Pulpit

Uso e Abuso das Bênçãos

Brigham Young

1853-06-05

Sinto-me disposto a dizer algumas palavras nesta ocasião. Diz-se que "à vista dos olhos o coração se alegra." Isto é verdadeiramente o meu caso esta tarde, quando olho para a congregação e vejo este amplo salão repleto de Santos do Altíssimo, com o propósito de participar do Sacramento da Ceia do Senhor. É uma cena que não tive o privilégio de ver antes, senão nos dias de Conferência. Esta manhã olhei ao redor para ver como a casa estava apinhada, tão cheia que dezenas não puderam se sentar. Procurei ver se, por acaso, poderia identificar alguma pessoa que não pertencesse à Igreja, que não professasse ser um santo; mas não pude ver uma única pessoa dessa condição que eu conhecesse. Pensei: por que não ser tão diligente em comparecer às reuniões da tarde, para participar do Sacramento da Ceia do Senhor, quanto em comparecer às reuniões da manhã? Até agora não tem sido assim, mas meu coração se alegra em ver a casa tão bem cheia esta tarde. Sinto em meu coração vos abençoar; ele está cheio de bênçãos e não de maldições. Não é algo que ocupe meus sentimentos, amaldiçoar qualquer indivíduo, mas modificarei isto dizendo aqueles que não deveriam ser amaldiçoados. Quem deveria ser? Aqueles que conhecem a vontade de seu senhor e não a cumprem; são dignos de muitos açoites; não são os que não sabem e não fazem, mas os que sabem e não fazem — estes são os que devem ser castigados.

Enquanto os irmãos falavam sobre as bênçãos que o Senhor concede a este povo, minha mente refletiu sobre muitas das circunstâncias da vida, e sobre certos princípios. Farei uma pergunta — pensais que as pessoas podem ser abençoadas demais? Responderei eu mesmo. Sim, podem, podem ser abençoadas para seu próprio prejuízo. Por exemplo, suponde que uma pessoa fosse abençoada com o conhecimento do santo evangelho, cujo coração está inclinado a fazer o mal. Estimamos isto como uma bênção, e não consideraria o Senhor uma bênção conceder seus favores e misericórdias a qualquer indivíduo, dando-lhe conhecimento da vida e da salvação? Mas suponde que ele o concedesse a pessoas cujos corações estivessem inclinados a fazer o mal, que por sua maldade transformariam estas bênçãos em maldições; estas seriam abençoadas demais. É possível abençoar as pessoas até a morte, podeis abençoá-las até a miséria eterna, amontoando bênçãos demais sobre elas. Talvez seja isto o que se quis dizer com o ditado — é como amontoar brasas de fogo sobre suas cabeças; isso as ferirá, as consumirá, as queimará, as destruirá. Basta dizer que as pessoas podem ser abençoadas demais. Podeis abençoar demais um homem sábio? Um homem que sabe o que fazer com suas bênçãos quando lhe são concedidas? Não, não podeis. Podeis abençoar demais um povo sábio? Não, é impossível, quando sabem como aproveitar todas as bênçãos que lhes são concedidas. Mas o Senhor abençoa, e há de abençoar, os habitantes da terra com bênçãos tão grandes e inestimáveis, na proclamação do evangelho, que serão condenados aqueles que as rejeitarem, pois a luz traz condenação aos homens que amam as trevas mais do que a luz.

Este povo tem sido abençoado demais? Não afirmarei isso positivamente, mas penso que sim, na medida em que suas bênçãos, em algumas ocasiões, foram para seu próprio prejuízo. Por quê? Porque não souberam o que fazer com suas bênçãos.

