Pulpit

Simplicidade em Cristo

Michael Cziesla

Conferência Geral de Outubro de 2025·Saturday Afternoon Session·2025-10-04

1. Introdução

Há trinta e três anos, recebi o chamado para servir como missionário na Missão Utah Ogden. É claro que, por eu ter vindo da Europa, algumas tradições de Utah, como a “gelatina verde com cenouras” e as “funeral potatoes”1 , eram um tanto peculiares!

Contudo, fiquei profundamente impressionado com a devoção e o discipulado de muitos dos santos, com o grande número de pessoas que frequentavam as reuniões da Igreja e com a dimensão dos programas da Igreja em pleno funcionamento. Quando minha missão terminou, eu queria garantir que a alegria que senti e a força e maturidade espirituais que observei também estivessem disponíveis para minha futura família. Estava determinado a retornar rapidamente para viver minha vida “à sombra das colinas eternas”.2

Entretanto, o Senhor tinha planos diferentes. No meu primeiro domingo em casa, meu sábio bispo me chamou para servir como presidente dos Rapazes em nossa ala. Ao servir àquele maravilhoso grupo de jovens, aprendi rapidamente que a alegria que sentimos de ser um discípulo de Cristo tem pouco a ver com o tamanho das reuniões da Igreja ou com a magnitude dos programas.

Então, quando me casei com minha bela esposa, Margret, decidimos com alegria permanecer na Europa e criar nossa família em nosso país natal, a Alemanha. Juntos, testemunhamos o que o presidente Russell M. Nelson ensinou há muitos anos: “A alegria que sentimos tem pouco a ver com as circunstâncias de nossa vida e tem tudo a ver com o enfoque de nossa vida”.3 Quando o foco de nossa vida está em Cristo e em Sua mensagem do evangelho, podemos vivenciar todas as bênçãos do discipulado onde quer que vivamos.

2. A simplicidade que há em Cristo

Entretanto, em um mundo cada vez mais secular, complexo e confuso, com mensagens e exigências diferentes e muitas vezes conflitantes, como podemos evitar que nossos olhos se tornem cegos e nosso coração endurecido e manter nossa atenção nas “coisas claras e (…) preciosas” do evangelho de Jesus Cristo?4 Durante um período de confusão, o apóstolo Paulo deu um grande conselho aos santos de Corinto, lembrando-os de manterem o foco na “simplicidade que há em Cristo”.5

A doutrina de Cristo e a lei do evangelho são tão simples que até mesmo as crianças podem compreendê-las. Podemos ter acesso ao poder redentor de Jesus Cristo e receber todas as bênçãos espirituais que nosso Pai Celestial preparou para nós ao exercermos fé em Jesus Cristo, arrependermo-nos, sermos batizados, sermos santificados pelo dom do Espírito Santo e perseverarmos até o fim.6 O presidente Nelson descreveu essa jornada de forma tão bela como o “caminho do convênio”7 e o processo de se tornar um “[discípulo devotado] de Jesus Cristo”.8

Se essa mensagem é tão simples, por que muitas vezes parece tão desafiador viver a lei de Cristo e seguir Seu exemplo? Pode ser que interpretemos mal a simplicidade, como se fosse algo fácil de alcançar sem esforço ou diligência. Seguir a Cristo exige esforço constante e mudança contínua. Precisamos “[despojar-nos] do homem natural e [tornar-nos] (…) como uma criança”.9 Isso inclui colocarmos nossa confiança no Senhor10 e deixarmos de lado a complexidade, assim como fazem as crianças.11 Aplicar a doutrina de Cristo de maneira simples e centrada vai nos ajudar a encontrar alegria em nossa vida diária, receber orientação em nossos chamados, obter respostas para algumas das questões mais complexas da vida e ter força para enfrentarmos nossas maiores dificuldades.

