Pulpit

O Aumento dos Poderes e Faculdades da Mente num Estado Futuro

Orson Pratt

1854-10-15

Um Discurso do Élder Orson Pratt, Proferido no Tabernáculo, Great Salt Lake City, 15 de outubro de 1854. Relatado por G. D. Watt.

Sinto-me grato ao meu Pai Celestial esta tarde pelo privilégio de me reunir com os santos neste Tabernáculo; e sinto-me grato também pelo privilégio de me levantar nesta tribuna, com o propósito de vos falar sobre os assuntos que se apresentem à minha mente.

No entanto, percebo, algumas vezes mais do que outras, a necessidade de ter o dom do Espírito Santo repousando sobre mim, a fim de instruir e ensinar o povo; pois esse é o único objetivo de falar e ouvir num lugar como este. Falamos com o propósito de transmitir aos outros as ideias contidas em nossas próprias mentes; ou tais ideias que Deus condescenda em pôr em nosso coração; o povo ouve com o propósito de receber as ideias que possam ser apresentadas, na esperança de que a sua mente seja ampliada e instruída, por meio do orador. Se conheço o meu próprio coração, é meu desejo, quando me levanto diante de uma assembleia, comunicar algo que seja instrutivo para a mente do povo; e, para fazer isso, estou talvez tão ciente quanto qualquer outra pessoa viva, da necessidade de ter aquele Espírito que é capaz de dar verdade à mente — aquele Espírito que é capaz de inspirar o coração, no exato momento, com as palavras e ideias destinadas a beneficiar o povo. De fato, esta é a promessa do Senhor a Seus servos; não devem se preocupar de antemão a respeito das palavras e ideias que hão de proferir diante de uma congregação; é verdade que lhes é ordenado, nas revelações que Deus deu, guardar continuamente em sua mente as palavras de vida.

Por que se exige de nós, como servos de Deus, que guardemos em nossa mente as palavras de vida? É para que possamos ter uma reserva de conhecimento e informação — é para que possamos compreender os verdadeiros princípios — a verdadeira doutrina, sobre todos os assuntos que dizem respeito ao bem-estar do homem, para que a mente, estando cheia de entendimento, luz, conhecimento, verdade, teoria, e do conhecimento das coisas que Deus revelou, possa comunicar, no exato momento, aquela parte ou porção do mesmo que Deus se agrade de impartir à congregação, adequada à sua capacidade e circunstâncias; isso não é preocupar-se de antemão com o que diremos. Se guardássemos as palavras que Deus revelou — que estão escritas no Livro de Mórmon, em Doutrina e Convênios, e nas várias revelações que Deus deu em tempos recentes (refiro-me às impressas e escritas), juntamente com o que Ele revelou em tempos antigos; se as tivéssemos todas impressas na tábua de nossa mente, não seria preocupar-se de antemão com o que diríamos.

Quando nos levantamos para falar diante de uma congregação, se colocarmos a nossa dependência em Deus para nos inspirar com o Espírito Santo, para trazer à luz não apenas o conhecimento e a informação a respeito das coisas escritas, e das coisas que foram reveladas, mas para comunicar novas ideias, instruções e informações pelo poder do Espírito Santo, assim seremos capazes de edificar.

Às vezes, quando me levanto diante de uma congregação dos santos, aqui nos Vales das Montanhas, olho para mim mesmo naturalmente, e penso naturalmente em minha própria mente: Como posso edificar este povo? Que posso lhes dizer que já não tenha sido dito? Isto é uma fraqueza na natureza humana. Estas meditações e reflexões não deveriam ter influência alguma sobre a mente; Deus tem sabedoria suficiente; Ele tem conhecimento suficiente, e entendimento, e luz, e verdade para comunicar algo em benefício do povo, ainda que tenham sido instruídos por um longo período, e bem informados em doutrina e princípios. Às vezes o Senhor não julga apropriado impartir novas ideias ao orador, mas antes influenciar a sua mente a permanecer nas coisas antigas, ou, em outras palavras, naquilo que já foi manifestado, com o propósito de comunicar mais claramente, ou de impressionar mais fortemente na mente, a importância de atender ao que já foi falado e revelado.

Somos apenas peregrinos aqui, ficando por um curto período de tempo, e, enquanto aqui estamos, frequentemente nos reunimos. Para quê? Para aprender algo destinado a nos beneficiar temporal ou espiritualmente. De fato, tudo o que nos rodeia, toda circunstância em que possamos estar colocados, tudo com que tenhamos de lidar, se devidamente usado, se destina a beneficiar a mente do homem. Este é o objetivo de todas as obras de Deus, beneficiar seres vivos — seres capazes de serem feitos felizes — capazes de receber alegria e paz; todas as Suas obras, do princípio ao fim (se é que há princípio ou fim, o que duvidamos muito), destinam-se, em sua natureza, a tornar felizes seres vivos e inteligentes. Essa é a razão por que estamos aqui — a razão por que viemos de países distantes, de terras estrangeiras, e nos congregamos nestes vales; é para que possamos ser mais felizes, e mais aptos a obter a experiência destinada a nos fazer mais felizes. Aguardamos com esperança um tempo em que seremos extremamente felizes; isso é natural à mente do homem; ela se estende, aguardando com esperança o período em que será muito mais feliz do que agora. Indagamos como, e por que meios, ou por que curso de conduta, podemos nos fazer mais felizes do que no momento presente. Algumas pessoas seguem um caminho, outras outro; a humanidade tem os seus vários caminhos, andanças e cursos, há quase tantos cursos quanto há pessoas sobre a face da terra; e viajam por estes caminhos e estradas: cada um buscando a sua própria felicidade, e, talvez, em poucos casos, a felicidade de alguns outros. Alguns tomam um caminho de pecado e maldade para assegurar a felicidade, mas, no fim, se acharão literalmente desapontados. Ao viajar por essa grande variedade de caminhos, descobrem que isso não produz o resultado que esperavam — não traz felicidade, nem lhes dá alegria. Há algo, ligado às andanças do povo, e aos cursos que traçam para si mesmos, que muitas vezes se destina a deixar um ferrão amargo sobre a consciência. Supõem que podem ser felizes ao seguir certo curso, mas se acham miseravelmente desapontados.