Enquanto os irmãos falavam da mão liberal da Providência ao conceder abundantemente os produtos da terra, ocorreu-me que este povo, de meu certo conhecimento, sentiu que tinha demais, e o estimou como se não valesse nada. É verdade o que o Irmão Jedediah Grant disse a respeito do trigo e de outros grãos, pois eu mesmo o vi. Já vi centenas, e milhares, e dezenas de milhares de alqueires de grão jazendo a se desperdiçar e apodrecer, quando não trazia um bom preço. Muitos deste povo pensaram, e se expressaram em linguagem como esta — "Posso ir à Califórnia e obter tanto ouro, ou posso comerciar e ganhar tanto ouro, que não posso perder tempo cuidando do trigo, nem cultivando-o; deixai-o ali apodrecer enquanto vou acumular riquezas." Eram então ricos, pois seus celeiros e paióis estavam cheios das bênçãos do Senhor, mas agora estão vazios, porque não souberam o que fazer com suas bênçãos.

Posso dizer a este povo como dispor de todas as suas bênçãos, se apenas me derem tempo suficiente; e, se não puder dizer-lhes como, posso mostrar-lhes. Por exemplo, vós que tendes campos de trigo, além dos limites dos gafanhotos, tereis colheitas consideráveis quando forem ceifadas, e talvez tanto que não sabereis o que fazer com elas. Sei o que deveríeis fazer com elas; deveríeis dizer a vossos irmãos pobres — "Vinde ajudar a cuidar de meu grão, e reparti comigo, e alimentai-vos a vós e a vossas famílias." Se tendes tanto que não podeis cuidar dele, e não tendes onde colocá-lo, e vosso vizinho não está sem pão, dizei ao Bispo Hunter que tendes tantas centenas de alqueires para depositar no armazém, e tereis o benefício disso em vosso dízimo. É isto o que vos recomendo fazer com vossas bênçãos, quando tendes mais do que podeis cuidar por vós mesmos. Digo, entregai-o, e deixai vosso vizinho cuidar dele por vós.

Isto me faz pensar no que vi no primeiro ano em que vim a este vale, o mesmo ano em que mudei minha família, que foi a estação seguinte após a chegada dos pioneiros aqui. Já era tarde na estação quando cheguei, mas, do solo onde hoje está esta casa, já se haviam colhido duas safras de trigo. Haviam colhido a primeira safra bem cedo, e, com a água transbordando sobre o terreno, o trigo brotou novamente das raízes e produziu uma boa colheita, digamos de dez a doze alqueires por acre. Aquilo foi colhido, e estava brotando de novo. Disse aos irmãos: "Deixai estes meus irmãos que vieram comigo recolher este trigo," mas não permitiram que o fizessem. Alguns dos irmãos haviam colhido suas safras de grão e deixado muito a se desperdiçar nos campos. Eu disse: "Deixai os irmãos pobres, que vieram de fora, respigar em vossos campos." Podeis testemunhar que muitas viúvas e homens pobres vieram para cá, trazendo muito pouco consigo, e nunca houve um homem, que eu saiba, que expressasse o desejo de deixá-los respigar em seu campo. "Está bem," eu disse, "podemos viver de verduras," ao mesmo tempo em que se desperdiçava mais naquela estação do que seria necessário para suprir a falta, de modo que todos poderiam ter estado confortáveis. Já tarde no outono, vi um homem trabalhando entre seu milho; tinha uma grande colheita, mais do que um único homem poderia cuidar. Vi que ele ia deixá-la se desperdiçar; disse-lhe: "Irmão, deixai os irmãos e irmãs vos ajudarem a descascar vosso milho, a recolhê-lo e guardá-lo em segurança, pois isso os beneficiará bastante e vos ajudará." "Ó," respondeu ele, "não tenho nada de sobra, posso cuidar dele sozinho." Vi que se desperdiçava, e disse-lhe: "Irmão, mandai descascar vosso milho imediatamente, deixai os irmãos fazê-lo, e pagai-lhes com uma parte dele." Ele respondeu: "Não posso dispensar nem um pouco dele." Não tenho a menor dúvida em minha mente de que três quartos de seu milho foram para a lama e foram pisoteados pelo gado; e mulheres e crianças ficaram sem pão em consequência disso. Aquele homem não tinha discernimento, não sabia o que fazer com as bênçãos que o Senhor lhe havia concedido.