Mas como implementar com praticidade essa simplicidade em nossa jornada como discípulos de Jesus Cristo por toda a vida? O presidente Nelson nos lembrou de nos concentrarmos na “verdade pura, doutrina pura e revelação pura”12 ao buscarmos seguir o Salvador. Perguntar regularmente: “O que o Senhor Jesus Cristo gostaria que eu fizesse?” revelará uma profunda orientação. Seguir Seu exemplo fornece um caminho seguro através da incerteza13 e uma amorosa e orientadora mão para segurarmos dia após dia. Ele é o Príncipe da Paz e o Bom Pastor.14 Ele é nosso Consolador e nosso Libertador.15 Ele é nossa Rocha e nosso Refúgio.16 É um Amigo — seu amigo e meu amigo!17 Ele convida todos nós a amar a Deus, guardar Seus mandamentos e amar o próximo.18

À medida que escolhemos seguir Seu exemplo e seguimos adiante com fé em Cristo, aceitamos o poder de Sua Expiação e nos lembramos de nossos convênios, o amor enche nosso coração, a esperança e a cura elevam nosso espírito, e a amargura e a tristeza são substituídas pela gratidão e pela paciência de esperarmos pelas bênçãos prometidas. Em alguns momentos, talvez precisemos nos afastar de uma situação prejudicial ou buscar ajuda profissional. Mas, em todos os casos, aplicar princípios simples do evangelho vai nos ajudar a enfrentar essas dificuldades da vida à maneira do Senhor.

Às vezes, subestimamos a força que recebemos por meio de atos simples, como oração, jejum, estudo das escrituras, arrependimento diário, tomar o sacramento semanalmente e adoração frequente na Casa do Senhor. Mas quando reconhecemos que não precisamos fazer algo grandioso19 e nos concentramos em aplicar a doutrina pura e simples, começamos a ver como o evangelho “é maravilhoso”20 para nós mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras. Encontramos força e “confiança diante de Deus”21 mesmo quando passamos por aflições. O élder M. Russell Ballard nos lembrou muitas vezes que “é nessa simplicidade que [encontraremos] a paz, a alegria e a felicidade”.22

Aplicar a simplicidade que há em Cristo nos faz priorizar as pessoas acima dos processos e os relacionamentos eternos acima dos comportamentos de curto prazo.23 Concentramo-nos nas “coisas que mais importam”24 na obra de salvação e exaltação de Deus em vez de nos concentrarmos demais em administrar nosso ministério. Tornamo-nos livres para priorizar as coisas que podemos fazer em vez de nos sobrecarregar com aquilo que não podemos fazer. O Senhor nos lembrou: “Portanto, não vos canseis de fazer o bem, porque estais lançando o alicerce de uma grande obra. E de pequenas coisas provém aquilo que é grande”.25 Que poderoso incentivo para agir com simplicidade e humildade, quaisquer que sejam nossas circunstâncias.

3. Oma Cziesla

Minha avó Marta Cziesla foi um exemplo maravilhoso de como realizar “coisas pequenas e simples” para que grandes coisas fossem realizadas.26 Carinhosamente, nós a chamávamos de Oma Cziesla. No dia 30 de maio de 1926, na pequena vila de Selbongen, na Prússia Oriental, Oma e minha bisavó aceitaram o evangelho.

Marta Cziesla (à direita) no dia de seu batismo.

Ela amava o Senhor e Seu evangelho e estava determinada a cumprir os convênios que havia feito. Em 1930, casou-se com meu avô, que não era membro da Igreja. Naquele momento, tornou-se impossível para Oma frequentar as reuniões da Igreja, porque a fazenda de meu avô ficava muito longe da ala mais próxima. Mas ela se concentrou naquilo que podia fazer. Oma continuou a orar, estudar as escrituras e cantar os hinos de Sião.

Algumas pessoas poderiam ter pensado que ela não estava mais ativa em sua fé, mas isso estava longe de ser verdade. Quando minha tia e meu pai nasceram, sem o sacerdócio em casa e sem as reuniões da Igreja ou acesso próximo às ordenanças, ela novamente fez o que podia e se concentrou em ensinar seus filhos “a orar e a andar em retidão perante o Senhor”.27 Ela lia as escrituras, cantava os hinos de Sião e, naturalmente, orava com eles — todos os dias. A vivência da Igreja foi totalmente centrada no lar.