O Senhor está recolhendo os Seus santos a este vale, a fim de os instruir sobre como ser felizes; esse é o objetivo e propósito final que Ele tem em vista. Ele deseja que sejamos bem instruídos, e que tenhamos o caminho estreito e apertado claramente traçado diante de nós, mostrando-nos, de tempo em tempo, que passos são necessários dar, que conduzirão à maior quantidade de felicidade; e, se os seguirmos e continuarmos no caminho, acharemos que a nossa luz crescerá cada vez mais brilhante, a nossa felicidade cada vez maior, e as nossas alegrias se tornarão cada vez mais intensas, até que, no mundo eterno, sejamos, por assim dizer, tomados por uma plenitude de alegria — uma plenitude de felicidade.

Estamos o tempo todo, como já observei, aguardando com esperança algo à frente de nossa condição presente, algo que é futuro.

Cremos num estado futuro; é uma espécie de instinto natural na mente do homem crer num além-vida sem fim. Quando deita o seu corpo mortal no túmulo silencioso, e ele se desfaz de volta à sua terra-mãe, não crê que a destruição do corpo mortal seja o fim do ser chamado homem; crê que há ali algo além do tabernáculo de carne, que viverá, se moverá, e terá existência para sempre. Além disso, quando refletimos mais plenamente sobre este assunto, cremos que aquilo que habita nesta carne e ossos é o único ser capaz de ser feito feliz.

Já nos foi dito frequentemente isto, desta tribuna; e frequentemente já se disse, entre as congregações dos santos no estrangeiro, que é o espírito do homem, e não o tabernáculo mortal, que desfruta, que sofre, que tem prazer e dor. Mas o tabernáculo mortal está tão intimamente ligado ao espírito do homem, e há tanto tempo já temos o hábito de associar as dores e os prazeres do espírito com o que se chama as dores e os prazeres do corpo, que quase nos convencemos de que é de fato o corpo que sofre dor, e desfruta prazer; mas não é esse o caso; o corpo, tanto quanto sabemos, é incapaz de sentir; é naturalmente incapaz disso; é apenas o espírito, que habita dentro do corpo, que sente. Por mais severamente que o corpo possa ser ferido, não é o corpo que discerne esse ferimento, mas o espírito, dentro do corpo, que o discerne. [O orador pediu aqui uma bênção sobre o cálice.] Estávamos falando a respeito daquele ser a que chamamos a nós mesmos, que habita neste tabernáculo mortal de carne e ossos. Estávamos observando que o corpo e o espírito estão tão intimamente ligados, que nos habituamos a chamar os prazeres e as dores que experimentamos de prazeres e dores do corpo; mas não é esse o caso; o corpo de carne e ossos, quando o espírito o deixou, é incapaz de qualquer sensação; não forma parte alguma daquela identidade que nos pertence como espíritos; não estamos cientes de seus prazeres nem de suas dores; pois não tem nenhum dos dois; mas estamos cientes de que, se o nosso tabernáculo mortal é ferido ou violado, o espírito dentro dele fica perturbado e sofre; mas nos habituamos a chamar isso a dor do corpo.

Faço estas observações a fim de estender as nossas ideias além deste estado de existência.

Se o espírito, enquanto no corpo, é capaz de sofrer, de ser afetado a partir de fora do corpo, e de experimentar sensações diversas, se é capaz de alegria intensa, ou de intensa tristeza, não poderíamos supor que, quando libertado do corpo, quando o tabernáculo animal cai em pó, e retorna à sua terra anterior, o mesmo espírito, despojado e desprotegido, de pé, nu, por assim dizer, diante de Deus, e diante dos elementos que Ele fez, será então afetado, mais ou menos, por estes mesmos elementos; e que o mesmo espírito capaz de sofrer aqui será capaz de sofrimento muito mais intenso no futuro; o mesmo espírito capaz de grande alegria aqui será capaz de alegria e prazer muito mais intensos no futuro; e as mesmas coisas de natureza externa capazes de produzir dor intensa aqui são, sob certas circunstâncias, capazes de produzir cem vezes mais dor no futuro? Se este for o caso, quão importante é que tomemos aquele curso pelo qual o espírito possa, em seu estado futuro de existência, ser colocado sob circunstâncias em que possamos obter o prazer, a alegria e a felicidade, e escapar das dores, dos males e da amargura da miséria, aos quais alguns espíritos estarão expostos.

Talvez possa haver, no estado futuro, uma diferença, uma vasta diferença, em alguns aspectos, no reflexo da dor sobre o espírito, daquela que há aqui; e, em outros aspectos, pode haver semelhança. Há muitas coisas ligadas ao espírito do homem, no estado intermediário, sobre as quais nada sabemos; e depois há outras coisas que sabemos, tanto quanto são reveladas, e não mais; e depois há outras coisas ligadas ao espírito do homem entre a morte e a ressurreição, que podemos crer, mas não ter conhecimento certo, mas crer que assim e assim será, por analogia, por razão, pela natureza das coisas. Pouco foi revelado ao homem sobre o assunto do estado intermediário do espírito, depois que este deixa este tabernáculo mortal.

Somos informados, no Livro de Mórmon, de que os espíritos de todos os homens, assim que deixam este corpo mortal, e retornam para casa, a esse Deus que lhes deu a vida, sejam ímpios ou sejam justos, voltam para onde antes estavam; retornam ao seu estado anterior, à sua localização e morada anteriores; comparecem à presença do Ser que lhes deu a vida.

