade se afastam deles, e mal se dignam a lhes dar um olhar, sendo humilhante demais associar-se a eles em sua pobreza. Mas não foi assim com o Salvador; ele se associou com eles em outras esferas, e, quando vieram para cá, descendo abaixo de todas as coisas, ele não desprezou associar-se com estes mesmos espíritos aparentados. "Então o senhor realmente pretende sustentar a doutrina de que o Salvador do mundo foi casado; pretende ser assim entendido? E, se assim é, pretende ser entendido que ele teve mais de uma esposa?"

O mundo cristão, por seus preconceitos, nos afastou da velha Bíblia, de modo que agora devemos apelar ao Novo Testamento, pois isso parece agradar ao preconceito do povo; embora, para mim, seja tudo igual, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento; pois todo escriba instruído tira dos seus tesouros coisas novas e velhas. Este é o meu tesouro, ou antes, é um dos meus tesouros, e o que ali não consigo encontrar, confio que descerá do alto, e se alojará em meu coração. O dom de Deus é também o meu tesouro, sim, o Espírito Santo.

Ora, suponde que eu mesmo saísse, e viajasse pelas cidades da nação como um célebre reformador, pregando revelações e sentimentos tão elevados quanto os céus, e lançando ideias estranhas e novas, às quais a multidão estivesse inteiramente desacostumada; e, aonde quer que fosse, suponde que eu tivesse comigo três ou quatro mulheres — uma penteando a minha cabeça, outra lavando os meus pés, e outra derramando lágrimas sobre eles, e os enxugando com os cabelos de sua cabeça. Suponde que eu me apoiasse nelas, e elas em mim, não pareceria isso monstruoso aos olhos do mundo? Levar-me-iam a Jerusalém sobre o jumentinho, e lançariam ramos de palmeira sob os meus pés, gritando: "Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor; Hosana nas alturas"? Suponho que me dariam uma camada de piche e penas, e me carregariam sobre um trilho; e é minha opinião que fariam o mesmo com o Salvador, se ele andasse por aí agora como andou há mil e oitocentos anos.

Há uma antiga profecia de Isaías, que não posso parar para ler, mas a encontrareis no capítulo 53 de suas profecias; lede o capítulo inteiro. Esta profecia em particular fala de Cristo do início ao fim. Ali se diz: "Quando a sua alma se puser por oferta pelo pecado, verá a sua semente." Que constitui a alma? O espírito e o corpo do homem unidos; pois sabeis que se diz, em algum lugar, que tantas almas foram mortas na noite pelo anjo de Deus. A parte imortal não foi morta, mas ocorreu uma dissociação das partes mortal e imortal. Quando puserem a sua alma por oferta pelo pecado, verá a sua semente. Se ele não tem semente, como poderia vê-la? "Quando puserem a sua alma por oferta pelo pecado, verá a sua semente, e prolongará os seus dias, e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão." Pouco depois, o Profeta continua a dizer: "E quem contará o tempo da sua vida," pois a sua vida é tirada da terra. Se ele não tivesse geração, quem poderia contá-la? Já vos disse que havia um agente que traria à luz todo assunto em nítido relevo, que é o Espírito Santo, que tudo sonda, até as coisas profundas de Deus, e, até que aquele agente celestial inflamasse o coração de algum homem para declarar a sua geração, ela jamais poderia ser dada a conhecer. Quem a declarará? Ele não podia, pois foi cortado da terra. Tenho observado a profecia de Isaías, aquela parte que se cumpriu na pessoa do Salvador, pois o Senhor lhe deu uma parte com os grandes, "e com os poderosos repartirá ele o despojo; porque derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; e levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores." Sobre ele foi posta a iniquidade de todos nós; foi contado entre ladrões, e, em seus momentos de agonia, disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." "Ele foi oprimido, e ele foi afligido, porém não abriu a sua boca: como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim não abriu a sua boca. Da opressão e do julgamento foi tirado: e quem contará o tempo da sua vida? Porque foi cortado da terra dos viventes: pela transgressão do meu povo ele foi ferido." Ora, se uma parte desta profecia se cumpriu, a outra parte já se cumpriu, ou há de se cumprir.

