Vivos em Cristo
Dallin H. Oaks
I.
Neste glorioso domingo de Páscoa, escolhi falar primeiramente sobre a ressurreição, que é um pilar de nossa fé. ¶
A Ressurreição literal de Jesus é, naturalmente, o tema de tantas escrituras que acabou se tornando uma doutrina estabelecida para os que creem na Bíblia e no Livro de Mórmon. Para nós, a ressurreição universal é igualmente certa. Conforme ensina o Livro de Mórmon: ¶
“O espírito e o corpo serão novamente reunidos em sua perfeita forma; (…) ¶
Ora, esta restauração acontecerá com todos, tanto velhos como jovens, tanto escravos como livres, tanto homens como mulheres, tanto iníquos como justos” (Alma 11:43–44). ¶
Pergunto-me se apreciamos plenamente o grandioso significado dessa crença em uma ressurreição literal e universal. A convicção de que a morte não é o fim de nossa identidade muda toda a perspectiva de nossa vida mortal. Ela influencia a maneira como encaramos os desafios físicos da mortalidade. Ela nos dá a perspectiva e a força para suportarmos os desafios mortais enfrentados por cada um de nós e por aqueles a quem amamos. Significa que as deficiências mortais são apenas temporárias! Ela também nos dá a coragem de enfrentar nossa própria morte ou a de entes queridos — mesmo a morte que podemos chamar de prematura. ¶
Nossa crença na ressurreição também nos incentiva a cumprir nossas responsabilidades familiares na mortalidade. Ela nos ajuda a conviver em amor nesta vida, antecipando os alegres convívios e reencontros que teremos na vida futura. Todas essas verdades foram pregadas nesta sessão da conferência com grande clareza. ¶
II.
Viver dignamente para nos encontrarmos com Cristo não é uma tarefa fácil. Muitos escritores atuais descrevem a época em que vivemos como “tóxica”, uma época de “desprezo” ou “hostilidade” para com os adversários. Essa hostilidade afeta muitos relacionamentos diferentes na sociedade, envolvendo muitas pessoas cujas crenças cristãs deveriam orientá-las de uma maneira diferente. ¶
Nosso Salvador, Jesus Cristo, ensinou-nos como nos relacionarmos uns com os outros. Os grandes mandamentos da lei, Ele ensinou, eram amar — a Deus e ao próximo (ver Mateus 22:37–39). ¶
Quando perguntaram a Jesus: “E quem é o meu próximo?”, Ele respondeu com uma parábola que elogiava a ação misericordiosa de um samaritano, que fazia parte de um grupo que os judeus isolavam e desprezavam (ver Lucas 10:29–37). Mas os ensinamentos de Jesus sobre o círculo de amor iam muito além dos samaritanos. No Sermão da Montanha, Ele declarou: ¶
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. ¶
Eu vos digo, porém: Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mateus 5:43–44). ¶
Que ensinamento revolucionário sobre relacionamentos pessoais! Amar até os nossos inimigos! Mas quem são nossos inimigos? O significado completo de inimigos, derivado das fontes das quais os tradutores da versão do rei Jaime escolheram a palavra inimigos, incluía oponentes militares e outros que eram hostis ou que simplesmente trabalhavam ativamente contra os interesses de outras pessoas. Hoje podemos dizer que recebemos o mandamento de amar nossos adversários. Todos os seres mortais são filhos amados de Deus. Como o presidente David O. McKay ensinou, “não há melhor maneira de manifestar amor a Deus que mostrar amor abnegado ao próximo.”1 ¶
Testemunhei esse amor incomum a um adversário em uma conferência de estaca há muitos anos. Ao olhar para as pessoas na congregação antes do início da reunião, tive uma impressão incomum de convidar uma determinada mulher que estava usando um vestido amarelo para discursar. Perguntei ao presidente da estaca se ele achava que aquela mulher daria um discurso adequado se fosse chamada. Ele disse que achava que sim. A meu pedido, ele posteriormente a convidou da congregação para fazer um breve discurso. ¶
Quando ela veio à frente, fiquei apreensivo com o que ela poderia dizer. Ela se apresentou como uma enfermeira responsável por cuidar de pacientes em uma unidade de cuidados intensivos. Entre os seus pacientes estava um que ela descreveu como “o homem mais repulsivo” que ela já tinha conhecido. (Eu fiquei imaginando aonde isso ia chegar.) Mesmo acamado, ele fazia tudo o que podia para tornar a vida das enfermeiras que cuidavam dele um verdadeiro tormento — incluindo o uso de linguagem ofensiva, cuspir no chão e insultá-las constantemente de outras formas repugnantes. Ela o detestava. ¶
Certa noite, ela ouviu um forte estrondo vindo do quarto daquele homem. Ao reagir, ela correu até lá e ficou chocada ao encontrá-lo caído da cama, debatendo-se em meio a cacos de vidro, líquidos e sangue. Uma mudança profunda tomou conta dela. Ela sentiu como uma corrente elétrica de amor de nosso Pai Celestial por aquele homem. Ela passou a vê-lo como um filho de Deus. ¶
Enquanto ela se ajoelhou, segurou-o nos braços e tentou lhe dar conforto, ele disse: “Quero ir para casa. Eu só quero ir para casa.” Pouco tempo depois, ele faleceu. Ela testificou que passar a ver alguém que ela detestava como um filho de Deus foi uma das maiores experiências espirituais de sua vida. Para mim, essa foi uma lição que eu precisava aprender sobre o amor de nosso Pai Celestial por todos os Seus filhos. Essa lição pode transformar todos nós, levando-nos a ver uns aos outros como filhos de Deus, já que pertencemos uns aos outros. ¶
Anos depois, o presidente Howard W. Hunter descreveu esse mesmo amor de Deus por Seus filhos: “O mundo seria grandemente beneficiado se todos os homens e mulheres praticassem o puro amor de Cristo, que é bondoso, humilde e manso. (…) [Ele] não dá lugar à intolerância, ao ódio e à violência. (…) [Ele] incentiva povos diferentes a viverem juntos no amor cristão, a despeito de crenças religiosas, raça, nacionalidade, situação financeira, nível de educação e cultura.”2 ¶
III.
