Pulpit

\"Nós, porém, não lhes demos atenção\"

David A. Bednar

Conferência Geral de Abril de 2022·Saturday Morning Session·2022-04-02

Minha esposa, Susan, nossos três filhos e suas respectivas esposas, todos os nossos netos, e o élder Quentin L. Cook, que, por 15 anos, senta-se ao meu lado quando estamos reunidos com os membros do Quórum dos Doze, podem prontamente confirmar o fato de que eu não canto bem. Mas, a despeito de minha falta de talento para o canto, eu amo cantar os hinos da Restauração. A combinação das letras inspiradas com as magníficas melodias me ajuda a aprender princípios fundamentais do evangelho e inspira minha alma.

Um hino que tem abençoado minha vida de maneiras extraordinárias é o hino “Trabalhemos hoje”. Ultimamente tenho ponderado e aprendido a respeito de uma frase específica do refrão desse hino em inglês: “Não daremos atenção ao que os iníquos vão dizer, e somente ao Senhor vamos obedecer.”1

Não daremos atenção.

Quando canto o hino “Trabalhemos hoje”, penso frequentemente a respeito das pessoas da visão de Leí que avançavam pelo caminho que conduzia à árvore da vida, as quais não estavam apenas “[apegadas]” à barra de ferro,2 mas avançavam “continuamente agarradas [a ela], até que chegaram; e prostraram-se e comeram do fruto da árvore”.3 Leí descreveu uma multidão de pessoas no grande e espaçoso edifício, as quais “apontavam-[lhe] com o dedo, zombando [dele] e dos que (…) comiam do fruto”.4 Sua reação à zombaria e aos insultos foi magnífica e memorável: “Nós, porém, não lhes demos atenção”.5

Oro para que o Espírito Santo abençoe e ilumine cada um de nós à medida que ponderamos juntos a respeito de como podemos ser fortalecidos para não darmos atenção às influências malignas e às vozes escarnecedoras do mundo atual em que vivemos.

Não dar atenção

A palavra atenção sugere notar algo ou voltar nosso pensamento a alguém ou a alguma coisa. Assim, a letra do hino “Trabalhemos hoje” nos adverte para que tomemos a firme decisão de não dar atenção “ao que os iníquos vão dizer”. E Leí e as pessoas que com ele comeram do fruto da árvore dão um grande exemplo de não se dar atenção às zombarias e ao escárnio que muito frequentemente se originam do grande e espaçoso edifício.

A doutrina de Cristo, escrita “com o Espírito do Deus vivo (…) nas tábuas de carne [de nosso] coração”,6 amplia nossa capacidade de não dar atenção aos diversos insultos e distrações com os quais nos deparamos em nosso mundo decaído. Por exemplo, uma fé centralizada no Senhor Jesus Cristo nos revigora com força espiritual. A fé no Redentor é um princípio de ação e de poder. À medida que agimos de acordo com as verdades de Seu evangelho, somos abençoados com a capacidade espiritual de seguir em frente em meio aos desafios da mortalidade, ao mesmo tempo que voltamos nossa atenção à alegria que o Salvador nos oferece. Certamente, “nossa causa é justa, lutemos sem temor; pois nós temos em Cristo um bom defensor”.7

Uma conexão pessoal por meio dos convênios

Fazer convênios sagrados e receber dignamente as ordenanças do sacerdócio nos aproxima do Salvador Jesus Cristo e do Pai Celestial e nos conecta a Eles.8 Isso significa simplesmente que nós confiamos no Salvador como nosso Advogado9 e Mediador10 e que confiamos em Seus méritos, em Sua misericórdia e em Sua graça11 durante a jornada da vida. À medida que, com firmeza, achegamo-nos a Cristo e nos aproximamos Dele, recebemos as bênçãos de pureza, cura e força que advêm de Sua Expiação infinita e eterna.12

Viver e amar os compromissos que fazemos por meio de convênios cria uma conexão com o Senhor que é profundamente pessoal e espiritualmente poderosa. Quando honramos as condições dos convênios e das ordenanças sagrados, gradual e progressivamente nos aproximamos Dele13 e vivenciamos o impacto de Sua divindade e da realidade de Sua existência em nossa vida. Jesus passa então a ser muito mais do que o personagem principal das histórias das escrituras; Seu exemplo e Seus ensinamentos influenciam todos os nossos desejos, pensamentos e ações.

