Pulpit

O Recolhimento dos Santos — O Fundo Perpétuo de Emigração

Orson Hyde

1854 October General Conference·Sunday Session·1854-10-08

Sou chamado esta manhã, amados irmãos e irmãs, a fazer algumas observações, e falar-vos a respeito do modo e da maneira de recolher o povo de Deus. Em primeiro lugar, para vos mostrar que não há religião de que tenhamos conhecimento, exceto a dos Santos dos Últimos Dias, que possa, em seu exercício e em suas operações, levar a efeito o cumprimento das predições dos Profetas. Todos os tipos e figuras apresentados por nosso Senhor e Salvador para ilustrar verdades pesadas e importantes mostram que, nos últimos dias, há de haver um recolhimento do povo. Serão recolhidos pela peculiar atração que prevalecerá no tempo em que não estiverem oprimidos por tabernáculos mortais, mas libertos deste barro pesado, os seus espíritos imortais serão recolhidos ao redor do trono de Deus, ali para receber boas-vindas na glória eterna preparada para os justos; ou para ouvir a terrível sentença — Apartai-vos, malditos, para as trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes!

Mas, meus amigos, há de haver um recolhimento do povo aqui na terra. O lavrador, quando semeia a sua semente no solo, a observa, e a cultiva com cuidado; não espera colher a sua colheita em alguma outra região, mas a colhe na terra onde semeou a sua semente, e ali percebe os benefícios e os retornos de seu trabalho; não em algum outro país, mas aqui.

Diz o Salvador que o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda qualidade de peixes, tanto bons quanto ruins, e, por fim, puxam a rede para a praia, e assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora. Assim há de ser nos últimos dias, no fim, quando a dispensação do recolhimento for introduzida, e a rede do Evangelho for puxada para a praia; não em algum clima ou monte estrangeiro, além dos limites do tempo e do espaço; mas na praia que orla a margem das águas, como atesta esta figura; assim na terra será o recolhimento do povo.

Também nos é dito de que maneira hão de vir. Hão de vir sobre animais velozes — sobre dromedários e camelos; e os navios de Társis os trarão para casa, e uma estrada real será aplainada para os remidos do Senhor caminharem. Aquela estrada real não é uma imaterial, que conduz a mansões no céu, mas é uma estrada real que tem de ser aplainada na terra; e pode ser que as próprias ferrovias que estão sendo construídas sejam um dos meios pelos quais esta operação do recolhimento será grandemente facilitada. Este pode ser o assunto sobre o qual o Profeta tinha os olhos fixos quando disse: os filhotes do leão não a pisaram, nem o olho do abutre a viu. Naquele tempo, não havia sido aplainada; mas estava reservada para ser aplainada nos últimos dias. O filhote do leão nunca a havia pisado; mas, com o tempo, poderia, quando fosse aplainada.

O velho profeta tinha os olhos fixos na velocidade cada vez maior dos navios; mas os nossos tradutores o fizeram dizer que mensageiros velozes seriam enviados às nações distantes em navios de junco. Que entendemos por navios de junco? Já vimos alguma vez tais navios, ou ouvimos falar de tais, exceto o berço que foi feito para Moisés flutuar no Nilo? Já lemos alguma vez de homens, mensageiros velozes, indo em navios de junco?