Como foi com Maria e Marta, e outras mulheres que o seguiam? Nos tempos antigos, e é comum hoje, as mulheres, como Sara, chamavam os seus maridos de Senhor; a palavra Senhor equivale a marido em algumas línguas, amo, senhor, marido, são quase sinônimos. Na Inglaterra frequentemente ouvimos a esposa dizer: "Onde está o meu amo?" Não quer dizer um tirano, mas, assim como Sara chamava o seu marido de Senhor, ela designa o seu pela palavra amo. Quando Maria, de outrora, veio ao sepulcro no primeiro dia da semana, em vez de encontrar Jesus, viu dois anjos vestidos de branco, "e disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor," ou marido, "e não sei onde o puseram. E tendo dito isso, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, porém não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni! (que quer dizer Mestre)." Não se manifesta aqui o afeto de uma esposa? Estas palavras falam dos laços de parentesco e das afinidades comuns àquela relação de marido e mulher. Onde encontrareis uma família tão intimamente ligada pelos laços de religião comum? "Bem," dizeis vós, "isso parece bastante plausível, mas quero um pouco mais de evidência, quero que o senhor encontre onde diz que o Salvador foi de fato casado."

Já lestes as vossas Bíblias alguma vez? Devo confessar que não a leio há algum tempo, mas olho mais para Aquele que reina no alto, e para aqueles que sustentam as palavras de vida na inspiração do Espírito Santo; olho para eles mais frequentemente do que para ela. Já memorizei a Bíblia uma vez, e, quando alguém citava um versículo, eu conseguia citar o seguinte. Memorizei-a em inglês, alemão e hebraico; ainda assim não professo estar muito familiarizado com ela agora, mas os seus sentimentos e espírito estão em meu coração, e ali estarão enquanto eu viver, e ainda permanecerão quando eu tiver ido para outra esfera. Onde diz que o Salvador foi casado? Creio que a lerei para a vossa conveniência, pois talvez não acreditásseis em minhas palavras se eu dissesse que de fato existe tal escritura.

Voltemo-nos ao relato do casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus ali estava. Sim, e alguém mais também. Encontrareis isto no capítulo 2 do Evangelho de João; lembrai-vos disso e o lede quando fordes para casa. "E ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia; e estava ali a mãe de Jesus. E foram também convidados Jesus e os seus discípulos para as bodas. E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho. Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Sua mãe disse aos servos: Fazei tudo quanto ele vos disser. E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre de cerimônias. E levaram. E logo que o mestre de cerimônias provou a água transformada em vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os servos que tinham tirado a água), o mestre de cerimônias chamou o noivo, e disse-lhe" — isto é, o mestre de cerimônias disse ao noivo — "Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já beberam fartamente, então, o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho."

Senhores, isso é tão claro quanto os tradutores, ou os diversos concílios sobre esta Escritura, ousam permitir que vá ao mundo, mas a coisa está ali; está dito; Jesus foi o noivo nas bodas de Caná da Galileia, e disse-lhes o que fazer.

Ora, houve de fato um casamento; e, se Jesus não foi o noivo naquela ocasião, dizei-me, por favor, quem foi. Se algum homem puder mostrar isso, e provar que não foi o Salvador do mundo, então reconhecerei que estou errado. Dizemos que foi Jesus Cristo quem se casou, para ser trazido àquela relação pela qual pudesse ver a sua semente, antes de ser crucificado. "Terá ele de fato passado pela natureza dos anjos, e tomado sobre si a descendência de Abraão, para morrer sem deixar semente que levasse o seu nome sobre a terra?" Não. Mas, quando o segredo se revelar por completo, a semente do abençoado será recolhida, nos últimos dias; e aquele que não tem o sangue de Abraão correndo em suas veias, que não tem em si uma só partícula do Salvador, receio que seja um gentio estereotipado, que ficará de fora e não será recolhido nos últimos dias; pois vos digo que são os escolhidos de Deus, a semente do abençoado, que hão de ser recolhidos. Não me desprezo em ser chamado filho de Abraão, ainda que ele tivesse uma dúzia de esposas; ou em ser chamado irmão, filho, filho do Salvador, ainda que ele tivesse Maria, e Marta, e várias outras, como esposas; e, embora tenha expulsado sete demônios de uma delas, para mim tanto faz.

Pois bem, então, verá a sua semente, e quem declarará a sua geração, pois foi cortado da terra? Direi aqui que, antes de o Salvador morrer, ele contemplou os seus próprios filhos naturais, como nós contemplamos os nossos; viu a sua semente, e logo depois foi cortado da terra; mas quem declarará a sua geração? Não tinham pai para os manter em memória honrada; passaram para as sombras da obscuridade, nunca expostos ao olho mortal como a semente do abençoado. Pois, sem dúvida, se tivessem sido expostos ao olho do mundo, aquelas crianças poderiam ter compartilhado o mesmo destino das crianças em Jerusalém nos dias de Herodes, quando todas as crianças abaixo de certa idade foram ordenadas a serem mortas, na esperança de matar o Salvador infante. Poderiam ter sofrido pela mão do assassino, como fizeram os filhos de muitos reis que eram herdeiros aparentes dos tronos de seus pais.

