A Linguagem, ou o Meio de Comunicação no Estado Futuro, e o Aumento dos Poderes de Locomoção
Orson Pratt
A pedido do Presidente Kimball, levanto-me esta tarde com o propósito de falar aos santos sobre qualquer assunto que se apresente à minha mente; ao mesmo tempo, desejando ardentemente que as orações dos santos, que se assentam diante de mim, ascendam diante do Senhor em meu favor, para que eu possa dizer as coisas que sejam capazes de vos edificar, e vos fazer bem. ¶
É deleitoso para mim falar das coisas que pertencem à salvação da família humana — falar de Deus, e de Suas obras, planos e propósitos, tanto quanto são revelados para a salvação e o benefício do homem. ¶
Mas, ao mesmo tempo, reconheço que apenas um pequeno grau — um grau bem pequeno, na verdade — dos propósitos de Deus é desvendado à mente do homem. A quantidade de conhecimento que possuímos, em nosso estado presente, é extremamente limitada, de modo que, quando comparada com aquela vasta quantidade de conhecimento que enche a eternidade, poderíamos dizer que o homem, em suas mais altas realizações aqui nesta vida, é, por assim dizer, nada. Por mais que expanda as suas faculdades e poderes intelectuais pelo estudo, pela meditação, por buscar diligentemente ao Senhor a inspiração do Espírito, tudo o que ele pode possivelmente receber e alcançar aqui é, comparativamente falando, nada. Moisés era um homem sujeito a paixões semelhantes às dos outros homens; era um homem semelhante a nós, mas obtivera, por sua perseverança, diligência e fidelidade, grande favor e poder junto a Deus; de modo que, por este favor e por meio deste poder, foi capacitado a obter maior informação e conhecimento do que o restante da família humana que estava sobre a terra naquele período; e muito maior, em algumas coisas, do que temos alcançado nesta geração; ao mesmo tempo, quando a grandiosa e maravilhosa inteligência do céu foi retratada diante da mente de Moisés, e o conhecimento foi derramado dos céus sobre ele, ele exclamou diante do Senhor: "Ora, por esta razão sei que o homem nada é." ¶
Se havia então, sobre a face da terra, algum ser que tivesse razão para supor que o homem era algo, esse era Moisés; mas, ainda assim, em meio às visões do Todo-Poderoso, e ao vasto campo de conhecimento que se abriu à sua mente — enquanto ainda contemplava a obra das mãos de Deus, e observava as complexidades da construção deste mundo — em meio a tudo isso, ele se considerava nada. É exatamente assim que eu me sinto; e presumo que seja assim que quase todos se sentem ao contemplar a grandeza de Deus, e a imensidão de conhecimento que está muito além do nosso alcance neste estado presente de existência. Ao mesmo tempo, quando comparamos o nosso conhecimento e os nossos poderes intelectuais com os vislumbres de luz que vemos manifestados na criação bruta, podemos exclamar que o homem é algo — que está muito além das manifestações aparentes de conhecimento que existem entre as ordens inferiores de seres. Ele é, de fato, algo, comparado com os pequenos vislumbres de luz que existem na criação bruta, nas feras do campo, nas aves do céu, e nos peixes do mar; todos estes têm algum grau de conhecimento e entendimento; e alguns deles têm algum grau de informação e conhecimento que o homem não possui. O homem designa tal inteligência pelo nome de instinto; parecem ser guiados por um princípio que o homem, naturalmente falando, não possui; mas, ainda assim, quando contemplamos os poderes e faculdades racionais do homem — a faculdade racional — as ideias abstratas capazes de habitar em sua mente, e depois olhamos para a criação bruta, vemos uma vasta diferença entre as duas. ¶