Se eu perguntasse quanto trigo, ou qualquer outra coisa, um homem deve ter para se justificar em deixá-lo se desperdiçar, seria difícil responder; os números são inadequados para dar a quantia. Nunca deixeis nada se desperdiçar. Sede prudentes, guardai tudo, e o que obtiverdes além do que podeis cuidar vós mesmos, pedi a vossos vizinhos que vos ajudem. Há dezenas e centenas de homens nesta casa que, se lhes fosse perguntado se consideravam seu grão um fardo e uma canseira para eles, quando tinham fartura no ano passado e no anterior, responderiam afirmativamente, e estavam prontos a se desfazer dele por quase nada. Como se sentem agora, com seus celeiros vazios? Se tivessem agora alguns milhares de alqueires de sobra, não os considerariam uma bênção? Considerariam. Por quê? Porque isso traria o ouro e a prata. Mas parai um momento, e suponde que tivésseis milhões de alqueires para vender, e pudésseis vendê-los a vinte dólares o alqueire, ou a um milhão de dólares o alqueire, não importa a quantia, de modo que vendêsseis todo o vosso trigo e o transportásseis para fora do país, e vos restasse apenas uma pilha de ouro — que bem vos faria isso? Não poderíeis comê-lo, bebê-lo, vesti-lo, ou levá-lo convosco para onde pudésseis ter algo para comer. Virá o tempo em que o ouro não terá comparação em valor com um alqueire de trigo. O ouro não se compara a ele em valor. Por que vos seria precioso agora? Simplesmente porque podeis obter ouro por ele? O ouro não serve para nada, senão na medida em que os homens o valorizam. Não é melhor do que um pedaço de ferro, um pedaço de calcário, ou um pedaço de arenito, e não é nem a metade tão bom quanto o solo do qual tiramos nosso trigo e outras necessidades da vida. Os filhos dos homens o amam, cobiçam-no, são ávidos por ele, e estão prontos a se destruir, e a destruir aqueles ao seu redor sobre os quais têm alguma influência, para obtê-lo.

Quando este povo é abençoado tanto que considera suas bênçãos um fardo e uma canseira, podeis sempre esperar uma guerra de grilos, uma guerra de gafanhotos, uma seca, chuva demais, ou algo mais que faça a balança pender para o outro lado. Este povo tem sido abençoado demais, de modo que não soube o que fazer com suas bênçãos.

Que ouvimos dos habitantes dos diferentes povoados? O clamor é — "Não desejo viver lá longe, pois não há chance de especular e comerciar com os emigrantes." Tendes fartura para comer? Tendes fartura de trigo, aves, manteiga, queijo e bezerros? Não estais criando gado em abundância para carne de várias espécies? De que serve o ouro, quando tendes o suficiente para comer, beber e vestir sem ele? Qual é o problema? "Ora, estamos bem longe, e não podemos ficar ricos de uma só vez." Cobiçais aquilo que não sabeis o que fazer, pois poucos homens sabem o que fazer com riquezas quando as possuem. Os habitantes deste vale o comprovaram. Comprovaram-no por seu desperdício irrefletido dos produtos da terra, por subestimarem as bênçãos que lhes foram conferidas pela emigração, que lhes forneceu roupas e outras necessidades. Podemos ver homens que podem vestir-se a si mesmos e a suas famílias com facilidade, entrarem nos cânions com suas calças de fazenda fina para buscar lenha, ou podeis vê-los montar a cavalo sem sela até rasgá-las em pedaços, de modo que já não servem para vir à reunião. Não sabem cuidar de boa vestimenta. De novo, se amanhã estivéssemos cavando um canal de água que exigisse todas as mãos, em consequência da subida da água, não tenho dúvida de que veríeis o que vi outro dia — um de nossos jovens almofadinhas, que talvez não valesse a camisa nas costas, veio trabalhar num canal de água, vestido em suas finas calças de fazenda, e uma fina camisa de peitilho, e não tenho dúvida de que teria usado luvas também, se tivesse um par. Vereis homens desta espécie, que são sem discernimento, de bom coração, sujeitos honestos, e prontos a fazer qualquer coisa pelo avanço do bem público, começarem a cavar na lama e no molhado, com suas belas roupas, e entrarem na água até os joelhos, com suas finas botas de couro de bezerro. Isto é um desperdício sem sentido das bênçãos de Deus, que não pode se justificar aos olhos dele, nem aos olhos dos homens prudentes e ponderados, em circunstâncias comuns. Se a prudência e a economia são necessárias em algum tempo mais do que em outro, é quando uma família ou uma nação é lançada sobre seus próprios recursos, como estamos nós. Mas podeis percorrer toda a vida de alguns homens, e vos será impossível apontar um único período em que soubessem apreciar e usar mesmo os confortos comuns da vida, quando os tinham, para não falar de uma abundância de riqueza.