Que mais nos é dito a respeito deste assunto? Que, depois de voltarmos à presença de Deus, e retornarmos de novo para casa, então há de acontecer que os espíritos dos justos, aqueles que fizeram o bem, que praticaram as obras de retidão aqui sobre a terra, serão recebidos num estado de descanso, um estado de felicidade, de paz, um estado de alegria, onde permanecerão até o tempo da ressurreição. Também nos é dito que outra porção de espíritos, outra classe deles, que retornam para casa, a Deus, depois de deixar este tabernáculo mortal, são expulsos, são novamente enviados fora, e não têm permissão de ficar em casa, mas são lançados nas trevas exteriores, onde há choro e pranto e ranger de dentes. Ora, deve haver algum sofrimento intenso, alguma miséria intensa, ligada à classe ímpia de espíritos, para os fazer chorar e prantear.

Poderíamos agora indagar, qual é a causa deste sofrimento e miséria intensos? É a ação dos elementos sobre o espírito? São os materiais da natureza, operando de fora sobre ele, que causam esta angústia, este choro, pranto, luto e lamentação? Pode ser em certa medida; pode ajudar a produzir a miséria e a desgraça; mas há algo ligado ao próprio espírito que, sem dúvida, produz este choro, pranto e luto. Que é este algo? É a memória, e o remorso de consciência; a memória do que uma vez fizeram, a memória de sua desobediência. Não supondes que os espíritos possam ter poder para lembrar naquele mundo, tanto quanto neste? Sim, certamente podem. Nunca lestes no Livro de Mórmon, onde nos informa, que todo ato de nossas vidas estará fresco na memória, e teremos uma consciência clara de todos os nossos atos nesta vida? Sim; lemos isso no Livro de Mórmon — "uma consciência clara."

Lemos ou aprendemos algo por observação ontem, e hoje ou amanhã já se foi, a menos que seja algo que nos impressione distintamente, que produza uma impressão vívida na mente, que possamos lembrar talvez por dias, meses e anos; mas informações e conhecimentos comuns entram constantemente em nossa mente, e são constantemente esquecidos. E parte do conhecimento que recebemos aqui, num momento, torna-se tão completamente apagada, por causa da fraqueza do sistema animal, que não conseguimos trazê-lo à mente, nenhuma associação de ideias voltará a sugeri-lo à nossa mente; foi-se, apagado, erradicado da tábua de nossas memórias. Isto não se deve à falta de capacidade do espírito; não, o espírito tem plena capacidade para lembrar; pois supondes que Deus, ao gerar espíritos no mundo eterno, geraria algo imperfeito, sem capacidades? Não. O Ser, que está cheio de inteligência, conhecimento e sabedoria, e que age segundo os grandes princípios ordenados para a geração de seres vivos, seres espirituais, os traz à existência com capacidades capazes de serem ampliadas ou estendidas cada vez mais; por conseguinte, não é a falta de capacidade no espírito do homem que o faz esquecer o conhecimento que possa ter aprendido ontem; mas é por causa da imperfeição do tabernáculo em que o espírito habita; porque há imperfeição na organização da carne e dos ossos, e nas coisas pertencentes ao tabernáculo; é isso que apaga de nossa memória muitas coisas que seriam úteis; não conseguimos retê-las em nossa mente, vão para o esquecimento. Não é assim com o espírito, quando é liberto deste tabernáculo.

Poderia referir-me às palavras de muitos dos profetas sobre este assunto, mas toda pessoa de reflexão e observação sabe que a imperfeição do tabernáculo tem, de fato, influência sobre a memória, assim como sobre outras faculdades e poderes do homem. Já se provou que, quando o crânio foi comprimido por acidente, ou por via de experimento, toda partícula do conhecimento que a pessoa possuía ficou inteiramente suspensa. Aliviando o crânio da pressão, as coisas voltam frescas à mente; isso mostra que o espírito não perdeu a sua capacidade de memória, mas é a organização do tabernáculo que o impede de lembrar. Aguardai até que estes corpos mortais sejam depositados no túmulo; quando voltarmos para casa, a Deus, que nos deu a vida; então é o tempo em que teremos o mais vívido conhecimento de todos os atos passados de nossas vidas durante o nosso estado probatório; então é o tempo em que descobriremos que este ser a que chamamos homem — este espírito que habita dentro do tabernáculo — é um ser que tem capacidade suficiente para reter todos os seus atos passados, sejam eles bons ou maus.

É, então, esta memória que produzirá o sofrimento e as dores sobre aquela classe de espíritos cujas obras foram más e abomináveis aos olhos de Deus. Um espírito, então, se lembrará de que "em tal tempo, naquele mundo, e em tal lugar, desobedeci aos mandamentos de Deus; não escutei o conselho daqueles que Deus designara para serem meus conselheiros; não dei atenção ao homem de Deus; não: mas rejeitei os seus ditos; bom conselho me foi dado, mas não lhe dei ouvidos." Nesta vida, coisas que possam ter sido apagadas de vossa memória por anos serão apresentadas diante de vós com toda a vivacidade, como se tivessem acabado de acontecer. Isto será como um verme sobre a consciência; devorará o espírito, e produzirá infelicidade, desgraça e miséria. Isto vos fará lamentar, e prantear, e chorar, depois de serdes expulsos da presença de Deus — do lar para o qual retornastes.

