Amai vossos inimigos
Dallin H. Oaks
Os ensinamentos do Senhor são eternos e são direcionados a todos os filhos de Deus. Nesta mensagem citarei alguns exemplos dos Estados Unidos, mas os princípios que ensinarei se aplicam a todos os lugares. ¶
Vivemos em uma época em que há raiva e ódio em relação a relacionamentos e diretrizes políticas. Vimos isso nesses últimos meses, quando algumas pessoas extrapolaram os protestos pacíficos e se envolveram em comportamentos destrutivos. Vemos isso em algumas campanhas atuais para cargos públicos. Infelizmente, algumas dessas coisas acabaram se manifestando em declarações políticas e referências indelicadas em nossas reuniões da Igreja. ¶
Em um governo democrático, sempre haverá diferenças no que diz respeito a candidatos políticos e a diretrizes. No entanto, como seguidores de Cristo, devemos renunciar à raiva e ao ódio com os quais as escolhas políticas são debatidas ou declaradas em muitos ambientes. ¶
Aqui está um dos ensinamentos de nosso Salvador, provavelmente bem conhecido, mas raramente praticado: ¶
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. ¶
Eu vos digo, porém: Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mateus 5:43–44).1 ¶
Por várias gerações, os judeus foram ensinados a odiar seus inimigos. Naquela época, eles estavam sob ocupação romana e sofriam as crueldades dessa ocupação. Ainda assim, Jesus os ensinou a amar os inimigos e a fazer o bem aos que os maltratavam. ¶
Esses foram ensinamentos revolucionários a respeito de relacionamentos pessoais e políticos. Mas o Salvador ainda nos ordena a fazer o mesmo. Lemos no Livro de Mórmon: “Pois em verdade, em verdade vos digo que aquele que tem o espírito de discórdia não é meu, mas é do diabo, que é o pai da discórdia e leva a cólera ao coração dos homens, para contenderem uns com os outros” (3 Néfi 11:29). ¶
Amar nossos inimigos e nossos adversários não é algo fácil. “A maioria de nós ainda não alcançou esse estágio de (…) amor e perdão”, observou o presidente Gordon B. Hinckley, acrescentando as seguintes palavras: “[Isso] requer um autodomínio quase acima de nossas forças”.2 Entretanto, o amor deve ser essencial, pois faz parte dos dois grandes mandamentos do Salvador: “Amarás ao Senhor teu Deus” e “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37, 39). E deve ser algo possível, pois Ele também ensinou: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis” (Mateus 7:7).3 ¶
Como podemos guardar esses mandamentos divinos em um mundo em que também estamos sujeitos às leis dos homens? Felizmente, temos o próprio exemplo do Salvador de como equilibrar Suas leis eternas com as questões práticas das leis criadas pelos homens. Quando Seus adversários procuraram apanhá-Lo em uma armadilha com uma pergunta sobre se os judeus deveriam pagar impostos a Roma, Ele apontou para a imagem de César estampada nas moedas e declarou: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus” (Lucas 20:25).4 ¶
Portanto, devemos obedecer às leis dos homens (ou dar a César o que é de César) para viver pacificamente de acordo com a autoridade civil, e obedecer às leis de Deus em direção a nosso destino eterno. Entretanto, como podemos fazer isso? Em especial, como podemos aprender a amar nossos adversários e nossos inimigos? ¶
O ensinamento do Salvador de não “contender” é um bom começo. O diabo é o pai da discórdia e é ele que tenta os homens a contenderem uns com os outros. Ele promove inimizade e relacionamentos de ódio entre pessoas e grupos. O presidente Thomas S. Monson ensinou que a raiva é um “instrumento de Satanás”, pois “enfurecer-se é ceder à influência de Satanás. Ninguém pode deixar-nos zangados. Zangamo-nos por escolha própria”.5 A raiva é o caminho para a divisão e para a inimizade. Passamos a amar nossos adversários quando evitamos a raiva e a agressividade em relação às pessoas das quais discordamos. Algo que também é útil é estarmos dispostos a aprender com essas pessoas. ¶
Entre outras maneiras de desenvolvermos o poder de amar outras pessoas, há o simples método descrito em um antigo musical. Quando tentamos entender as pessoas de uma cultura diferente e nos relacionar com elas, devemos procurar conhecê-las. Em inúmeras circunstâncias, a desconfiança que sentimos em relação a estranhos ou mesmo a hostilidade dão lugar à amizade ou até mesmo ao amor quando em nosso convívio manifestamos compreensão e respeito mútuo.6 ¶
Uma grande ajuda para aprendermos a amar nossos adversários e nossos inimigos é buscar compreender o poder do amor. Aqui estão três dos muitos ensinamentos proféticos sobre esse assunto. ¶