A história está repleta de circunstâncias de políticos de tudo-ou-nada tingindo as mãos com o sangue daqueles que se interpunham em seu caminho ao trono ou ao poder.

Aquela semente tem tido a sua influência sobre os escolhidos de Deus nos últimos dias. O mesmo espírito que os inspira é o que inspirou o seu pai, que sangrou e morreu na cruz segundo a carne.

"Bem, mas," diz um, "certamente houve um preceito imposto aos bispos, nos tempos do Novo Testamento, de que deveriam ter apenas uma esposa." Isto é levantado como um grande argumento contra a posição que os Santos dos Últimos Dias assumiram. Nos tempos antigos, poderiam ter passado pelas mesmas circunstâncias que alguns Santos dos Últimos Dias tiveram de passar em Illinois. Que teria acontecido conosco, se soubessem que muitos de nós tinham mais de uma esposa quando vivíamos em Illinois? Ter-nos-iam desfeito, sem dúvida, pior do que fizeram. Podem desfazer-nos, e nos expulsar de um lugar a outro, mas, com o tempo, chegaremos a um ponto em que teremos todas as mulheres, e eles não terão nenhuma. Podeis pensar que estou brincando a respeito disso, mas posso vos trazer a verdade de Deus para o demonstrar. Não avancei nada para o qual não tenha abundante sustentação. Há mais verdade do que poesia nisto, tão certo como estais vivos.

Os bispos, antigamente, em seu ofício e chamado, tinham muito a ver com assuntos temporais — servir às mesas, cuidar dos pobres, etc. E, visto que tanta confiança lhes era depositada de caráter temporal, exigia-se que tivessem uma reputação justa, e não deveriam estar em nenhuma relação que, em nada, prejudicasse a sua reputação junto ao mundo da humanidade.

Em certos países, a pluralidade de esposas é legal. A cristandade pensa que representa praticamente todo mundo, e o "resto da humanidade" é raro e disperso. Já viajei entre nações e países onde esta doutrina era tolerada por lei, e ouso dizer que, se déssemos uma volta pelo mundo esta noite e descobríssemos os que são a favor, ou contra, esta doutrina, a maioria estaria a seu favor. Se todo o mundo pudesse ser reunido aqui diante de mim, e se tomasse uma votação sobre este assunto, nos concederiam o direito de consciência nesta matéria.

Não tem o muçulmano direito de ser a favor dela? Não o fez Deus? E não é o seu direito tão caro a ele quanto o nosso a nós? Por que devemos nos erguer como uma pequena família de nações na cristandade, e dizer ao resto da grande família do mundo: "Não fareis tal e tal coisa, e fareis isto ou aquilo"? Por que devemos ser restringidos nesta matéria, enquanto a grande maioria do mundo decide a seu favor?

Tomai esta questão pelos princípios políticos, e que diz a maioria do mundo a seu respeito? Estabelecem o nosso direito. Tomai-a então pelos princípios da filosofia natural, e a verdade de nossa posição se torna ainda mais evidente. Se eu tivesse linguagem para retratar ao ouvido mais delicado os princípios de nossa existência, e as leis de nossa natureza, o cético mais obstinado seria obrigado a ceder ao poder da verdade. Poderia tratar do assunto sob esta luz, mas hei de me abster, vos pouparei. Se tivesse uma congregação de homens, não os pouparia em nada.

O bispo deve ser marido de uma só esposa. E, quanto ao velho Paulo, todos dizem que viveu e morreu solteiro; mas ele disse que todas as coisas lhe eram lícitas, e que tinha o direito de levar consigo uma irmã, uma esposa, assim como os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas. Paulo não deu a conhecer todas as coisas, pois nem todas eram lícitas de contar. Ele mesmo disse que conhecia um homem que fora arrebatado ao terceiro céu, e ouvira coisas ilícitas de proferir. Se ele não tomou esposa, e não se multiplicou, nem reencheu a terra, não cumpriu a primeira grande lei fundamental da natureza.