A humanidade, em certo sentido, está muito acima dos brutos, e não só isso, mas está acima até mesmo de alguns dos anjos; pois há certas ordens de anjos que estão bem abaixo do homem; não progrediram na grande escala do ser — na escala de sabedoria, conhecimento e inteligência — na mesma medida que nós; e, por conseguinte, estão abaixo de nós; são mais baixos do que nós; não alcançaram o mesmo grau de informação que possuímos; por isso lemos que o homem julgará os anjos; os santos hão de julgar, não apenas o mundo — o mundo ímpio, e também uns aos outros, mas hão de julgar os anjos. Por quê? Porque são superiores, ou o serão, no momento em que se assentarem em juízo e decidirem sobre os casos que lhes forem trazidos pelos anjos; governarão sobre os anjos, ou, em outras palavras, os anjos lhes estarão sujeitos. Isto lemos nas leis que Deus revelou a esta Igreja. Lemos que há uma certa classe de seres que, por não terem cumprido a lei de Deus, hão de desfrutar, no próximo estado, não mais privilégios do que os dos anjos; permanecerão anjos, ao passo que outros, que guardaram a lei celestial em todos os seus aspectos — em suas ordenanças e instituições, e reivindicaram os privilégios dos santos de Deus, serão exaltados a uma esfera mais elevada; terão maior conhecimento e informação, e aqueles anjos, sendo de uma ordem inferior de inteligência, lhes estarão sujeitos, e ministrarão para eles, na execução dos seus propósitos e desígnios no vasto campo de ação nos mundos eternos. ¶
Todos estes, então, em certo sentido, são algo, em vez de serem nada; pois todas as obras de Deus se destinam a manifestar a Sua sabedoria, poder e bondade, seja na formação do homem, na formação da criação bruta, ou na formação da mais alta ou mais baixa ordem de inteligência. Deus está ali; a Sua inteligência e poder estão ali; a Sua sabedoria e bondade estão ali; e todas as Suas obras são marcadas pelos Seus grandes e gloriosos atributos. ¶
Há algo capaz de dar grande alegria e felicidade à mente do homem na ideia do aperfeiçoamento, enquanto houver algo a aprender — na ideia de progredir e expandir aqueles princípios de luz e inteligência que já existem dentro destes tabernáculos. Há uma alegria — uma satisfação, existente na mente do homem justo, na descoberta de cada verdade adicional; não importa se ele mesmo alcança esta verdade pela experiência, pela razão, pela reflexão, por revelação imediata de poderes superiores, ou por uma revelação de seu semelhante. Não importa como, ou de que modo ou maneira, ele obtenha esta nova verdade, ela é capaz de inspirar o seu coração com alegria e felicidade. Vemos isso ilustrado em algum pequeno grau nas descobertas científicas das eras modernas, assim como nas dos tempos antigos. ¶
Se podemos confiar nas declarações dos descobridores, que, após longas e árduas pesquisas em busca de alguma verdade oculta, por fim obtêm a chave que conduz a essa verdade; eles a utilizam; a porta do conhecimento e da sabedoria se lhes abre, e descobrem e encontram algo novo; isso se demonstra às suas mentes, e eles sabem que é verdade. Há uma faculdade perceptiva, existente no íntimo do homem, capaz de perceber a luz e a verdade, quando claramente manifestada; tais verdades são tão certas e seguras para ele quanto quaisquer outras; quando ele obtém o conhecimento que há muito buscava, e ao qual dedicou, talvez, anos de estreita meditação, raciocínio e estudo para alcançar, isso lhe dá tal alegria, satisfação e êxtase, que ele mal consegue manter-se contido no corpo. A mente daquele grande homem, Sir Isaac Newton, um dos grandes descobridores dos tempos modernos, foi exercitada de maneira maravilhosa. Por volta da época em que desvendou a grande lei que governa os corpos no universo, a que chamou a lei da gravitação universal, a sua mente ficou tão afetada, tão cheia de alegria, e tão dominada, ao estar prestes a expor as grandes verdades que esta lei desvendava, que teve de obter a ajuda de alguém presente para realizar os cálculos. ¶
Se estas verdades científicas causam tal efeito na mente do homem, quanto maior deveria ser a alegria, no coração dos filhos dos homens, em relação àquelas verdades ainda maiores que pertencem à vida eterna e à exaltação do homem no mundo eterno! ¶
Se aquelas verdades que só têm relação com o estado presente de existência são capazes de conceder alegria e felicidade tão intensas, a ponto de quase dominar o tabernáculo mortal do homem, não seriam aquelas verdades ainda maiores, que procedem do céu pelo ministério dos anjos, pelo poder do Espírito Santo, e pelas visões do Todo-Poderoso, capazes de conceder alegria e felicidade ainda maiores à mente do homem? Certamente que são. ¶
