O plano e a proclamação
Dallin H. Oaks
Como podemos ver em nossa proclamação da família, os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias são abençoados com uma doutrina singular e com maneiras diferentes de ver o mundo. Participamos de atividades no mundo e nos destacamos em muitas delas, mas deixamos de participar de algumas delas por procurarmos seguir os ensinamentos de Jesus Cristo e Seus apóstolos, antigos e modernos. ¶
I.
Em uma parábola, Jesus descreveu aqueles que “[ouvem] a palavra”, mas se tornam [infrutíferos] quando essa palavra é sufocada pelos “cuidados deste mundo e a sedução das riquezas” (Mateus 13:22). Depois, Jesus corrigiu Pedro por não compreender “as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens”, dizendo: “Pois que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma?” (Mateus 16:23, 26.) Em seus últimos ensinamentos na mortalidade, Ele disse a Seus apóstolos: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, (…) o mundo vos odeia” (João 15:19; ver também João 17:14, 16). ¶
Da mesma forma, nos registros dos primeiros apóstolos de Jesus, com frequência se usa a imagem do “mundo” para representar oposição aos ensinamentos do evangelho. “Não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12:2), o apóstolo Paulo ensinou: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1 Coríntios 3:19). E, “vede”, ele alertou: “Que ninguém vos faça presa sua (…) segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8). O apóstolo Tiago ensinou que “a amizade do mundo é inimizade contra Deus[.] Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4). ¶
No Livro de Mórmon, usa-se com frequência essa imagem da oposição do “mundo”. Néfi profetizou a destruição final dos “que foram [estabelecidos] para se tornarem populares aos olhos do mundo; e [aqueles] que procuram (…) as coisas do mundo” (1 Néfi 22:23; ver também 2 Néfi 9:30). Alma condenou aqueles que foram “ensoberbecidos com as coisas vãs do mundo” (Alma 31:27). O sonho de Leí mostra que aqueles que procuram seguir a barra de ferro, a palavra de Deus, vão se deparar com a oposição do mundo. Os que ocupavam o “grande e espaçoso edifício”, Leí viu que estavam em “atitude (…) de escárnio e apontavam” “com o dedo, zombando” (1 Néfi 8:26–27, 33). Em sua visão da interpretação desse sonho, Néfi aprendeu que esse escárnio e essa oposição vinham das “multidões da Terra[,] (…) [do] mundo e sua sabedoria; (…) [do] orgulho do mundo” (1 Néfi 11:34–36). ¶
Qual o significado dessas advertências e desses mandamentos das escrituras, de não ser “do mundo”, ou do mandamento moderno de “[renunciar] ao mundo”? (D&C 53:2.) O presidente Thomas S. Monson resumiu esses ensinamentos, dizendo: “Precisamos estar vigilantes num mundo que se afastou tanto das coisas espirituais. É essencial que rejeitemos tudo aquilo que não condiz com nossos padrões, recusando-nos a desistir daquilo que mais desejamos: a vida eterna no reino de Deus”.1 ¶
Deus criou esta Terra de acordo com Seu plano para proporcionar a Seus filhos espirituais um lugar para vivenciarem a mortalidade como um passo necessário em direção às glórias que Ele deseja para todos os Seus filhos. Embora haja vários reinos e glórias, o maior desejo de nosso Pai Celestial para Seus filhos é o que o presidente Monson chamou de “vida eterna no reino de Deus”, que é a exaltação em família. Há mais além da salvação. O presidente Russell M. Nelson nos lembrou de que, “no plano eterno de Deus, a salvação é um assunto individual; [mas] a exaltação é um assunto de família”.2 ¶
O evangelho restaurado de Jesus Cristo e a inspirada proclamação à família, a respeito da qual falarei mais tarde, são ensinamentos essenciais que guiam a preparação mortal para a exaltação. Embora precisemos viver com leis de casamento e outras tradições de um mundo em decadência, os que se esforçam para alcançar a exaltação devem fazer escolhas pessoais na vida familiar que estejam de acordo com a maneira do Senhor, mesmo sendo diferente da maneira do mundo. ¶
Nesta vida mortal, não nos lembramos do que precedeu nosso nascimento, e agora enfrentamos oposição. Crescemos e amadurecemos espiritualmente ao escolhermos obedecer aos mandamentos de Deus, em uma sequência de escolhas corretas. Essas escolhas incluem as ordenanças, os convênios e o arrependimento quando nossas escolhas forem erradas. Por outro lado, se nos falta fé no plano de Deus e se somos desobedientes ou deliberadamente não tomamos as ações necessárias, renunciamos a esse crescimento e essa maturidade. O Livro de Mórmon ensina: “Esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para o encontro com Deus” (Alma 34:32). ¶
II.