É um absurdo; tal navio não poderia resistir aos golpes dos ventos e das ondas, nem navegar em segurança através dos elementos contendendo uns com os outros, por assim dizer, pelo domínio; ou como se os ventos e as ondas estivessem ambos armados de ávida vingança, para ver qual agarraria primeiro a pequena mancha que luta pela vida sobre a superfície do elemento fervente. Quem crê em algo assim? A ideia é inconsistente. Mas, quando passamos a olhar isso de outro ponto de vista, não é tão inconsistente e obscuro. O irmão Carn, que está presente, sabe como se lê na Bíblia alemã. Creio que os chama de navios-tubo. O junco é oco, semelhante a um tubo, e o velho profeta não tinha outra coisa com que representar a sua ideia, senão o junco; ainda que visse navios em que tubos e canos ocos corriam em todas as direções, e não sabia que nome dar-lhes senão "navio a vapor." Ora, diz ele, mensageiros velozes serão enviados em navios-tubo, olhando para o tempo em que o vapor havia de ser usado como força propulsora. Para que serve este poder do vapor? É meramente para a comodidade da humanidade? Ou fez Deus disto um agente importante para realizar a Sua obra — para facilitar os Seus propósitos nos últimos dias? O assunto é, inquestionavelmente, o desígnio do Grande Criador; não só isso, mas há outra coisa ligada a isto — o Salvador diz, ao falar de sua vinda, que será como a luz da manhã, ou como o relâmpago que brilha de uma extremidade do céu à outra, assim será também a vinda do Filho do Homem. Que vemos sendo construído na terra para realizar os desígnios do céu? Vemos o fio elétrico correndo de um país a outro, e já se contempla levá-lo através do Atlântico, para pôr todas as nações em comunicação imediata. Não parece isto com o relâmpago que se espalha de leste a oeste? Assim será também a vinda do Filho do Homem! O telégrafo elétrico o leva dos climas orientais aos ocidentais. É tão rápido que um discurso feito na cidade de Washington ao meio-dia é entregue em St. Louis às onze e meia do mesmo dia. A eletricidade voa com velocidade tão maior do que a terra, que fica meia hora à frente entre Washington e St. Louis; assim será também a vinda do Filho do Homem; ou, em outras palavras, nos últimos dias, a informação voará com tal rapidez, tão rápida será no dia de sua vinda. Concluímos que estamos nos aproximando muito daquele tempo. Estamos chegando, por assim dizer, à sua vizinhança. Ora, diz ele, vigiai! Quando virdes a figueira e todas as árvores começarem a brotar, e a lançar as suas folhas, sabei que o verão está próximo: e, quando começardes a ver estas coisas acontecerem, levantai as vossas cabeças e regozijai-vos, pois a vossa redenção se aproxima.

Posso ter começado pela ponta errada do meu discurso, mas, se assim for, chegarei à outra ponta antes de terminar; de modo que tereis todas as suas partes, se o Senhor me der força por meio de vossas orações; tereis a soma e a substância do que me foi requerido dar-vos a conhecer, mas devo ter o meu próprio modo de o contar.

O recolhimento dos santos há de acontecer. "Mas," diz um, "não cremos que o recolhimento do povo haja de acontecer literalmente nos últimos dias; não cremos que os anjos ainda hão de nos ministrar." A religião à moda antiga é: "Temos tudo o que o céu se agradou de dar, e isso pode ser provado pela boa e velha Bíblia. Que os anjos fiquem na glória, e nós ficaremos em nossas fazendas, e iremos à igreja de um ano a outro, e seguiremos a mesma rotina vez após vez até descermos às nossas sepulturas, e esse é o fim do nosso serviço na carne." Não vedes que todo o mundo cristão rejeita o ministério dos anjos, exceto os Santos dos Últimos Dias, e alguns poucos outros que creem nestas coisas?

Há muitos, nos últimos dias, que creem no espiritismo das batidas, e em tal espécie de anjos que não têm boca para falar. Os anjos que visitaram os servos de Deus tinham boca, e falavam! Suponde que me fizésseis uma pergunta, e eu tivesse inteligência e boca para comunicar, mas, em vez de vos falar, fizesse a mesa saltar, ou derrubasse as cadeiras e as cômodas, etc. Que saberíeis a respeito disso? Saberíeis que o diabo estava por trás; saberíeis que havia uma total ausência de bom sentimento e inteligência. O homem foi criado à imagem de Deus, e os santos anjos que rodeiam o Seu trono, os mensageiros flamejantes que levam a Sua vontade ao homem, estão em Sua imagem e semelhança. Até mesmo os servos de Deus nos dias antigos, quando viram um daqueles espíritos celestiais, começaram a se curvar e o adorar, como se ele fosse o Deus que criou os céus e a terra; mas foram ordenados a adorar a Deus. Ali estava ele, na imagem de seu Criador, e o Profeta o tomou por engano pelo Senhor. Estes anjos estão na semelhança e imagem de Deus, e os homens estão também em Sua imagem. Creio que, se Deus me desse uma mensagem para entregar ao povo, e eu não a entregasse do modo legítimo, Ele me fecharia a boca, porque não a dei do modo como Ele ma deu. Os das batidas espirituais, abaixo do padrão!