Em 1945, meu avô estava servindo na guerra, longe de casa. Quando os inimigos se aproximaram da fazenda, Oma pegou seus dois filhos pequenos e deixou para trás a fazenda tão amada em busca de refúgio em um lugar mais seguro. Depois de uma jornada difícil e que punha sua vida em risco, eles finalmente encontraram refúgio no norte da Alemanha, em maio de 1945. Não lhes restava nada além das roupas do corpo. Mas Oma continuou a fazer o que era podia: orava com seus filhos — todos os dias. Ela cantava os hinos de Sião que havia memorizado — todos os dias.

A vida era extremamente difícil e, por muitos anos, o foco foi simplesmente garantir que houvesse comida na mesa. Mas em 1955, meu pai, então com 17 anos de idade, estava frequentando uma escola técnica na cidade de Rendsburg. Ele passou na frente de um edifício e viu uma pequena placa do lado de fora em que se lia: “Kirche Jesu Christi der Heiligen der Letzten Tage” — “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”. Ele pensou: “Que interessante; essa é a igreja da minha mãe”. Assim, quando voltou para casa, contou à Oma que havia encontrado a igreja dela.

Vocês podem imaginar como ela deve ter se sentido depois de quase 25 anos sem contato com a Igreja. Ela estava decidida a ir no domingo seguinte e convenceu meu pai a acompanhá-la. Rendsburg ficava a mais de 32 quilômetros da pequena vila onde moravam. Mas isso não impediria Oma de frequentar a Igreja. No domingo seguinte, ela subiu em sua bicicleta junto com meu pai e foi até a igreja.

Quando a reunião sacramental começou, meu pai se sentou na última fileira, esperando que terminasse logo. Afinal, aquela era a igreja da Oma e não a dele. O que ele viu não foi muito animador: apenas algumas mulheres idosas presentes e dois jovens missionários que, na prática, conduziam toda a reunião. Mas então começaram a cantar os hinos de Sião que meu pai ouvia desde menino: “Vinde, ó santos”,28 “Ó meu Pai”,29 “Hoje, ao profeta louvemos”.30 Ao ouvir aquele pequeno rebanho cantar os hinos de Sião que ele conhecia desde a infância, seu coração foi tocado, e ele soube de imediato, sem qualquer dúvida, que a Igreja era verdadeira.

A primeira reunião sacramental que minha avó assistiu depois de 25 anos foi aquela em que meu pai recebeu uma confirmação pessoal da veracidade do evangelho restaurado de Jesus Cristo. Ele foi batizado com o meu avô e minha tia, três semanas depois, em 25 de setembro de 1955.

Já se passaram mais de 70 anos desde aquela pequena reunião sacramental em Rendsburg. Penso frequentemente na Oma, em como ela devia se sentir naquelas noites solitárias, fazendo coisas pequenas e simples como orar, ler e cantar. Estar aqui hoje na conferência geral e falar a respeito de minha Oma, de sua determinação em guardar seus convênios e confiar no Senhor apesar de suas dificuldades, enche meu coração com humildade e gratidão — não apenas por ela, mas por tantos de nossos maravilhosos santos em todo o mundo, que se concentram na simplicidade em Cristo em meio a suas circunstâncias desafiadoras, talvez vendo poucas mudanças agora, mas confiando que grandes coisas logo devem acontecer.

4. Coisas pequenas e simples

Aprendi, por meio da minha própria experiência, que as coisas pequenas e simples do evangelho, quando concentradas fielmente em Cristo, conduzem à verdadeira alegria, realizam grandes milagres e nos dão a certeza de que todas as bênçãos prometidas serão cumpridas. Esse princípio é tão verdadeiro para vocês quanto é para mim. Nas palavras do presidente Jeffrey R. Holland: “Algumas bênçãos nos vêm logo, outras vêm depois, e outras não chegam a nós nesta existência; mas, para os que aceitam o evangelho de Jesus Cristo, elas certamente virão”.31 Presto testemunho disso em nome de Jesus Cristo, amém.

