Esperança
Steven E. Snow
Nossa família cresceu nos planaltos desérticos do sul de Utah. Ali é raro chover, e grande é a esperança de que haja suficiente umidade para o calor do verão seguinte. Naquela época, como agora, esperamos que chova, oramos para que chova e, nos tempos difíceis, jejuamos para que chova. ¶
Conta-se ali a história do avô que levou o neto para passear na cidade. Acabaram chegando a uma pequena mercearia da avenida principal, na qual entraram para tomar um refrigerante gelado. Um carro de outro estado parou ali, e o motorista puxou conversa com o avô. Apontando para uma pequena nuvem no céu, o forasteiro perguntou: “Acha que vai chover?” ¶
“Espero que sim”, respondeu o homem idoso, “não por mim, mas pelo menino. Eu já vi chuva”. ¶
A esperança é uma emoção que enriquece nossa vida cotidiana. É definida como “o sentimento de que as coisas terão um final feliz”. Quando exercemos esperança, “ansiamos pelo futuro (…) com grande desejo e razoável confiança” (dictionary.reference.com/browse/hope). Dessa forma, a esperança proporciona uma influência tranquilizadora para nossa vida, ao aguardarmos com confiança os acontecimentos futuros. ¶
Às vezes, esperamos por coisas sobre as quais temos pouco ou nenhum controle. Esperamos que faça bom tempo. Esperamos que a primavera chegue logo. Esperamos que nosso time ganhe a Copa do Mundo, ou os torneios mundiais de sua modalidade. ¶
Essas esperanças tornam nossa vida interessante e com frequência podem induzir-nos a um comportamento incomum, até supersticioso. Por exemplo: meu sogro é grande aficionado de esportes, mas está convencido de que se não assistir ao jogo do seu time preferido na televisão, será mais provável que o time ganhe. Quando eu tinha doze anos, insisti em calçar o mesmo par de meias sujas em todos os jogos do campeonato de beisebol, na esperança de vencer. Minha mãe me fazia deixá-las na varanda dos fundos. ¶
Em outras ocasiões, nossas esperanças podem levar-nos a ter sonhos que nos inspirem a agir. Se tivermos esperança de tirar melhores notas na escola, essa esperança pode ser realizada por meio de estudo dedicado e sacrifício. Se tivermos esperança de jogar num time vencedor, essa esperança pode levar-nos a treinar constantemente com dedicação e espírito de equipe, até acabarmos vencendo. ¶
Roger Bannister era um estudante de medicina, na Inglaterra, que tinha uma esperança grandiosa. Desejava ser o primeiro homem a correr uma milha (1,6 km) em menos de quatro minutos. Durante grande parte da primeira metade do início do Século XX, os entusiastas do atletismo ansiaram pelo dia em que a barreira dos quatro minutos seria quebrada. Ao longo dos anos muitos corredores famosos chegaram bem perto, mas a barreira de quatro minutos não foi derrubada. Bannister dedicou-se a um ambicioso programa de treinamento, com a esperança de atingir sua meta de estabelecer um novo recorde mundial. Alguns integrantes da comunidade esportiva começaram a duvidar que a barreira de quatro minutos para correr uma milha pudesse ser quebrada. Alguns supostos especialistas chegaram a levantar a hipótese de que o corpo humano era fisiologicamente incapaz de correr a essa velocidade por uma distância tão grande. Num dia nublado, em 6 de maio de 1954, o grande sonho de Roger Bannister foi realizado! Ele cruzou a linha de chegada em 3 minutos, 59 segundos e quatro décimos: um novo recorde mundial. Sua esperança de quebrar a barreira de uma milha em quatro minutos tornou-se um sonho que foi realizado por meio de treinamento, trabalho árduo e dedicação. ¶
A esperança pode inspirar sonhos e impulsionar-nos a realizar esses sonhos. A esperança sozinha, porém, não nos faz ter sucesso. Muitas esperanças honrosas ficaram sem ser cumpridas, naufragando nos recifes das boas intenções e da preguiça. ¶
Como pais, vemos nossas maiores esperanças concentrar-se em nossos filhos. Esperamos que eles cresçam para levar uma vida responsável e justa. Essas esperanças podem ser facilmente desfeitas se não agirmos como bons exemplos. A esperança por si só não faz com que nossos filhos cresçam em retidão. Precisamos passar tempo com eles na noite familiar e em atividades familiares que valem a pena. Precisamos ensiná-los a orar. Precisamos ler as escrituras com eles e ensinar-lhes importantes princípios do evangelho. Somente então será possível que nossas mais almejadas esperanças se tornem realidade. ¶
Jamais devemos deixar que a esperança seja substituída pelo desespero. O Apóstolo Paulo escreveu que devemos “lavrar com esperança” (I Coríntios 9:10). O exercício da esperança enriquece-nos a vida e ajuda-nos a ansiar pelo futuro. Tanto ao arar um campo quanto na vida é preciso que nós, santos dos últimos dias, tenhamos esperança. ¶
No evangelho de Jesus Cristo, a esperança é o desejo de Seus seguidores de alcançar a salvação eterna por meio da Expiação do Salvador. ¶
Essa é verdadeiramente a esperança que todos devemos ter. É isso que nos diferencia do restante do mundo. Pedro admoestou os antigos seguidores de Cristo a estarem “sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (I Pedro 3:15). ¶