Os santos dos últimos dias que compreendem o plano de salvação estabelecido por Deus têm uma visão singular do mundo, que os ajuda a entender a razão por trás dos mandamentos de Deus, a natureza imutável de Suas ordenanças necessárias e o papel fundamental de nosso Salvador, Jesus Cristo. A Expiação do Salvador nos salva da morte e, de acordo com nosso arrependimento, salva-nos do pecado. Com essa visão de mundo, os santos dos últimos dias têm prioridades e práticas diferenciadas e são abençoados com a força para suportar as frustrações e as dores da vida mortal. ¶
Inevitavelmente, as ações das pessoas que se esforçam para seguir o plano de salvação estabelecido por Deus podem causar mal-entendidos e até conflitos com familiares ou amigos que não acreditam nos princípios do plano. Esses conflitos sempre existirão. Todas as gerações que procuraram seguir o plano de Deus passaram por desafios. Antigamente, o profeta Isaías fortaleceu os israelitas, a quem chamou: “Vós que conheceis a justiça, (…) em cujo coração está a minha lei”. A eles, ele declarou: “Não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias” (Isaías 51:7; ver também 2 Néfi 8:7). Mas, seja qual for a causa do conflito com as pessoas que não entendem ou que não acreditam no plano de Deus, aqueles que entendem sempre estarão sob o mandamento de escolher o caminho do Senhor em vez de o caminho do mundo. ¶
III.
O plano do evangelho, o qual toda família deve seguir para se preparar para a vida eterna e a exaltação, está resumido na proclamação da Igreja, escrita em 1995: “A Família: Proclamação ao Mundo”.3 As declarações nesse documento são, é claro, visivelmente diferentes de algumas leis, práticas e argumentos atuais do mundo em que vivemos. Em nossos dias, as diferenças mais evidentes são a coabitação fora do casamento, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a criação de filhos nesses relacionamentos. Aqueles que não acreditam em exaltação, que não a procuram e que são mais persuadidos pelos caminhos do mundo veem a proclamação da família apenas como uma declaração de normas que devem ser mudadas. Por outro lado, os santos dos últimos dias afirmam que a proclamação da família define o tipo de relacionamento familiar no qual a parte mais importante de nosso desenvolvimento eterno pode ocorrer. ¶
Testemunhamos uma aceitação pública rápida e crescente da coabitação fora do casamento e do casamento de pessoas do mesmo sexo. O apoio, a educação e até as exigências específicas de trabalho propostos pela mídia que defende esses ideais geram desafios para os santos dos últimos dias. Precisamos tentar equilibrar a necessidade de seguirmos a lei do evangelho em nossa vida pessoal e no que ensinamos e, ao mesmo tempo, procurarmos demonstrar amor a todas as pessoas.4 Ao fazê-lo, às vezes enfrentaremos o que Isaías chamou de “o opróbrio dos homens”, mas não precisamos temê-lo. ¶
Os santos dos últimos dias que são convertidos acreditam que a proclamação da família, publicada há quase 25 anos e traduzida para diversos idiomas, é a ênfase dada novamente pelo Senhor nas verdades do evangelho de que precisamos para nos amparar durante os desafios atuais com relação à família. Dois exemplos são o casamento de pessoas do mesmo sexo e a coabitação fora do casamento. Apenas 20 anos após a proclamação da família, a Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contrariando milhares de anos de casamento apenas entre um homem e uma mulher. A surpreendente porcentagem de crianças dos Estados Unidos nascidas de uma mãe que não se casou com o pai da criança cresceu gradualmente: 5 por cento em 1960,5 32 por cento em 19956 e, agora, 40 por cento.7 ¶
IV.
A proclamação da família inicia com a declaração de “que o casamento entre homem e mulher foi ordenado por Deus e que a família é essencial ao plano do Criador para o destino eterno de Seus filhos”. Também afirma que o “sexo (masculino ou feminino) é uma característica essencial da identidade e do propósito pré-mortal, mortal e eterno de cada um”. Além disso, declara que “Deus ordenou que os poderes sagrados de procriação sejam empregados somente entre homem e mulher, legalmente casados”. ¶
A proclamação confirma o dever ainda vigente que marido e mulher têm de se multiplicarem e encherem a Terra, e sua “solene responsabilidade de amar-se mutuamente e amar os filhos”: “Os filhos têm o direito de nascer dentro dos laços do matrimônio e de ser criados por pai e mãe que honrem os votos matrimoniais com total fidelidade”. A proclamação nos alerta solenemente contra o abuso de cônjuge e filhos e declara que “a felicidade na vida familiar é mais provável de ser alcançada quando fundamentada nos ensinamentos do Senhor Jesus Cristo”. Por fim, ela conclama que se promovam “medidas [oficiais] designadas para manter e fortalecer a família como a unidade fundamental da sociedade”. ¶
Em 1995, um presidente da Igreja e outros 14 apóstolos do Senhor publicaram essas importantes declarações doutrinárias. Como um dos únicos sete desses apóstolos ainda vivos, sinto-me obrigado a compartilhar, para informação daqueles que se importam com a proclamação, o que levou à publicação da proclamação da família. ¶
