Chamados por Deus
L. Tom Perry
Um de nossos mais importantes chamados no sacerdócio, um chamado que exige nossa constante atenção, acha-se em nossa família e em nosso lar. Irmãos, como pais e patriarcas de nossa família, devemos, “segundo o modelo divino, (…) presidir a família com amor e retidão, tendo a responsabilidade de atender às necessidades [de nossos] familiares e protegê-los”. ¶
“O marido e a mulher têm a solene responsabilidade de amar-se mutuamente e amar os filhos, e de cuidar um do outro e dos filhos. (…) Os pais têm o sagrado dever de criar os filhos com amor e retidão, atender a suas necessidades físicas e espirituais, ensiná-los a amar e servir uns aos outros, guardar os mandamentos de Deus e ser cidadãos cumpridores da lei, onde quer que morem. O marido e a mulher — o pai e a mãe — serão considerados responsáveis perante Deus pelo cumprimento dessas obrigações.”2 ¶
Vivemos num mundo que necessita desesperadamente de uma liderança justa baseada em princípios dignos de confiança. ¶
Em nossa Igreja, aprendemos princípios corretos de liderança, sob a direção da autoridade do sacerdócio. Creio que poucos de nós reconhecemos o potencial do sacerdócio e a grande bênção que ele é. Quanto mais aprendermos sobre o que significa possuir o sacerdócio e compreendermos como ele funciona, mais daremos valor às bênçãos que o Senhor nos concedeu. ¶
John Taylor declarou, certa vez: ¶
“(…) Responderei brevemente que [o sacerdócio] é o governo de Deus, seja na Terra ou no céu, porque é por esse poder, arbítrio ou princípio que todas as coisas são mantidas [e] governadas na Terra e nos céus, e [é] por esse poder que todas as coisas são mantidas e sustentadas. Ele governa todas as coisas — dirige todas as coisas — mantém todas as coisas — e tem a ver com todas as coisas relacionadas com Deus e a verdade. ¶
É o poder de Deus delegado a inteligências nos céus e aos homens na Terra. (…) Quando chegarmos ao reino celestial de Deus, encontraremos a mais perfeita ordem e harmonia existentes, porque lá se encontra o padrão perfeito, a mais perfeita ordem de governo colocada em prática, e quando ou onde quer que esses princípios forem aplicados aqui na Terra, eles produzirão bênçãos e salvação para a humanidade, na mesma proporção em que forem implementados e aplicados; e quando o governo de Deus for adotado de modo mais amplo, e quando a oração de Jesus, que Ele ensinou a Seus discípulos, for atendida, e o reino de Deus vier para a Terra, e for feita a Sua vontade tanto aqui como no céu, então e somente então, o amor, a paz, a harmonia e a união universais prevalecerão”.3 ¶
O Senhor deu-nos uma visão do que o sacerdócio poderia ser ao instruir Seus Apóstolos, que deveriam levar o trabalho adiante após Sua morte. Ele lhes declarou: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda”.4 ¶
Uma das bênçãos que recebemos do sacerdócio é termos a oportunidade de pertencer a um quórum. Um quórum do sacerdócio é formado por um grupo específico de homens que possuem o mesmo ofício no sacerdócio, organizado para tornar mais eficaz o progresso do Reino de Deus. ¶
Há muitos anos, aprendi como um quórum trabalha nesses três aspectos, ao assistir a uma reunião de um grupo de sumos sacerdotes, numa pequena comunidade do sul do Wyoming. A lição daquela semana era sobre justificação e santificação. Logo no início da aula, ficou evidente que o professor estava bem preparado para instruir seus irmãos. Então, uma pergunta suscitou uma resposta que mudou todo o curso da aula. Respondendo àquela pergunta, um irmão comentou: “Ouvi com grande interesse o que foi apresentado na aula. Mas veio à minha mente a idéia de que a informação apresentada será esquecida em pouco tempo se não encontrarmos um meio de colocarmos em prática em nossa vida diária o que foi exposto na lição”. Daí, ele começou a propor um curso de ação. ¶