Há algo glorioso em contemplar aquele período de tempo em que entraremos na posse de verdades maiores, mesmo antes de as obtermos; pois temos a promessa dada a nós pelo Todo-Poderoso de que mais verdades serão reveladas e desvendadas; e a mera antecipação destas verdades, antes de serem reveladas, já é capaz de dar grande alegria e felicidade à mente do homem. Ora, que antecipamos nós, irmãos e irmãs? Que buscamos? Disse-vos no último Sabá que buscávamos uma existência futura, depois que este corpo mortal se desfizer de volta aos seus elementos maternos. Também procurei, no último Sabá, inquirir em algum pequeno grau sobre a natureza deste estado futuro de existência; ao mesmo tempo, lembrando-vos de que, num só discurso breve, seria totalmente impossível apontar as diferenças aparentes, ou pelo menos as diferenças reais e supostas que existirão entre o homem em seu estado presente e em seu estado futuro. Haverá uma grande diferença em muitos aspectos, e, em outros, uma diferença muito pequena. ¶
Ora, toquemos, por alguns momentos, num princípio a respeito da comunicação do conhecimento entre homem e homem, em seu estado futuro. Sabemos como comunicamos o conhecimento uns aos outros aqui; é falando, escrevendo, por sons arbitrários que transmitimos as nossas ideias uns aos outros, e revelamos conhecimento, instrução e verdade uns aos outros. Este é um meio de comunicação muito imperfeito; por conseguinte, o homem progride lentamente, muito lentamente, de fato, na obtenção da verdade. Mas, supondo que nos pudesse ser revelada do alto uma linguagem mais pura e celestial, isto é, uma linguagem perfeita, tanto quanto se possa tornar perfeita, e adaptada ao nosso estado presente de existência; que tal linguagem nos seja revelada; que a aprendamos; que obtenhamos conhecimento de todos os seus vários símbolos, pelos quais pudéssemos comunicar as nossas ideias uns aos outros, perfeitamente, sem ambiguidade nem incerteza alguma nas ideias, não seria isto um meio pelo qual a humanidade poderia ampliar grandemente as suas ideias e o seu conhecimento das coisas? Não poderiam aqueles que progrediram nos princípios da verdade e da retidão transmitir as suas ideias mais prontamente a outros? Ora, verificamos, em consequência da imperfeição de nossa linguagem, que é muito difícil, de fato, comunicar prontamente as nossas ideias a outros, de modo que temos de gastar anos e anos para incutir na mente das crianças e da juventude alguns princípios de conhecimento muito fáceis e simples. É, num sentido, devido à fraqueza da capacidade e do intelecto em tenra idade, mas é ainda mais devido à imperfeição da linguagem pela qual estas ideias são comunicadas. [O orador pediu aqui uma bênção sobre o pão.] ¶
Estávamos falando do meio imperfeito, aqui nesta vida, pelo qual transmitimos as nossas ideias uns aos outros. Comparemos agora os nossos meios presentes de obter conhecimento com as facilidades que, sem dúvida, estão reservadas para o povo de Deus. Haverá uma linguagem pura restaurada? Haverá; pelo testemunho dos profetas. Também nos é dito que as línguas hão de cessar. Devemos entender por isto que as grandes variedades de idiomas e línguas que existiram sobre a terra por muitas eras hão de ser abolidas; hão de cessar; ora, algo tem de tomar o lugar destes idiomas e línguas imperfeitos e confusos. Que é esse algo? É uma linguagem falada por ordens de seres superiores a nós mesmos; isto é, seres que progrediram mais do que nós; é aquela mesma linguagem que foi falada por quase dois mil anos depois da criação; que foi falada por Adão e por seus filhos, de geração em geração, até o dilúvio, e foi extensamente ensinada entre os filhos de Noé, até que o Senhor, por um milagre direto, fez com que o povo esquecesse a sua própria língua materna, e lhes deu uma variedade de novas línguas que não conheciam, e, por este meio, os espalhou pela face de toda a terra; e agora aquele mesmo Ser que destruiu a memória do povo na construção da torre, de modo que não pudessem se lembrar de sua própria língua materna, e o mesmo Ser que lhes deu novas línguas e idiomas, há de operar novamente, por Seu poder, para abolir esta maldição, pois a considero uma maldição, e a bênção será tão grande e tão extensa quanto a maldição, ao destruí-la da face da terra. Este é um meio pobre de comunicação entre homem e homem. Se esta linguagem pura de que aqui se fala, que há de ser falada aqui na terra entre a humanidade em seu estado mortal, há de ser tão perfeita quanto a linguagem que se há de falar em nosso estado imortal, não cabe a nós dizer; mas ainda assim podemos tirar algumas conclusões a este respeito, do fato de que as coisas no mundo eterno serão, em certa medida, diferentes do que são aqui. ¶