A inspiração que identificou a necessidade de haver uma proclamação a respeito da família foi recebida pela liderança da Igreja há mais de 23 anos. Foi uma surpresa para alguns que achavam que as verdades doutrinárias sobre o casamento e a família eram bem compreendidas e não precisavam ser reafirmadas.8 Contudo, sentimos a confirmação e começamos a trabalhar. Assuntos foram identificados e discutidos por membros do Quórum dos Doze Apóstolos por quase um ano. Um texto foi proposto, examinado e revisado. Rogamos continuamente ao Senhor em espírito de oração por Sua inspiração a respeito do que deveríamos dizer e de como dizê-lo. Todos aprendemos “linha sobre linha, preceito sobre preceito”, como o Senhor prometeu (D&C 98:12). ¶
Durante esse processo de revelação, um texto foi proposto e apresentado para a Primeira Presidência, que supervisiona e promulga a doutrina e os ensinamentos da Igreja. Após a Presidência ter feito mais algumas mudanças, a proclamação da família foi anunciada pelo presidente da Igreja, Gordon B. Hinckley. Na reunião das mulheres, em 23 de setembro de 1995, ele apresentou a proclamação com as seguintes palavras: “Havendo tantas falsidades ensinadas como verdades, tantos enganos quanto aos padrões e valores, tanto incentivo e sedução para que lentamente aceitemos a corrupção do mundo, sentimos a necessidade de advertir e admoestar”.9 ¶
Testifico que a proclamação da família é uma declaração de verdade eterna, a vontade do Senhor para Seus filhos que buscam a vida eterna. Ela tem sido o alicerce dos ensinamentos e das práticas da Igreja nos últimos 22 anos, e assim continuará sendo no futuro. Considerem-na como tal, ensinem a respeito dela, vivam de acordo com ela, e vocês serão abençoados ao prosseguirem rumo à vida eterna. ¶
Há 40 anos, o presidente Ezra Taft Benson ensinou que “cada geração tem seus testes e a chance de se manter firme e provar a si mesma”.10 Creio que nossa atitude em relação à proclamação da família e o modo como a utilizamos são alguns desses testes para esta geração. Oro para que todos os santos dos últimos dias permaneçam firmes durante esses testes. ¶
Encerro citando os ensinamentos do presidente Gordon B. Hinckley que foram proferidos dois anos após o anúncio da proclamação da família. Ele disse: “Vejo um futuro maravilhoso em um mundo bastante incerto. Se nos apegarmos a nossos valores, se edificarmos sobre o alicerce que herdamos, se formos obedientes perante o Senhor, se vivermos o evangelho de maneira simples, seremos abençoados de modo magnífico e maravilhoso. Seremos considerados um povo incomum, que encontrou a chave para um tipo incomum de felicidade”.11 ¶
Testifico da veracidade e da importância eterna da proclamação da família, que foi revelada pelo Senhor Jesus Cristo a Seus apóstolos para a exaltação dos filhos de Deus (ver Doutrina e Convênios 131:1–4), em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
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Thomas S. Monson, "Permanecer em lugares santos", A Liahona, novembro de 2011, pp. 83–84. ↩
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Russell M. Nelson, "Salvação e exaltação", A Liahona, maio de 2008, p. 10. ↩
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Ver "A Família: Proclamação ao Mundo", A Liahona, novembro de 2010, última contracapa. ↩
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Ver Dallin H. Oaks, "O amor e a lei", A Liahona, novembro de 2009, p. 26. ↩
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Ver "'Disastrous' Illegitimacy Trends" [Tendências desastrosas de ilegitimidade], Washington Times, 1º de dezembro de 2006, washingtontimes.com. ↩
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Ver Stephanie J. Ventura e outros, "Report of Final Natality Statistics" [Relatório de estatísticas de natalidade final], 1996, Monthly Vital Statistics Report, 30 de junho de 1998, p. 9. ↩
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Ver Brady E. Hamilton e outros, "Births: Provisional Data for 2016" [Nascimentos: Dados provisórios em 2016], Vital Statistics Rapid Release, junho de 2017, p. 10. ↩
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Nossa presidente geral das Moças falou acertadamente 20 anos depois: "Não nos demos conta de como precisaríamos desesperadamente, no mundo de hoje, dessas declarações básicas como critério para julgarmos cada nova corrente de dogmas mundanos que vem a nós pela mídia, pela Internet, por estudiosos, pela TV, pelos filmes e até mesmo por legisladores. A proclamação da família tornou-se nossa referência para julgar as filosofias do mundo, e testifico que os princípios estabelecidos nessa declaração são tão verdadeiros hoje como eram quando foram dados a nós por um profeta de Deus há quase 20 anos" (Bonnie L. Oscarson, "Defensoras da proclamação da família", A Liahona, maio de 2015, pp. 14–15). ↩
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Gordon B. Hinckley, "Enfrentar com firmeza as artimanhas do mundo", A Liahona, janeiro de 1996, p. 114. ↩
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Ezra Taft Benson, "Our Obligation and Challenge" [Nossa obrigação e nosso desafio], mensagem proferida no seminário de representantes regionais, 30 de setembro de 1977, pp. 2–3; em David A. Bednar, "Quem segue ao Senhor: Lições do acampamento de Sião", A Liahona, julho de 2017, p. 14. ↩
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Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Gordon B. Hinckley, 2016, p. 190; ver também Gordon B. Hinckley, "Olhar para o futuro", A Liahona, janeiro de 1998, p. 77. ↩