Falo agora dos ímpios. Que produz o princípio oposto? Há oposição em todas as coisas; é o reflexo da memória que produz alegria; esse é um dos elementos pelos quais a alegria e a felicidade são produzidas sobre o espírito do homem no estado futuro; lembramo-nos dos atos de nossa vida passada, de que foram bons; percebemos, por nossas memórias, que fomos obedientes ao conselho; percebemos que, quando erramos por nossa fraqueza, nos arrependemos desse erro; quando nos foi apontada uma falta, a abandonamos. Quando olhamos para trás, para conhecidos e vizinhos, percebemos que observamos a regra de ouro, de fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem. Olhamos para trás, para nossas vidas passadas, e percebemos que nunca falamos mal contra irmão ou irmã, que nunca nos esforçamos por instigar contendas familiares, e que nunca desejamos ferir nenhum dos filhos dos homens, homens ou mulheres. Que produzem estas reflexões? Produzem alegria, satisfação, paz, consolação, e esta alegria é cem vezes mais intensa do que aquela que o espírito é capaz de perceber ou desfrutar nesta vida. Por quê? Porque, exatamente na proporção da vivacidade da consciência, ou da memória, assim será a alegria. Disso podeis ter conhecimento pela experiência cotidiana; exatamente na proporção da vivacidade de vossas ideias, e da verdade posta diante de vossa mente, e das boas coisas que vos são impartidas, mais intensa é a vossa felicidade aqui; quanto mais intensa seria no futuro, quando este entrave mortal, com todas as suas imperfeições, tiver sido depositado na sepultura! O fato é que os nossos espíritos então serão felizes, muito mais felizes do que somos capazes até mesmo de conceber, ou de ter a menor ideia, neste mundo.

A nossa felicidade aqui é regulada, em grande medida, por objetos externos, pela organização do tabernáculo mortal; não têm permissão de se elevar muito alto, nem de se tornar muito grandes; por outro lado, parece haver uma espécie de limite às nossas alegrias e prazeres, sofrimentos e dores, e isso se deve à imperfeição do tabernáculo em que habitamos; e das coisas que nos rodeiam; mas naquela vida tudo aparecerá em suas verdadeiras cores; a meu ver, nem um só pensamento do coração, que já tenha passado pela mente, nem um só ato de um indivíduo, desde o período mais precoce de sua memória até o momento em que comparece à presença de Deus, escapará à atenção da memória quando ali aparecer, desembaraçado deste tabernáculo.

Há outras circunstâncias que produzirão dor ou alegria, além daquilo que está ligado ao espírito — além de sua própria consciência ou memória? Sim, muito dependerá do lugar de residência destes espíritos. Suponde que fôsseis um espírito justo, e fôsseis expulsos para habitar por certo tempo; não expulsos, mas enviados, numa missão às moradas das trevas, ou àqueles que não são tão justos quanto vós; embora pudésseis ter paz de consciência e felicidade habitando em vosso próprio seio, ao refletir sobre a vossa conduta passada, contudo a sociedade com a qual sois obrigados a conviver por um curto período, a fim de impartir conhecimento e sabedoria e tais informações destinadas a beneficiá-los, é, em certa medida, desagradável; sois obrigados, por uma temporada, a conviver com aqueles que são inferiores a vós em suas capacidades. Quando ides e vos associais com eles, há algo desagradável na natureza dessa associação; sentis pena deles em sua ignorância, em sua condição e circunstâncias; a sua conversa não vos é tão agradável quanto a de vossos próprios associados na presença de Deus. Há algo que se destina a tornar a sua sociedade desagradável a si mesma, que aumenta à medida que a degradação da sociedade aumenta. Então, um homem perverso, ao entrar na companhia de tais seres, não tem apenas um inferno dentro de si mesmo — uma consciência a corroer como um verme, mas vê miséria e desgraça; e apegam-se uns aos outros em sua perversidade, e em sua conversa, e atos, e feitos, e convívio uns com os outros; todas estas coisas se destinam, em sua natureza, a produzir miséria e desgraça, tanto quanto as suas próprias consciências. Deveria então ser nosso estudo constante escapar desta ordem de coisas. Somos livres e independentes; está inteiramente em nossas mãos se havemos de escapar desta ordem de desgraça e miséria, e das moradas dos ímpios no mundo espiritual; podemos habitar na sociedade dos justos, ou na sociedade dos ímpios, exatamente como escolhermos. Como declara a revelação, toda inteligência e toda verdade é independente naquela esfera em que Deus a colocou para agir por si mesma; por conseguinte, sois vós e eu os que nos fazemos felizes ao tomar o curso indicado por nossos superiores, por aqueles que têm o direito de nos ensinar, controlar e dirigir. Cabe a nós criar um céu dentro de nossa própria mente. Cabe a nós escolher o lugar de nossa morada, seja entre os espíritos dos justos, seja entre os espíritos dos condenados.

Falamos da memória dos espíritos no estado futuro; o mesmo princípio se aplicará a muitas outras faculdades da mente do homem, assim como a memória; o conhecimento, por exemplo. Quão limitado, quão bem limitado, em sua natureza, é o conhecimento do homem nesta vida. Por que é tão limitado o nosso conhecimento? Digo limitado, comparado com aquilo que há de ser conhecido, e que será conhecido. A razão é que Deus julgou apropriado, em Sua infinita sabedoria, nos colocar em circunstâncias em que possamos aprender os primeiros elementos do conhecimento, e agir sobre eles em primeiro lugar. Em vez de ter todo o rico tesouro de conhecimento e sabedoria desvendado a nós de uma só vez, Ele começa a nos alimentar pouco a pouco, do mesmo modo que alimentaríeis um bebê fraco e doente, com alimento preparado e adaptado ao seu paladar, e à fraqueza de seu organismo. O Senhor nos traz, neste estado, sob circunstâncias semelhantes, dotados de certos sentidos pelos quais podemos obter, pouco a pouco, conhecimento e informação; mas leva muito tempo para pôr um pouco em nossa mente. Parece que os nossos espíritos, que outrora estiveram na presença de Deus, vestidos de poder, capacidades, sabedoria e conhecimento, esquecem o que outrora sabiam — esquecem aquilo que outrora estava fresco em sua mente.

