\"Eles são seus próprios árbitros\"
David A. Bednar
O Livro de Mórmon termina com convites inspiradores de Morôni para “[vir] a Cristo”, “[ser] aperfeiçoados nele”, “[negar] a toda iniquidade” e “[amar] a Deus com todo o [nosso] poder, mente e força”.1 É interessante observar que a última frase dessa instrução antecipa tanto a Ressurreição quanto o Julgamento Final. ¶
Fico intrigado com o uso que Morôni faz da palavra “agradável”3 para descrever o Julgamento Final. Outros profetas do Livro de Mórmon também descrevem o Julgamento como “glorioso dia”4 e algo que devemos “[olhar] para o futuro com os olhos da fé”.5 No entanto, quando antecipamos o Dia do Julgamento, outras descrições proféticas vêm à mente, como “vergonha e terrível culpa”6, “terrível espanto e medo”7 e “miséria eterna”.8 ¶
Acredito que esse claro contraste na linguagem indica que a doutrina de Cristo permitiu a Morôni e a outros profetas esperar por aquele grande dia com esperança e entusiasmo, em vez do temor contra o qual advertiram os que não estivessem espiritualmente preparados. O que Morôni entendeu que nós precisamos aprender? ¶
O plano de felicidade do Pai
O termo “arbítrio moral” é instrutivo. Os sinônimos para a palavra “moral” incluem: “bom”, “honesto” e “virtuoso”.17 Os sinônimos para a palavra “arbítrio” incluem: “ação”, “atividade” e “trabalho”.18 Portanto, o “arbítrio moral” pode ser entendido como a habilidade e o privilégio de escolher e de agir por nós mesmos de modo bom, honesto, virtuoso e verdadeiro.19 ¶
A Terra foi criada como um lugar onde os filhos do Pai Celestial poderiam ser testados para ver se eles fariam “todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes [ordenasse]”.22 O propósito principal da Criação e de nossa existência mortal é nos proporcionar a oportunidade de agir e nos tornar o que o Senhor nos convida a nos tornarmos. ¶
O Senhor instruiu Enoque: ¶
“Olha estes teus irmãos; eles são a obra de minhas próprias mãos e eu dei-lhes seu conhecimento no dia em que os criei; e no Jardim do Éden dei ao homem seu arbítrio; ¶
Os propósitos fundamentais para o exercício do arbítrio são o de amar uns aos outros e o de escolher a Deus. E esses dois propósitos estão alinhados com precisão com o primeiro e o segundo grande mandamento de amar a Deus com todo nosso coração, nossa alma e nosso pensamento, e de amar nosso próximo como a nós mesmos.24 ¶
Lembrem-se de que somos ordenados — não apenas admoestados ou aconselhados, mas ordenados — a usar nosso arbítrio para amar uns aos outros e escolher a Deus. Gostaria de sugerir que nas escrituras, “moral”, como palavra modificadora, não é meramente um adjetivo, mas talvez também uma diretriz divina sobre como nosso arbítrio deve ser usado. ¶
O conhecido hino “Faze o bem, escolhendo o que é certo”25 tem esse título por uma razão. Não recebemos a bênção do arbítrio moral para escolher tudo o que quisermos, sempre que quisermos. Em vez disso, de acordo com o plano do Pai, recebemos o arbítrio moral para buscar a verdade eterna e agir de acordo com ela. Sendo “[nossos] próprios árbitros”,26 devemos nos ocupar zelosamente em boas causas, “fazer muitas coisas de [nossa] livre e espontânea vontade e realizar muita retidão”.27 ¶
A importância eterna do arbítrio moral é destacada no relato encontrado nas escrituras a respeito do conselho pré-mortal. Lúcifer se rebelou contra o plano do Pai para Seus filhos e procurou destruir o poder de agir independente. De maneira significativa, a rebeldia do diabo estava concentrada diretamente no princípio do arbítrio moral. ¶
O plano egoísta do adversário era tirar dos filhos de Deus a capacidade de se tornarem “seus próprios árbitros” e de poderem agir em retidão. Sua intenção era fazer com que os filhos do Pai Celestial fossem objetos que só poderiam receber a ação. ¶
Fazer e tornar-se
O presidente Dallin H. Oaks ressaltou que o evangelho de Jesus Cristo nos convida a conhecermos e nos tornarmos algo por meio do exercício justo do arbítrio moral. Ele disse: ¶
“Em muitas passagens da Bíblia e das escrituras modernas, lemos sobre um juízo final em que todas as pessoas serão recompensadas de acordo com seus atos, suas obras ou os desejos de seu coração. Mas outras escrituras ampliam essa ideia e afirmam que seremos julgados pela condição que tivermos alcançado. ¶
O profeta Néfi descreveu o Julgamento Final com base no que nos tornamos: ‘E se suas obras tiverem sido imundas, eles serão imundos; e se forem imundos, não poderão habitar o reino de Deus’ [1 Néfi 15:33; grifo do autor]. Morôni declarou: ‘Aquele que é imundo ainda será imundo; e aquele que é justo ainda será justo’ [Mórmon 9:14; grifo do autor]”. ¶
A Expiação do Salvador
Alma declarou: “Começai a acreditar no Filho de Deus, que ele virá para remir seu povo e que ele sofrerá e morrerá para expiar os pecados deles; e que ele se levantará dos mortos, proporcionando-nos a ressurreição; que todos os homens comparecerão diante dele, a fim de serem julgados no último dia, o dia do julgamento final, segundo suas obras”.33 ¶
“Cremos que, por meio da Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho.”34 Devemos ser profundamente gratos pelo fato de que nossos pecados e atos iníquos não se levantarão como testemunho contra nós, se realmente “[nascermos] de novo”35, exercermos fé no Redentor, arrependermo-nos com “sinceridade de coração”36 e “verdadeira intenção”,37 e se “[perseverarmos] até o fim”.38 ¶