De novo, tem havido mais contenda e problema entre vizinhos, nestes vales, a respeito de propriedade excedente que não era necessária a este povo, do que qualquer outra coisa. Por exemplo, uma viúva vem para cá dos Estados Unidos, e solta na pastagem além do Jordão três juntas de bois e algumas vacas, pois considera que é pobre demais para tê-los apascentados por outrem. De novo, um homem chega com dez juntas de bois; ele também as solta para vagarem onde quiserem. Se lhe perguntam por que não as coloca sob pastoreio, dirá: "Não quero pagar a taxa de pastoreio." Outro chega com três ou quatro parelhas de cavalos, e vinte ou trinta juntas de gado. Tem algum para vender? Não, mas solta todos na pastagem, e desaparecem. Depois de um tempo, manda um rapaz a cavalo procurá-los, que fracassa em encontrá-los após uma semana de labuta. O dono sai ele mesmo, com todas as mãos, para procurar seu rebanho, mas também fracassam em encontrá-lo, está todo perdido, exceto uns bem poucos. Ele não podia tê-los apascentados por outrem, pensava, embora possuísse tanta propriedade, e nada sabia além de soltá-los para correrem soltos. Assim, ele consome seu tempo correndo atrás de sua propriedade perdida. Aflige-se, pois sua mente está continuamente nisso; está com tanta pressa pela manhã para sair à procura de seu rebanho, que não tem tempo para orar; quando volta para casa tarde da noite, esgotado pela labuta e pela ansiedade de espírito, está impróprio para orar; seu gado está perdido, sua mente está transtornada e obscurecida pela negligência de seu dever, e a apostasia o encara, pois não está satisfeito consigo mesmo, e murmura contra seus irmãos e contra seu Deus. Depois de um tempo, parte de seu gado aparece com uma marca estranha; foram apanhados e vendidos a esta ou àquela pessoa. Isto traz contenda e insatisfação entre vizinho e vizinho. Tal pessoa tem propriedade demais, mais do que sabe o que fazer. Seria muito melhor para um homem que é artífice, e pretende seguir seu ofício, dar uma de duas cabeças de gado que possa possuir a alguma pessoa, em troca de cuidar da outra. Seria melhor, para aqueles que possuem grande quantidade de gado, vender metade dele para cercar um pedaço de terra, para garantir a outra metade, do que soltá-lo todo a correr solto, e perder três quartos dele. Se há meia dúzia de homens ao meu redor, e posso pôr uma vaca a seu alcance, ou qualquer outra coisa que lhes faça bem, em troca de cercarem um lote para mim, a propriedade que assim pago não sai do mundo, mas é transferida a estes homens que não tinham um bocado de carne, manteiga, ou leite; está lhes fazendo bem, e estou colhendo o proveito e o benefício de seu trabalho em troca. Se eu não fizesse isso, teria de vê-los sofrer, ou fazer uma distribuição gratuita de parte do que tenho entre eles.

É impossível para mim dizer-vos quanto um homem deve possuir para lhe conceder a liberdade de desperdiçar qualquer coisa, ou de deixá-la ser roubada e levada pelos índios. A propriedade excedente desta comunidade, por mais pobres que sejamos, tem feito mais dano real do que tudo o mais junto.