Há muitos, hoje vivos, que são solteirões. Não me queixo dos homens bem velhos, pois nem sempre podem se ajudar; mas hei de me queixar dos velhos solteirões; e digo-vos que, se não avançardes e vos casardes, e tentardes levar avante a grande obra de Jeová, será deixada para um homem melhor do que vós fazê-la. [Voz na tribuna: "Há apenas um velho solteirão no Território, e ele foi para os Estados."] Ah! Peço perdão; o Presidente Young diz que não conhece senão um velho solteirão em todo o Território de Utah, e ele foi para os Estados; portanto, nada mais tenho a dizer sobre este ponto em particular. Olhai ao redor, para o mundo em geral, e quantos há que são mesquinhos demais para tomar uma esposa, e sustentá-la a ela e à sua prole honradamente, e criar uma família que lhes reflita honra em sua velhice! Não — não podem se dar a esse luxo, mas vão aonde possam satisfazer os seus desejos carnais, deixando as consequências inteiramente com as mulheres confiantes que desonram, e que, nesse estado, desesperam de jamais serem reintegradas na sociedade com bom caráter, se entregam à prostituição, e, em decadência, descem a uma sepultura prematura, com dez mil maldições sobre a cabeça de seus enganadores.

Supondes que estas coisas hão de escapar ao olho que tudo vê do Grande Jeová? E não visitará Ele o sensualista culpado com um terrível castigo? Ele o fará. Por que não, em matrimônio honrado, criar descendência para glorificar a Deus? Por que esta disposição mesquinha? Não é de admirar que o Senhor Todo-Poderoso envie a peste para os devastar, e reduzir nações e cidades a ruínas.

Irmãos e irmãs, cabe a nós ter a luz da verdade brilhando em nossos olhos, e honrar essa verdade em todo o nosso convívio uns com os outros.

O bispo deverá ter apenas uma esposa. Se estivésseis num país onde apenas uma esposa é permitida por lei, então estaríeis obrigados a ter apenas uma. Que direi? Um bispo na Inglaterra, onde sabe que a poligamia é contrária à lei, deve ter apenas uma esposa; se quiser outra, e a lei não o permitir, deve ir para onde é permitida por lei. Era o caso com os bispos nos tempos antigos. Devemos submeter-nos às leis do homem, até que reine aquele a quem pertence o direito de reinar.

Este é o cordão que há de revolucionar o mundo inteiro, e fará os Estados Unidos tremerem da cabeça aos pés; é como o fermento escondido em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado. Há tal maré de argumentos irresistíveis que, como o grande Mississippi, carrega em sua audaz corrente tudo o que ouse se opor ao seu curso.

Diz um: "Por que é que os homens em vossa sociedade podem ter mais de uma esposa? Qual é a política disso?" Os homens de Deus que detêm o sacerdócio do céu, e absorvem a luz do Espírito Santo, têm o privilégio e o direito. Ora, permiti-me ilustrar uma coisa, e trazê-la para perto de vós. Pode haver alguns ao alcance de minha voz aos quais o caso se aplicará. Algum homem talvez case com uma esposa de sua juventude. Ela morre — ele a amava como ama a si mesmo, e a sua memória sempre permanece em seu coração. Casa com outra, e ela morre, e ele a amava igualmente bem. Casa com uma terceira, e assim por diante, e amou a todas. Com o tempo, ele morre, e morre com afeto e amor dedicados a todas elas.

Ora, na ressurreição, qual daquelas esposas reivindicará ele? Não há diferença em seu amor por nenhuma delas, e todas talvez lhe tenham dado filhos. Ele ama os filhos de uma mãe tanto quanto os filhos de outra. Que dizeis? Qual terá ele na ressurreição? Ora, que as tenha a todas. A quais delas estão eles mais intimamente ligados?

Há um caso oposto a este, em que uma mulher casou com um marido, e ele morreu, e assim por diante, até que se casou com sete maridos, e depois ela morreu. Fez-se ao Salvador a pergunta: "De quem será ela esposa na ressurreição!" pois todos a tiveram. O Salvador deu uma resposta curiosa. Diz ele: "Na ressurreição, nem se casam, nem se dão em casamento, mas são como os anjos de Deus." Ora, dizei-me como são os anjos no céu, e então teremos o segredo.

Diz-se: "Nos últimos dias, diz Deus, derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, e os vossos velhos verão visões, e os vossos jovens sonharão sonhos: e também sobre os meus servos e as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias; e profetizarão." Estais orando todos os dias: "Venha o teu reino, e seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu." Jamais podereis saber como isso se faz no céu, a menos que o possais ver por visão; ou o reino, quando vier, a menos que vos seja revelado pelo espírito de profecia, ou em sonhos e visões; então o sabereis.

