Nosso Caminho do Dever
Keith B. McMullin
Vivemos num mundo conturbado. Há discórdia e catástrofes em todo lugar. Às vezes, parece que a própria humanidade está ameaçada. ¶
Embora as catástrofes despedacem completamente “o próprio teor de [nossos] caminhos”2, elas não precisam necessariamente deixar nossa vida em frangalhos para sempre. Elas podem atingir-nos para que nos lembremos3 de “despertar em [nós] o senso de [nosso] dever para com Deus”4 e manter-nos no caminho de nossos deveres.5 ¶
Na Holanda, durante a Segunda Guerra Mundial, a família Casper ten Boom usou a casa como esconderijo para pessoas perseguidas pelos nazistas. Essa foi sua maneira de viver a fé cristã. Quatro membros da família perderam a vida por oferecer esse refúgio. Corrie ten Boom e sua irmã, Betsie, passaram meses de horror no infame campo de concentração de Ravensbrück. Betsie morreu nesse lugar, mas Corrie sobreviveu. ¶
Em Ravensbrück, Corrie e Betsie aprenderam que Deus nos ajuda a perdoar. Depois da guerra, Corrie tomou a resolução de compartilhar essa mensagem. Certa ocasião, ela havia acabado de falar a um grupo de pessoas, na Alemanha, que sofriam devido à devastação da guerra. Sua mensagem fora “Deus perdoa”. Foi nesse momento que a fidelidade de Corrie ten Boom trouxe à luz sua bênção. ¶
Um homem se aproximou. Ela o reconheceu como um dos guardas mais cruéis daquele campo. “Você mencionou Ravensbrück em seu discurso”, disse ele. “Eu era guarda lá. Mas depois daquela época, tornei-me cristão.” Ele explicou-lhe que havia buscado o perdão de Deus pelas coisas horríveis que havia feito. Estendeu a mão e perguntou a ela: “Você me perdoa?” ¶
Corrie ten Boom disse, depois: ¶
“Não deve ter durado mais do que alguns segundos — ele parado ali, a mão estendida — mas, para mim, foram horas, durante as quais eu me debatia com a coisa mais difícil que já tivera de fazer. ¶
(…) A mensagem de que Deus perdoa tem uma (…) condição: precisamos perdoar aqueles que nos prejudicaram. ¶
(…) Orei em silêncio: ‘Ajude-me! Eu consigo erguer a mão. Posso fazer até aí. O sentimento fica por Sua conta’. ¶
Inexpressiva e mecanicamente, apertei bruscamente a mão que estava estendida em minha direção. Ao fazer isso, algo incrível aconteceu. A corrente começou em meu ombro, correu pelo braço e jorrou sobre as duas mãos unidas. Em seguida, esse calor reconfortante pareceu fluir por meu corpo inteiro, levando lágrimas aos olhos. ¶
‘Eu o perdoo, irmão’, exclamei, ‘de todo o coração’. ¶
Para aqueles que evitam o mal e levam uma vida digna, que se esforçam por um dia melhor e cumprem os mandamentos de Deus, as coisas podem melhorar cada vez mais, mesmo diante da tragédia. O Salvador mostrou-nos o que devemos fazer. Do Getsêmani, da cruz e do sepulcro, Ele Se ergueu triunfante, trazendo vida e esperança a todos nós. Hoje, Ele nos exorta: “Vem, e segue-me”.7 ¶
O Presidente Thomas S. Monson aconselhou-nos: “Para que andemos com a cabeça erguida, devemos fazer nossa contribuição à vida. Para que cumpramos nosso destino e voltemos a viver com nosso Pai Celestial, devemos cumprir Seus mandamentos e seguir o exemplo de vida do Salvador. Ao fazer isso, não só atingiremos nossa meta de vida eterna, mas também deixaremos o mundo mais rico e melhor do que teria sido se não tivéssemos vivido e cumprido nosso dever.”8 ¶
Mas o Que É Isso a Que Chamamos Dever?
O dever ao qual me refiro é o que se espera que façamos e sejamos. É o imperativo moral que faz brotar de pessoas e de comunidades tudo o que seja justo, verdadeiro e honrado. O dever não exige perfeição, mas demanda diligência. Não se trata simplesmente do que é legal, mas sim do que é virtuoso. Não está reservado ao poderoso ou a quem está no alto escalão; pelo contrário, repousa no alicerce da responsabilidade, da integridade e da coragem pessoal. Cumprir o dever é uma manifestação de fé. ¶
Nosso Dever Diz Respeito a Quem e a Quê?