Proporei um plano para deter o roubo de gado no tempo por vir, e é este — que aqueles que têm gado à mão se unam numa companhia, e cerquem uns cinquenta mil acres de terra, façam uma divisão de seu gado, e apliquem o que puderem poupar para cercar um grande campo, e isto dará emprego aos imigrantes que estão chegando. Quando tiverdes feito isto, formai então outra companhia, e assim continuai a cercar até que toda a terra vazia esteja substancialmente fechada.

Algumas pessoas talvez digam — "Não sei quão boa e quão alta uma cerca será necessário construir para manter os ladrões fora." Eu também não sei, senão que construais uma que mantenha o demônio fora. Construí uma cerca que os rapazes e o gado não possam derrubar, e vos asseguro que mantereis vosso rebanho. Que cada homem trace seus planos de modo a garantir o suficiente para suas necessidades presentes, e entregue o resto ao homem trabalhador; continuai fazendo melhoramentos, construindo, e fazendo fazendas, e isto não só há de avançar sua própria riqueza, mas a riqueza da comunidade.

Um homem não tem direito à propriedade que, segundo as leis da terra, legalmente lhe pertence, se não quer usá-la; não deveria possuir mais do que pode pôr a render, e fazer que faça bem a si mesmo e a seu semelhante. Quando acumulará um homem dinheiro suficiente para se justificar em salgá-lo, ou, em outras palavras, guardá-lo no baú, trancá-lo, para ali ficar, sem fazer bem algum nem a si mesmo nem a seu vizinho? É impossível a um homem fazer isso alguma vez. Nenhum homem deveria guardar consigo dinheiro ou propriedade que não possa pôr a render para o avanço daquela propriedade em valor ou quantidade, e para o bem da comunidade em que vive; se o faz, isso se torna um peso morto sobre ele, há de enferrujar, corroer e corroer sua alma, e finalmente causar sua destruição, pois seu coração está posto nisso. Todo homem que tem gado, dinheiro, ou riqueza de qualquer espécie, ossos e tendões, deveria pô-la a render. Se um homem tem o braço, o corpo, a cabeça, os componentes de um sistema que o constituem um homem trabalhador, e nada tem no mundo em que confiar senão suas mãos, que as ponha a render. Nunca escondais nada num pano, mas colocai-o para diante, para trazer um aumento. Se tendes propriedade de qualquer espécie que não sabeis o que fazer, aplicai-a em fazer uma fazenda, ou construir uma serraria ou uma fábrica de tecidos de lã, e ide com todas as forças pôr toda vossa propriedade a render.

Se tendes mais bois e outro gado do que precisais, colocai-os nas mãos de outros homens, e recebei seu trabalho em troca, e ponde esse trabalho onde há de aumentar vossa propriedade em valor.

Espero que agora tracei vossos planos para pôr homens a trabalhar que hão de chegar aqui em breve, pois haverá uma multidão deles, e todos hão de querer emprego, os que confiam em seu trabalho para o sustento; todos hão de querer algo para comer, e calcular trabalhar por isso. Em primeiro lugar, mantende o solo em boa ordem para vos produzir fartas colheitas de grão e verduras, e depois cuidai delas.

Deixai-me dizer às irmãs, àquelas que têm filhos, nunca considereis que tendes pão suficiente ao vosso redor para permitir que vossos filhos desperdicem uma casca ou uma migalha dele. Se um homem vale milhões de alqueires de trigo e milho, não é rico o bastante para permitir que sua criada varra um único grão dele para o fogo; que seja comido por algo, e volte à terra, e assim cumpra o propósito para o qual cresceu. Algumas mães encheriam uma cesta de pão para fazer um brinquedo para seus filhos, mas eu não tive farinha suficiente, no tempo de minha maior abundância, para deixar meus filhos desperdiçarem um bocado de pão com meu consentimento. Não, prefiro alimentar o maior inimigo que tenho na terra com ele, do que vê-lo ir para o fogo. Lembrai-vos disto, não desperdiceis nada, mas cuidai de tudo, guardai vosso grão, e fazei vossos cálculos, de modo que, quando os irmãos vierem dos Estados Unidos, da Inglaterra e de outros lugares, possais dar-lhes algumas batatas, cebolas, beterrabas, cenouras, pastinacas, melancias, ou qualquer outra coisa que tenhais, para confortá-los e alegrar seus corações, e, se tendes trigo, dispô-lo a eles, e recebei seu trabalho em troca. Cultivai o suficiente, e de sobra, de todas as necessidades básicas da vida, e tracei vossos planos para contratar vossos irmãos que hão de chegar neste outono para cercar vossas fazendas, melhorar vossos jardins, e embelezar vossos lotes na cidade. Tracei vossos planos para garantir o suficiente para vos alimentardes, e a um ou dois dos irmãos que estão por vir morar conosco.