Sinceramente, não tenho a capacidade de descrever adequadamente a exata natureza e poder de nossa conexão, por meio dos convênios, com o Filho de Deus ressurreto e vivo. Mas testifico que essa conexão com Ele e com o Pai Celestial é real e que ela é a principal fonte de certeza, paz, alegria e força espiritual que nos permite “sempre firmes [prosseguir]”.14 Como discípulos de Jesus Cristo que fazem e cumprem convênios, podemos ser abençoados para “todo inimigo [confundir]”15 e para não darmos atenção a influências malignas e à ridicularização do mundo.

Quando me reúno com membros da Igreja em todo o mundo, normalmente faço a eles a seguinte pergunta: “O que ajuda vocês a não dar atenção às influências, à zombaria e ao escárnio do mundo?” As respostas que recebo são extremamente instrutivas.

Membros valorosos frequentemente salientam a importância de se convidar o poder do Espírito Santo em sua vida por meio do estudo significativo das escrituras, de orações fervorosas e de uma preparação adequada para participar da ordenança do sacramento. Outras coisas frequentemente mencionadas são o apoio espiritual por parte de familiares fiéis e de amigos em quem se pode confiar, as importantes lições aprendidas por meio da ministração e do serviço na Igreja restaurada do Senhor e a capacidade de se reconhecer o absoluto vazio de tudo o que se encontra no grande e espaçoso edifício ou de tudo o que se origina dele.

Notei um padrão particular na resposta desses membros, o qual é especialmente significativo. Em primeiro lugar, esses discípulos têm um firme testemunho do plano de felicidade do Pai Celestial e do papel de Jesus Cristo como nosso Redentor e Salvador. Além disso, seu conhecimento e sua convicção espirituais são algo individual, pessoal e específico; não algo geral ou abstrato. Ouço essas pessoas devotas falarem que os convênios dão forças para que elas vençam a oposição e que sua conexão com o Senhor vivo dá a elas auxílio durante os bons e os maus momentos. Para essas pessoas, Jesus é realmente um Salvador pessoal.

Os convênios e as ordenanças do evangelho operam em nossa vida como se fossem uma bússola. Uma bússola é um aparelho utilizado para indicar os pontos cardeais do norte, do sul, do leste e do oeste para fins de navegação e orientação geográfica. De modo semelhante, nossos convênios e ordenanças indicam o caminho que nos leva a Jesus Cristo e nos ajudam a sempre nos lembrar de nossa conexão com Ele à medida que prosseguimos no caminho do convênio.

Nosso ponto cardeal na mortalidade é achegar-nos a Cristo e sermos aperfeiçoados Nele.16 Os convênios e as ordenanças sagrados nos ajudam a voltar nossa atenção ao Salvador e a nos esforçar, com Sua graça,17 para que nos tornemos mais semelhantes a Ele. Com toda a certeza, “no céu o Mestre poder nos dará em defesa da retidão”.18

Agarrar-se à barra de ferro

Nossa conexão com Deus e com Jesus Cristo por meio dos convênios é o canal pelo qual podemos receber a capacidade e a força para não “darmos atenção”. E esse laço é fortalecido à medida que continuamos a nos agarrar à barra de ferro. Mas, assim como perguntaram os irmãos de Néfi, “o que significa a barra de ferro que [o pai deles] viu?”

“E [Néfi] disse-lhes que era a palavra de Deus; e todos os que dessem ouvidos à palavra de Deus e a ela se [agarrassem], jamais pereceriam; nem as tentações nem os dardos inflamados do adversário poderiam dominá-los até a cegueira, para levá-los à destruição.”19

Observem que a capacidade de resistir às tentações e aos dardos inflamados do adversário é prometida às pessoas que se agarram à palavra de Deus em vez de apenas se apegarem a ela.

Curiosamente, o apóstolo João descreveu Jesus Cristo como sendo a Palavra, ou o Verbo.20

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (…)

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (…)

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”21

Portanto, um dos nomes de Jesus Cristo é “A Palavra”, ou “O Verbo”.22

Além disso, a oitava regra de fé afirma: “Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, desde que esteja traduzida corretamente; também cremos ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus”.23

Assim, os ensinamentos do Salvador, conforme registrados nas sagradas escrituras, também constituem “a palavra”.