O presidente Howard W. Hunter ensinou: “O mundo seria grandemente beneficiado se todos os homens e mulheres praticassem o puro amor de Cristo, que é bondoso, humilde e manso. Não é invejoso e não se ensoberbece. (…) Não busca os seus interesses. (…) Não dá lugar à intolerância, ao ódio e à violência. (…) Incentiva povos diferentes a viverem juntos no amor cristão, a despeito de crenças religiosas, raça, nacionalidade, situação financeira, nível de educação e cultura”.8 ¶
Uma parte essencial do amor por nossos inimigos é dar a César o que é de César por meio da obediência às leis de nossos vários países. Embora os ensinamentos de Jesus fossem revolucionários, Ele não ensinou a revolução ou a desobediência às leis. Ele ensinou um caminho melhor. A revelação moderna ensina esse mesmo princípio: ¶
“Que ninguém quebre as leis do país, porque o que guarda as leis de Deus não tem necessidade de quebrar as leis do país. ¶
Portanto, sujeitai-vos aos poderes existentes” (Doutrina e Convênios 58:21–22). ¶
E nossa regra de fé, escrita pelo profeta Joseph Smith após os primeiros santos terem sofrido uma dura perseguição por parte de líderes do governo do Missouri, declara: “Cremos na submissão a reis, presidentes, governantes, e magistrados; na obediência, honra, e manutenção da lei” (Regras de Fé 1:12). ¶
Isso não significa que devemos concordar com tudo o que é feito pela força da lei. Significa que obedecemos às leis atuais e usamos de meios pacíficos para modificá-las. Também significa que aceitamos pacificamente o resultado das eleições. Não devemos participar de atos violentos fomentados por pessoas insatisfeitas com os resultados.10 Em uma sociedade democrática, sempre temos a oportunidade e o dever de persistir pacificamente até as próximas eleições. ¶
O ensinamento do Salvador de amar nossos inimigos tem como base a realidade de que todos os seres mortais são filhos amados de Deus. Esse princípio eterno e alguns princípios básicos da lei foram colocados à prova nos recentes protestos em muitas cidades americanas. ¶
Em um extremo, algumas pessoas parecem ter se esquecido de que a Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos garante o “direito do povo de reunir-se pacificamente, e dirigir petições ao governo para a reparação de seus agravos”. Essa é a maneira autorizada de conscientizar a população e de chamar atenção para as injustiças quanto ao conteúdo ou à administração das leis. E tem havido muitas injustiças. Em ações públicas e em nossas atitudes individuais, temos observado atos de racismo e desavenças relacionadas a ele. Em um persuasivo estudo pessoal, a reverenda Theresa A. Dear, da NAACP, a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, relembrou-nos que “o racismo prospera no ódio, na opressão, na colusão, na passividade, na indiferença e no silêncio”.11 Como cidadãos e membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, devemos fazer o melhor que pudermos para ajudar a eliminar o racismo. ¶
Em outro extremo, uma minoria de participantes e apoiadores desses protestos e dos atos ilegais que os seguiram parece ter se esquecido de que os protestos protegidos pela constituição são os protestos pacíficos. Os manifestantes não têm o direito de destruir, depredar ou roubar propriedades, nem de prejudicar os poderes policiais legítimos do governo. A constituição e as leis não convidam à revolução ou à anarquia. Todos nós — policiais, manifestantes, apoiadores e espectadores — precisamos entender os limites de nossos direitos e a importância de nossos deveres para permanecermos dentro dos limites das leis existentes. Abraham Lincoln estava certo quando disse o seguinte: “Não há queixa que seja um objeto adequado de reparação pela lei da multidão”.12 Reparar denúncias pela multidão é fazer reparação por meios ilegais. Isso é anarquia, uma condição em que não há governança eficaz nem polícia formal, que prejudica em vez de proteger os direitos individuais. ¶
Um dos motivos pelos quais os recentes protestos nos Estados Unidos chocaram tantas pessoas foi que a hostilidade e os atos ilegais vivenciados entre diferentes etnias em outras nações não deveriam ser vivenciados nos Estados Unidos. Esse país deveria ser melhor no que diz respeito a eliminar o racismo, não apenas contra os negros americanos, que ficaram em evidência nos recentes protestos, mas também contra latinos, asiáticos e outros grupos. A história de racismo dessa nação é uma história infeliz, e precisamos criar uma história melhor. ¶