Este é o benefício dos sonhos e visões, embora este poder seja levianamente mencionado, e repudiado no mundo cristão. A revelação do Todo-Poderoso, de Deus a um homem que detém o Sacerdócio, e é iluminado pelo Espírito Santo, a quem Deus designa para se tornar governante e governador em Seu reino eterno, é que ele possa ter muitas esposas, para que, quando for para lá, para outra esfera, possa continuar a perpetuar a sua espécie, e do crescimento do seu reino e governo não haverá fim, diz Daniel. Como cresce o reino de Deus, senão pelo crescimento de seus súditos? Tudo cresce, tudo se multiplica. Como disse o irmão Benson esta manhã, até os mosquitos de Nebraska crescem e se multiplicam. Se eles o fazem, por que não teriam as ordens elevadas da criação um direito melhor? Estes mosquitos e insetos são o resultado de um mundo caído, mas, com o tempo, não haverá nada que fira nem destrua em todo o santo monte de Deus.

Estes homens de Deus, que aqui são casados pela autoridade do céu, são selados na terra e no céu. O bom e velho livro diz que o que é selado na terra é selado no céu; e a quem quer que perdoardes os pecados na terra, ser-lhe-ão perdoados no céu, e tudo o que ligardes na terra será ligado no céu. Aquele sacerdócio que não tem este poder não é melhor do que uma corda de areia. Só o verdadeiro sacerdócio o possui. O sacerdócio que não tem este poder é um falso sacerdócio, e não o Sacerdócio do Todo-Poderoso. Pouco sabia o mundo, quando tratou o Salvador como tratou, que ele tinha o seu destino em suas mãos; o mundo não o conheceu; veio para o que era seu, e os seus não o receberam; mas virá o tempo em que o conhecerão, e o poder de seu Sacerdócio.

Quando os servos de Deus e as suas esposas vão para o céu, há uma união eterna, e eles hão de multiplicar-se e reencher o mundo para o qual vão.

Nem todo homem nos Estados Unidos pode ser presidente, ou governador, ou juiz, mas todos estão dentro do âmbito do governo dos Estados Unidos, embora nem todos governem; muitos são chamados, mas poucos, escolhidos. Mas naquele mundo, aqueles que detêm o Sacerdócio, e, por sua fé e obediência, obtêm a aprovação do Todo-Poderoso, são selados na terra e no céu, e serão exaltados a reinar e governar para sempre; ao passo que aqueles que não quiseram escutar os santos mandamentos, e morreram sem ter uma esposa selada a eles, são anjos; são espíritos inferiores, e servos daqueles que governam. Por isso, aquela família de outrora, de que falou o Salvador, dizendo, "Na ressurreição, nem se casam, nem se dão em casamento," não são Deuses, mas anjos, que nem se casam nem se dão em casamento, ao passo que os homens que magnificam os seus chamados são os que governam, e detêm domínio, e recebem a sua coroa, e são um com o Salvador, como ele é um com o Pai. Por isso, aquele que é fiel sobre poucas coisas será feito governante sobre muitas coisas.

Tenho mais algumas palavras a dizer, e muito mais poderia ser dito; pois apenas comecei a tocar de leve no assunto. Quero dizer mais algumas coisas, e talvez esta seja a ocasião mais apropriada para o fazer. Jamais vereis um homem "mórmon" que detém o sacerdócio, a menos que seja algum indivíduo que o detém apenas de nome, desprovido de princípio, que transgrediu, e escapou de ser processado — digo, jamais vereis um homem "mórmon" de coração verdadeiro correndo atrás de uma mulher devassa; mas há mulheres entre os Santos dos Últimos Dias que são frouxas em sua conduta, não obstante terem abraçado o Evangelho. Desejamos apenas aplicar isto onde cabe; que nenhum de vós se sinta ofendido, pois Deus sabe que eu teria os virtuosos e bons como sagrados quanto a minha própria vida. Ao mesmo tempo, sou obrigado a falar claramente, e sinto que o Espírito está sobre mim agora, estou aquecido por ele, e ele me impele a falar sobre este assunto, e a falá-lo abertamente. Há famílias nesta cidade que se curvaram externamente ao jugo de Cristo, mas são tão corruptas quanto o inferno, e posso apontar onde estão, em que direção habitam. Quando me aproximo de suas habitações, sinto que são uma abominação à minha vista. "Tendes alguma evidência tangível disto?" Sim, tenho, e mais do que desejo, o que guardarei para mim mesmo, mas virá o dia em que tudo virá à luz. Vedes homens "mórmons" correndo para lá? Não. Onde quer que encontreis uma casa entre os Santos dos Últimos Dias onde nenhum homem "mórmon" vai, podeis saber que nem tudo está bem na Dinamarca. Dir-vos-ei quem vereis ali em particular — homens que não temem a Deus nem respeitam o homem. Que tenho eu a dizer a respeito de mulheres que virão para a Igreja e o reino de Deus, e trarão desonra sobre si mesmas, e procurarão trazê-la sobre toda a Igreja, ao coabitar com aqueles malditos patifes que passam por aqui a caminho da Califórnia, que se gabam do que fizeram na Grande Cidade de Salt Lake? Conheço a sua fala secreta em seus aposentos, pois o Espírito de Deus tudo sonda. Pode não estar assim comigo em toda a extensão o tempo todo, mas às vezes toda a visão de minha mente se ilumina, e vejo e compreendo tudo isso.