Notes

  1. A gelatina verde com cenouras é um prato tradicional em Utah, no qual cenouras raladas são acrescentadas à gelatina enquanto esfria; já as chamadas "funeral potatoes" consistem em um prato de batatas coberto com flocos de milho (ver Rachel E. Teixeira, "Utah Food Lore", Y Magazine [verão de 2022], magazine.byu.edu). ↩

  2. Referência à famosa frase final do programa Música & e Palavra Proferida, apresentada pela primeira vez por Richard L. Evans: "Mais uma vez nos despedimos de dentro das sombras das colinas eternas. Que a paz os acompanhe (…) hoje e sempre". ↩

  3. Russell M. Nelson, "Alegria e sobrevivência espiritual", A Liahona, novembro de 2016, p. 82. ↩

  4. 1 Néfi 13:28; ver também os versículos 26–27, 29. ↩

  5. 2 Coríntios 11:3. ↩

  6. Ver Pregar Meu Evangelho: Um Guia para Compartilhar o Evangelho de Jesus Cristo, 2023, p. 61 e Regras de Fé 1:4. Com relação à lei do evangelho, ver também Manual Geral: Servir em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, item 27.2, Biblioteca do Evangelho. ↩

  7. "Continue no caminho do convênio" foi a mensagem do presidente Russell M. Nelson a todos os membros da Igreja durante seu primeiro discurso como presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Ver "Ao seguirmos adiante juntos", Liahona, abril de 2018, p. 6). Ver também Russell M. Nelson, "Vem, e segue-me", Liahona, maio de 2019, p. 88. ↩

  8. Russell M. Nelson, "O Senhor Jesus Cristo voltará", Liahona, novembro de 2024, p. 122. ↩

  9. Mosias 3:19. ↩

  10. Ver Provérbios 3:5. ↩

  11. Ver as considerações do élder Patrick Kearon durante uma visita recente às Filipinas (vídeo em "Elder Patrick Kearon Concludes His Ministry to the Philippines", Newsroom, 20 de julho de 2025, newsroom.ChurchofJesusChrist.org). ↩

  12. Russell M. Nelson, "Verdade pura, doutrina pura e revelação pura", Liahona, novembro de 2021, p. 6. ↩

  13. Ver Provérbios 3:6. ↩

  14. Ver Isaías 9:6; João 11–14. ↩

  15. Ver Salmos 144:2; Isaías 49:13. ↩

  16. Ver Deuteronômio 32:4; Salmos 91:2. ↩

  17. Ver Doutrina e Convênios 93:45. ↩

  18. Ver Mateus 22:36–40; João 14:15; ver também Gary E. Stevenson, "Uma ponte entre os dois grandes mandamentos", Liahona, maio de 2024, p. 104. ↩

  19. Ver 2 Reis 5:13. ↩

  20. Dieter F. Uchtdorf, "É maravilhoso!", A Liahona, novembro de 2015, p. 23. ↩

  21. Russell M. Nelson, "Confiança na presença de Deus", Liahona, maio de 2025, p. 127. ↩

  22. M. Russell Ballard, "O verdadeiro, puro e simples evangelho de Jesus Cristo", Liahona, maio de 2019, p. 30. ↩

  23. O presidente Thomas S. Monson nos lembrou de "nunca [permitirmos] que um problema a ser resolvido se torne mais importante do que uma pessoa a ser amada" ("Alegria na jornada", A Liahona, novembro de 2008, p. 86). ↩

  24. M. Russell Ballard, "Lembrar-se das coisas que mais importam", Liahona, maio de 2023, p. 106; Dieter F. Uchtdorf, "As coisas que mais importam", A Liahona, novembro de 2010, p. 21. ↩

  25. Doutrina e Convênios 64:33. ↩

  26. Alma 37:6. ↩

  27. Doutrina e Convênios 68:28. Para a história completa, ver Armin L. Cziesla, Meine Lebensgeschichte (My History), 2021. ↩

  28. "Vinde, ó santos", Hinos, nº 20. ↩

  29. "Ó meu Pai", Hinos, nº 177. ↩

  30. "Hoje, ao profeta louvemos", Hinos, nº 14. ↩

  31. Jeffrey R. Holland, "O sumo sacerdote dos bens futuros", A Liahona, janeiro de 2000, p. 45. ↩

Como citar este discursoMichael Cziesla, “Simplicidade em Cristo”, Conferência Geral de Outubro de 2025, Saturday Afternoon Session (2025-10-04). Pulpit Vault, 2025-10-cziesla-simplicity-in-christ. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).