"Que se passa?" "Aconteceu algo terrível." "O que é?" "Não vos podemos dizer nada a respeito, apenas há uma agitação maravilhosa — aconteceu algo maravilhoso na terra de Cam." Digo-vos, aqueles que rejeitam a verdade que lhes é levada pelos servos de Deus, que lhes falam claramente, hão de se familiarizar com espíritos murmurantes que nada sabem para o seu bem: pois, "por esta causa Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira; para que sejam condenados todos os que não creram na verdade, antes, tiveram prazer na iniquidade." Quando o povo rejeita a verdade, torna-se brinquedo de espíritos selvagens e enganadores, e é jogado de um lado para outro por eles, como uma bolha na onda. Os verdadeiros mensageiros de Deus não vêm deste modo; mas diz o mundo — "Os anjos vieram em tempos antigos, mas já não vêm mais à terra agora; foram para o céu, e não há mais nada para fazerem aqui." Posso falar ao servo de um rei quando não posso falar ao próprio rei. Poderia me aproximar das ordens mais baixas de seus súditos quando não pudesse me aproximar do círculo mais alto. Se os homens rejeitam o ministério dos anjos, e não hão de crer em sua existência, nem dar atenção às suas palavras, não sei como jamais obterão acesso ao rei. Se não hão de reconhecer os seus ministros, não sei como vão falar ao próprio rei.

Têm os anjos algo a ver com o que há de acontecer nos últimos dias? Ele faz de Seus anjos espíritos ministradores, e são enviados a ministrar por aqueles que hão de ser herdeiros da salvação. O Senhor está presente em toda parte por Seus anjos ministradores, tal como qualquer outro governante, monarca ou rei, que tem ministros por todos os seus domínios; e os ministros de Deus estão em toda parte; Ele tem servos tabernaculados em carne sobre a terra, e eles percorrem a terra em todas as direções, e Deus está presente com eles em toda parte; e Ele sabe tudo. Como? Quando os Seus anjos e ministros Lhe contam, tal como qualquer outro governante. Já estive em alguns dos círculos de oração e reuniões do mundo sectário, e ouvi o seu piedoso ministro dizer: "Vem, pecador, curva-te ao jugo de Cristo; eis o anjo guardião de pé, esperando para ser o honrado agente que levará ao céu a notícia de que mais uma alma se converteu." Se Deus já o sabe, para que servem os anjos para levar a informação? Deus sabe tudo por meio de Seus agentes, ou servos, e é assim que Ele está presente em toda parte. Mas, se O vísseis in propria persona, veríeis uma pessoa como vós mesmos. Como foi com Estêvão? Estava Deus espalhado aos quatro ventos por toda parte? Se Ele estivesse em partículas menores do que qualquer cálculo matemático pudesse definir, não O poderíeis ver. Mas Estêvão, "estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus." Se Deus fosse sem corpo, partes e paixões, como poderia Estêvão saber se Ele estava à direita, ou à esquerda, ou se estava de algum dos dois lados?

Contudo, deixemos isto de lado por ora. Os anjos hão de ter parte na obra dos últimos dias. Que hão de fazer? Diz o Salvador — "O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se." Ele os deixou crescer juntos até o tempo da ceifa; então "direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo ajuntai-o no meu celeiro." O campo é o mundo. Quem são os ceifeiros? Os anjos são os ceifeiros; e ainda assim, dizeis vós, os anjos não vêm mais à terra. Isso não serve, pois os ceifeiros são os anjos, a boa semente são os filhos do reino, e o joio são os filhos do maligno, e o inimigo que os semeou é o diabo. Em outro lugar se diz: "E enviará os seus anjos com grande clamor de trombeta, e ajuntarão os seus eleitos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus." E, no entanto, o mundo cristão atual diz que os anjos não têm mais nada a fazer; naturalmente, então, não esperam nada deste tipo; a sua fé não abrange os ditos do Salvador e Seus apóstolos, a respeito da cena final: e, sem fé, é impossível agradar a Deus; por conseguinte, não podem partilhar das bênçãos da dispensação do recolhimento dos últimos dias; a sua incredulidade os exclui.