Mas, pergunta alguém, "Tendes ideia de que outrora tínhamos muita informação e conhecimento no mundo espiritual?" Sim, tínhamos bastante conhecimento e informação, mas em que medida não sei; basta dizer que tínhamos muito conhecimento, éramos capazes, quando as estrelas da alva cantavam juntas de alegria, quando os alicerces desta terra foram lançados, de erguer as nossas vozes e clamar em voz alta de alegria. Que produziu esta alegria? A contemplação de um mundo no qual havíamos de receber a nossa provação, e ter tabernáculos de carne e ossos, e obter a nossa redenção. Todas estas coisas nos eram conhecidas em nosso estado anterior, mas as esquecemos todas. Sabíamos então acerca do Redentor — acerca de Cristo, mas o esquecemos em nossos momentos de infância.

Assim que os nossos espíritos foram encerrados neste tabernáculo, todo o nosso conhecimento anterior se desvaneceu — o conhecimento de nossos atos anteriores se perdeu, o que fizemos então não sabemos; tínhamos leis para nos governar; quão obedientes lhes fomos não sabemos; quão fiéis fomos não sabemos, tivemos uma contenda com a terça parte das hostes do céu, e a vencemos; e então o Senhor fez uma terra onde pudéssemos ter uma segunda provação, e esquecer tudo o que outrora sabíamos a respeito das batalhas que travamos, antes de virmos para cá, contra Lúcifer, o filho da manhã. Esquecemos as leis que foram dadas para nos governar naquele estado espiritual. Por que tudo isso? Se viéssemos para cá com todo o conhecimento que outrora possuíamos, poderíamos ser novamente provados como aqueles que possuem apenas os primeiros princípios do conhecimento? Devemos começar pelo alfabeto do conhecimento; e, assim que começamos a obter conhecimento e informação, o Senhor nos prova para ver se cumpriremos com isso, e, se cumprirmos, Ele nos dá mais, neste estado probatório; mas, depois de termos obtido tudo o que podemos aqui, isso não é nada comparado com aquela imensa plenitude, que é o privilégio dos filhos dos homens obter no estado futuro de existência.

O nosso conhecimento aqui é, comparativamente falando, nada; mal pode ser considerado os elementos do conhecimento. As poucas ideias vagas que os mais sábios de nós obtêm, obtemo-las pela experiência, por meio de nossos sentidos, e dos poderes reflexivos da mente.

Algumas pessoas supõem que quase não adquirimos conhecimento algum, senão o que obtemos vendo, ouvindo, provando, cheirando e sentindo; pode ser que não, num sentido da palavra, mas, noutro sentido, há uma vasta quantidade de conhecimento que obtemos pela reflexão; a resolução de problemas matemáticos, do princípio ao fim, não se dá por ver, ouvir, provar, cheirar ou sentir, a menos que a mente os possa sentir; raciocinamos de um passo a outro até resolver a proposição. Há um vasto campo de conhecimento, pertencente a este estado, que a humanidade pode obter por meio de seus poderes reflexivos ou racionais; e depois há outro vasto campo que pode explorar por meio de seus sentidos. Falo agora do conhecimento temporal.

Familiarizamo-nos com a luz e a cor por meio da organização de nossos corpos. Em outras palavras, o Senhor construiu o olho mortal e o formou de tal maneira que é capaz de ser afetado por um dos elementos da natureza, chamado luz; e isso nos dá uma grande variedade de conhecimento. Um cego nada sabe da luz, como aqui outro dia nos disse o nosso Presidente, o cego nada sabe da luz, se nasceu cego. Não podeis, falando com ele por mil anos, incutir em sua mente uma ideia de como são o vermelho, o amarelo, o branco, o preto, o verde, o azul; são ideias que jamais entraram em sua mente. Por quê? Porque a pequena entrada para este tipo de conhecimento está fechada, e não há outra parte do espírito exposta à luz. É apenas um pequeno lugar pelo qual o espírito pode conversar com a luz e as suas cores. Assim também com relação a muitas outras ideias.

Tomai um homem que é perfeitamente surdo, que nasceu surdo, de modo que nenhum som jamais entrou em seus ouvidos; que sabe ele de música? Dos vários sons tão belos à mente do homem? Nada sabe a respeito disso, nem pode lhe ser descrito.

Um homem que sempre foi privado do órgão do olfato não tem outra entrada de conhecimento pela qual possa conhecer e compreender a natureza do cheiro; não pode ver um cheiro, nem ouvir um cheiro; só pode ser percebido por este pequeno órgão chamado nariz; esse é o único modo pelo qual estas ideias podem chegar ao espírito. Se algum dia as conheceu antes de vir para cá, esqueceu-as, o que é o mesmo que se jamais as tivesse conhecido; e, se deseja obter uma ideia das sensações produzidas pelos elementos da natureza, tem de aprendê-las de novo por estes meios. Se um homem é desprovido de paladar, que pode saber a respeito de doce e azedo? Poderíeis tão bem falar-lhe dos limites do tempo e do espaço, e fazê-lo compreender um céu situado além dos seus limites, quanto fazê-lo compreender o que são doce e amargo, ou dizer a diferença entre um pedaço de açúcar e vinagre, no que diz respeito ao gosto.