Quando primeiro viemos ao vale, perguntaram-me se os homens algum dia seriam permitidos entrar nesta Igreja, e nela permanecer, e amontoar sua propriedade. Digo, não. Esta é uma resposta curta, e é direta. O homem que guarda seu ouro e prata, que o esconde num banco, ou em seu cofre de ferro, ou o enterra na terra, e vem para cá, e professa ser um santo, amarraria as mãos de cada indivíduo neste reino, e os faria seus servos, se pudesse. É um princípio iníquo, profano, ímpio, cobiçoso; é do demônio, e vem de baixo. Que toda pessoa que tem capital o ponha a render. É-lhe exigido trazer sua bolsa a mim, a algum dos Doze, ou a qualquer pessoa, e depositá-la a seus pés? Não, não por mim. Mas vos direi o que fazer com vossos meios. Se um homem chega no meio deste povo com dinheiro, que o use fazendo melhoramentos, construindo, embelezando sua herança em Sião, e aumentando seu capital ao pôr assim seu dinheiro a render. Que vá e faça uma grande fazenda, e a povoe bem, e a fortifique toda ao redor com uma boa e eficiente cerca. Para quê? Ora, com o propósito de gastar seu dinheiro. Depois que a corte em campos, e a adorne com árvores, e construa uma bela casa sobre ela. Para quê? Ora, com o propósito de gastar seu dinheiro. Que fará quando seu dinheiro se for? O dinheiro assim gasto, com mão sábia e prudente, está em situação de se acumular e aumentar cem vezes. Quando tiver terminado de fazer sua fazenda, e seus meios ainda aumentarem por seu uso diligente dela, poderá então começar e construir, por exemplo, uma fábrica de tecidos de lã; poderá mandar comprar as ovelhas e trazê-las para cá, apascentá-las aqui, tosquiá-las aqui, e cuidar delas, depois pôr os rapazes e as moças a limpar, cardar, fiar e tecer a lã em pano, e assim empregar centenas e milhares dos irmãos e irmãs que vieram dos distritos manufatureiros da velha terra, e não estavam acostumados a cavar na terra para seu sustento, que não aprenderam outra coisa senão trabalhar na fábrica. Isto os alimentaria e os vestiria, e colocaria ao seu alcance os confortos da vida; também criaria em casa um mercado estável para os produtos do agricultor, e o trabalho do artífice. Quando tiver gasto seus cento e cinquenta mil dólares, com que começou o negócio, e alimentado quinhentas pessoas, por cinco a dez anos, além de obter um belo lucro do trabalho das mãos empregadas, pelo aumento da população, e a consequente demanda aumentada por bens manufaturados, ao fim de dez anos sua fábrica valeria quinhentos mil dólares. Suponde que ele tivesse embrulhado seus cento e cinquenta mil num pano, com medo de perdê-los, isto o teria mandado à perdição, pois o princípio vem de baixo. Mas, quando ele põe seu dinheiro a render, não a mim ou a qualquer outra pessoa, mas onde se redobrará, fazendo fazendas, construindo fábricas para a manufatura de todo tipo de material necessário para o consumo doméstico, estabelecendo ferrarias e outros estabelecimentos mecânicos, fazendo melhoramentos extensos para embelezar toda a face da terra, até que se torne como o jardim do Éden, isto se torna uma bênção salvadora para ele e para os que estão ao seu redor. E, quando os reis, príncipes e governantes da terra vierem a Sião, trazendo consigo seu ouro, sua prata e suas pedras preciosas, hão de admirar e desejar vossas posses, vossas belas fazendas, vinhedos formosos e mansões esplêndidas. Dirão — "Temos fartura de dinheiro, mas somos destituídos de posses como estas." Seu dinheiro perde seu valor a seus olhos quando comparado às posses confortáveis dos santos, e hão de querer comprar vossa propriedade. O capitalista industrioso pergunta a um deles — "Quereis comprar esta propriedade? Obtive-a por minha economia e discernimento, e pelo trabalho de meus irmãos, e, em troca de seu trabalho, tenho os alimentado e vestido, até que também eles tenham situações confortáveis, e meios para viver. Tenho esta fazenda, que estou disposto a vender para poder avançar em meus outros melhoramentos." "Bem," diz o homem rico, "quanto devo vos dar por ela?" "Quinhentos mil dólares," e talvez não lhe tenha custado mais de cem mil. Ele toma o dinheiro e constrói três ou quatro fazendas semelhantes, e emprega centenas de seus irmãos que são pobres.