Diz-se que Deus ajuda aos que se ajudam a si mesmos. Tenho vos mostrado o que será feito por Seus eleitos nos últimos dias; mas fará Ele isso por aqueles que nada farão por si mesmos? Digo que não; Deus ajuda aos que se ajudam a si mesmos. Lembro-me de que, quando estava em Pottawatomie, estava determinado a produzir uma colheita, se pudesse. Comecei e arei a terra, e fui aos bosques quando fazia calor suficiente no verão para quase desmanchar uma frigideira, e trouxe os meus paus para as cercas, e cerquei e semeei a terra. Quando veio a neve, havia um velo de trigo sobre a terra, como a lã nas costas de uma ovelha. O Presidente Young o viu, e disse que lhe agradou; e disse: "Sei que Deus ajuda aos que se ajudam a si mesmos." Podemos sentar-nos e nos persuadir de que é a vontade de Deus que nada façamos por nós mesmos, e podemos ir para a mendicância; mas, se nos ajudarmos a nós mesmos, e concedermos o trabalho para a natureza produzir, teremos abundância, e Deus será fiel em abençoar os nossos trabalhos.

Esperamos que estas coisas se realizem nos últimos dias, para realizar o recolhimento dos santos, em preparação para a vinda do Filho do Homem. Podemos ver os fios elétricos se estendendo pela terra; e navios são construídos para levar velozmente os mensageiros da salvação, para trazer para casa os santos sob a mão indulgente do nosso Pai Celestial. Que exige Ele de nós? Diz Ele: "Confio a vós, meus servos, as chaves do reino dos céus, a autoridade do Sacerdócio, luz e inteligência, e conhecimento para vos familiarizar com todas estas coisas; agora quero ver se estendereis uma mão auxiliadora, conhecendo, como conheceis, a vontade do vosso Mestre, e compreendendo todo o Seu plano de operação, e trabalhareis conforme a capacidade que vos dei; hei de vos pôr à prova." Que se há de fazer? "Ide e pregai o Evangelho entre as nações, e batizai-os em meu nome para a remissão dos pecados, e confirmai-os pela imposição das mãos para o dom do Espírito Santo, e ensinai-os a se recolherem; pois é a dispensação do recolhimento, e, se não têm meios para se recolher, cabe a vós adiantar os meios para os trazer." "Ora," diz o Todo-Poderoso, "quero vos experimentar e vos provar, e ver se agireis nas pequenas coisas, para que vos torneis dignos de serem abençoados com os meios que preparei, e que ordenei. Quero ver se sois dignos." Que temos feito aqui com o propósito de levar a efeito este desejável objetivo? Começamos a recolher o povo, e também começamos a levantar um Fundo pelo qual os santos pobres hão de ser recolhidos; e isto está baseado em princípios que se aplicam a nós nos dias de nossa infância; mas supomos que, quando o Todo-Poderoso começar a estender a Sua própria mão para realizar a Sua própria obra, e sustentar as operações de Seus servos nesta pequena escala, saberemos que é pequena quando virmos a poderosa máquina de Deus em funcionamento, pois, quando éramos crianças, falávamos como crianças, sentíamos como crianças, raciocinávamos como crianças; mas, quando nos tornamos homens, deixamos as coisas de criança. Agora temos a ver com pequenas coisas, para que possamos avançar de um ponto a outro. Quais são as pequenas coisas? Aqui está um Fundo Perpétuo de Emigração, por exemplo, com o propósito de recolher os santos de Deus. Como se levanta este Fundo? Levanta-se por contribuições voluntárias de todo aquele que é capaz de ajudar, e que tem coração e espírito para se engajar na obra de Deus nos últimos dias. Levanta-se pelos ganhos árduos dos irmãos e irmãs. São as pequenas moedas, e as grandes moedas, pequenas somas e grandes somas, tudo lançado junto numa só bolsa.

Ora, ide e tomai isto, ó mensageiros velozes, ó agentes fiéis, em navios de junco, navios-tubo, ou, em outras palavras, navios a vapor, e sede mensageiros de boas novas aos pobres, e miseráveis, e oprimidos, e mansos da terra. É uma honra ser mensageiro, levando-lhes os meios de os tirar de sua pobreza, miséria e opressão. Ele lhes diz: "Vim para vos trazer à família de Deus; para vos resgatar da terra de vossa opressão e pobreza, e vos colocar numa posição onde possais ser abençoados temporal e espiritualmente." Não é abençoado aquele que ouve estas novas? "Quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!" Este mensageiro vai e os traz ao seu lugar pelos meios que lhe são postos nas mãos.