Temor do Senhor39
Muitos podem achar que nossa presença diante do tribunal do Juiz Eterno será semelhante a um julgamento aqui na Terra. Um juiz vai presidir. Evidências serão apresentadas. Será dado um veredito. E, até que nos seja revelado o resultado final, provavelmente sentiremos incerteza e temor. Mas acredito que tal caracterização seja imprecisa. ¶
O temor justo abrange um sentimento profundo de reverência e veneração pelo Senhor Jesus Cristo,42 a obediência a Seus mandamentos43 e a expectativa do Julgamento Final e da justiça nas mãos Dele. O temor do Senhor advém da compreensão correta da natureza e missão divinas do Redentor, do desejo de submeter nossa vontade à Dele e da compreensão de que todo homem e toda mulher prestarão contas de seus desejos, seus pensamentos, suas palavras e suas ações44 no Dia do Julgamento.45 ¶
Se nossos desejos tiverem sido justos e nossas obras, boas — isto é, se tivermos exercido fé em Jesus Cristo, feito e guardado convênios com Deus e nos arrependido de nossos pecados —, então o tribunal do julgamento será agradável.48 Como declarou Enos, estaremos “[na presença do Redentor]; então [veremos] a sua face com prazer”.49 E, no último dia, seremos “[recompensados] com retidão”.50 ¶
Por outro lado, se nossos desejos tiverem sido maus e nossas obras, pecaminosas, o tribunal do julgamento será motivo de grande temor. Teremos um “conhecimento perfeito”51, uma “viva lembrança”52 e um “vivo sentimento de [nossa] própria culpa”.53 “Não nos atreveremos a olhar para o nosso Deus; e dar-nos-íamos por felizes se pudéssemos ordenar às pedras e montanhas que caíssem sobre nós, para esconder-nos de sua presença.”54 E, no último dia, teremos a “[nossa] recompensa do mal”.55 ¶
Promessa e testemunho
Entender que o Julgamento Final pode ser agradável não é uma bênção exclusiva para Morôni. ¶
Alma descreveu as bênçãos prometidas, disponíveis a todo discípulo dedicado ao Salvador. Ele disse: ¶
“O significado da palavra restauração é restituir o mal ao mal ou o carnal ao carnal ou o diabólico ao diabólico — o bom ao que é bom; o reto ao que é reto; o justo ao que é justo; o misericordioso ao que é misericordioso. (…) ¶
[Aja] com justiça, [julgue] com retidão e [pratique] o bem continuamente; e se fizeres todas estas coisas, receberás teu galardão; sim, a misericórdia ser-te-á restituída novamente; a justiça ser-te-á restituída novamente; um julgamento justo ser-te-á restituído novamente; e novamente serás recompensado com o bem”.58 ¶
Testifico com alegria que Jesus Cristo é nosso Salvador e que Ele vive. A promessa de Alma é verdadeira e se aplica a vocês e a mim — hoje, amanhã e por toda a eternidade. Disso presto testemunho no sagrado nome do Senhor Jesus Cristo, amém. ¶
Notes
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Morôni 10:34; grifo do autor. ↩
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Ver 2 Néfi 2:13; Mosias 2:41; 16:11; Alma 40:12. ↩
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Ver 2 Néfi 9:6; Alma 34:16; 42:15. ↩
-
Ver Moisés 1:39. ↩
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Ver 2 Néfi 2:27; 10:23; Helamã 14:30; Doutrina e Convênios 37:4. ↩
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Ver Merriam-Webster.com Thesaurus, "moral". ↩
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Ver Historical Thesaurus, Oxford English Dictionary, resultados para o termo de pesquisa "arbítrio", oed.com. ↩
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Ver Regras de Fé 1:13; Guia para o Estudo das Escrituras, "Arbítrio", Biblioteca do Evangelho. ↩
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2 Néfi 2:14; ver também o versículo 13. ↩
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David O. McKay, Conference Report, abril de 1950, p.33; Ver também David O. McKay, "Free Agency: A Divine Gift", Improvement Era, maio de 1950, p. 366. ↩
-
Abraão 3:25; grifo do autor. ↩
-
Moisés 7:32–33; grifo do autor. ↩
-
Ver Mateus 22:36–39. ↩
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Ver "Faze o bem, escolhendo o que é certo", Hinos, nº 148. ↩
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Moisés 4:3; grifo do autor. ↩
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Dallin H. Oaks, "O desafio de tornar-se", A Liahona, janeiro de 2001, p. 40, ênfase no original. ↩
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Ver Alma 34:10, 14. ↩
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Ver Mosias 27:25–26. ↩
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Ver 2 Néfi 31:15–16. ↩
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Trechos desta seção vieram de um discurso anterior da conferência proferido por David A. Bednar: "Portanto reprimiram os seus temores", A Liahona, maio de 2015, p. 46. ↩
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Ver Hebreus 12:28. ↩
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Ver Salmos 33:8; 96:4. ↩
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Ver Deuteronômio 5:29; 8:6; 10:12; 13:4; Salmos 112:1. ↩
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Ver Jacó 6:13; Enos 1:27; Morôni 10:34. ↩
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Ver Alma 5:21; Mórmon 9:2–4. ↩