Cada um de nós pode se esforçar para seguir nosso Salvador em Seus ensinamentos a respeito de como nos relacionarmos uns com os outros. Isso não significa abrir mão de nossos valores. Os convênios que fizemos inevitavelmente nos colocam como participantes dedicados na eterna luta entre a verdade e o erro. Precisamos equilibrar nossas várias responsabilidades. ¶
Esse equilíbrio não é fácil. Quando procuramos guardar todos os mandamentos em nossa vida pessoal, às vezes somos acusados de não ter amor por aqueles que não os guardam. Quando demonstramos amor pessoal e apoiamos causas que promovem o amor, às vezes somos mal compreendidos, como se estivéssemos apoiando resultados que contradizem outros deveres religiosos. Porém, como seguidores de Cristo, devemos procurar viver em paz e amor com outros filhos de Deus que não compartilham de nossos valores e não têm as obrigações dos convênios que fizemos. Em um governo democrático, devemos buscar “o que é justo para todos.” Em muitas circunstâncias, a desconfiança — ou até mesmo a hostilidade — entre desconhecidos gradualmente dá lugar à amizade quando o contato pessoal gera respeito mútuo. ¶
O profeta Joseph Smith ensinou que devemos “derramar amor” a todas as pessoas.3 Falando de nosso Salvador, o apóstolo João escreveu: “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Podemos seguir o exemplo de Jesus Cristo, que é nossa inspiração, escolhendo amar as outras pessoas — mesmo que elas demonstrem pouco ou nenhum amor por nós. Ele declarou: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9; ver também 3 Néfi 12:9). ¶
Pacificadores! Como o mundo seria diferente se os seguidores de Cristo deixassem de usar palavras duras e ofensivas em todas as suas interações. ¶
Como podemos ser pacificadores? ¶
Um bispo que busca curar um casamento conturbado ou resolver um conflito pessoal está promovendo a paz. ¶
Rapazes e moças se tornam pacificadores quando abrem mão dos prazeres temporários de atividades egoístas e se dedicam a projetos de serviço e a outros atos de bondade. ¶
Pessoas que procuram reduzir o sofrimento humano e pessoas que trabalham para promover o entendimento entre diferentes povos também são importantes pacificadores. Assim também o são pais e mães fiéis que cuidam amorosamente de seus próprios filhos ou acolhem crianças em lares temporários e as criam em retidão, em vez de deixá-las serem marcadas e prejudicadas pelos pecados de outras pessoas. ¶
Nossos missionários buscam ser pacificadores. Eles pregam arrependimento quanto à corrupção pessoal, à ganância e à opressão, pois somente por meio da reforma individual toda a sociedade poderá, com o tempo, vencer esses males. Ao convidarem todas as pessoas a se arrependerem e a se achegarem a Cristo, nossos missionários trabalham pela paz ao ajudar homens e mulheres a se achegarem a Cristo e a vivenciarem uma “vigorosa mudança” de coração e de comportamento (ver Mosias 5:2). ¶
Meus irmãos e irmãs, como seguidores de Cristo, que O sigamos abandonando a contenda e adotando a linguagem e os métodos dos pacificadores. Em nossa família e em outros relacionamentos pessoais, evitemos tudo o que é agressivo e que leva ao ódio. Que busquemos ser santos, assim como nosso Salvador, em cujo santo nome, o nome de Jesus Cristo, presto meu testemunho, amém. ¶
Notes
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Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: David O. McKay, 2003, p. 198. ↩
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Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Howard W. Hunter, 2015, p. 265. ↩
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Joseph Smith, "Diário, dezembro de 1842–1844, Livro 3, 15 de julho de 1843–29 de fevereiro de 1844", p. 139, josephsmithpapers.org. ↩
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Russell M. Nelson, "Precisa-se de pacificadores", Liahona, maio de 2023, p. 99. ↩