O dinheiro não é capital real, ele traz apenas o título. O capital verdadeiro é o trabalho, e está confinado às classes trabalhadoras. Só elas o possuem. São os ossos, os tendões, os nervos e os músculos do homem que subjugam a terra, a fazem render sua força, e atendem às suas variadas necessidades. Este poder derruba montanhas e preenche vales, constrói cidades e templos, e pavimenta as ruas. Em suma, o que há que dê abrigo e conforto ao homem civilizado que não seja produzido pela força de seu braço, fazendo os elementos curvarem-se à sua vontade?

Perguntarei novamente — Quanto deve um homem possuir para se autorizar a desperdiçar algo? Três ou quatro anos atrás, o dinheiro tinha pouco valor neste país; podíeis andar por aí exibindo uma carga de ouro nas costas, e estender um grande pedaço a um homem, ia dizer, quase tão grande quanto esta bíblia, e pedir-lhe que trabalhasse para vós, mas ele riria de vossa oferta, e vos diria que estava procurando alguém para trabalhar para ele. Chamaria então outro homem que estivera em Nauvoo, e passara pelos apertos de lá, e mal tinha uma camisa nas costas, mas que responderia — "Estava procurando algum homem que trabalhasse para mim." O ouro não podia comprar trabalho, não era tentação alguma, mas aqueles tempos já passaram. Não é agora como era então. Por isso mudo meu conselho aos irmãos. Costumava aconselhar-vos a entregar-me vossa propriedade excedente, ou aquela que não podíeis cuidar, e eu a aplicaria a um bom propósito, mas agora vos aconselho a colocá-la nas mãos de homens que nada têm, e deixá-los pagar-vos por ela em trabalho.

Nunca fui incomodado por ladrões que roubassem minha propriedade. Se não sou esperto o bastante para cuidar do que o Senhor me empresta, sou esperto o bastante para segurar minha língua a respeito, até dar de cara com o próprio ladrão, e então estou pronto para amarrar uma corda em volta de seu pescoço.

Não hesito nem um pouco em dizer que a conduta relaxada, e os cálculos, e a maneira de fazer negócios que caracterizaram homens que tiveram propriedade em suas mãos, lançaram o fundamento para levar nossos rapazes ao espírito de roubar. Vós os fizestes fazer isso, apresentastes diante deles todo incentivo possível para ensinar suas mãos e treinar suas mentes a tomar aquilo que não é seu. Aqueles jovens que foram presos na estação passada e condenados a punição ignominiosa podem traçar a causa de sua vergonha até esse fundamento. Distribuí vossa propriedade. O homem que pensa que precisa de dez juntas de bois, e só pode usar uma junta, está laborando sob um engano; deveria deixar nove juntas irem para a comunidade trabalhadora. Se todo homem fizesse isso com a propriedade que não está usando, todos estariam empregados e teriam o suficiente. Este seria o meio mais eficaz de pôr fim à prática vil de roubar gado e outra propriedade, que, como já disse, foi incentivada por homens cobiçosos e egoístas, que se recusaram a usar sua propriedade para seu próprio bem, ou o da comunidade.