Ora, sei que alguns, quando são trazidos aqui por esta agência, pensam que chegaram ao seu porto desejado. Dizem: "Agora estou seguro num porto de paz, estou entre o povo de Deus, e é só isso que me importa. Agora hei de me fazer tão feliz quanto possa, e esquecerei os meus companheiros que deixei em cativeiro; não me lembrarei daqueles que estão oprimidos sob o jugo penoso, sou livre, que cuidem de si mesmos." Esse é o sentimento que domina o peito de muitos, depois de serem trazidos para cá por meios produzidos por outras mãos que não as suas próprias; e dizem eles — "Se pudermos, de algum modo, adiar o pagamento desta dívida que devemos à instituição que nos trouxe para cá, até que possamos reunir ao nosso redor os confortos da vida, então talvez paguemos a nossa obrigação." Mas permiti-me observar aqui que, quando está em nosso poder pagar uma dívida, ou fazer uma boa obra, quanto mais adiarmos, maior será a diminuição do mérito desse ato; agora é o tempo aceitável, agora é o dia da salvação, quando os famintos, os pobres, os miseráveis e os oprimidos clamam por redenção. Enquanto o poder de os redimir está em nossas mãos, e não o estendermos a eles, como podemos esperar que Deus ouça as nossas orações para fazer avançar a Sua grande obra para a redenção final dos remanescentes espalhados de Seu povo. E permiti-me dizer aqui, duvido muito que Deus ouça as orações de qualquer homem que deve uma dívida justa, e tem meios de a pagar, mas se recusa a fazê-lo: ou retém uma bênção de seu semelhante quando está em seu poder estendê-la. Qual é a sua oração? "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores," ou, em outras palavras — "Faze para conosco, como fazemos para com os outros;" se retivermos benefícios devidos a outros, como pode Deus conceder-nos bênçãos que não nos são devidas, mas são atos de Sua misericórdia e bondade? Quando já partilhamos do benefício de algum legado caridoso, mais especialmente quando temos em nossas próprias mãos uma parte dele que deveria estar beneficiando outros, como podemos esperar que Deus, ou qualquer outro filantropo, nos estenda bênçãos?

Qual é o dever dos santos que vieram para cá pela ajuda e pelo benefício do Fundo Perpétuo de Emigração? É seu dever pagar de volta a dívida que devem, imediatamente. "Mas," diz um, "não podemos pagar, não temos meios." Muito bem, não vos oprimiremos; mas podeis dar a vossa nota promissória, e podeis registrar a vossa obrigação junto ao agente, ou às autoridades do Fundo a que isso diz respeito, para que tenham algum comprovante sobre o qual agir, ou que possam ao menos dizer onde estão os fundos — em mãos de quem estão depositados; mas não vades para o leste e para o oeste, para o norte e para o sul, saindo da cidade, sem fazer disso um registro de alguma forma; e, quando Deus puser os meios em vossas mãos, pela vossa própria perseverança e economia, pagai e liquidai a dívida, e estes meios são enviados novamente para socorrer outra pessoa; e os mesmos meios que vos trouxeram poderão talvez trazer mil pessoas, se forem fiéis e ativos em restituí-los ao canal de sua utilidade. Por exemplo, tomo meio dólar, e é uma dívida que devo; pago-a, e aquele homem a deve a outro; e, pelo tempo em que já passou de mão em mão, já pagou cem dívidas, e socorreu cem necessidades; ao passo que, se o mantenho no meu bolso, impeço que seja posto em circulação, e faça tanto bem. Recebo algum crédito por isso? Tenho a satisfação de dizer que não fiquei sem dinheiro; ao mesmo tempo, tenho a desonra, diante de Deus e de todo ser inteligente, que me é devida.

Pois bem, então, que este dinheiro que foi destinado a trazer os santos para cá seja reembolsado com toda a rapidez, que seja uma questão de consciência. Se vísseis o vosso vizinho suspenso de uma torre, e pendurado por uma corda quebradiça, e, por qualquer pequeno esforço, pudesse quebrar a corda e ser despedaçado, seja qual for a ocupação em que estivésseis, a deixaríeis e correríeis em seu socorro, e faríeis o máximo para salvar o homem prestes a mergulhar neste turbilhão, um abismo sob os seus pés. Olhai, então, para os vossos irmãos numa posição semelhante; e talvez, se estivessem lutando para ganhar a vida, fossem mergulhados na miséria para sempre. Isto é uma dívida, uma obrigação sagrada que deveis, não só às autoridades desta Igreja e reino, mas a deveis aos vossos irmãos cujos clamores e orações estão ascendendo a Deus; e, se retiverdes o que lhes pertence — o que deveriam desfrutar, as suas orações recairão sobre as vossas cabeças, não em bênçãos, mas em maldições.