Vou dizer algo a respeito daqueles que desonram a Igreja e o reino de Deus deste modo. Dir-vos-ei o que há de acontecer àqueles homens e mulheres que cometem lascívia, e vão se gabar disso, e riem na face do céu. Virá o dia em que a sua carne apodrecerá sobre os seus ossos, e, à medida que caminharem, ela se desprenderá, e se tornará um fedor nauseante sobre a estrada. Ora, ide e gabai-vos de que podeis obter tudo o que quiserdes por um molde de vestido, ou uma jarda de fita; ide e gabai-vos disso, e o Senhor Todo-Poderoso vos amaldiçoará o dia todo. [Voz na tribuna: "Amém."] E, quando andardes, pedaços de vossa carne se desprenderão de vossos ossos, e feder-vos-ão o suficiente para adoecer um cão.

Digo isto tanto aos homens quanto às mulheres que praticam esta iniquidade no meio deste povo; e, se não vos abstiverdes de tal relação, esta predição começará a se cumprir, e por isso sabereis se falei em nome do Senhor, ou em nome de Orson Hyde. Que práticas tão abomináveis venham ao nosso meio sob os mantos da santidade, porque há princípios liberais, santos e retos praticados pelos santos, digo, maldita a sua habitação e as suas pessoas; e, se este é o vosso pensamento, que todo Israel diga amém. [Toda a congregação, no mais alto de suas vozes, disse: "Amém!"] E que estes desprezíveis miseráveis sintam o espírito "mórmon," não por mãos "mórmons," mas pelo poder de Deus lá do alto.

Sinto-me carregado do Espírito Santo enviado do céu, e ele arde em meu coração como uma chama, e este é o testemunho que dou. Se eu me misturo nas ruas com a multidão para tratar de negócios como qualquer outro homem, não estou sempre adormecido, nem insensível ao que se passa ao meu redor. Não professo saber muito, mas algumas coisas sei, e outras não sei.

Tenho procurado ilustrar este assunto para o benefício do indagador honesto. Apenas o toquei de leve, procurando lançar algumas dicas para a vossa consideração, para que saibais que não estamos sem alguma razão para a nossa fé e prática a respeito do assunto da poligamia. Desejo que atendais à admoestação que dei. Dei-a a vós com fé; dei-a a vós independentemente das consequências, pois não peço favor algum a ninguém, exceto ao meu Pai no céu, e aos meus irmãos, cujos corações sei serem puros; e desejo estar identificado com eles no tempo e por toda a eternidade, e com as minhas irmãs também; e desejo ser exaltado com eles, e eles comigo, onde os santos possam unir as mãos, depois de passarem por muita tribulação, e obterem coroas, para se regozijarem juntos para todo o sempre.

Sinto como se tivesse dado um testemunho fiel, e agora digo, na presença de Deus e dos anjos, que dei aos culpados a advertência, e as minhas vestes estão limpas do vosso sangue. Tomai advertência, e jamais fazei algo que traga desonra sobre os santos do Altíssimo.

Que Deus acrescente a Sua bênção, e nos preserve para o Seu reino celestial, o que Ele conceda. Amém.

Como citar este discursoOrson Hyde, “As Relações Matrimoniais”, 1854 October General Conference, Friday Evening Session (1854-10-06). Pulpit Vault, 1854-10-hyde-the-marriage-relations. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).