Qual a Razão da Igreja
D. Todd Christofferson
Durante toda a minha vida, as conferências gerais têm sido acontecimentos espirituais inspiradores e a Igreja, um lugar onde venho para conhecer o Senhor. Compreendo que há pessoas que se consideram religiosas ou espirituais, porém rejeitam participar de uma igreja e até mesmo desconsideram a necessidade de uma instituição como tal. A prática religiosa para essas pessoas é puramente pessoal. Contudo, a Igreja é a criação Dele em Quem nossa espiritualidade está centrada: Jesus Cristo. Vale a pena parar para considerar por que Ele escolheu usar uma igreja, Sua Igreja, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, para realizar Seu trabalho ou o de Seu Pai, que é “levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem”.1 ¶
Iniciando com Adão, o evangelho de Jesus Cristo foi pregado — e as ordenanças essenciais de salvação, como o batismo, foram administradas por meio de uma ordem do sacerdócio com base na família.2 Quando as sociedades se tornaram mais complexas do que apenas famílias, Deus também chamou outros profetas, mensageiros e mestres. Lemos a respeito de uma estrutura mais formal, incluindo élderes, sacerdotes e juízes, na época de Moisés. Na história do Livro de Mórmon, Alma estabeleceu uma igreja com sacerdotes e mestres. ¶
Então, no meridiano dos tempos, Jesus organizou Sua obra de uma forma que o evangelho pudesse ser estabelecido simultaneamente em várias nações e entre povos diversos. A Igreja de Jesus Cristo foi edificada sobre o “fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”,3 e incluía ofícios adicionais como setentas, élderes, bispos, sacerdotes, mestres e diáconos. Da mesma forma, Jesus estabeleceu a Igreja no Hemisfério Ocidental, após Sua Ressurreição. ¶
Após a apostasia e a desintegração da Igreja que Ele havia organizado quando estava na Terra, o Senhor restabeleceu A Igreja de Jesus Cristo novamente, por intermédio do Profeta Joseph Smith. O antigo propósito, que é o de pregar as boas novas do evangelho de Jesus Cristo e administrar as ordenanças de salvação — em outras palavras, trazer pessoas a Cristo — permanece.4 E agora, por meio desta Igreja restaurada, a promessa de Redenção é posta ao alcance até mesmo dos falecidos, que durante sua vida mortal sabiam pouco ou quase nada sobre a graça do Salvador. ¶
Como a Igreja do Senhor cumpre o propósito Dele? É importante reconhecer que o propósito principal de Deus é o nosso progresso. O desejo Dele é que continuemos de “graça em graça, até [recebermos] a plenitude”5 de tudo o que Ele pode conceder. Isso requer mais do que simplesmente ser bom ou ter sentimentos espirituais. Requer fé em Jesus Cristo, arrependimento, batismo pela água e pelo Espírito e perseverar na fé até o fim.6 Uma pessoa não pode alcançar isso isoladamente, assim, um dos principais propósitos do Senhor ao ter uma Igreja é o de criar uma comunidade de santos que apoiarão uns aos outros no “caminho estreito e apertado que conduz à vida eterna”.7 ¶
“E [Cristo] deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, ¶
(…) para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; ¶
Jesus Cristo é o “autor e aperfeiçoador de [nossa] fé”.9 Unir-nos ao corpo de Cristo — a Igreja — é uma parte importante de tomar sobre nós o Seu nome.10 É-nos dito que a Igreja Primitiva “reunia-se frequentemente para jejuar e orar e para falar a respeito do bem-estar de suas almas”11 e “para ouvir a palavra do Senhor”.12 Assim é a Igreja hoje. Unidos com fé, ensinamos e edificamos uns aos outros e nos empenhamos para atingir a medida plena do discipulado, “[a] medida da estatura completa de Cristo”. Esforçamo-nos para ajudar um ao outro a vir “ao conhecimento do filho de Deus,”13 até o dia em que “[ensinarão] cada um a seu próximo, (…) dizendo: conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor, até o maior deles, diz o Senhor”.14 ¶
Na Igreja não apenas aprendemos a doutrina divina; vivemos também sua aplicação. Sendo o corpo de Cristo, os membros da Igreja ajudam uns aos outros no dia a dia. Todos somos imperfeitos; às vezes ofendemos e somos ofendidos. Muitas vezes testamos uns aos outros com nossas particularidades. No corpo de Cristo, temos de ir além de conceitos e palavras exaltadas e ter uma experiência de envolvimento pessoal ao aprendermos a “juntos [viver] em amor”.15 ¶
Esta religião não diz respeito apenas ao indivíduo; no entanto, somos todos chamados a servir. Somos os olhos, as mãos, a cabeça, os pés e os outros membros do corpo de Cristo, e até mesmo “os membros (…) que parecem ser os mais fracos são necessários”.16 Precisamos desses chamados e precisamos servir. ¶
