Pulpit

Assegurar um julgamento justo

James R. Rasband

Conferência Geral de Abril de 2020·Saturday Morning Session·2020-04-04

O Livro de Mórmon ensina a doutrina de Cristo

Em outubro passado, o presidente Russell M. Nelson nos desafiou a ponderar como nossa vida seria diferente se “o conhecimento que [adquirimos] com o Livro de Mórmon fosse retirado de [nós] inesperadamente”.1 Ponderei sobre essa questão, assim como tenho certeza de que muitos de vocês também o fizeram. Um pensamento tem sido constante: sem o Livro de Mórmon e sua clareza sobre a doutrina de Cristo e Seu sacrifício expiatório, onde encontraríamos paz?

A doutrina de Cristo — que consiste nos princípios e nas ordenanças de salvação, ou seja, a fé em Cristo, o arrependimento, o batismo, o dom do Espírito Santo e perseverar até o fim — é ensinada várias vezes em todas as escrituras da Restauração, mas com poder particular no Livro de Mórmon.2 A doutrina começa com fé em Cristo, e cada um de seus elementos depende da confiança em Seu sacrifício expiatório.

Como o presidente Nelson ensinou: “O Livro de Mórmon fornece a mais completa e fidedigna compreensão que podemos encontrar a respeito da Expiação de Jesus Cristo”.3 Quanto mais entendermos a respeito do dom sublime do Salvador, mais passaremos a conhecer, em nossa mente e em nosso coração,4 a realidade da certeza do presidente Nelson de que “as verdades contidas no Livro de Mórmon têm o poder de curar, confortar, restaurar, socorrer, fortalecer, consolar e alegrar nossa alma”.5

A Expiação do Salvador atende a todos os requisitos da justiça

Uma contribuição do Livro de Mórmon que é crucial e que proporciona paz à nossa compreensão da Expiação do Salvador é o ensinamento de que o sacrifício misericordioso de Cristo cumpre todos os requisitos da justiça. Conforme ensinou Alma: “O próprio Deus expia os pecados do mundo, para efetuar o plano de misericórdia, para satisfazer os requisitos da justiça, a fim de que Deus seja um Deus perfeito, justo e também um Deus misericordioso”.6 O plano de misericórdia do Pai7, o que as escrituras também chamam de plano de felicidade8 ou plano de salvação9, não poderia ser cumprido a menos que todos os requisitos da justiça fossem atendidos.

Mas, quais são exatamente os “requisitos da justiça”? Ponderem a própria experiência de Alma. Lembrem-se de que quando jovem, ele procurava “destruir a igreja”.10 De fato, Alma falou a seu filho, Helamã, que ele havia sido “atormentado com as penas do inferno” porque havia efetivamente “assassinado muitos [dos filhos de Deus]”, levando-os “à destruição”.11

Alma explicou a Helamã que finalmente teve paz quando “[fixou] a mente” nos ensinamentos de seu pai “sobre a vinda de (…) Jesus Cristo (…) para expiar os pecados do mundo”.12 Alma, então arrependido, clamou pela misericórdia de Cristo13 e então sentiu alegria e alívio ao perceber que Cristo havia expiado por seus pecados e pagado por todos os requisitos da justiça. Novamente, o que a justiça teria exigido de Alma? Como o próprio Alma ensinou posteriormente, “nenhuma coisa impura pode herdar o reino de Deus”.14 Assim, parte do alívio sentido por Alma deve ter sido porque, a menos que a misericórdia intercedesse, a justiça o teria impedido de voltar a viver com o Pai Celestial.15

O Salvador cura as feridas que não podemos curar

Mas, será que a alegria de Alma se concentrava apenas nele mesmo –— no fato de ele ter evitado sua punição e de ele poder voltar ao Pai? Sabemos que Alma também agonizou por causa daqueles a quem ele havia desviado da verdade.16 Mas o próprio Alma não conseguia curar e restaurar todos aqueles que ele havia desviado. Ele próprio não podia garantir que lhes fosse dada uma oportunidade justa para que aprendessem a doutrina de Cristo e fossem abençoados por viverem os seus alegres princípios. Ele não podia trazer de volta aqueles que talvez houvessem morrido ainda cegos pelo seu falso ensinamento.