Todos dizemos aqui que somos abençoados; dizemos que o nosso trabalho e labuta têm sido abençoados; tenho certeza disso. Podemos realizar a nossa salvação? Podemos testemunhar a Deus e aos anjos e aos nossos irmãos que estamos dispostos a estender as nossas mãos e contribuir para aumentar a soma total deste Fundo Perpétuo de Emigração, conforme a capacidade que Deus nos deu? Estamos dispostos a estender a mão e ajudar a fazer avançar esta obra, recolhendo o povo da miséria e da necessidade? Que ganharemos ao fazer isto? Ganharemos números de pessoas que olharão para nós como seus amigos e benfeitores, e nos saudarão como seus salvadores. Diz-se que "levantar-se-ão salvadores no monte Sião, para julgarem a montanha de Esaú; e o reino será do Senhor." Alguns homens pensam que o modo de se tornarem salvadores é conseguir tantas esposas quanto puderem, e salvá-las; ora, podem falhar nisso, se essa é a sua visão, e os seus sentimentos não vão além disso. Dir-vos-ei o que é um salvador; se vejo uma família que está morrendo de fome por falta de pão, e está com sede e desfalecendo por falta de água, e um indivíduo lhes dá pão e água, ele os salvou; esse é o tipo de salvador pelo qual eu mais daria, em algumas circunstâncias em que já estive, e prezaria esse salvador mais precioso do que ouro. Se estivesse em perigo de cair de um precipício, ou de um edifício, como já disse antes, e não tivesse meios de me salvar, se algum amigo bondoso viesse e estendesse a mão e ajudasse a me salvar, ele é meu salvador; assim também, se um homem me resgata de um jugo penoso de opressão, sob o qual devo desfalecer e morrer, ele é meu salvador. Levantar-se-ão salvadores sobre o Monte Sião, e julgarão a Montanha de Esaú. Este é o tipo de salvador que julgará os ímpios, e lhes dará o que merecem. "O quê! Vós ides julgar os ímpios?" Sim, julgar a Montanha de Esaú. Sabeis que o Senhor disse: "Amei Jacó, e odiei Esaú." Onde está a Montanha de Esaú? É o mundo em geral, cuja perversidade Deus odeia. Então levantar-se-ão salvadores sobre o Monte Sião e julgarão a Montanha de Esaú. E diz Paulo: não sabeis, irmãos, que os santos hão de julgar o mundo?

Havemos de entregar o nosso dinheiro, pois isso é todo-poderoso aos olhos deste mundo. Deus pôs este meio em nossas mãos, e cabe a nós adiantá-lo a este bom propósito, conforme a nossa capacidade, e assim nos tornaremos salvadores para resgatar os oprimidos de toda terra; e, quando tivermos ido até o limite do nosso poder, e feito tudo o que podemos, haverá operações ainda mais eficientes empreendidas para efetuar os propósitos de Deus? Haverá; Ele dirá — "Agora, meus servos, fizestes tudo o que podíeis, eu estenderei o meu próprio braço!" Diz um: "Eu realmente gostaria de saber quão breve será quando os anjos forem enviados do céu para ajuntar os eleitos na cena final." Posso dizer-vos quão breve será.