Um dos homens da minha ala cresceu não apenas sem o apoio de seus pais, mas também com a oposição deles à sua atividade na Igreja. Ele fez este comentário em uma reunião sacramental: “Meu pai não consegue entender por que alguém iria à igreja, em vez de ir esquiar, mas eu realmente gosto de ir à igreja. Na Igreja, estamos todos na mesma jornada, e sou inspirado nessa jornada por jovens fortes, crianças puras e por aquilo que aprendo com outros adultos. Sou fortalecido por me associar a eles e sinto-me animado com a alegria de viver o evangelho”. ¶
As alas e os ramos da Igreja oferecem uma reunião semanal de descanso e renovação, um tempo para sairmos do mundo: o Dia do Senhor. Esse é um dia para “[nos deleitarmos] no Senhor”,17 sentirmos a cura espiritual que advém do sacramento e recebermos a renovada promessa de que Seu Espírito estará conosco.18 ¶
Uma das maiores bênçãos de fazermos parte do corpo de Cristo — apesar de talvez não parecer uma bênção no momento — é sermos repreendidos devido ao pecado e ao erro. Somos inclinados a desculpar e racionalizar nossas falhas, e às vezes simplesmente não sabemos em que devemos melhorar nem como fazê-lo. Sem aqueles que podem nos repreender “prontamente com firmeza, quando [movidos] pelo Espírito Santo”,19 podemos perder a coragem para mudar e seguir o Mestre mais prontamente. O arrependimento é individual, mas a Igreja oferece o companheirismo nesse caminho às vezes doloroso.20 ¶
Nesse debate sobre a Igreja como o corpo de Cristo, devemos sempre ter duas coisas em mente. Primeiro, não nos empenhamos para nos converter à Igreja, mas a Jesus Cristo e Seu evangelho, uma conversão que é facilitada pela Igreja.21 O Livro de Mórmon expressa essa verdade ainda melhor quando diz que as pessoas “foram convertidas ao Senhor e uniram-se à Igreja de Cristo”.22 Segundo, precisamos nos lembrar de que, no início, a Igreja era a família, e mesmo hoje, como instituições separadas, a família e a Igreja servem e fortalecem uma à outra. Nenhuma substitui a outra, e a Igreja, certamente, mesmo no seu melhor, não pode substituir os pais. A finalidade de a Igreja ensinar o evangelho e administrar as ordenanças é que as famílias se qualifiquem para a vida eterna. ¶
Há uma segunda grande razão pela qual o Salvador trabalha por meio da Igreja, Sua Igreja, que é alcançar aquilo que não pode ser realizado por indivíduos ou pequenos grupos. Um exemplo claro é lidar com a pobreza. É verdade que, como indivíduos e famílias, cuidamos das necessidades físicas de outros, “ajudando-[nos] uns aos outros, tanto material como espiritualmente, de acordo com [nossas] necessidades e carências”.23 Mas, juntos na Igreja, a habilidade de cuidarmos dos pobres e necessitados é multiplicada de modo a atingirmos mais pessoas, e a autossuficiência, tão esperada, torna-se realidade para muitos.24 Ademais, a Igreja, suas Sociedades de Socorro e seus quóruns do sacerdócio têm a capacidade de oferecer alívio a muitas pessoas em diversos lugares atingidos por desastres naturais, guerra e perseguição. ¶
Sem os meios providos por esta Igreja, a incumbência do Salvador de levar o evangelho a todo o mundo não poderia ser realizada.25 Não haveria as chaves apostólicas, a estrutura, as condições financeiras, a devoção e o sacrifício de milhares de missionários, essenciais para se levar o trabalho adiante. Lembrem-se, “este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim”.26 ¶
A Igreja pode construir e administrar templos, casas do Senhor, onde ordenanças e convênios vitais são administrados. Joseph Smith declarou que o objetivo de Deus em reunir Seu povo em qualquer época é “edificar uma casa ao Senhor, na qual [Ele revele] a Seu povo as ordenanças de Sua casa e as glórias de Seu reino e [ensine] às pessoas o caminho da salvação; porque há certas ordenanças e princípios que, para serem ensinados e praticados, devem ser efetuados em um lugar ou em uma casa edificada para tal propósito”.27 ¶
Se alguém crê que todas os caminhos levam ao céu ou que não existem exigências específicas para a salvação, tal pessoa não verá nenhuma necessidade para se proclamar o evangelho ou para as ordenanças e os convênios que redimem tantos os vivos quanto os mortos. Porém, não falamos apenas sobre a imortalidade, mas também sobre a vida eterna; e para esta, o caminho e os convênios do evangelho são essenciais. E o Salvador precisa de uma igreja para fazer com que esse caminho e os convênios estejam disponíveis a todos os filhos de Deus; tanto os vivos quanto os mortos. ¶
A razão final que vou mencionar para que o Senhor tenha estabelecido Sua Igreja é a mais singular: a Igreja é, acima de tudo, o reino de Deus na Terra. ¶
Quando A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estava sendo estabelecida na década de 1830, o Senhor disse ao Profeta Joseph Smith: “Alegrai-vos e regozijai-vos, porque a vós foi dado o reino; ou, em outras palavras, as chaves da igreja”.28 Na autoridade contida nessas chaves, os líderes do sacerdócio da Igreja preservam a pureza da doutrina do Salvador e a integridade de Suas ordenanças de salvação.29 Eles auxiliam na preparação daqueles que desejam receber essas ordenanças, avaliam sua qualificação e dignidade e, então, realizam tais ordenanças. ¶