Como o presidente Boyd K. Packer ensinou certa vez: “O pensamento que resgatou Alma (…) foi este: ‘Restaurar o que não se pode restaurar, curar a ferida que não se pode curar, consertar o que se estragou e não pode ser consertado é o propósito do sacrifício expiatório de Cristo’”.17 A alegre verdade sobre a qual a mente de Alma havia sido “fixada” não era que apenas ele poderia ser limpo, mas que aqueles a quem ele havia prejudicado também poderiam ser curados e aperfeiçoados.

O sacrifício do Salvador assegura um julgamento justo

Anos antes de Alma ser resgatado por essa doutrina reconfortante, o rei Benjamim havia ensinado sobre a amplitude da cura oferecida pelo sacrifício expiatório do Salvador. O rei Benjamim declarou que “boas novas de grande alegria” foram dadas a ele “por um anjo de Deus”.18 Dentre essas boas novas estava a verdade de que Cristo sofreria e morreria por nossos pecados e erros para assegurar que “[recaísse] um julgamento justo sobre os filhos dos homens”.19

O que exatamente é necessário para um “julgamento justo”? No versículo seguinte, o rei Benjamim explica que, para assegurar um julgamento justo, o sangue do Salvador expiou “os pecados dos que caíram pela transgressão de Adão” e daqueles “que morreram sem conhecer a vontade de Deus acerca de si mesmos ou que pecaram por ignorância”.20 Um julgamento justo também exige, ele ensinou, que “o sangue de Cristo [expie]” os pecados das criancinhas.21

Essas escrituras ensinam uma doutrina gloriosa: o sacrifício expiatório do Salvador cura, como uma dádiva gratuita, aqueles que pecam em ignorância, aqueles a quem, como Jacó ensinou, “nenhuma lei é dada”.22 A responsabilidade pelo pecado depende do conhecimento que recebemos e da nossa capacidade de exercer o arbítrio.23 Conhecemos essa cura e essa verdade reconfortante apenas por causa do Livro de Mórmon e de outras escrituras da Restauração.24

Certamente, quando uma lei é dada, quando não somos ignorantes a respeito da vontade de Deus, somos responsáveis por nossos atos. Como o rei Benjamim enfatizou: “Mas ai daquele que sabe que se rebela contra Deus! Porque a nenhum desses será concedida salvação, a não ser pelo arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo”.25

Essas também são boas novas da doutrina de Cristo. O Salvador não apenas cura e restaura aqueles que pecam em ignorância; mas, para aqueles que pecam contra a luz, o Salvador oferece cura sob a condição de arrependimento e fé Nele.26

Alma deve ter “fixado a mente” em ambas as verdades. Será que ele teria verdadeiramente sentido o que descreveu como uma “[bela] (…) alegria”27 se tivesse pensado que Cristo o salvou, mas abandonou para sempre aqueles que ele havia desviado da verdade? Definitivamente, não. Para Alma sentir paz completa, aqueles que ele prejudicou também precisavam da oportunidade de serem curados.

Mas como exatamente eles — ou aqueles a quem prejudicamos — podem ser curados? Embora não compreendamos completamente os mecanismos sagrados pelos quais o sacrifício expiatório do Salvador cura e restaura, sabemos que, para assegurar um julgamento justo, o Salvador afastará a névoa de ignorância e os dolorosos espinhos causados por outras pessoas.28 Com isso Ele garante que todos os filhos de Deus tenham a oportunidade, com visão desobstruída, de escolher segui-Lo e aceitar o grande plano de felicidade.29

O Salvador vai consertar tudo o que quebramos

São essas verdades que trouxeram paz a Alma. E são essas verdades que devem nos trazer grande paz também. Como homens e mulheres naturais, decepcionamos ou até magoamos outras pessoas e isso causa sofrimento. Como qualquer pai pode testificar, a dor associada aos nossos erros não é simplesmente o medo de nossa própria punição, mas o medo de que tenhamos limitado a alegria de nossos filhos ou, de algum modo, impedido que eles vejam e compreendam a verdade. A promessa gloriosa do sacrifício expiatório do Salvador é que, no que diz respeito a nossos erros como pais, Ele não culpa nossos filhos e promete cura para eles.30 E mesmo quando eles pecarem contra a luz — assim como todos nós —, Seu braço de misericórdia estará estendido31 e Ele os redimirá se apenas olharem para Ele e viverem.32