"Tendes a palavra do Senhor a este respeito?" Não afirmo que tenho, mas, quando vos disser, direis que é verdade; e, se é verdade, é tão boa quanto a palavra do Senhor, e quanto qualquer outra revelação já dada. Quando será que os anjos são enviados para ajuntar o remanescente? Será exatamente no tempo em que os santos tiverem feito tudo o que estiver ao seu alcance fazer, e não puderem fazer mais, e estiverem exaustos no serviço de seu Deus: então o Senhor enviará os exércitos do céu para os ajudar. Ele tem tido um exército sob Seu treinamento desde o princípio, e, quando Ele der a palavra de comando, eles recolherão o restante dos santos dos quatro ventos; e não só isso, mas abrirão as sepulturas, e ressuscitarão os santos dos mortos. Um anjo mostrou um pequeno exemplo disso na ocasião em que o Salvador ascendeu do túmulo. Ele rolou a pedra da porta do sepulcro, e os guardas caíram como homens mortos, e o Filho de Deus ressuscitou. Ali está a obra de um anjo, de alguém que foi reservado para este propósito, e há comboios de anjos treinados e ensinados para esta obra, e eles podem abrir uma sepultura muito mais depressa do que um irlandês com uma pá. Na presença de um destes anjos, a terra treme, e lança fora os seus mortos. Os anjos hão de fazer isto, mas não até que tenhamos feito o nosso melhor. Frequentemente já disse ao meu filho: "Toma este saco e leva-o a certo lugar." "Não consigo, pai." "Bem, agarra-o e tenta." Ele o agarra, e é um bom peso para ele, e começa a se esforçar e a levantá-lo com todas as suas forças; no momento em que começa a tentar, a mão do pai o ajuda a equilibrar a carga. É exatamente assim nesta obra. "Agora," diz o Senhor, "eu vos provei, e fizestes como vos disse, e a minha mão está sempre pronta para vos ajudar. Se eu tivesse fome, não vos pediria comida; se estivesse nu, não vos pediria roupas." Não sei quantos espíritos dos condenados estão trabalhando fazendo vestes brancas para os justos e puros; não sei quanto estão fiando, nem quantas vestes brancas estão fazendo, para os santos e os redimidos; mas têm de saldar toda a sua dívida na prisão; e, se Deus tem fome ou está nu, Ele não vos chamará; pois tem milhões de recursos em outro lugar. Ele pode se arranjar sem nós fazermos o trabalho, mas nos dá o privilégio de o fazer, se quisermos; e, se quisermos, Ele nos abençoará; e, se não quisermos, Ele não se importa.

Há alguns homens neste reino que têm a ideia de que ele não pode avançar sem eles — "Tenho de estar ali, sou de tal importância e consequência, que, se por acaso eu impuser a minha vontade contra alguma medida, as rodas se atrasariam em seu curso." "Mas," diz o Senhor, "se não desejas me servir, segue o teu próprio caminho; tenho muitos à minha disposição, e, quando estiveres fora do caminho, hei de te deixar ver que o meu reino avançará mais depressa sem ti do que contigo; ainda assim, se desejares tomar parte entre a multidão dos meus servos, fazendo-o avançar, farei de ti um instrumento honrado nisso."

Creio que já falei tanto quanto necessário. O irmão Kimball desejou que eu falasse sobre este assunto. O irmão Young estará presente em breve, e provavelmente há outros assuntos a tratar. Poderia continuar a vos dirigir a palavra, mas considero desnecessário. Creio ter cumprido o encargo que me foi confiado — mostrar a necessidade de estendermos as nossas próprias mãos para preparar o caminho para a manifestação do grande poder do Todo-Poderoso em realizar os Seus propósitos sobre a terra. Desejo dizer mais uma palavra ou duas, e então terminarei. É o desejo do meu coração que todos vivamos, diante de Deus, e uns diante dos outros, do modo e maneira que reflita honra sobre a causa dos Santos dos Últimos Dias — sobre o "mormonismo," como se lhe chama. Podem publicar as suas farpas nos jornais, e contar tudo a respeito de nossas perversidades e corrupções, mas, se apenas vivermos de modo a refletir honra sobre a causa de Deus, pouco importa o que digam os nossos inimigos.

Numa comunicação de um editor a mim, ele cita do capítulo 17 de Jeremias, onde diz: "Maldito o homem que confia no homem, e põe a carne por seu braço, e cujo coração se aparta do Senhor! Porque será como o arbusto no deserto, que não sente quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável." "Ora," diz ele, "quão exatamente isto se cumpre nos seguidores de Joe Smith, que foram para o Território de Utah; ali estão eles numa terra salgada e árida, e não sabem quando vem o bem." Em minha comunicação, disse-lhe que estava enganado: pois não temos aqui mais sal do que o necessário; mas a citação me fez pensar em Long Island, pois os primeiros colonos estavam rodeados de sal, e deve aludir a Long Island; e, se não coubesse ali, poderia aplicá-la aos primeiros colonos de Syracuse: é tudo naquele país.