Por exemplo; como supondes que os espíritos, depois de deixarem estes corpos, se comunicam uns com os outros? Comunicam eles as suas ideias pelas vibrações reais da atmosfera, do mesmo modo que nós? Creio que não. Penso que, se pudéssemos ser familiarizados com o tipo de linguagem pela qual espírito conversa com espírito, descobriríamos que não comunicam as suas ideias deste modo; têm uma forma mais refinada; refiro-me àquela porção deles que está na escola do progresso; têm, sem dúvida, um sistema mais refinado entre si de comunicar as suas ideias. Este sistema será construído de tal forma que possam não apenas comunicar, ao mesmo tempo, sobre um só assunto, como temos de fazer emitindo sons na atmosfera, mas comunicar vastos números de ideias, todas ao mesmo tempo, sobre uma grande variedade de assuntos; e a mente será capaz de percebê-las. Talvez haja alguns que considerem isto completamente improvável. Podem considerar muito improvável que a mente seja capaz de absorver uma vasta coleção de ideias, sobre assuntos diferentes, tudo de uma vez, e ser capaz de digeri-las e compreendê-las; se a mente tem tal faculdade como esta, então há de haver, necessariamente, uma linguagem adaptada a tal capacidade da mente; não um meio imperfeito de comunicação, para transmitir algumas poucas ideias simples sobre um assunto de cada vez, como se faz aqui, mas uma linguagem exatamente adaptada à capacidade; se a capacidade é maior, então a linguagem tem de ser mais refinada do que é aqui, a fim de comunicar na mesma proporção em que a capacidade é capaz de receber e compreender. É impossível para o homem comunicar, com a nossa linguagem presente, mais do que uma só cadeia de ideias de cada vez. Podem ser sugeridas outras ideias ao indivíduo que ouve, mas as ideias do indivíduo que fala estão sempre numa só linha, dando uma ideia de cada vez; e a mente mal parece capaz, aqui no tabernáculo mortal, por alguma razão, de receber mais de uma ideia de cada vez, ou pelo menos muito poucas, e tais ideias se seguem umas às outras em rápida sucessão. No estado de espírito, temos razão para crer que, visto haver tal vasto campo de conhecimento a aprender, o seu meio de comunicação será adaptado à natureza e à capacidade da mente de apreender uma variedade de assuntos e digeri-los todos de uma vez. ¶
Bem pergunta alguém: "Podeis imaginar tal sistema, ou linguagem, neste mundo?" Posso imaginar um, mas não pode ser tornado prático aqui, pelo fato de a mente do homem ser incapaz de usá-lo. Por exemplo, o Livro de Mórmon nos diz que os anjos falam pelo poder do Espírito Santo, e o homem, quando sob a influência dele, fala a língua dos anjos. Por que fala nesta língua? Porque o Espírito Santo sugere as ideias que ele profere; e lhe dá voz para transmiti-las ao povo. Suponde que o Espírito Santo sugerisse à mente de um indivíduo uma vasta multidão de verdades, refiro-me a quando no estado espiritual, e ele desejasse transmitir aquela inteligência e conhecimento a um espírito seu companheiro; suponde que, em vez de ter sons arbitrários, como os que temos aqui, para comunicar estas ideias, o próprio Espírito Santo, por meio de um certo processo e poder, o habilitasse a desvendar aquele conhecimento a outro espírito, tudo num instante, sem este longo e tedioso processo de sons artificiais e arbitrários, e de palavras escritas. O fato é que, se os espíritos celestiais fossem tão organizados, e tão constituídos, a ponto de fechar as suas próprias ideias em seu próprio íntimo, daqueles em condição inferior, ou de as revelar ao seu próprio prazer, de acordo com a mente e a sabedoria do Espírito Santo, e outros fossem tão organizados e constituídos a ponto de receber estas ideias pelo poder do Espírito Santo, seria uma comunicação tão boa entre homem e homem — entre espírito e espírito, quanto qualquer outro meio, e talvez muito melhor. Ora, tenho bastante a ideia de que isto será uma das grandes ajudas no mundo eterno, pela qual o conhecimento será derramado mais abundantemente sobre a mente do homem; será por este auxílio; pelo poder do Espírito Santo, de modo que progredirão mais depressa do que aqui, aprenderão mais rapidamente; os poderes intelectuais estarão mais expandidos. ¶