Com as chaves do sacerdócio, os servos do Senhor podem identificar tanto a verdade quanto a mentira e mais uma vez declarar com autoridade: “Assim disse o Senhor”. Lamentavelmente, alguns se ressentem com a Igreja porque querem definir sua própria verdade, mas, de fato, é uma bênção incomparável receber o “conhecimento das coisas como [realmente] são, como foram e como serão”30, tanto quanto o Senhor o deseje revelar. A Igreja protege e publica as revelações de Deus, que constituem o cânone das escrituras. ¶
Quando Daniel interpretou o sonho do rei Nabucodonosor da Babilônia, revelando ao rei o “que há de ser nos últimos dias”,31 ele declarou que “o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e esse reino não será deixado a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo estará estabelecido para sempre”.32 A Igreja é o reino dos últimos dias que foi profetizado. Não foi criada pelo homem, mas estabelecida pelo Deus dos céus e rola como uma pedra “que do monte foi cortada (…), sem mãos” para encher a Terra.33 ¶
Seu destino é estabelecer Sião em preparação para o retorno de Jesus e Seu reino no Milênio. Antes desse dia, não será um reino em nenhum aspecto político — como o Salvador disse: “O meu reino não é deste mundo”.34 No entanto, esse reino é repositório de Sua autoridade na Terra, o administrador de Seus convênios sagrados, o guardião de Seus templos, o protetor e proclamador de Sua verdade, o local de reunião da Israel dispersa e “uma defesa e um refúgio contra a tempestade e contra a ira, quando for derramada, sem mistura, sobre toda a Terra”.35 ¶
Encerro com o apelo e a oração do Profeta: ¶
“Invocai o Senhor, para que seu reino siga pela Terra e seus habitantes recebam-no e estejam preparados para os dias que virão, nos quais o Filho do Homem descerá no céu, revestido do esplendor de sua glória, para encontrar o reino de Deus que está estabelecido na Terra. ¶
Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
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"O Evangelho começou a ser pregado desde o princípio, sendo anunciado por santos anjos, enviados da presença de Deus, e por sua própria voz e pelo dom do Espírito Santo.
E assim foram confirmadas todas as coisas a Adão por uma santa ordenança" (Moisés 5:58–59; ver também Moisés 6:22–23). ↩
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"A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi organizada por Deus para auxiliar em Sua obra de levar a efeito a salvação e a exaltação de Seus filhos. (…)
No cumprimento de seu propósito de ajudar as pessoas e as famílias a qualificarem-se para a exaltação, a Igreja concentra-se em responsabilidades divinamente atribuídas. Algumas delas são ajudar os membros a viverem o evangelho de Jesus Cristo, coligar Israel por meio do trabalho missionário, cuidar dos pobres e necessitados e possibilitar a salvação dos mortos por meio da edificação de templos e da realização de ordenanças vicárias" (Manual 2: Administração da Igreja, 2010, 2.2). ↩
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Ver 2 Néfi 31:17–20. ↩
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Ver 3 Néfi 27:5–7. ↩
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Ver Jeremias 31:34; ver também Hebreus 8:11. ↩
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1 Coríntios 12:22. Paulo também declarou: "Então [somos] muitos membros, porém um corpo. (…) De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele" (1 Coríntios 12:20, 26; ver também Mosias 18:9). ↩
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Ver 3 Néfi 18:21–23, 30–32. ↩
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Ver Donald L. Hallstrom, "Convertidos a Seu Evangelho por Intermédio de Sua Igreja", A Liahona, maio de 2012, p. 13. ↩
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3 Néfi 28:23; grifo do autor. ↩
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Ilustração do que chamamos de "O armazém do Senhor": "O armazém do Senhor não se limita a um edifício usado para distribuir alimentos e roupas para os pobres. Também inclui os recursos doados pelos membros da Igreja seja ofertando seu tempo, seus talentos e sua compaixão ou bens materiais e recursos financeiros que ficam à disposição do bispo para ajudar a cuidar dos pobres e necessitados. Portanto, o armazém do Senhor existe em todas as alas" (Manual 2, 6.1.3). ↩
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Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, pp. 438, 439. ↩
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Doutrina e Convênios 42:69; ver também Doutrina e Convênios 90:3. ↩
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Ver Regras de Fé 1:5. ↩
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Daniel 2:45; ver também o versículo 35. ↩
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João 18:36; grifo do autor. ↩