O Presidente Joseph F. Smith disse: “Tudo o que temos provém de [Deus]. (…) Por nós mesmos, não seríamos mais do que uma porção de barro inerte. A vida, a inteligência, a sabedoria, o juízo, o poder de raciocínio, todos são dons de Deus aos filhos dos homens. Ele nos dá força física e também poder mental. (…) Devemos honrar a Deus com nossa inteligência, com nossa força, nosso entendimento, nossa sabedoria e com todo o poder que possuímos. Devemos buscar fazer o bem no mundo. Esse é o nosso dever”.15 ¶
Ninguém pode cumprir seu dever para com Deus, o Pai, sem fazer o mesmo para com o Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo. Para reverenciar um, é preciso ter reverência pelo outro, pois o Pai indicou que é somente em nome de Cristo e pelo nome de Cristo que se pode cumprir completamente esse zeloso encargo.16 Ele é nosso Exemplo, nosso Redentor e nosso Rei. ¶
Quando os homens, mulheres, meninos e meninas cumprem seu dever para com Deus, sentem-se impelidos a cumprir seu dever uns para com os outros, para com sua família, para com seu país e para com todas as coisas sob seus cuidados. Seu dever diz respeito a magnificar seus talentos e a ser pessoas boas e cumpridoras da lei. Tornam-se humildes, submissos e fáceis de conviver. A temperança conquista a indulgência; a obediência guia sua diligência. A paz se derrama sobre eles. Cidadãos tornam-se leais; comunidades tornam-se benevolentes e vizinhos tornam-se amigos. O Deus dos céus Se agrada; a Terra fica em paz, e este mundo se torna um lugar melhor.17 ¶
Como Identificar o Caminho do Nosso Dever em Meio à Crise?
A oração humilde, sincera e inspirada torna disponível a cada um de nós a orientação divina de que necessitamos tão desesperadamente. Brigham Young aconselhou-nos: “Há ocasiões em que os homens ficam sem saber o que fazer, cheios de problemas e preocupações (…); mas nossa consciência nos ensina que temos a obrigação de orar”.19 ¶
Jesus ensinou: ¶
“Deveis vigiar e orar sempre para não cairdes em tentação (…). ¶
Portanto deveis sempre orar ao Pai em meu nome. (…) ¶
Para serem eficazes, as orações devem ser feitas em harmonia com o plano dos céus. A oração com fé produz fruto quando existe essa harmonia, e essa harmonia existe quando as orações são inspiradas pelo Espírito Santo. O Espírito indica o que devemos pedir.21Sem ter essa orientação inspiradora, somos inclinados a pedir mal22 para que seja feita a nossa vontade e não a vontade do Senhor.23 Tal oração traz as bênçãos do céu porque nosso Pai “sabe o que [nos] é necessário, antes de [nós] lho [pedirmos]”24, e Ele atende a cada oração sincera. Por fim, são o Pai e o Filho que prometem: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á”.25 ¶
Presto-lhes meu testemunho de que o caminho do nosso dever está claramente marcado pela inabalável fé e crença em Deus, o Pai Eterno, e em Seu Filho, Jesus Cristo, e pelo poder da oração. Esse caminho deve ser percorrido por todos os filhos de Deus que O amam e desejam cumprir Seus mandamentos. Para os jovens, conduz à preparação e a realização pessoal; para os adultos, conduz à fé e à resolução renovada; para a geração mais antiga, conduz à perspectiva e à perseverança em retidão até o fim. Ele instrumenta todo viajante fiel com a força do Senhor, protege-o contra os males do dia e o investe com a sabedoria de que “de tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem”.26 Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
-
Moisés 7:61; grifo do autor. ↩
-
Joseph F. Smith, Gospel Doctrine, 5a ed., 1939, p. 156. ↩
-
Ver Mosias 1:17. ↩
-
Alma 7:22. ↩
-
Ver Helamã 15:5. ↩
-
Corrie ten Boom, Tramp for the Lord, 1974, pp. 54–55. ↩
-
Lucas 18:22. ↩
-
Thomas S. Monson, transcrito com permissão. ↩
-
Eclesiastes 12:13; grifo do autor. ↩
-
Thomas S. Monson, "Duty Calls", Ensign, maio de 1996, p. 43. ↩
-
Ver Doutrina e Convênios 20:17–19. ↩
-
Ver Doutrina e Convênios 93:36. ↩
-
Ver I João 4:8. ↩
-
Ver João 3:16; Helamã 5:10–11. ↩
-
Joseph F. Smith, Conference Report, outubro de 1899, p. 70; grifo do autor. ↩
-
Ver Morôni 10:32–33; Doutrina e Convênios 59:5. ↩
-
Ver Alma 7:23, 27. ↩
-
I Pedro 3:12. ↩
-
Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1977, p. 45. ↩
-
3 Néfi 18:18–19, 21. ↩
-
Ver Doutrina e Convênios 50:29–30. ↩
-
Ver Tiago 4:3. ↩
-
Ver Mateus 6:10. ↩
-
Mateus 6:8. ↩
-
Mateus 7:7; ver também JST — Matthew 7:12–13, no apêndice da Bíblia. ↩
-
Eclesiastes 12:13; grifo do autor. ↩