Há algo desta natureza que Deus revelou. Podeis pensar que estou agora raciocinando inteiramente por conjectura, e que deve ser recebido apenas como tal; pois bem, deixemo-lo assim; mas ainda assim há alguns vislumbres de luz e inteligência, que Deus revelou a respeito destes seres superiores no mundo eterno, que nos mostram que alguma economia assim se realizará no mundo futuro. Por exemplo, como percebe Deus os pensamentos dos nossos corações? Não há aqui uma linguagem pela qual Ele possa descobrir e discernir os pensamentos e intenções do coração? Não nos é dito, em muitas revelações, como Deus pode perceber os pensamentos do homem, e que por todo pensamento ocioso seremos levados a juízo? Sim, Ele discerne os pensamentos, e as intenções dos corações dos filhos dos homens. Suponde que tivéssemos parte desse poder sobre nós, não seria isso um tipo diferente de linguagem, distinto do som, ou de uma linguagem escrita? Seria. Se os espíritos pudessem comungar com espíritos, e uma inteligência superior comungar com outra, pelo mesmo princípio pelo qual Deus vê os pensamentos e as intenções do coração, não seria mais do que aquilo que já existe aqui neste mundo, conforme o que foi revelado. ¶
Muito se poderia dizer sobre este assunto; é um assunto glorioso de se contemplar; e é aquilo que dá alegria à mente de todo homem justo que deseja a verdade; ele sabe quão feliz o princípio da verdade o faz aqui, quando o discerne, ou lhe é revelado; e, se pode fixar a sua mente numa economia mais gloriosa, na qual a verdade possa ser desvendada mais rapidamente, e de tal modo que não haja possibilidade alguma de confundi-la com o erro; a mera antecipação disso já é capaz de inspirar o coração de cada indivíduo a ser fiel em todas as coisas, para que possa entrar no gozo daquelas bênçãos que estão à frente. ¶
Há muitíssimas coisas a contemplar, em conexão com o homem em seu estado futuro, comparado com o presente. Um princípio que vos mencionei no último Sabá: que a humanidade seria capaz, pelo poder do Espírito Santo, de obter conhecimento de um vasto número de coisas de uma vez, e de uma vasta porção das obras de Deus, tudo de uma vez, o mesmo que fez Moisés, quando contemplou cada partícula desta terra e a discerniu pelo Espírito de Deus, não apenas todos os vários continentes e ilhas, mas cada partícula de seu interior; tudo lhe foi apresentado à mente de uma vez. Ele não teve de raciocinar para obter o conhecimento a respeito destas partículas; nem teve de olhar para uma partícula de cada vez, mas tinha a faculdade pela qual podia olhar para mais de uma coisa de uma vez; podia olhar para um número quase infinito ao mesmo tempo; pois há mais partículas num único grão de areia do que poderíamos contar em toda a nossa vida, ainda que vivêssemos mil anos; e se Moisés pôde contemplar cada partícula, e ver o todo de uma vez, deve ter tido a capacidade de olhar em todas as direções no mesmo momento, e de o contemplar pelo Espírito. Aqui havia uma linguagem pela qual ele conversava com a natureza; com as obras de Deus; e o Espírito que está em conexão com as obras de Deus — que está em toda a criação — conversava com Moisés, pois o Espírito de Deus está em todas as coisas, ao redor de todas as coisas, através de todas as coisas, e é a lei pela qual todas as coisas são governadas. Quando aquele Espírito, que assim está difundido por todos os materiais da natureza, se propõe a conversar com a mente dos homens, conversa numa linguagem diferente daquela que usamos em nosso estado imperfeito. Comunica as ideias mais rapidamente — mais plenamente, e desvenda um mundo de conhecimento num momento. Mas o Senhor disse a Moisés que um homem na carne não poderia ver toda a Sua glória, sem ver todas as Suas obras; e que nenhum homem poderia contemplar todas as Suas obras e depois permanecer na carne. Ainda que o Espírito tenha aberto a mente de Moisés, de modo que ele pudesse conversar, por assim dizer, com este único mundo, e discernir cada partícula dele, e compreender tudo a seu respeito; contudo houve um ponto de