Na noite anterior, um cidadão da comunidade havia falecido. A esposa era membro da Igreja, embora o seu marido não tivesse sido. Aquele sumo sacerdote tinha visitado a viúva para apresentar-lhe suas condolências. Ao deixar a casa depois da visita, passou os olhos pela bela fazenda do irmão falecido. Aquele homem dedicara grande parte de sua vida e de seu trabalho para formar aquela fazenda. A alfafa estava pronta para ser cortada; os grãos em breve estariam prontos para serem colhidos. Como aquela pobre irmã conseguiria dar conta dos problemas que subitamente se abateram sobre ela? Ela precisaria de tempo para organizar a própria vida em relação às suas novas responsabilidades. ¶
Ele então propôs ao grupo que colocasse em prática o princípio que estava sendo ensinado — trabalhando com a viúva para manter sua fazenda ativa até que ela e a família encontrassem uma solução mais definitiva. O restante da reunião foi utilizado para organizar o projeto de auxílio à viúva. ¶
Ao sairmos da sala de aula, havia um bom sentimento entre os irmãos. Ouvi um deles comentar ao passar pela porta: “Esse projeto é justamente aquilo que precisávamos como grupo para trabalharmos juntos novamente”. Uma lição fora ensinada, uma irmandade fortalecida e um projeto de serviço organizado para ajudar uma pessoa necessitada. ¶
Esses princípios ensinados para uso na organização de um quórum não se aplicam somente a ele, mas esses mesmos princípios se aplicam à liderança do sacerdócio no lar. Recebemos o mandamento divino de “[criar nossos] filhos em luz e verdade”.6 Se os pais não criarem os filhos em luz e verdade, o Senhor ficará descontente, e os pais ficarão sob condenação. Esta é a mensagem: ¶
“Mas em verdade, meu servo (…) digo-te: Continuas sob esta condenação; ¶
Não ensinaste luz e verdade a teus filhos, segundo os mandamentos; e aquele ser maligno ainda tem poder sobre ti, sendo essa a causa de tua aflição. ¶
A Igreja precisa continuar a dar ênfase à importância da família. Precisamos ensinar a importância de edificarmos sucessivas gerações de membros que sejam casados no templo e fiéis. Precisamos ensinar as doutrinas básicas e compreender a relação existente entre o crescimento espiritual pessoal e o da família. Precisamos deixar claro o resultado, convidando os membros a achegarem-se a Cristo e a perseverarem até o fim. ¶
Deus, em Seu plano divino, ordenou o casamento para criar Sua unidade organizacional básica — a família. Um dos primeiros princípios que Ele ensinou a Adão e Eva visava desenvolver uma relação de trabalho. As escrituras declaram: ¶
“E Adão e Eva, sua mulher, invocaram o nome do Senhor e eles ouviram a voz do Senhor que vinha do caminho, em direção ao Jardim do Éden, falando-lhes; e eles não o viram, porque estavam excluídos de sua presença. ¶
O Presidente Spencer W. Kimball ensinou-nos o seguinte sobre a natureza eterna da família: ¶
“A fórmula é bem simples; os ingredientes são poucos, embora existam muitas amplificações dos mesmos. ¶
Em primeiro lugar, é preciso haver a devida abordagem em relação ao casamento, que inclui a escolha de um cônjuge que esteja o mais próximo possível do auge da perfeição em todos os assuntos que sejam de importância para as pessoas envolvidas. E então, os dois precisam ir para o altar do templo cônscios de que precisam trabalhar arduamente para o sucesso dessa vida em conjunto. ¶
Em segundo lugar, é preciso haver grande abnegação, e cada um deve esquecer-se de si mesmo e dirigir toda a vida familiar para tudo que esteja relacionado ao bem da família, subjugando o eu. ¶
Em terceiro lugar, é preciso dar continuidade ao namoro e às expressões de afeto, bondade e consideração, para manter o amor vivo e cada vez mais forte. ¶