Embora o Salvador tenha poder para consertar o que não podemos consertar, Ele nos ordena que façamos tudo o que pudermos para que a restituição seja parte de nosso arrependimento.33 Nossos pecados e erros não só prejudicam nosso relacionamento com Deus, mas também nosso relacionamento com outras pessoas. Às vezes, nossos esforços para curar e restaurar podem ser tão simples quanto pedir desculpas; mas, em outros casos, a restituição pode exigir anos de esforço humilde.34 Ainda assim, para muitos de nossos pecados e erros, simplesmente não conseguimos curar plenamente aqueles a quem prejudicamos. A promessa do Livro de Mórmon e do evangelho restaurado, que é magnífica e traz paz, é que o Salvador vai consertar tudo o que quebramos.35 E Ele também nos consertará se nos voltarmos a Ele com fé e nos arrependermos do mal que causamos.36 Ele oferece essas dádivas porque ama a todos nós com um amor perfeito37 e porque Ele está comprometido em assegurar um julgamento justo que honre tanto a justiça quanto a misericórdia. Testifico que isso é verdade. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Notes

  1. Russell M. Nelson, "Considerações finais", Liahona, novembro de 2019, p. 122. ↩

  2. Ver 2 Néfi 31; 3 Néfi 11:28, 32, 35, 39–40; Doutrina e Convênios 10:62–63, 67–70; 68:25; Moisés 6:52–54; 8:24; Regras de Fé 1:4. ↩

  3. Russell M. Nelson, "Como seria sua vida sem o Livro de Mórmon?", A Liahona, novembro de 2017, p. 62. ↩

  4. Ver Doutrina e Convênios 8:2–3. ↩

  5. Russell M. Nelson, "Como seria sua vida sem o Livro de Mórmon?", p. 62. ↩

  6. Alma 42:15. ↩

  7. Ver Alma 42:15. ↩

  8. Ver Alma 42:8. ↩

  9. Ver Alma 24:14; Moisés 6:62. ↩

  10. Mosias 27:8–10. ↩

  11. Alma 36:13, 14. ↩

  12. Alma 36:17, 18. ↩

  13. Ver Alma 36:18. ↩

  14. Alma 40:26; ver também 1 Néfi 15:34; Alma 7:21; 11:37; Helamã 8:25. ↩

  15. Ver 3 Néfi 27:19; ver também Moisés 6:57. ↩

  16. Ver Alma 36:14–17. ↩

  17. Ver Boyd K. Packer, "A radiante manhã do perdão", A Liahona, janeiro de 1996, pp. 19–20. ↩

  18. Mosias 3:2, 3. ↩

  19. Mosias 3:10; grifo do autor. ↩

  20. Mosias 3:11; ver também 2 Néfi 9:26. ↩

  21. Mosias 3:16; ver também Mosias 15:25; Morôni 8:11–12, 22. ↩

  22. 2 Néfi 9:25. ↩

  23. Ver 2 Néfi 2:26–27; Helamã 14:29–30. ↩

  24. Ver Regras de Fé 1:2; ver também Doutrina e Convênios 45:54. Ao falar a respeito da doutrina de batismo pelos mortos, o profeta Joseph disse certa vez: "Embora uma parte da raça humana julgue e condene a outra sem misericórdia, o Grande Pai do universo contempla toda a família humana com cuidado, carinho e atenção paternos; Ele a vê como sua descendência. (…) Ele é um sábio Legislador e julgará todos os homens, não de acordo com as noções mesquinhas e estreitas dos homens. (…) Ele os julgará 'não de acordo com o que não têm, mas de acordo com o que têm', os que viveram sem lei serão julgados sem lei, e os que tiveram a lei serão julgados por essa lei. Não precisamos duvidar da sabedoria e inteligência do Grande Jeová; Ele concederá julgamento ou misericórdia a todas as nações de acordo com seus vários méritos, seus meios de obter inteligência, as leis pelas quais foram governados, as condições que lhes foram concedidas para obter informações corretas e (…) todos teremos que confessar no final que o Juiz de toda a Terra agiu corretamente" (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, pp. 42, 426). ↩

  25. Mosias 3:12; ver também 2 Néfi 9:27. ↩

  26. Ver Mosias 3:12; Helamã 14:30; Morôni 8:10; Doutrina e Convênios 101:78. Indivíduos podem ser ignorantes a respeito de certos mandamentos e convênios, ou não ser capazes de exercer o arbítrio em algumas circunstâncias, mas ainda ser responsáveis em outras circunstâncias por causa da Luz de Cristo que possuem (ver 2 Néfi 9:25; Morôni 7:16–19). O Salvador, que é nosso juiz e que assegura um julgamento justo, vai distinguir essas circunstâncias (ver Mórmon 3:20; Moisés 6:53–57). E Ele pagou o preço para ambos — o primeiro incondicionalmente e o segundo sob a condição do arrependimento. ↩