paragem; não lhe foi permitido contemplar as partículas da lua, do sol, dos planetas e das estrelas fixas, e dos outros mundos que Deus fizera, senão na medida em que Deus julgasse conveniente abrir a sua mente para contemplar as Suas obras; mas o mesmo Espírito está no sol, e é o poder pelo qual ele é governado; o mesmo Espírito está na lua, e é o poder pelo qual foi feita; o mesmo Espírito está também nos planetas e nas estrelas fixas, e é o poder pelo qual são governados. Digo que o mesmo Espírito, existindo em todos estes mundos, poderia conversar com a mente do homem, como conversou com Moisés, e desvendar as suas partículas, e todas as coisas ligadas a eles, com a mesma facilidade com que desvendou as partículas desta terra. ¶
Assim vedes que há uma linguagem no mundo espiritual que pode comunicar mais à mente num minuto do que se poderia aprender aqui em cem anos de intenso estudo e raciocínio. Há uma eternidade de conhecimento. Há mundos, por assim dizer, sem número; reinos sem número; personagens sem número; seres intelectuais de todos os graus e ordens, sem número; e todos estes têm as suas leis, os seus governos, os seus reinos, os seus tronos, os seus principados, os seus poderes, todos se movendo e agindo na esfera em que estão colocados; e todos têm o seu modo de comunicação uns com os outros; por isso, quando o Apóstolo diz que as línguas cessarão, ele se referia às línguas imperfeitas sobre a terra; o conhecimento não cessará, mas o conhecimento em parte será abolido, não o conhecimento em plenitude. Diz o Apóstolo Paulo: "Porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte desaparecerá." Estas coisas imperfeitas serão abolidas, e seremos capazes, pelo poder do Espírito Santo, de obter uma linguagem pela qual os anjos falam, e pela qual uma ordem superior de seres fala, e, por estes meios, alcançar um maior grau de conhecimento, que produzirá uma maior quantidade de felicidade. ¶
Que é o corpo, comparado com a mente? Absolutamente nada, comparativamente falando. Por isso diz o Salvador, numa das novas revelações: "Não vos preocupeis com o corpo nem com a vida do corpo; mas preocupai-vos com a alma e com a vida da alma." Diz ainda o Salvador a seus apóstolos: por que andais ansiosos quanto ao vestuário, o que comereis, o que bebereis, ou com que vos vestireis. "Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam: e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles." O corpo tem pouco valor, comparado com aquele ser que habita dentro do corpo; ele não é um ser perceptivo; se o é, ainda não o aprendemos; o corpo não é capaz de sentir dor; se o é, jamais o aprendemos; é o espírito, então, que recebe alegria, felicidade e prazer, que se alegra, teme e espera; é o espírito, então, que possui todos estes sentimentos e sensações de alegria, felicidade, dor ou desgraça. E, quando falamos da dissolução e da morte do corpo, é apenas o desfazer-se destes materiais mais grosseiros da terra, mas o ser intelectual vive, e desfrutará de felicidade em maior medida. É apenas o nosso estado de transição, por assim dizer, como alguns vermes que rastejam para fora de seus casulos na forma de borboleta; em vez de rastejar como um caracol, rompem os seus casulos, tomam as asas da manhã, e voam até as partes mais remotas da terra; não apenas a sua esfera de conhecimento se estende, mas o seu poder de locomoção; assim será quando rompermos estes invólucros mortais; não é morte, num sentido da palavra, mas é apenas sair da prisão que recebemos pela Queda. Se Adão não tivesse caído, não teríamos vindo para cá; mas, tendo vindo para cá, e tendo estes tabernáculos mortais produzido dor e angústia sobre o espírito, aguardamos com esperança o tempo alegre em que os romperemos, e a nossa esfera de ação se ampliará mais, e os nossos poderes de locomoção aumentarão grandemente. ¶