O lar deve ser uma âncora, um porto seguro, um refúgio, um local feliz onde a família possa morar, um lugar onde os filhos sejam amados. É em casa que os pais devem ensinar aos filhos as grandes lições da vida. O lar deve ser o centro de nossa experiência terrena, um lugar onde o amor e o respeito mútuos estejam devidamente harmonizados. ¶
A coisa mais importante depois de sermos companheiros eternos é sermos pais terrenos. O pai e a mãe precisam estar atentos a seu papel nessa grande responsabilidade. Meus filhos ensinaram-me uma grande lição há muitos anos. Mudamo-nos da Califórnia para Nova York, onde eu aceitara um emprego numa nova empresa. Começamos a procurar uma nova casa para morar nas comunidades mais próximas à cidade. Aos poucos, porém, afastamo-nos da cidade a fim de encontrar uma casa num bairro que atendesse às nossas necessidades. Por fim, encontramos uma bela casa que ficava a certa distância da Cidade de Nova York. Era uma casa térrea, aninhada nos belos bosques de Connecticut. O meu teste final antes de comprar a casa foi tomar o trem até Nova York para ver quanto tempo levaria para chegar até o trabalho. Fiz a viagem e voltei muito desencorajado. O trajeto exigia uma viagem de uma hora e meia, tanto na ida quanto na volta. Entrei no quarto do hotel, onde nossa família me esperava e dei uma opção para os meus filhos. ¶
“Vocês podem ficar com essa nova casa ou com um pai”, disse eu. Para minha surpresa, eles responderam: “Ficamos com a casa. O senhor nunca fica muito tempo conosco, de qualquer forma”. Fiquei arrasado. O que meus filhos estavam-me dizendo era verdade. Precisei arrepender-me rapidamente. Meus filhos precisavam de um pai que estivesse mais tempo em casa. Por fim, chegamos a um acordo e compramos uma casa mais próxima da cidade, que exigia um trajeto bem mais curto até o trabalho. Mudei meus hábitos de trabalho para que tivesse mais tempo para estar com minha família. ¶
Ao longo das eras, o Senhor ordenou Seu povo a ensinar verdade e retidão aos filhos. Incentivamos todos vocês a reunirem a família para a oração familiar, estudo do evangelho, trabalho em família e atividades familiares. Exortamos a todos para que conversem com seus familiares e incentivem-nos a participar de decisões importantes, como o planejamento das atividades da família. ¶
Recebemos o grande poder do sacerdócio. Ele nos abençoa individualmente e também proporciona bênçãos para nossa família; ele abençoa os quóruns a que pertencemos; abençoa as congregações em que somos chamados a servir, e até abençoa o mundo em que vivemos. Precisamos aprender a seguir com retidão as doutrinas e ensinamentos que o Senhor nos deu, como portadores de Seu santo sacerdócio. Foi-nos aconselhado: ¶
“Portanto agora todo homem aprenda seu dever e a agir no ofício para o qual for designado com toda diligência. ¶
Que o Senhor nos abençoe, como membros de Sua Igreja, para que reconheçamos que grande bênção é termos o sacerdócio na Terra e sermos capazes de usá-lo para o benefício de nossa família e de toda a humanidade. Que possamos compreender melhor nosso relacionamento com Deus, nosso Pai Eterno e o sacerdócio que Ele nos deu, é minha humilde oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
-
5ª Regra de Fé. ↩
-
"A Família: Proclamação ao Mundo", A Liahona, janeiro de 1996, p. 114. ↩
-
"On Priesthood", Improvement Era, junho de 1935, p. 372. ↩
-
João 15:16. ↩
-
Conference Report, outubro de 1938, p. 118. ↩
-
D&C. 93:40. ↩
-
D&C 93:41–43. ↩
-
Moisés 3:24. ↩
-
Moisés 5:4–5. ↩
-
Moisés 5:12 ↩
-
Marriage and Divorce [1976], pp. 17–18. ↩
-
Discursos de Brigham Young, sel. por John A. Widtsoe, [1954], p. 130. ↩
-
D&C 107:99–100. ↩