Nossa esperança na Expiação investe-nos de uma perspectiva eterna. Essa perspectiva permite que olhemos para além do aqui e agora, para a promessa das eternidades. Não temos que ficar confinados às limitadas e inconstantes expectativas da sociedade. Estamos livres para almejar a glória celestial, selados a nossa família e a nossos entes queridos. ¶
No evangelho, a esperança está quase sempre relacionada à fé e à caridade. O Presidente Dieter F. Uchtdorf ensinou: “A esperança é uma das pernas de um banco de três pernas, ao lado da fé e da caridade. Essas três pernas estabilizam nossa vida, qualquer que seja a aspereza ou a irregularidade das superfícies que encontrarmos na ocasião” (“O Poder Infinito da Esperança”, A Liahona, novembro de 2008, p. 21). ¶
No último capítulo do Livro de Mórmon, Morôni escreveu: ¶
“Portanto é preciso haver fé; e se é preciso haver fé, também é preciso haver esperança; e se é preciso haver esperança, é preciso também haver caridade. ¶
E a não ser que tenhais caridade, não podeis de modo algum ser salvos no reino de Deus; tampouco podeis ser salvos no reino de Deus se não tendes fé e se não tendes esperança” (Morôni 10:20–21). ¶
O Élder Russell M. Nelson ensinou que: “A fé está enraizada em Jesus Cristo. A esperança centraliza-se na Expiação. A caridade manifesta-se no ‘puro amor de Cristo’. Esse três atributos estão entrelaçados como os fios dentro de um cabo e nem sempre podem ser precisamente distinguidos uns dos outros. Juntos, eles se tornam nossa conexão com o reino celestial” (“A More Excellent Hope”, Ensign, fevereiro de 1997, p. 61). ¶
Quando Néfi profetizou a respeito de Jesus Cristo, no final de seu registro, ele escreveu: “Deveis, pois, prosseguir com firmeza em Cristo, tendo um perfeito esplendor de esperança e amor a Deus e a todos os homens” (2 Néfi 31:20). ¶
Esse “perfeito esplendor de esperança” a que Néfi se refere é a esperança na Expiação, a salvação eterna possibilitada pelo sacrifício de nosso Salvador. Essa esperança levou homens e mulheres a fazer coisas extraordinárias ao longo das eras. Os antigos apóstolos viajaram por todo o mundo e prestaram testemunho Dele e, por fim, deram a vida a Seu serviço. ¶
Nesta dispensação, muitos dos primeiros membros da Igreja abandonaram suas casas com o coração cheio de esperança e fé, ao viajarem para o oeste através das Grandes Planícies, até o Vale do Lago Salgado. ¶
Em 1851, Mary Murray Murdoch filiou-se à Igreja na Escócia, quando era uma viúva de 67 anos. Ela era uma mulher baixinha, de 1,20 metro de altura e com menos de 41 quilos, que teve oito filhos, seis dos quais viveram até a idade adulta. Devido a sua baixa estatura, seus filhos e netos a chamavam afetuosamente de “vovozinha”. ¶
Seu filho, John Murdoch e a esposa filiaram-se à Igreja e partiram para Utah em 1852 com seus dois filhos pequenos. Apesar das dificuldades da própria família, quatro anos depois, John enviou a sua mãe o dinheiro necessário para que ela se unisse à família em Salt Lake City. Com uma esperança bem maior do que sua baixa estatura, Mary começou a árdua viagem para o oeste, rumo a Utah, aos 73 anos de idade. ¶
Depois de uma travessia segura do Atlântico, ela acabou unindo-se à desventurada companhia Martin de carrinhos de mão. No dia 28 de junho, aqueles pioneiros de carrinho de mão começaram sua jornada para o oeste. O sofrimento daquela companhia é bem conhecido. Dos 576 membros do grupo, quase um quarto morreu antes de chegarem a Utah. Mais teriam perecido se não fosse pelo trabalho de resgate organizado pelo Presidente Brigham Young, que enviou carroções e suprimentos para procurar os santos perdidos na neve. ¶
Mary Murdoch morreu no dia 2 de outubro de 1856, perto de Chimney Rock, Nebraska. Ali, ela morreu devido à fadiga e exposição às intempéries da jornada. Seu frágil corpo simplesmente não suportou o sofrimento físico com que os santos se depararam. Quando estava prestes a morrer, seus pensamentos estavam com a família, em Utah. As últimas palavras daquela fiel mulher pioneira foram: “Diga ao John que morri com o rosto voltado para Sião” (ver Kenneth W. Merrell, Scottish Shepherd: The Life and Times of John Murray Murdoch, Utah Pioneer, 2006, pp. 34, 39, 54, 77, 94–97, 103, 112–113, 115). ¶
Mary Murray Murdoch é um exemplo da esperança e fé que tinham muitos dos antigos pioneiros que empreenderam a corajosa jornada para o oeste. As jornadas espirituais de hoje exigem tanta esperança e fé quanto a que tinham os antigos pioneiros. Nossos desafios podem ser diferentes, mas as dificuldades são igualmente grandes. ¶
É minha oração que nossas esperanças nos conduzam à realização de nossos sonhos justos. Oro particularmente para que nossa esperança na Expiação fortaleça nossa fé e caridade e nos dê uma perspectiva eterna de nosso futuro. Que todos tenhamos aquele perfeito esplendor de esperança, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