Basta olhar para a lentidão do homem no tabernáculo mortal, e depois compará-la com aqueles mensageiros velozes enviados dos mundos eternos para ministrar a todas as criações do Todo-Poderoso; são enviados de mundo em mundo; não têm de viajar como nós, levando três meses para percorrer mil milhas pelas planícies, mas sobem como com asas de águias, correm e não se cansam como nós, caminham e não desfalecem. Não sei se se fatigam ou não naquele mundo; mas parece que nós, que viemos a este mundo, estamos em condições e circunstâncias em que precisamos reabastecer o tabernáculo mortal; precisamos de refrigério, e temos de nos deitar e dormir para que o corpo seja refrescado. Dai-me aquele estado em que as faculdades ativas do homem — em que os poderes intelectuais jamais se cansarão, quando serão como Deus, que governa o universo, cujos olhos estão sempre sobre as obras de Suas mãos; discernindo, a cada momento, as intenções e pensamentos de nossos corações, e que governa a criação com Seu poder. Aguardemos com esperança aquele estado de felicidade mais avançada, quando este invólucro mortal for depositado; e quando nós, no estado espiritual, formos capacitados a desfrutar daqueles poderes ampliados de locomoção que temos razão para esperar. ¶
Quanto esperamos? Que possamos voar velozmente a outros mundos em missões. Não quereríamos ocupar três meses de tempo indo da terra à lua, ou da terra ao sol, como fazemos ao atravessar estas planícies com juntas de bois, mas desejamos ir com maior velocidade. Se formos com a velocidade da luz, viajaríamos à razão de cento e noventa e dois mil milhas por segundo. Há substâncias na natureza que se movem com esta velocidade. Que é que se move com esta velocidade? Será outra coisa senão espírito? A luz que vemos é espírito. Que diz o Senhor numa das novas revelações? "Vivereis de toda palavra que sai da boca de Deus; tudo que é verdade é luz, e tudo que é luz é Espírito," por conseguinte a luz que vem do sol é espírito. Com que rapidez viaja esse espírito? Pode-se demonstrar que pode viajar cento e noventa e dois mil milhas por segundo; se então uma porção de espírito pode viajar com essa velocidade, é natural supormos que quaisquer outras porções de espírito possam viajar com a mesma velocidade, e assim seremos capazes de realizar, e desempenhar uma maior quantidade de retidão entre outros mundos e seres, do que se fôssemos obrigados a perder três quartos, ou nove décimos, do nosso tempo na jornada. ¶
Aguardemos com esperança um estado de ser diferente daquele em que agora estamos; será diferente em alguns aspectos, e, em outros, será o mesmo. Estaremos ali, e plenamente conscientes de termos estado aqui, e nos lembraremos de todas as nossas ações; isto é claramente ensinado no Livro de Mórmon. Os ímpios se lembrarão de todas as suas ações más; a sua memória será perfeita ali, e cada ato de suas vidas aqui será impresso nas tábuas da memória. Aqui podemos lembrar apenas poucas coisas; quase todo o conhecimento que temos num momento, noutro se apaga da tábua de nossa memória; mas ainda assim está ali, e virá à tona, como a imagem do daguerreótipo; aquilo que parece apagado da mente se destacará em nítido relevo, e o leremos, e teremos consciência de que fomos os seres que fizeram tal e tal coisa nesta vida. Os justos se lembrarão de todos os seus atos, e isso produzirá uma sensação agradável em sua mente; tratamos deste assunto da memória no último Sabá. ¶
Que o Senhor nos abençoe, e que o Seu Espírito seja continuamente derramado sobre nós, e que nos inspire o coração com a verdade, e com o desejo de praticar a retidão o dia todo. E não vos esqueçais de aguardar com esperança aquelas alegrias que estão à frente; se o fizermos, tornar-nos-emos descuidados, adormecidos e indolentes, e pensaremos que não há muito à frente para antecipar, mas, se mantivermos a mente fixa no prêmio que está adiante — nos vastos campos de conhecimento que hão de ser derramados sobre os justos, e nas glórias que hão de ser reveladas, e nas coisas celestiais no estado futuro, estaremos continuamente alerta; somos seres que só estão para viver aqui por um momento, por assim dizer. Deixai que estas coisas se assentem continuamente em nossa mente, e elas nos farão alegres, e cuidadosos para fazer aos nossos vizinhos o que quereríamos que eles nos fizessem. Para que não fiquemos aquém em algumas destas coisas, é a razão pela qual toquei no estado futuro do homem nos dois últimos Sabás, para despertar as mentes puras dos santos, para que nos preparemos para as coisas que não estão distantes, e deixemos que todas as ações de nossas vidas tenham relação com o futuro. Que o Senhor nos abençoe por amor de Cristo. Amém. ¶