Gostaria de mencionar que se agarrar à palavra de Deus requer (1) que nos lembremos da conexão pessoal que temos com o Salvador e com Seu pai, que a honremos e a fortaleçamos por meio dos convênios e das ordenanças do evangelho restaurado e (2) que utilizemos as santas escrituras e os ensinamentos dos profetas e apóstolos vivos com espírito de oração, fervorosa e consistentemente, como fontes seguras de verdade revelada. Prometo que, à medida que nos “agarrarmos” ao Salvador e formos transformados por vivermos Sua doutrina,24 seremos abençoados, individual e coletivamente, para que “[permaneçamos] em lugares santos e não [sejamos] movidos”.25 Se estivermos com Cristo, Ele estará conosco, ao nosso lado.26 Assim, que “nesta dura prova lutemos com fé pela glória do Salvador”.27

Testemunho

Sigam em frente. Agarrem-se à barra de ferro. Não deem atenção.

Testifico que a fidelidade aos convênios e às ordenanças do evangelho restaurado do Senhor nos possibilita seguir em frente e trabalhar na obra do Senhor, agarrar-nos a Ele assim como nos agarramos à Palavra de Deus e não dar atenção às tentações do adversário. Na luta que vamos travar, que empunhemos nossa espada, sim, “a espada do vencedor”28. No sagrado nome do Senhor Jesus Cristo, amém.

Notes

  1. "Let Us All Press On", Hymns, nº 243; tradução livre, grifo do autor. ↩

  2. 1 Néfi 8:24. ↩

  3. 1 Néfi 8:30. ↩

  4. 1 Néfi 8:33. ↩

  5. 1 Néfi 8:33; grifo do autor. ↩

  6. 2 Coríntios 3:3. ↩

  7. Hinário em inglês, nº 243. ↩

  8. Ver Mateus 11:28–30. ↩

  9. Ver Morôni 7:28; Doutrina e Convênios 110:4. ↩

  10. Ver João 14:6; 1 Timóteo 2:5; Doutrina e Convênios 107:19. ↩

  11. Ver 2 Néfi 2:8. ↩

  12. Ver Alma 7:11–13. ↩

  13. Ver 3 Néfi 27:14–15. ↩

  14. Hinário em inglês, nº 243. ↩

  15. Hinário em inglês, nº 243. ↩

  16. Ver 3 Néfi 12:20; Morôni 10:32–33. ↩

  17. Ver 2 Néfi 25:23. ↩

  18. Hinário em inglês, nº 243. ↩

  19. 1 Néfi 15:23–24; grifo do autor. ↩

  20. Na Tradução de Joseph Smith de João 1:1, lemos: "No princípio foi o evangelho pregado por meio do Filho. E o evangelho era o verbo, e o verbo estava com o Filho, e o Filho estava com Deus, e o Filho era de Deus" (no apêndice da Bíblia). ↩

  21. João 1:1, 3, 14; grifo do autor. ↩

  22. "O Verbo" ou "A Palavra" são títulos usados como referência a Jesus Cristo em diversas passagens das escrituras (ver João 1:1, 14; 1 João 1:1; Apocalipse 19:13; Doutrina e Convênios 93:8–10; Moisés 1:32). ↩

  23. Regras de Fé 1:8; grifo do autor. ↩

  24. Ver 2 Coríntios 5:17; Mosias 3:19; 5:2; 27:25–26; Alma 5:49; Morôni 10:32. ↩

  25. Doutrina e Convênios 45:32. ↩

  26. Ver João 15:4–8; Doutrina e Convênios 50:41–43; Moisés 6:33–34, 39. ↩

  27. Hinário em inglês, nº 243. ↩

  28. Hinário em inglês, nº 243. ↩

Como citar este discursoDavid A. Bednar, “\"Nós, porém, não lhes demos atenção\”, Conferência Geral de Abril de 2022, Saturday Morning Session (2022-04-02). Pulpit Vault, 2022-04-bednar-but-we-heeded-them-not. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).