Tenhamos diante da mente o avarento. Se o povo desta comunidade se sente como se quisesse o mundo inteiro para si, odiando que qualquer outra pessoa possua algo, e amontoasse sua propriedade, e a colocasse numa situação em que não beneficiaria nem a si mesmo nem à comunidade, ele é tão culpado quanto o homem que rouba minha propriedade. Podeis perguntar — "Que se deve fazer com tal caráter?" Ora, CORTAI-O DA IGREJA. Eu desassociaria um homem que tivesse recebido liberalmente do Senhor, e se recusasse a pô-lo a render. Sabemos que isto é correto.

Recordo-me bem dos dias de que falava o Irmão Grant, quando era tão difícil arrecadar cinquenta dólares para o Irmão Joseph. Também me lembro que tivemos um homem a julgamento diante do Sumo Conselho, um homem que tinha muito dinheiro, e se recusava a emprestá-lo, ou usá-lo para o avanço da causa da verdade. Não punha seu dinheiro a render. Eu estava entrando no Conselho quando ele fazia sua defesa, e ele chorava e soluçava. Seu nome era Isaac McWithy, um homem de uns cinquenta e três anos de idade. Eu o conhecia de quando morava em sua fazenda no estado de Nova York. Disse-lhes, em sua defesa, o que fizera pela causa, que sempre fora um cristão, e fizera tanto pelas igrejas e pelos sacerdotes, e fora tão liberal desde que estava nesta Igreja, o que era entre três e quatro anos. Alguns dos irmãos disseram — "Irmão McWithy, quanto pensais que já destes para o sustento do evangelho?" As lágrimas rolaram por suas faces, e ele disse: "Irmãos, creio que dei em toda minha vida duzentos e cinquenta dólares." Falei e disse: "Se eu não pudesse pregar tantos meses cada ano neste reino quanto vós tendes anos nesta Igreja, e desse não mais do que duzentos e cinquenta dólares, eu me envergonharia de mim mesmo."

Certa vez, o Irmão Joseph Young e eu viajáramos mais de duas horas na neve, e num frio penetrante, para pregar em sua vizinhança certa noite. Não tendo comido nem almoço nem jantar, fomos com ele até sua casa, e ele nunca nos pediu para comer um só bocado de ceia, embora tenha reunido coragem suficiente para descer ao porão com uma cestinha; subiu com as lágrimas quase escorrendo por suas faces, e disse com certa dificuldade — "Irmãos, comei umas maçãs." Estendeu-nos a cesta, e, quando estávamos prestes a nos servir, sua alma sovina o fez puxá-la de volta, com medo de que tomássemos alguma. Vi que não pretendia que tivéssemos nenhuma maçã, então pus a mão na cesta, e a tirei de sua mão, dizendo — "Vinde cá." Coloquei-a sobre meus joelhos, e convidei o Irmão Joseph a comer algumas maçãs. Ele conseguiu nos dar café da manhã pela manhã, e mesmo assim se levantou da mesa antes que tivéssemos tempo de terminar a metade de nosso café da manhã, para ver se não desistiríamos de comer. Eu disse — "Não importa, comerei o que quiser antes de parar."

Tenho a alegria de dizer, por meio de vosso Fiduciário, que os Santos dos Últimos Dias, na capacidade de Igreja e reino, não devem quase tanto dinheiro quanto têm em mãos. Há um ano, na Conferência de abril, devíamos mais de sessenta mil dólares, mas agora não devemos um único centavo sequer.

Que Deus nos abençoe, para que sempre tenhamos o suficiente, e saibamos o que fazer com o que temos, e como usá-lo para o bem de todos, pois eu não daria muito por propriedade a menos que soubesse o que fazer com ela.

Como citar este discursoBrigham Young, “Uso e Abuso das Bênçãos”, (1853-06-05). Pulpit Vault, 1853-06-05-young-use-and-abuse-of-blessings. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).