Assim também com relação ao tato. Há muitas coisas que não podemos sentir, e ainda assim temos conhecimento delas; não podemos sentir o sol, a lua, as estrelas e os cometas, e muitas outras coisas; e, se não fosse por alguns sentidos que nos dão conhecimento delas, estaríamos envoltos em ignorância total a seu respeito. Como sabemos, quando este espírito for liberto deste tabernáculo mortal, que todos estes sentidos não serão grandemente ampliados? Se nós, olhando por estes nossos pequenos olhos, podemos ver objetos a alguns milhares de milhões de milhas de distância; se podemos ver objetos que existem a essa imensa distância por meio destas pequenas entradas; suponde que todo o espírito fosse descoberto e exposto a todos os raios de luz, pode-se supor que a luz não afetaria o espírito, se assim estivesse desprotegido, descoberto e despido? Supondes que não seria suscetível a nenhuma impressão feita pelos elementos da luz? O espírito é inerentemente capaz de experimentar as sensações da luz; se não fosse assim, não poderíamos ver. Poderíeis formar o olho mais fino que jamais foi feito, mas, se o espírito, em si mesmo, não fosse capaz de ser afetado pelos raios de luz, um olho não seria de nenhum proveito. Então despi o espírito, e, em vez de expor uma pequena porção dele, do tamanho de uma ervilha, à ação dos raios de luz, todo ele seria exposto. Penso que então poderíamos ver em direções diferentes de uma vez, em vez de olhar numa direção particular; poderíamos então olhar ao nosso redor todo, no mesmo instante. Podemos ver isso verificado, em algum pequeno grau, trazendo à nossa ajuda meios artificiais. Vede os telescópios inventados, de que vantagem são? Ora, reúnem um número maior de raios de luz, e os concentram sobre a retina do olho. As lentes dentro do telescópio são construídas de tal modo a trazer os raios de luz a um foco; e, quando devidamente colocadas naquele instrumento, trazem um número maior de raios sobre o olho, de modo que trazem objetos que não podemos ver com o olho natural dentro do poder de nossa visão, assim somos capacitados a ver muitos objetos gloriosos nos céus, que o olho natural jamais poderia ter contemplado.

Que o próprio espírito seja um telescópio; ou, em outras palavras, que haja um milhão de vezes mais da superfície do espírito exposta aos raios de luz do que agora é exposta por meio dos olhos, ou fosse este corpo de carne e ossos removido, e todo o espírito exposto aos raios de luz; não produziriam estes raios um efeito sobre o espírito? Sim; visto que ele é inerentemente capaz de tais efeitos, independentemente da carne e dos ossos. Então haveria um vasto campo aberto à vista do espírito, e isso se abriria não apenas numa direção, mas em todas as direções; teríamos então a vantagem do telescópio, ainda que fosse tão grande quanto o de Lord Ross, cuja lente objetiva tem seis pés de diâmetro. Que grande melhoria seria, se pudesse ser inventado um telescópio, para trazer os raios de luz a outras partes do espírito, além do olho. Assim será quando este tabernáculo for removido; olharemos, não apenas numa direção, mas em todas as direções. Isso se destina a nos dar novas ideias, a respeito da imensidão das criações de Deus, a respeito de mundos que podem estar muito além do alcance dos mais poderosos instrumentos já chamados em auxílio do homem. Isso nos dará informação e conhecimento que jamais poderemos ter enquanto habitarmos neste tabernáculo mortal. Este tabernáculo, embora seja bom em seu lugar, é algo como o andaime que vedes ao redor de um novo edifício em construção; é apenas uma ajuda, um auxílio nesta situação imperfeita; mas, quando entrarmos noutra condição, acharemos que estes auxílios imperfeitos não serão particularmente necessários; teremos outras fontes de obter conhecimento, além destas entradas, chamadas sentidos.

Em relação a este assunto, quanto à extensão de nosso conhecimento ano após ano, algumas pessoas pensaram que teríamos de aprender tudo pelo estudo. Não creio nisso; há muitíssimas maneiras de aprender as coisas sem raciocinar ou estudá-las; sem obtê-las por meio dos cinco sentidos. O homem será dotado, depois de deixar este tabernáculo, de poderes e faculdades dos quais agora não tem conhecimento algum, pelos quais poderá aprender o que o rodeia. A fim de provar isso, permiti-me referir-vos a algumas coisas em algumas das revelações que Deus deu. Que se diz a respeito do irmão de Jarede? Diz-se que o Senhor lhe mostrou todos os filhos dos homens anteriores a seu tempo, e todos os que estavam na terra na época em que vivia, e todos os que haveriam de estar até o fim dos tempos. Como supondes que os contemplou? Olhou para eles com seus olhos naturais? Quanto tempo supondes que levaria um homem para ver todos os que agora vivem, se empregasse apenas um segundo para olhar cada indivíduo? Levaria muito tempo; levaria mais de trinta anos. Para vê-los todos, teria de pôr os olhos sobre todos eles. Se um homem olha para um indivíduo nesta assembleia, embora possa perceber indistintamente, de cada lado desse indivíduo, uma grande variedade de rostos, contudo há apenas uma pessoa que vê distintamente; os demais produzem apenas imagens muito indistintas em sua visão. Assim com o irmão de Jarede; se tivesse olhado para cada indivíduo de todas as gerações por um segundo, sucessivamente, ter-lhe-ia levado mais de três mil anos para contemplá-los a todos.

Deve haver alguma faculdade ou poder natural a Deus e a seres superiores, que o homem, nesta vida, não possui em grande medida, pelo qual possam olhar para uma grande variedade de objetos de uma vez. O irmão de Jarede pôde olhar para as gerações passadas, presentes e futuras; todas vieram diante dele, e ele as contemplou a todas; não houve alma que ele não visse.