Os Estados Unidos foram fundados por imigrantes de diferentes nacionalidades e etnias. Seu propósito unificador não era estabelecer uma religião em particular nem perpetuar qualquer uma das diversas culturas ou a fidelidade a um povo dos países antigos. Nossos fundadores procuraram se unificar por meio de uma nova constituição e de novas leis. Isso não quer dizer que nossos documentos de unificação ou a compreensão de seu significado naquela época eram perfeitos. A história dos primeiros dois séculos dos Estados Unidos mostrou a necessidade de muito refinamento, como o direito às mulheres de votar e, particularmente, a abolição da escravatura, incluindo as leis que asseguram aos que tinham sido escravos todas as condições de liberdade. ¶
Dois acadêmicos da Universidade de Yale recentemente nos lembraram: ¶
“Apesar de todas as suas falhas, os Estados Unidos estão equipados de maneira única para unir uma sociedade diversificada e dividida. (…) ¶
Essa é uma boa razão secular para buscarmos esses interesses “eternos e permanentes” nas questões políticas. Além disso, a doutrina da Igreja do Senhor nos ensina outro interesse eterno para nos guiar: os ensinamentos de nosso Salvador, que inspirou a Constituição dos Estados Unidos e as leis básicas de muitos de nossos países. A lealdade à lei estabelecida em vez de lealdade aos “aliados” temporários é a melhor maneira de amar nossos adversários e inimigos ao buscarmos unidade na diversidade. ¶
Saber que todos somos filhos de Deus nos dá uma visão divina do valor de todas as pessoas e a vontade e a capacidade de superar o preconceito e o racismo. Tendo morado ao longo de muitos anos em diferentes lugares deste país, aprendi com o Senhor que é possível obedecer às leis de nosso país e buscar melhorá-las, e também amar nossos adversários e inimigos. Embora não seja algo fácil, isso é possível com a ajuda de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele deu esse mandamento de amar e promete nos ajudar quando procurarmos obedecer a ele. Testifico que somos amados e seremos ajudados por nosso Pai Celestial e Seu Filho, Jesus Cristo. Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
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Ver também Lucas 6:27–28, 30. ↩
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Gordon B. Hinckley, "O poder sanador de Cristo", A Liahona, janeiro de 1989, p. 62; ver também Teachings of Gordon B. Hinckley, 1997, p. 230. ↩
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Ver também Doutrina e Convênios 6:5. ↩
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Ver também Mateus 22:21; Marcos 12:17. ↩
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Thomas S. Monson, "Amansa teu temperamento", A Liahona, novembro de 2009, p. 68. ↩
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Ver Becky e Bennett Borden, "Moving Closer: Loving as the Savior Did", Ensign, setembro de 2020, p. 25. ↩
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Joseph Smith, em History of the Church, vol. 5, p. 517. De modo semelhante, Martin Luther King Jr. (1929-1968) disse: "Retribuir a violência com mais violência apenas multiplica a violência, tornando mais profunda uma escuridão já desprovida de estrelas. A escuridão não pode expulsar a escuridão; apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode fazer isso" (Where Do We Go from Here: Chaos or Community?, 2010, pp. 64–65). ↩
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Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Howard W. Hunter, 2015, p. 265. ↩
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Russell M. Nelson, "Bem-aventurados os pacificadores", A Liahona, novembro de 2002, p. 41; ver também Teachings of Russell M. Nelson, 2018, p. 83. ↩
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Ver "A House Divided", Economist, 5 de setembro de 2020, pp. 17–20. ↩
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Theresa A. Dear, "America's Tipping Point: 7 Ways to Dismantle Racism", Deseret News, 7 de junho de 2020, p. A1. ↩
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Abraham Lincoln, discurso proferido no Young Men's Lyceum, Springfield, Illinois, 27 de janeiro de 1838; em John Bartlett, Bartlett's Familiar Quotations, 18 ed., 2012, p. 444. ↩
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Amy Chua e Jed Rubenfeld, "The Threat of Tribalism", Atlantic, outubro de 2018, p. 81, theatlantic.com. ↩
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Henry John Temple, Viscount Palmerston, palavras proferidas na Câmara dos Comuns, 1º de março de 1848; em Bartlett, Bartlett's Familiar Quotations, p. 392; grifo do autor. ↩