Mas, para inverter a balança: onde há de estar a habitação dos justos? O velho profeta diz: "O que anda em justiça, e o que fala o que é reto; o que arremessa para longe de si o ganho de opressões; o que sacode das suas mãos todo presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir acerca de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal; este habitará nas alturas: as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio: o seu pão se lhe dá; as suas águas são certas." Onde está o povo que tem mais rochas do que nós? Temos pão, e em abundância? Sim! Temos tido belas colheitas de trigo desde que a guerra dos grilos e gafanhotos terminou, e as nossas águas são certas, pois aqui as temos correndo por toda rua, em pleno verão, e não são águas salgadas, mas frescas e boas. Quão aplicáveis são estes ditos do Profeta aos Santos dos Últimos Dias no Vale de Salt Lake. A sua habitação é "as fortalezas das rochas," e não pedem nada ao mundo, mas estão sujeitos a Deus, que redimiu esta Bacia, e nela pôs sal suficiente para nos salvar. Não é um terreno seco e árido, pois podemos fazê-lo chover quando quisermos, e não podem em Long Island. A Bíblia diz: "Tende sal em vós mesmos;" temo-lo aqui, e, se aparecer algum vilão que o mereça, podemos salgá-lo em Salt Lake também. [Risos.]

Há outra coisa que quero dizer. Devemos viver diante de Deus e uns diante dos outros de modo a refletir honra sobre a causa que abraçamos, e nunca deixar que Satanás obtenha vantagem sobre ela, mas, como o verdadeiro soldado americano, mantenhamos as nossas cores desfraldadas, e tremulando livres, na hora da batalha; e estejamos sempre bem colocados aos olhos de todos. Se acendeis uma vela e a pondes sobre uma mesa, todos na casa podem ver; assim que as vossas boas obras brilhem diante dos homens na terra e dos anjos no céu.

Falei a respeito de algumas coisas na sexta-feira à noite, sobre as quais desejo apenas dizer que os sentimentos que expressei, a respeito de certos atos aqui, são inalteráveis em meu coração; não me importa se é gentio ou "mórmon" quem contamina a terra em que habitamos. O juízo começa pela Casa de Deus, e o "mórmon" será o primeiro a sentir a repreensão do Todo-Poderoso, porque esperávamos coisas melhores dele: ele tem luz e conhecimento, e sabe mais do que se tornar culpado de tais atos. Se sempre pensarmos em Deus, e mantivermos a nossa integridade para com Ele, para conosco mesmos, e para com os nossos vizinhos, os sem virtude e os perversos não poderão encontrar acesso em nossa sociedade. Se o portão da cidadela da virtude nunca se abrir ao nosso inimigo, ele poderá se esforçar em vão. Não pode encontrar acesso a menos que o caminho seja voluntariamente aberto, e ele convidado e encorajado. Que cada homem e mulher esteja em guarda, e se coloque de modo que estranhos e falsos "mórmons" não possam roubar-vos nem a vossa virtude, nem o vosso dinheiro ou bens, que não possam cometer um mal que traga uma mancha sobre o bom nome dos santos, ou se condenem para sempre. Digo, então, que o padrão de nossa integridade e virtude fique erguido, e nunca se incline para a direita nem para a esquerda.

Não tenho bênção alguma para aqueles que fizerem estas coisas, como já disse, sejam eles judeus ou gentios, escravos ou livres; mas os homens ou mulheres que observam as leis comuns da propriedade, e andam retamente, não me importa se são negros ou brancos, se cuidam de sua própria vida, digo, Deus os abençoe, e os guie no caminho da vida eterna. Mas o vilão que procura lançar o machado à raiz da verdade, e trazer desonra sobre o santo, digo, maldições sejam sobre esse indivíduo, que morra a morte dos ímpios. Não desejo que ninguém aplique isto a si mesmo, a menos que seja digno disso; e, se sou encontrado nas ruas e acusado de ter falado precipitadamente, digo, sois vós o homem, a sela vos serve; mas àqueles que não são culpados, mas estão seguros na posse de sua virtude e boas intenções, que as bênçãos do Senhor estejam sobre vós para sempre. Amém.

Como citar este discursoOrson Hyde, “O Recolhimento dos Santos — O Fundo Perpétuo de Emigração”, 1854 October General Conference, Sunday Session (1854-10-08). Pulpit Vault, 1854-10-hyde-gathering-the-saints. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).