Moisés também teve uma visão semelhante; ele, em certa ocasião, foi revestido da glória de Deus; e, enquanto assim revestido, foi capacitado a contemplar muitas coisas; e, vendo algumas coisas que pareciam muito gloriosas, quis ver mais; mas o Senhor lhe disse: "Nenhum homem pode contemplar todas as minhas obras sem contemplar toda a minha glória; e nenhum homem pode contemplar toda a minha glória e depois permanecer na carne;" isto é, isso o consumiria; a visão seria tão avassaladora que o tabernáculo mortal se derreteria. Se um homem mortal tivesse permissão de contemplar todas as obras de Deus, que incluem toda a Sua glória, a mortalidade não o poderia suportar. Mas o Senhor condescendeu em lhe dar, em certa medida, o mesmo princípio que Ele mesmo possui; pois o Senhor contempla todas as Suas obras. Ele diz: "Meus olhos podem penetrá-las todas," depois de nos dizer que o número de mundos era maior do que o número de partículas em milhões de terras como esta. Jesus diz que "olhou por sobre a vasta extensão da eternidade," e que "todas as coisas estão presentes diante de meus olhos."

Ora, o Senhor impartiu uma parte deste princípio a Moisés. Vejamos como operou sobre a sua visão. Assim que Moisés obteve este novo princípio, não natural ao homem, que contemplou ele? Olhou para aquilo que a humanidade jamais pode ver neste estado natural, sem o auxílio do mesmo princípio; contemplou cada partícula da terra, ou, como diz a nova revelação, não houve partícula dela que não contemplasse, discernindo-a pelo Espírito de Deus. Que excelente telescópio! Impressionou o Espírito de Deus isso pelos raios de luz apenas sobre a retina do olho? Não: a visão foi exibida à mente, independentemente do olho natural. Em vez de agir apenas sobre o olho, cada parte do espírito humano pôde contemplar e discernir, por meio daquela substância todo-poderosa — o Espírito de Deus — cada partícula desta terra. Quanto tempo teria levado Moisés para contemplar cada partícula separadamente, com o olho natural? Enquanto estivesse olhando com o olho para uma, não poderia estar olhando diretamente para outra. Ter-lhe-ia levado muitos milhões de anos para contemplar direta e distintamente cada partícula da terra, como naturalmente vemos as coisas em sucessão. Mas, em vez disso, o encontramos, em curto espaço de tempo, talvez o intervalo fosse apenas alguns minutos ou horas, contemplando cada partícula dela. Aqui havia algo novo, e independente da visão natural, mostrando-lhe coisas abaixo da superfície da terra. Os homens olham para as coisas acima da superfície pelo olho natural; mas aqui está um homem que, pelo poder do céu, é capacitado a penetrar aquilo que o olho natural jamais poderia contemplar. Suponde que o espírito do homem estivesse desembaraçado deste tabernáculo mortal, o Senhor poderia mostrar-lhe as partículas de milhões sobre milhões de mundos, do mesmo modo, e com a mesma facilidade, com que mostrou a Moisés as partículas de um.

Pelo mesmo poder e princípio pelo qual Moisés contemplou cada partícula desta terra, ele poderia ter olhado para a lua, e contemplado cada partícula dela; e o mesmo poder poderia ter-lhe mostrado cada partícula do sol, dos planetas, dos cometas e das estrelas fixas.

Aqui, então, está uma nova faculdade de conhecimento, muito extensa em sua natureza, destinada a lançar uma vasta quantidade de informação sobre a mente do homem, quase num piscar de olhos. Quanto tempo levaria um homem, no próximo mundo, se tivesse de obter conhecimento como aqui o fazemos, para descobrir as coisas mais simples da natureza? Poderia raciocinar, e raciocinar por milhares de anos, e mal teria começado. Mas, quando este Espírito de Deus, este grande telescópio usado nos céus celestiais, é dado ao homem, e ele, com o seu auxílio, contempla as coisas eternas, que contempla? Não um objeto de cada vez, mas uma vasta multidão de objetos se precipita diante de sua visão, e se apresenta diante de sua mente, enchendo-o num momento com o conhecimento de mundos mais numerosos do que as areias da praia do mar. Será ele capaz de o suportar? Sim, a sua mente se fortalece na proporção da quantidade de informação impartida. É este tabernáculo, em sua condição presente, que nos impede de um entendimento mais ampliado. Moisés compreendeu tudo o que viu, tanto quanto o Senhor se agradou de lhe mostrar; e, se o Senhor lhe mostrasse todas as propriedades, qualidades e conexões daquelas partículas, ele as teria compreendido.

Há uma faculdade mencionada na palavra de Deus, que não possuímos aqui, mas que possuiremos no futuro; que é não apenas ver um vasto número de coisas no mesmo momento, olhando em todas as direções com o auxílio do Espírito, mas também obter um vasto número de ideias no mesmo instante. Aqui, temos de nos confinar a um espaço pequeno, estreito, contraído, e mal conseguimos pensar em duas coisas de uma vez; se o fazemos, a nossa mente se distrai, e não conseguimos pensar distintamente. Alguns, por hábito, é verdade, conseguem pensar em duas ou três pequenas coisas de uma vez, ou pelo menos o intervalo entre os pensamentos sucessivos é tão pequeno que é imperceptível. Algumas pessoas tocam um instrumento musical, e podem executar uma peça muito difícil, enquanto a sua mente pensa em outra coisa; e, por hábito, mal percebem o funcionamento do instrumento musical.

Creio que seremos libertados, no próximo mundo, em grande medida, destes métodos estreitos e contraídos de pensar. Em vez de pensar num só canal, e seguir um único curso de raciocínio para encontrar certa verdade, o conhecimento se precipitará de todos os lados; virá como a luz que flui do sol, penetrando cada parte, informando o espírito, e dando entendimento a respeito de dez mil coisas ao mesmo tempo; e a mente será capaz de receber e reter tudo.