  27. Alma 36:21. ↩

  28. Ver Mosias 3:11; ver também D. Todd Christofferson, "Redenção", A Liahona, maio de 2013, p. 109; Alma 7:11–12 ("Ele tomará sobre si as dores e as enfermidades de seu povo. (…) E tomará sobre si as suas enfermidades"); Isaías 53:3–5 ("Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades"); 61:1–3 ("O Senhor me ungiu para (…) restaurar os contritos de coração, (…) ordenar aos tristes de Sião que se lhes dê grinalda por cinza, óleo de alegria por tristeza"). É instrutivo que o Salvador tenha citado esses versículos de Isaías ao anunciar ser o Messias: "Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos" (ver Lucas 4:16–21). ↩

  29. No mundo espiritual, "o evangelho é pregado aos que não o conheceram, aos que não se arrependeram e aos rebeldes para que possam ser libertados da escravidão e prosseguir rumo às bênçãos que o Pai Celestial tem reservadas para eles" (Dallin H. Oaks, "Confia no Senhor," Liahona, novembro de 2019, p. 27). Ver 1 Pedro 4:6; 2 Néfi 2:11–16; Doutrina e Convênios 128:19; 137:7–9; 138:31–35. ↩

  30. Ver Moisés 6:54. O presidente M. Russell Ballard ensinou esta doutrina com relação ao suicídio: "Somente o Senhor conhece todos os detalhes e é Ele quem julgará nossas ações aqui na Terra. Quando nos julgar, sinto que levará tudo em consideração: nossa composição genética e química, nosso estado mental, nossa capacidade intelectual, os ensinamentos que recebemos, as tradições de nossos pais, nossa saúde e assim por diante. Aprendemos nas escrituras que o sangue de Cristo vai expiar os pecados dos homens 'que morreram sem conhecer a vontade de Deus acerca de si mesmos ou que pecaram por ignorância' (Mosias 3:11)" ("Suicídio: Algumas coisas que sabemos, e outras que não sabemos", A Liahona, março de 1988, p. 18; Tambuli, março de 1988, p. 18). ↩

  31. Ver Jacó 6:5; Mosias 29:20; 3 Néfi 9:14; Doutrina e Convênios 29:1. ↩

  32. Ver Helamã 8:15. ↩

  33. Ver Levítico 6:4–5; Ezequiel 33:15–16; Helamã 5:17; Doutrina e Convênios 58:42–43. ↩

  34. Era esse o tipo de esforço no qual Alma se engajou (ver Alma 36:24). ↩

  35. O presidente Boyd K. Packer ensinou este preceito com poder:

    "Há situações em que não se pode consertar o que se estragou. Talvez a ofensa tenha acontecido há muito tempo, ou a pessoa ferida não aceite sua penitência. Talvez o dano tenha sido de tamanha extensão que não seja possível repará-lo, a despeito de quanto se deseje fazê-lo.

    Seu arrependimento não pode ser aceito a menos que haja restituição. Se você não conseguir desfazer o que fez, estará preso numa armadilha. É fácil compreender o quão impotente e desesperançado você venha a se sentir e por que talvez queira, como Alma, desistir. (…)

    Como tudo pode ser consertado, não o sabemos. Talvez não se consiga realizar todo o trabalho nesta vida. Sabemos, por meio de visões e visitações, que os servos do Senhor continuam o trabalho de redenção além do véu.

    Esse conhecimento deve ser tão consolador para o inocente quanto para o culpado. Estou pensando nos pais que sofrem imensamente pelos erros dos filhos que se afastaram do caminho e estão perdendo as esperanças" ("A radiante manhã do perdão", p. 21). ↩

  36. Ver 3 Néfi 12:19; ver também Mateus 6:12; 3 Néfi 13:11. ↩

  37. Ver João 15:12–13; 1 João 4:18; Dieter F. Uchtdorf, "O perfeito amor lança fora o temor", A Liahona, maio de 2017, p. 104. ↩

Como citar este discursoJames R. Rasband, “Assegurar um julgamento justo”, Conferência Geral de Abril de 2020, Saturday Morning Session (2020-04-04). Pulpit Vault, 2020-04-rasband-ensuring-a-righteous-judgment. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).