Diz um: "Teremos todo o conhecimento?" Nada tenho a dizer sobre isso; é um assunto sobre o qual deveis recorrer ao nosso Presidente para informação; é ele quem deve ser ouvido sobre esse assunto; e não deveríamos ensinar nada, assim que averiguarmos a sua real opinião, que entre em contato com os seus ensinamentos. Não sei se hoje apresentei alguma opinião diferente da sua: se apresentei, quando ele me corrigir, ficarei em silêncio sobre o assunto, se não o entender como ele o entende. Assim também com relação a qualquer outro princípio que eu possa ensinar. Deus o colocou como Presidente desta Igreja, como o nosso líder, guia e mestre, e somos obrigados a não entrar em contato com ele — a não ensinar diferentemente do que ele ensina; isto é, assim que averiguarmos plenamente a sua mente e as suas opiniões. Mas, muito frequentemente, a humanidade é tão imperfeita, e a sua mente tão limitada, e o seu conhecimento tão pequeno, comparativamente falando, que podem lançar muitas ideias que talvez não sejam verdadeiras, que são incorretas; mas o Senhor designou aqueles que detêm as chaves, para corrigir e nos dar instruções sobre todos os princípios de doutrina; e, sempre que julgarem apropriado girar as chaves e desvendar à sua própria mente estes princípios, podem fazê-lo. Nem sempre é sabedoria usar as chaves do conhecimento e da revelação sobre assuntos triviais. Pode também haver muitos assuntos que não é sabedoria compreendermos e recebermos no presente. Pode haver muitos elementos de conhecimento no seio de Deus, nos mundos eternos, que Ele não julga apropriado nos revelar, enquanto em nosso estado mortal; por conseguinte, o povo pode divergir a respeito de suas opiniões sobre aquelas coisas não reveladas, e que não compreende. Em muitas das minhas observações e ensinamentos, posso ter apresentado diante de vós ideias que, quando vierdes a conhecer a opinião do Presidente sobre elas, podem ser declaradas errôneas e não sã doutrina. Posso ter feito o mesmo em muitos de meus escritos; mas em todos os pontos de doutrina, relativos ao plano de salvação, e à redenção do homem, tanto quanto o compreendi, tenho me esforçado por escrever aquilo que, na ocasião, verdadeiramente cria ser verdade. Algumas destas coisas podem estar erradas; não digo que sou capaz, sem revelação direta, de escrever sobre muitos pontos intrincados, com o mesmo grau de perfeição e precisão de alguém que escreve apenas conforme é inspirado. Mas sinto-me grato a esse Deus que nos colocou nestes Vales das Montanhas, por ter Ele ordenado chaves pelas quais o conhecimento e a informação possam ser derramados daquela grande fonte, até obtermos tudo o que nos é necessário saber neste estado: e aguardo com grande regozijo as perspectivas do futuro.

Quando falo do estado futuro do homem, e da situação de nossos espíritos entre a morte e a ressurreição, anseio pela experiência e pelo conhecimento a serem obtidos naquele estado, assim como neste. Ali aprenderemos muitas coisas mais; não precisamos supor que os nossos cinco sentidos nos ligam a todas as coisas do céu, e da terra, e da eternidade, e do espaço; não precisamos pensar que estamos familiarizados com todos os elementos da natureza, por meio dos sentidos que Deus nos deu aqui. Suponde que Ele nos desse um sexto sentido, um sétimo, um oitavo, um nono, ou um quinquagésimo. Todos estes diferentes sentidos nos transmitiriam novas ideias, tanto quanto os sentidos do paladar, do olfato, ou da visão comunicam ideias diferentes das da audição.

Supomos que os cinco sentidos do homem conversam com todos os elementos da natureza? Não. Há um princípio chamado magnetismo; vemos os seus efeitos, mas o nome da coisa não nos dá conhecimento de sua natureza, nem do modo pelo qual os efeitos são produzidos. Não sabemos por que um pedaço de ferro se voltará para um ímã, deste ou daquele modo. Ora, suponde que tivéssemos um sexto sentido tão adaptado que percebesse esta mesma coisa, aprenderíamos algumas novas ideias, ligadas aos elementos da natureza, além daquelas que aprendemos pelos cinco sentidos que já possuímos. Creio que há dez mil coisas que nos rodeiam, sobre as quais nada sabemos com os nossos sentidos naturais presentes. Quando o Senhor nos impartir um princípio pelo qual possamos olhar para o passado e o futuro, assim como para o presente — pelo qual possamos olhar para muitos objetos intrincados da natureza que agora estão ocultos à nossa vista, acharemos a nossa capacidade de obter e reter conhecimento grandemente ampliada.

Já temos a capacidade, e tudo o que falta é trazer as coisas a uma situação de agir sobre ela. A capacidade está aqui; e, quando o Senhor achar por bem, ela será instruída e ensinada, e as coisas serão desveladas — até as coisas de Deus, e as leis que têm sido ocultas a respeito dos mundos celestial, terrestre e telestial, e a respeito de toda a variedade de coisas que estão organizadas na imensidão do espaço, tanto quanto o Senhor julgue apropriado desvendá-las; e aprenderemos cada vez mais delas, até o dia perfeito, à medida que o Senhor nos colocar em circunstâncias de nos familiarizarmos com elas.

Detive-me sobre este assunto para que possamos aguardar com esperança e alegres antecipações o futuro. Estou constantemente olhando para o futuro, assim como para o presente, e tentando moldar o meu curso presente de conduta de tal modo que me capacite a alcançar aquilo que está reservado no futuro para os fiéis. Se eu não tivesse conhecimento nem entendimento algum do futuro, seria como uma pessoa perseguindo um fantasma que não sabia ter valor algum; mas, quanto mais conhecimento obtemos do futuro, quanto mais o imprimimos em nossa mente e em nossos pensamentos, mais seremos incitados em nossos esforços a fazer aquilo que nos concerne no momento presente, sabendo que isso tem uma influência de suma importância sobre o futuro.

Como citar este discursoOrson Pratt, “O Aumento dos Poderes e Faculdades da Mente num Estado Futuro”, (1854-10-15). Pulpit Vault, 1854-10-15-pratt-increased-powers-and-faculties. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).